14 janeiro, 2022

Dom Casmurro: mais uma hipótese


                                               Cosi è se vi pare

Em compensação terminei de ler (cuidado quem não leu, pois há spoilers no texto que segue): dois pontos:

([1899], 2016) Dom Casmurro. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras. Introdução de Luis Augusto Fischer.

Então o título da postagem refere-se às hipóteses já formuladas sobre a eventual traição de Capitu a seu marido Bentinho. Todos sabemos quem são as personagens principais do Dom Casmurro, d. Glória, José Dias, digamos, coadjuvantes. José Dias até que nem tão coadjuvante assim. E aí vem o quarteto -  1: Bentinho e Capitu, 2: Escobar e Sancha. Segue-se Ezequiel, filho de Capitu com... três pontinhos. Com passagem rápida, mas importante para a hipótese da inocência de Escobar, Capitolina, sua filha com a legítima esposa Sancha. Tá na página 320 e vou deter-me um tanto mais lá adiante.

No final do livro, quando Ezequiel retorna da Suíça ao Rio de Janeiro, já Capitu estando morta, tudo se torna difuso, confuso. Não é impossível que ainda se encontre uma carta, um texto biográfico do próprio Machado de Assis dizendo se Capitu e Escobar geraram Ezequiel, deixando Bentinho no corner. Mas é até mais provável que Machado não tivesse vislumbrado uma solução, deixando -como James Joyce desejava que ocorresse com seu Ulysses- várias gerações ocupadas em decifrar o mistério.

Aceitando essa omissão, provavelmente voluntária, temos então duas hipóteses para resolver o mistério  da paternidade de Ezequiel:

a) o guri era mesmo filho de Capitu e Escobar

b) Bentinho era um ciumento e aperfeiçoou-se ainda mais, ao longo do tempo, na devastadora doença do ciúme irrefreado, felizmente não tão letal quanto aquele que Paulo Honório sentiu, no S. Bernardo de São Graciliano Ramos. Quer dizer, Capitu e Escobar não teriam gerado Ezequiel. (E por que diabos Capitu não poderia ter tido um caso com um terceiro, um quarto, sei lá?)

Mas aí, já desafiado pela Introdução de Luis Augusto Fischer, e levando em conta minha experiência com Marx e Freud (para citar o título de um livro de Erich Fromm), inventei de inventar mais uma hipótese:

c) projeção (mecanismo de defesa do ego) feita por Bentinho sobre Escobar: Bento deseja Sancha, amiga íntima de Capitu e, que por essa via, tornou-se esposa de Escobar. Por esses laços de amizade, não consegue confessar nem para si mesmo esses pensamentos libidinosos mas livra-se da angústia projetando-os sobre Escobar. 

Já não sei dizer se foi lendo as páginas 14-15 da Introdução de Luis Augusto Fischer que fiquei com a pulga atrás da orelha, como se diz lá em Jaguary, eis que o literato gaúcho fala em quatro dualidades iluminando (confundindo) o roteiro da história. E vou falar apenas na última:

Quarto par: o livro traz em si duas camadas narrativas, ou duas diferentes versões do enredo, ou melhor, duas formas distintas e até opostas de pensar sobre o que aconteceu entre Bento e Capitu. De um lado, temos a traição de Capitu como uma verdade nítida, pois é isso que o narrador nos conta, convictamente; mas, de outro, quando o leitor se aproxima do texto alerta para o fato de que o narrador é parte interessada no processo, no qual ele mesmo figura como acusador e vítima (e juiz!), o que temos é, em certo sentido, uma traição de Bentinho. Dom Casmurro, é um romance com duas interpretações muito distintas, e até opostas: ele contém duas traições, uma suposta mas narrada como verdadeira, a de Capitu, outra verdadeira, mas nem sempre visível, a de Bento.

Sigo na Introdução de Luis Augusto Fischer. Voltando (eu aqui) às página 42-43, dou meu sussurro final, enquanto leio a seção "Momentos da fortuna crítica".  Fischer começa citando comentadores que rapidamente pularam para a hipótese da traição, comprando "a versão do narrador". Fischer fala em, pelo que sei, dois gaúchos, Augusto Meyer e Érico Veríssimo: Capitu traiu. Mas eis que surge no palco a americana Helen Caldwell. Diz Fischer na página 53-4:

   [...] Caldwell em seu texto conclui que o narrador é um novo Otelo [de Shakespeare, tema em que a americana é especialista], convencido da culpa de sua amada, o que compromete em toda linha a acusação que faz. E a autora, por norte-americana e por feminista, empreende toda uma contra-argumentação, como se estivesse de fato num tribunal - é como se ele tivesse levado em conta a peça de acusação que é Dom Casmurro e então tivesse assumido o encargo da advogada de defesa da acusada, para concluir que não há rigorosamente nenhuma chance de concluir pela culpa (nem pela inocência, acrescentemos) de Capitu, dada a perspectiva envenenada do narrador. Estava aqui inaugurada uma nova fase no debate crítico.

