terça-feira, 20 de julho de 2010

Três Tipos de Família

querido blog:
postagem longa! há milhares de classificações da família passíveis de acomodar os requisitos de "exaustiva" e "mutuamente exclusiva". vou falar de meia dúzia delas, se uso a metáfora, pois não as contei. a primeira é fácil de contar: basta contar até 1. pensei, neste caso, que a geração antiga casava-se por comunhão total de bens, a geração intermediária usou o instituto da comunhão parcial de bens e a família moderíssima casa-se com a separação total de bens. são novidades institucionais que refletem outras posturas que vão-se tornando majoritárias na vida social. não sei dos direitos previdenciários específicos para qualquer dos casos, ficando mais patente o deslocamento do pagamento de pensão a um cônjuge casado com um morto (epa, não é bem isto) em separação total de bens. parece claro: a liberdade absoluta evidencia-se com a decisão de não dividirem o patrimônio pretérito nem o presente nem o futuro. o que eles dividem? laços afetivos e, se for o caso, cuidados parentais. primeira conclusão do dia: quem casa em separação total de bens não deveria ter direito a pensão alimentícia de qualquer natureza.

ainda associado ao primeiro tipo de família e o caso das pensões, inspiro-me no recente caso de bigamia do policial federal aposentado. também não é bem isto, mas eu não disse "discuto" e sim "inspiro-me". no caso lá dele/s, duas mulheres pleitearam a pensão do defunto, clamor não aceito pelo supremo tribunal. ou seja, para fins previdenciários, a bigamia não tem valor legal. em minha opinião, não tenho opinião. mas não podemos deixar de pensar que, nestes épocas de liberalização de costumes, possamos pensar nas "enlarged families" também com simultâneas poliandria e poliginia. por que apenas os mórmons do século XIX? por que apenas o primeiro ministro da África do Sul? por que apenas a poliandria? como sugeri: não tenho opinião a respeito do assunto, mas prevejo que esta problematização entrará em voga nos próximos anos.

segue o number one. se, de fato, os casamentos forem democratizados em todos os estilos (preservada a proibição ao trio criança-criminoso-louco, esquecendo o tabu do incesto), home com home, muié com muié, home com home e muié, homem com duas ou três muié, homem com dois ou três homens e cinco ou seis muié, vinte e cinco muié com quarenta e quatro homens, e por aí vai, vai tornar-se absolutamente menor o requisito da adoção de crianças, criminosos ou loucos por casais homossexuais. ok, criminosos não pode, mas nada impede que mesmo hoje em dia um casal de G ou L simpatize com um velhinho morador de rua e o adote. ou não pode do mesmo jeito? claro que não estou falando da adoção para incentivar a evasão legal para fins de imposto de renda, essas bobagens contingentes. por falar em bobagem, poderíamos pensar que o casal do centro dos três grupos da ilustração que capturei no Google Images de hoje seria, digamos o rapagão e a gatinha pós-teen-ager a sua direita, que adotaram a coroa da esquerda, o guri/26 e a garota centrada. pour quoi pas?

mas isto não é tudo. quero falar de leituras dos últimos dias que apenas o leitor arguto e a leitora arguta verão serem umbilicalmente ligados, descontando para hoje a questão da gestação. então inicio o segundo tipo de família. trato agora da família tradicional decadente. claro que, ao falar em "tradicional", estou falando da família como a conhecemos e que os mais reacionários entre nós julgam pela própria família que o gestou e lançou as marcas sartreanas ("a família é como o sarampo, deixando marcas para toda a vida"). meu segundo tipo, então, tem a ver com os franceses. mais especificamente, andei lendo Allan Kardec's "O Livro dos Espíritos". não me pergunte porquê, que isto levaria mais uns 42 parágrafos. pois diz "o Codificador", lá em sua p.538-9 da edição 91, da FEB, Rio de Janeiro, 2007:

Dizeis que desejais curar o vosso século de uma mania que ameaça invadir o mundo. Preferiríeis que o mundo fosse invadido pela incredulidade que procurais propagar? A que se deve atribuir o relaxamento dos laços de família e a maior parte das desordens que minam a sociedade, senão à ausência de toda crença?

falar em Kardec evoca a formação religiosa que recebi e com a qual rompi ao final da adolescência. em outras palavras, saí do armário, como disse Maria Da Paz (clique aqui para ver).