De minha parte, juro que o extraordinário intelectual Silviano Santiago leu o livro de Helen Caldwell, publicado no Brasil em 2002, mas aparecido nos Estados Unidos em 1960. Para ele (páginas 54-55 de LAF):

Começa [o ensaio de Silviano Santiago publicado em 1978] que ataca a visão fragmentária da obra machadiana, reivindicando que há unidade profunda, estrutural, que ele não identifica no artigo, mas intui existir; depois, considera o romance não um estudo sobre a traição, mas sobre o ciume, motivo por que estavam errados os críticos em sua maioria, até ali, ao buscarem no livro a verdade sobre Capitu, quando a verdade a ser buscada se refere a dom Casmurro.

Nessa linha de mudança de foco trazida por Silviano Santiago (apud LAF) aproveito para evocar uma passagem que poderia estar indicando a inocência de Capitu, pelo menos relacionada ao envolvimento com Escobar. Agora cito o próprio Machado de Assis na página 320: Escobar "[c]hegou a falar da hipótese de casar o pequeno [Ezequiel] com a filha [Capitolina]." Ora, será que ela poderia imaginar esse casamento se suspeitasse que Ezequiel fosse seu filho." Dica do autor, claro, registrada pelo narrador Bento, que Escobar não poderia ser pai de Ezequiel. Daqui faço um pré-sussurro: pode ser que Bentinho estivesse ficando cada vez mais pirado, tangido pelo ciúme de Capitu e inveja de Escobar. Mas tem mais: naquele tempo não se falava em swing, ou no quatrilho, de José Clemente Pozenato (Teresa, Pierina, Ângelo e Massimo): Bento e Sancha, como ando sugerindo no bar do bairro e, claro, por quê claro?, Capitu e Escobar.

Tá aqui o sussurro: vemos duas hipóteses explicativas da trama (a terceira é, como sabemos, o ciúme: a traição (agora de Bentinho com Sancha) e a inveja de Bentinho relativa aos dotes másculos de Escobar:

   Tudo se precipita, em momento magistral do romance, quando em sequência rápida recebemos notícia de que os dois casais, reunidos na casa de Escobar e Sancha, fazem planos para viajar juntos à Europa, e logo Escobar saindo de perto, se desenha uma surpreendente cena de discreto erotismo entre Bento e Sancha, claro que sempre segundo a visão dele, que afinal nos conta a história, transcorrido em um diálogo de olhos - sempre eles [olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, etc... DdAB]; Escobar reaparece para bravatear que o mar, vigoroso como está (eles enxergam de casa), é que vale a pena ser enfrentado por um nadador forte como ele, que mostra seus braços fortes, que Bento apalpa, invejoso, enquanto pensa nos braços de Sancha. A trama emocional e erótica não é nada linear, como se vê; o narrador chega a falar 'um instante de vertigem e pecado'.

Então, paixão, sedição, inveja. E aquele "tudo se precipita" tem a ver com o exibicionismo de Escobar, talvez a covardia de Bento em não ir para o banho de mar bravio. E também vinda de Bentinho, a inveja dos braços fortes do amigo, precipita-se também a sedição à amizade, com o desejo de Bentinho pelos braços de Escobar e projetados pelo primeiro, sobre os de Sancha.

DdAB

13 janeiro, 2022

Igualitarismo e Emprego: notas feitas em San Marino


Talvez a equação mais famosa do mundo seja E = m * c^2 (dada em "escalares", por contraste à equação que veremos em seguida, dada em "matrizes e vetores", costumeiramente grafados em negrito), tema de estudo do ensino médio. Como sabemos, até mais importante para o mundo mundano existe equação:

x = B * f,

onde x é um vetor de dimensão n linhas e uma coluna que mostra a produção de n setores que compõem uma economia, B é a matriz quadrada de dimensão n linhas e n colunas (também chamada de "inversa de Leontief", pois é a inversa de outra matriz, agora a I - A). A inversa de Leontief informa os requisitos diretos e indiretos de produção gerados no setor i (da linha) e usados pelo setor (da coluna), e f é o vetor coluna que exibe a demanda final das mercadorias produzidas por aquele mesmo setor i.

Ao diagonalizarmos o vetor f (isto é, ao recolhermos os elementos de f e o colocarmos na diagonal de uma matriz quadrada em que todos os n x n elementos são nulos e de dimensão n por n e que representamos por F, chegamos à equação

L = t^D * B * F

onde L é a matriz de dimensão n por n, cujo elemento característico informa o montante de  emprego usado pelo setor i (da linha) a fim de atender à demanda que lhe faz o setor j (da coluna); por exemplo Lij = L34 = 47 informa que, para produzir e vender para o setor 4, o setor 3 usa 47 trabalhadores. A matriz diagonal t^D informa os coeficientes setoriais de emprego por unidade de produção. Por exemplo, se o elemento x34 é igual a 100, então t34 = 100/47 =2,13, informando que, para produzir aquelas 100 unidades do insumo que serão entregues pelo setor 3 ao setor 4, o primeiro (por clareza, o setor 3) usa os serviços do trabalho de 47 trabalhadores. 

Então provavelmente, nas economias monetárias modernas, a matriz B, dos coeficientes de produção diretos e indiretos, será totalmente densa, isto é, praticamente todos os setores comprarão insumos dos demais e também venderão para todos. Isto significa que essa matriz de emprego L também será totalmente densa, mostrando que todos meandros produtivos da sociedade são regados a trabalho humano.

DdAB

P.S. Sobre o título: no outro dia, escrevi uma espécie de book review escalafobética ao livro de Marino Boeira intitulado Aconteceu em..., com várias cidades sendo registradas como tendo sido visitadas por ele. Ele não referiu a cidade-república de San Marino que, por circunstâncias de minha vida de meditação e estudo, eu myself visitei. E decidi registrar. Pois então: pensando que fazer o comentário que norteou a presente postagem iria soar como brincalhão (embora o conteúdo seja mais sisudo que gato em dia de faxina), produzi um sério nonsense de conteúdo igualitarista.

P.S.S. A imagem veio daqui. A notação lá naquela postagem é um tanto diferente: aqui F é a matriz do emprego setorial e lá falávamos em fD. E a postagem que neste ponto vemos é bem mais sintética, e um tanto hermética...

02 janeiro, 2022

Aconteceu com San Marino


Dedico esta postagem a Silvana Moura, a moura

Às antevésperas do Natal, aconteceu uma tarde de autógrafos, precisamente, na quarta-feira, 8, às 18h30 na Torre de Pizza do Shopping Olaria, quando Marino Boeira, meu San Marino (como vou explicar lá adiante) autografou, com referência completa, seu:

BOEIRA, Marino (2021) Aconteceu em... Porto Alegre: Digrapho.

Por medo de contágio do covid-19 (obviamente não na cerimônia, mas no Uber, no ônibus, na própria caminhada pelas ruas da cidade), não pude comparecer, eu que já devia uma explicação pelo outro livro de Marino em 2021: Brizola e eu. Este Aconteceu em... foi-me doado por sua esposa, Silvana Moura, a moura, e autografado por ele. Ela, a moura, permitiu-me lembrar incontinenti o apelido de Karl Marx (Maurish, em alemão), o que me fez já ir colocando-a no lado esquerdo do peito. Pois fiquei feliz com o donativo e até agora ainda não achei uma forma de reciprocar durante a pandemia. 

O fato insofismável é que, nesses tempos de doenças terríveis tão mal-tratadas pelo governo do Brasil -ungido aos cargos por 57 milhões de brasileiros estranhos-  e carente de interações sociais, cheguei ao mural de Marino lá no Facebook. E dele, mural, sou frequentador assíduo e comentador intermitente. E dele, mural, conheci muita gente interessante e destaco a já citada Silvana Moura, a moura. E dele, mural de Marino, conheci por opiniões ajustadas a minha forma de ver o mundo Vera Pellin que para alegria geral empreendeu a coordenação editorial e o design gráfico do livro Aconteceu em... 

Com o tempo, vim a descobrir ser um subconjunto de Marino com sua maneira de ver o mundo, suas preocupações e mesmo dúvidas (com uma lapelinha de discordâncias). Concordo com praticamente tudo o que ele fala no Facebook com certas, às vezes, engripadas discordâncias. Mais divertido é falar das divergência que das convergências.

Ou melhor, iniciando pelas convergências, deixe-me listar algumas. Por exemplo, somos ambos torcedores do Sport Club Internacional. Adoramos a camiseta vermelha e nos orgulhamos de apoiar um clube de futebol fundado por trabalhadores anarquistas. Mas aí mesmo já surge um ponto de exclamação de discórdia: também torço para o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense, um clube também sagrado e sofro ao ver postagens de Marino sinalizando, de súbito, tratar-se do "grêmio" (em caixa baixa). Por ser um torcedor esclarecido, contudo, reconheço que, nos confrontos diretos (isto é, os jogos batizados como Gre-Nal, granais), o Internacional vence em todos os itens relevantes: goleador, gols a favor, menos gols contra, campeonatos locais, primeiro campeão nacional de Porto Alegre, e por aí vai. Uma das últimas inovações institucionais do Internacional foi ter criado a "torcida mista", com um espaço reservado em seu estádio para a turma que, talvez, também torça para os dois clubes e que naquele Gre-Nal específico, decidiu vestir-se de azul ou de vermelho. Eu mesmo já fui num destes e em outros Gre-Nais, indo e deixando de ir ao Estádio Beira-Rio, circulei com camisa de um clube ou do outro acompanhado por gente querida vestindo uma camisa do outro ou de um.