se mais citasse, mais comentaria, o que seria covardia... deixe-me comentar o que quero pôr em destaque. quero falar tanto da "família" quanto da "sociedade" que a envolve, dos hábitos, costumes etc., inclusive os casamentos multiraciais e plurissexuais, o lema dos "consenting adults". não é criança, criminoso ou louco e quer? então pode. o que não pode é ferir a liberdade do/s outro/s, inclusive a de vender-se como escravo. quem compra escravo, já ae argumentou, não é livre! pois bem, Sartre, Kardec e Agatha Cristie, em três momentos, viram fraquezas na "família", na degeneração dos costumes, na assunção da regência do mundo pelos valores materialistas. hoje mesmo, vemos seus sucessores, os reacionários a algumas medidas inovadoras que estão sendo tomadas por diversas sociedades. as inovações desejáveis a que me refiro são a adoção de crianças por casais (por enquanto, apenas casais...) home-home, home-muié e muié-muié. o ponto que desejo deixar claro é a degeneração da família baseada em evidência, plágio da medicina baseada em evidência. qual a evidência de que a família kardequiana, a christiana e a sartreana realmente deixam marcas? qual a evidência de que ela está acabando? e, mais pragmaticamente, qual a evidência de que estas transformações, que começaram no divórcio (ausente do romance "Merry-go-round", de Somerset Maughan, escrito lá pelos 1920s), continuaram na pílula anticoncepcional, prosseguiram pela maior longevidade dos indivíduos humanos e chegam agora a casamentos grupais que reproduzem experiências históricas vividas e proscritas há milhares de anos?, que avalizam o patriarcado ou outras formas de domínio político, simbólico ou econômico? acho que não preciso responder.

terceiro tópico. o festejado escritor/romancista Assis Brasil também tem sua crônica quinzenal no Segundo Caderno de Zero Hora. ontem, li na p. 6 sua diatribe contra os poderes públicos (no caso, executivo e legislativo) que deixaram a OSPA - orquestra sinfônica de Porto Alegre - atirada aos ratos, ou o que seja. os músicos fizeram greve, diz Assis, Assis Brasil e não minha personagem de ontem. é que algum especialista em teoria da escolha pública fez a Lei 12.404, em 2005, passo a citar:

[...] a qual manda realustar anualmente, um modestíssimo valor para conservação de seus instrumentos e, ainda, se restarem alguns centavos, para ajudá-los a comprara e manter a indumentária necessária para as apresentações públicas.
[...]
Tudo isto pode parecer estranho a quem, bem nutrido e bem bebido, senta-se para assistir à Ospa. Esquecem-se, os espectadores, que cada músico é um indivíduo que precisa vestir-se com decência e que trabalha com um frágil e exigente instrumento.


aí eu pensei: bem nutrido eu? bem nutrido o menino de rua? não teria sido o caso do diligente deputado ou governador ou o Mr. Whatever, esposar o orçamento universal e, antes de pagar tripas de carneiro para violinos, pagar vermífugos para as barrigas dágua que deverão ser erradicadas do Rio Grande do Sul apenas no ano 2015, se nem eu nem o IPEA nos equivocamos. ok, e que tem isto a ver com o primeiro tema? mais do que anunciei não querer fazer os links, posso apenas dizer que estamoas falando de costumes e de escolhas públicas. por exemplo, eu escolheria o beijo em pé (artigo recente de Martha Medeiros em outro caderno do mesmo jornal) para o recato do lar, em todos os casos. ou melhor, os casos que Erich Fromm e meu inesquecível livro "A Arte de Amar" registraram como sendo "amor erótico". não gosto de ver mulher pelada em capa de revista exposta em bancas invasivas de calçadas públicas, nem homem pelado, nem nada. acho que a infância deveria ter alguns assuntos proibidos. é proibido proibir, na ditadura, mas na democracia, é proibido esquecer que um processo de escolha coletiva requer o cultivo da liberdade, ou seja, fazer o que se quer sem afetar a leberdade de terceiros.

quarto tópico. emenda-se com os anteriores. voltando ao primeiro caderno, vemos o artigo assinado por Plínio Melgaré, falando sob o título de "Sobre o casamento e igualdade". vejo-o argumentando em favor da sociedade igualitária, a sociedade cujo valor supremo é a liberdade. pois diz ele:

[...] em termos jurídicos e constitucionais, o que é essencialmente relevante para o casamento? Seria a orientação sexual? Ou o casamento abrigaria um conceito aberto, livre da petrificação de preconceitos, e, assim, a admitir a diversidade da vida?

Ao fim e ao cabo, o que a legislação argentina estabelece, além de garantir um direito individual (o direito de se casar), é o fim de uma discriminação – e com ele a consequente afirmação da igualdade. E esta é a questão de fundo: qual a extensão da igualdade? Acaso, nossos hermanos, na construção de uma vida menos desigual, não teriam avançado?


claro que teriam. claro que amo a Argentina. claro que queria os 3x1 na final da copa do mundo, claro que queria que eles tivessem ganho da Alemanha, claro que achei o comunismo, a DDR e associados um erro, claro que achei a invasão das "Malvinas" um erro. claro que quero a sociedade igualitária, tanto é que tenho um dedinho o tempo inteiro apontando para a esquerda.
DdAB
captura da imagem: busquei o título da postagem de hoje. não sei bem o que essa turma tem em comum, não procurei desvendar. mas achei interessante para ilustrar os temas que decidi tratar. hoje. http://i40.tinypic.com/2hekh9w.jpg.

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