Agora, cá entre nós, o Grêmio é um clube puro-sangue em matéria de acolhimento a todos os sangues. Acusado que foi de ser um clube que despreza os negros, sua resposta foi "no rim", como dizíamos em Jaguary. O Grêmio defendeu-se alardeando ser um clube de azul, branco e preto (estou listando em ordem alfabética) e last but not least, nunca foi tão vigoroso quanto não se envergonhar por colocar o "preto", o negro, no final da fila: em último mas não o último...

Mais convergências. Quando eu nasci, Marino estava prestes a completar seu oitavo aniversário de existência. Imagino que, alfabetizado e, deste modo, tirando enorme diferença entre sua monumental lista de leituras e meus montinhos. Ainda assim, imagino ter lido algumas coisas que ele passou ao largo. Por exemplo, o livro Capitalism unleashed, de meu finado e sempre amado orientador do doutorado, o mister Andrew Glyn. Glyn foi trotskista durante muitos anos, tendo abandonado o ideal socialista e enturmado na social-democracia, culminando com a defesa entusiástica da instituição da renda básica universal. E eu a apoio desde que nela ouvi falar, antes mesmo de Glyn. Pronto, baita diferença com Marino que, com frequência, se revela socialista e considera que o capitalismo está acabado. Falo por mim: o problema do capitalismo não é a produção, ao contrário, ao ser incapaz de reproduzir-se sem ser em escala ampliada, tem crises periódicas de super-produção. Mas tem um enorme problema na esfera da distribuição da renda ou da despesa.

Falando, então, em Glyn e em social-democracia, aprendi com ele que a chave de acionamento da sociedade igualitária é o emprego. Mesmo que com alguns períodos de euforia no mercado de trabalho, uma das leis gerais de desenvolvimento do sistema é cultivar o desemprego. Algumas vezes, ao ler Marino reverenciando o socialismo, torno-me um comentador (com a bondade dele) argumentando que a humanidade ainda não foi capaz de criar instituições (como o tabu do incesto, o fim do infanticídio, o mercado e o dinheiro) capazes de dar apoio a uma sociedade socialista. E o pior é que nem sabemos que tipo de instituições seriam essas.

Então, grêmio (em caixa baixa) e Socialismo (em caixa alta) dividem nossas agendas como um facão afiado particiona um queijo colonial made in Farroupilha. E poderia falar em divergência, mas acho tratar-se de um ponto de coincidência que ambos, embora originários de Porto Alegre (e embora meu Heimat seja o Rio de Janeiro), vivemos anos importantes de nossas existências no interior gaúcho. De minha parte, fui parar em Jaguary, que a nova lei permite escrever com esse "y".

Pois em Jaguary, num daqueles questionários estilo who is who, ou melhor, who wants to date who, que a gente era convidado a responder, e muito populares nos anos 1950s e 1960s, indagava-se "que cidade tu conhece". Para Marino, a lista é enorme, pois ele diz no livro (página 84) "eu coleciono cidades". Já no índice do livro, vemos que aconteceram coisas em 58 cidades:

Cairo, Koblenz, São Petersburgo, Cannes, Karlovy Vary, Istambul, Viena, Moscou, Paris (1), Amsterdã, Londres, Bangkok, Copacabana, Dublim, Ushuaia, Farroupilha (1), Quebec, São Borja, Rothemburg ob der Tauber, Los Andes, Cracóvia, New Orleans, Gramado, Boston, Roma, Farroupilha (2), Estocolmo, Porto Alegre, Berlim, Lisboa, Cancún, Monte Saint-Michel, Colmar, Tacuarembó, Paris (2), Nazca, Heilderberg, Basileia, Havana, Porto, Buenos Aires, Avignon, Óbidos, Bratislava, Veneza, Valparaíso, Bruges, Salta, Cochabamba, Córdoba, Puno, San Pedro de Atacama, Santiago do Chile, Florianópolis, Copenhague, Colônia do Sacramento, Granada e Corumbá.

Em ordem alfabética:

Amsterdã, Avignon, Bangkok, Basileia, Berlim, Boston, Bratislava, Bruges, Buenos Aires, Cairo, Cancún, Cannes, Cochabamba, Colmar, Colônia do Sacramento, Copacabana, Copenhague, Córdoba, Corumbá, Cracóvia, Dublim, Estocolmo, Farroupilha (1), Farroupilha (2), Florianópolis, Gramado, Granada, Havana, Heilderberg, Istambul, Karlovy Vary, Koblenz, Lisboa, Londres, Los Andes, Monte Saint-Michel, Moscou, Nazca, New Orleans, Óbidos, Paris (1), Paris (2), Porto, Porto Alegre, Puno, Quebec, Roma, Rothemburg ob der Tauber, Salta, San Pedro de Atacama, Santiago do Chile, São Borja, São Petersburgo, Tacuarembó, Ushuaia, Valparaíso, Veneza e Viena.

Comunalidades: partilho de sua lista em:

Amsterdã, Berlim, Bruges, Buenos Aires, Colônia do Sacramento, Dublim, Estocolmo, Farroupilha , Florianópolis, Gramado, Heilderberg, Lisboa, Londres, Óbidos, Paris, Porto, Porto Alegre, Roma, Rothemburg ob der Tauber, São Borja, Veneza e Viena.

Ou seja, 22/58 = 38%. Não é pouco se considerarmos que no máximo, et pour cause, sou um colecionador de cidadezinhas... Mas a verdade é que Marino tem ainda muitas outras cidades citadas no livro visitadas (ou vistas pela janela do ônibus, página 84), como é o caso de pelo menos (se não me escapou nada) destas 44:

Bagé, Bariloche, Cachoeira do Sul, Chicago, Cuzco, Dom Pedrito, Dresden, El Calafate, Ernestina, Fontoura Xavier, Genebra, Hannover, Los Angeles, Lugano, Machu Picchu, Manheim, Marques de Souza, Mendoza, Miami, Montreal, New Hampshire, Orlando, Paso de los Libertadores, Paso de los Libres, Passo Fundo, Payssandú, Pedro Juan Caballero, Pensacola, Puerto Suárez, Punta de Este, Rivera/Livramento, Santa Cruz de la Sierra, Santa Maria, San Francisco, São José do Herval, São Sepé, Tallahassee, Tio Hugo, Toronto, Trinta y Tres, Uruguaiana, Vermont, Vila Nova de Gaia e Viña de Mar.

Aqui a lista é tão vasta que nem vou referir as tantas que também conheço. Mas destaco apenas Barcelona entre as visitadas. E tenho meus casos: primeiro, fui lá, uma de cada vez, em três oportunidades, com três esposas... Mas tem mais: aconteceu-me em Barcelona estar almoçando de entrada um gaspacho que quase me mata. Errei a mão na pimenta (um vidrinho visivelmente de Tabisco, como sabemos, o Arisco em pele de Tabasco, forte como a atração de Júpiter) e fiz um porquinho quase ao pé da mesa, quase ao pé da segunda esposa. Quase levei bronca, mas não houve retaliação nem pela guria nem pelo mozo, pois alcancei o banheiro ainda em tempo de desvencilhar-me daquele ardor desgranido nas entranhas, na garganta e na boca.

Em seguida registro que Marino não cita San Marino, que visitei, nela ficando o suficiente para poder dizer que fiz fotos e comprei bebidas, jóias e perfumes. 

E ainda mais, como diz hoje a propaganda da Claro feita por Tatá Werneck: e tem mais. Filosoficamente falando, confesso ter um hobby que é queimar campo, o que teria feito naquele caderno de questionário que respondi em Jaguary. Eu mentiria que visitei: 

Auckland, Brazil (no estado americano de Illinois, cuja existência descobri ao ler um dos livros de literatura infantil de Monteiro Lobato), Kuala Lumpur, Montreal, Odessa, Singapura, Sydney e Vancouver. 

Estocolmo, que Marino visitou com brilho, eu não visitaria em nenhuma hipótese por problemas linguísticos. Como dizem nas folhas tantas do romance O Senhor Embaixador, se a morte fala alguma língua, pode apostar que é sueco... Prefiro é ser atraído por Júpiter que pela morte...

Para concluir, faço um registro ainda mais bibliográfico que os precedentes. Dizem que Mestre Capiba, notável compositor pernambucano, foi indagado sobre qual o melhor estilo de música, o clássico ou o popular. Sua resposta foi que a verdadeira divisão entre tipos de música é, por um lado, a boa e, por outro, a má. Entendo que tal classificação também vale para livros: bons e maus, belos e feiosos. E falo mais da forma que do conteúdo, da capa, da diagramação, da correção gramatical (disse Stephen Pinker que a gente não escreve como fala, mas como lê), essas peças de uma obra de arte que nem sempre são notadas pelo leitor apressado. O livro Aconteceu em... é uma obra de arte, tamanho, cor da capa, tipo de letra, gramatura do papel, essas coisas, tudo bem escolhidinho no capricho. A Editora Digrapho merece minha admiração e a coordenadora editorial e do design gráfico,Vera Pellin, até gratidão, pois fizeram deste novo livro de Marino Boeira não apenas um livro bom e belo, mas boníssimo e belíssimo. Terei ouvido que o autor já prepara uma nova edição com mais cidades. Desta vez vou à sessão de autógrafos e... vou comprar!

DdAB
P.S. Em seu mural no Facebook, tipo às 11h00 da manhã de hoje, Marino Boeira publicou:
CIDADES
Ao comentar meu livro Aconteceu em...o Duilio De Avila Berni lembra que me apresento como colecionador de cidades. O criterio para considerar uma cidade conhecida é ter posto , pelo menos um pé em sua terra. Tio Hugo não entrou nessa lista porque estava num ônibus vindo de Passo Fundo e ele passou direto sem parar. Ja em Casca, como estava num carro, parei alguns segundos, pus os dois pés em sua terra e Casca está na minha lista. Uma vez indo a Montevideu, fiz uma volta imensa para por meus pés na lendária Treinta Y Tres. Claro que valeu a pena.
P.S.S. Por esse mesmo horário, Silvana, a moura publicou em seu mural:
Eu não fui além das cercanias do Pulador, mas nunca por falta de vontade e sim.de oportunidade.
Admiro quem tenha conseguido conjugar vontade e oportunidade para viajar.
Agradeço que o.regalo que te enviei tenha merecido comentário tão generoso e mais que tudo despertador de vontade de ler o livro de Marino.
Abraço
Silvana, a moura
P.S.S. E estes comentários em meu próprio mural quando estou propagandeando esta postagem:
    • Marino Boeira
      O Duilio foi muito generoso em seus comentários. Comovido, o autor agradece. Ele só não entende como alguém que diz amar o Inter não odeia o grêmio. E tem mais Duilio, só o comunismo nos salva.
      1
      • Adoro
      • Responder
      • 2 h
      • Editado
    • Silvana Moura
      Duilio De Avila Berni, querido amigo, agradeço tua leitura e sempre generosa atenção.
      Abraço
      Silvana, a moura
      1
      • Adoro

29 dezembro, 2021

"Nada é Meu"

 


Epígrafe para um novo livro:

O atributo de distribuição mais equitativa no Terceiro Planeta de Sol é o bom-senso: ninguém se queixa de ter pouco. (Blaise Pascal transmitido por Flávio Spanhol)

Nota ao que segue:

Se falarmos sobre a morte, não há como deixar de pensar nos sentimentos "de última hora": do medo do devir ao cansaço com o que veio. Mas está implícito que não morremos sozinhos, aliás, menos ainda, vivemos sozinhos.  A crônica que veremos a seguir, em transcrição integral, foi retirada do livro:

PAPINI, Giovanni Gog. (c.1970) Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Coleção Universo. Tradução de Marina Colasanti.) Páginas 99-100.

Nada é meu

Arosa 18 de setembro

   O maior problema do homem, como das nações, é a independência. Há solução?

   O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído, pelo que tenho. A única propriedade incontestável deveria ser o Eu - entretanto, procurando bem, onde está o resíduo absoluto, isolado, que não depende de ninguém?

   Ausentes ou presentes, os outros participam da nossa vida interior e exterior. Não há salvação. Mesmo na solidão perfeita sinto-me, com horror, átomo de uma montanha, célula de uma colônia, gôta de um mar. No meu espírito e na minha carne trago a herança dos mortos: meu pensamento é devedor a vivos e defuntos: e mesmo contra a vontade, meu comportamento é guiado por sêres que não conheço ou desprezo.

   Tudo o que sei aprendi de outros. Tudo o que eu uso é obra alheia - que importa se paguei? Sem o operário, sem o artesão, sem o artista estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero me locomover preciso de máquinas que não fabriquei e que não dirijo. Sou obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes de mim me impõem sem que eu o saiba, seus gostos, seus sentimentos, seus preconceitos.

   Ao desmontar o Eu peça por peça encontro sempre pedaços e fragmentos que vêm de fora - em cada um poderia colocar um rótulo de origem. Êste é da minha mãe, êste do meu primeiro amigo, êste de Emerson, êste de Rousseau ou de Stirner. Se levo a fundo o inventário das apropriações o Eu torna-se uma forma vazia, uma palavra sem conteúdo próprio.

   Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça - não consigo, por mais que faça, evadir-me dos confins que não tracei. Tôda idéia é um eco; todo ato um plágio. Posso afastar a presença dos homens mas grande parte dêles continua vivendo, invisível, em minha solidão.

   Se tenho empregados devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los - e o dinheiro deve ser olhado, cultivado , protegido, defendido Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias de que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem e que nunca vi. Conheço o que recebi mas ignoro o que dei.

   Consegui juntar algumas dúzias de bilhões. Não o teria podido fazer se milhões de homens não tivessem trabalhado para mim, se milhões de homens não tivessem precisado daquilo que eu podia vender, se milhares de homens não tivessem inventado as fórmulas, as máquinas, as regras sôbre as quais se baseia a vida econômica da Terra. Abandonado a mim mesmo teria sido um selvagem, comedor de raízes e de cães mortos.

   Onde está, então, o núcleo profundo e autônomo do qual ninguém mais participa, por ninguém mais gerado, e que eu possa verdadeiramente chamar meu? Sou, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos realmente nossa - o Eu - é, talvez, como todo o resto, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho?

É isto, era isto, isso tudo. É que nada é meu. É de Giovanni Papini.

DdAB

P.S. Mantive a grafia do livro original. Aqueles "sôbre", "êsse", "idéia" são daquele tempo que atribuí a 1970. Bons tempos, péssimos tempos: nem sabíamos que a ditadura militar seria tão longa.

23 dezembro, 2021

Investigação sobre o Conceito de Equilíbrio em Marx (Parte I)

Frases com mais de quatro linhas são proibidas, não se equilibram... Esta pérola da redação de TCCs não é de minha autoria, embora conste do livro de "métodos e técnicas" que co-organizei com Brena Fernandez. E tem mais: no livrinho sobre como fazer teses, Umberto Eco diz que parágrafos não devem ser muito grandes, a fim de "arejar o texto". Sabidos os integrantes da humanidade que nos levam a entender que estas regras não são estéreis. Seja como for, vou citar um material que meu ex-aluno e ex-orientando André Luis Contri selecionou para mim, há muitos anos.

A história é que ele assistiu a um curso que dei na graduação da UFRGS basicamente sobre economia marxista. E ao curso seguiu-se, com minha participação e incentivo, um inevitável seminário com os alunos interessados, uma boa meia-dúzia, incluindo Contri. Anos depois, conversando amigavelmente com ele, falei que Marx era equilibrista, mas não lembrava em que parte do volume 1 d'O Capital me baseei. Mas jurava que o pinta era mesmo equilibrista. 

Então agora decidi mexer naquele texto de André Contri (na verdade, citações e observações bibliográficas). Mas fui à internet para não digitar o paragrafão das páginas 246-7 do livro cujo link dou lá mais prá baixo. Contrariamete a meu hábito, o texto de Marx vai todo sem destaque, exceto o trecho citado por Contri, que vai em cor deste tipo e o negrito é dele mesmo. Marx não tinha nem coloridos nem negritados nesta parte.

[...]

But, in spite of the numerous analogies and links connecting them, division of labour in the interior of a society, and that in the interior of a workshop, differ not only in degree, but also in kind. The analogy appears most indisputable where there is an invisible bond uniting the various branches of trade. For instance the cattle-breeder produces hides, the tanner makes the hides into leather, and the shoemaker, the leather into boots. Here the thing produced by each of them is but a step towards the final form, which is the product of all their labours combined. There are, besides, all the various industries that supply the cattle-breeder, the tanner, and the shoemaker with the means of production. Now it is quite possible to imagine, with Adam Smith, that the difference between the above social division of labour, and the division in manufacture, is merely subjective, exists merely for the observer, who, in a manufacture, can see with one glance, all the numerous operations being performed on one spot, while in the instance given above, the spreading out of the work over great areas, and the great number of people employed in each branch of labour, obscure the connexion. But what is it that forms the bond between the independent labours of the cattle-breeder, the tanner, and the shoemaker? It is the fact that their respective products are commodities. What, on the other hand, characterises division of labour in manufactures? The fact that the detail labourer produces no commodities. It is only the common product of all the detail labourers that becomes a commodity. Division of labour in society is brought about by the purchase and sale of the products of different branches of industry, while the connexion between the detail operations in a workshop, is due to the sale of the labour-power of several workmen to one capitalist, who applies it as combined labour-power. The division of labour in the workshop implies concentration of the means of production in the hands of one capitalist; the division of labour in society implies their dispersion among many independent producers of commodities. While within the workshop, the iron law of proportionality subjects definite numbers of workmen to definite functions, in the society outside the workshop, chance and caprice have full play in distributing the producers and their means of production among the various branches of industry. The different spheres of production, it is true, constantly tend to an equilibrium: for, on the one hand, while each producer of a commodity is bound to produce a usevalue, to satisfy a particular social want, and while the extent of these wants differs quantitatively, still there exists an inner relation which settles their proportions into a regular system, and that system one of spontaneous growth; and, on the other hand, the law of the value of commodities ultimately determines how much of its disposable working-time society can expend on each particular class of commodities. But this constant tendency to equilibrium, of the various spheres of production, is exercised, only in the shape of a reaction against the constant upsetting of this equilibrium. The a priori system on which the division of labour, within the workshop, is regularly carried out, becomes in the division of labour within the society, an a posteriori, natureimposed necessity, controlling the lawless caprice of the producers, and perceptible in the barometrical fluctuations of the market-prices. Division of labour within the workshop implies the undisputed authority of the capitalist over men, that are but parts of a mechanism that belongs to him. The division of labour within the society brings into contact independent commodityproducers, who acknowledge no other authority but that of competition, of the coercion exerted by the pressure of their mutual interests; just as in the animal kingdom, the bellum omnium contra omnes [war of all against all – Hobbes] more or less preserves the conditions of existence of every species. The same bourgeois mind which praises division of labour in the workshop, lifelong annexation of the labourer to a partial operation, and his complete subjection to capital, as being an organisation of labour that increases its productiveness - that same bourgeois mind denounces with equal vigour every conscious attempt to socially control and regulate the process of production, as an inroad upon such sacred things as the rights of property, freedom and unrestricted play for the bent of the individual capitalist. It is very characteristic that the enthusiastic apologists of the factory system have nothing more damning to urge against a general organisation of the labour of society, than that it would turn all society into one immense factory. 

Trecho colorido é o que foi marcado por André Country. O negrito também é dele. Eu selecionei o parágrafo monstro retirado daqui. Ele dá ainda as traduções brasileiras de duas obras, mas preferi traduzir pelo Google Tradutor e revisar o trecho colorido no paragrafão: 

As diferentes esferas de produção, é verdade, tendem constantemente para um equilíbrio: pois, por um lado, enquanto cada produtor de uma mercadoria é obrigado a produzir um valor de uso, para satisfazer uma necessidade social particular, e enquanto a extensão desses desejos difere quantitativamente, ainda existe uma relação interna que estabelece suas proporções em um sistema regular, e um sistema de crescimento espontâneo; e, por outro lado, a lei do valor das mercadorias determina, em última instância, quanto de seu tempo de trabalho disponível pode ser gasto com cada classe particular de mercadorias. Mas esta tendência constante ao equilíbrio, das várias esferas da produção, é exercida, apenas na forma de uma reação contra a constante perturbação desse equilíbrio.

Assumo eu daqui em diante. Entendo que se a perturbação do equilíbrio é contínua, obviamente também sua recomposição também é. Houve construção e, como se diz modernamente, desconstrução do equilíbrio num processo interminável de busca e rejeição: desequilíbrio gera equilíbrio que gera desequilíbrio que gera equilíbrio, até o fim dos tempos capitalistas.

DdAB

11 dezembro, 2021

Os Milagres da Mão

 



Esta postagem está levando jeito de enturmada nas magias do Natal. Já na linha das promessas de amor e paz para aquele momento dos brindes familiares, falando-se em juras de amor e calando-se nos propósitos de vingança. Ora, não foi George J. Stigler que falou que a família é aquele combinado de amor, conveniência e frustração? Foi.

E também foi que sempre ouvi falar no escritor italiano Giovanni Papini* e especificamente o livro "Gog". Pois na pandemia cheguei a ele, for the first time, e estou lendo-o. Já li o terço (epa, novamente insinuações de reza e votos de amor...) inicial, que muito me fez pensar. Trata-se de pseudo-crônicas/contos cheios de citações de cidades, situações, livros, autores, pintores, um mundo cheio de mundos. 

Pela aritmética, lendo uma página de cada vez, cheguei à 47. Nela, Papini fala, pela boca de Gog, em "Thormon, o soteriólogo". E o narrador (Gog) explica que soteriólogo é o pinta que estuda "a ciência das libertações". A propósito, o amigo de um amigo disse que tinha apenas duas libertações em vista para 2022: "da caña e da muié". Nada comentei, pois estava ocupado em baixar o nível de meu próprio copo da primeira.

Vencida a página 47, aquele rigor matemático levou-me à página 48, que cito verbatim:

[..] Muitos de nossos semelhantes sofrem a escravidão da fome e do trabalho, mas pelo menos são homens. Podem falar, amar e sobretudo possuem as mãos, estes instrumentos milagrosos que nenhuma máquina conseguirá suplantar.

Primeiro: amei ouvi-lo falar em "escravidão [...] do trabalho". Quem me lê amiudadamente sabe que odeio a expressão "gerar emprego e renda". Entendo que a sociedade gosta de renda e de lazer. E que o capitalismo dá renda e desemprego tecnológico. Esta ociosidade de homens, mas não de máquinas, deveria servir para reduzir a jornada de  trabalho da moçada. Mas tem mais.

Sua definição de "mãos" é das antigas. O livro é de 1931 e já se sabia da existência e possibilidade da produção de máquinas de calcular analógicas. No outro dia, na festa de aniversário de um amigo, a mãe dele levou para a mesa um bolo decorado com tantos confeitos que achei-me satisfeito ao olhar, mas rococós e outras florzinhas e rosáceas e o amigo exclamou: "estas florzinhas e rosáceas imitam a mão humana de forma inimitável." Ou seja, instrumento 1 x 0 mão.

Sou do time daqueles que consideram que, no futuro, todas as necessidades vitais do ser humano serão atendidas por máquinas. E hoje temos clara noção do que isto quex dizer, isto é, aquele x cujas demais letras e ele x foram sublinhados em vermelho, quer dizer, foi corrigido pelo cérebro da máquina que me permite escrever o que agora digito.

DdAB

* Não confundir com Giovanni Arpini, o cara do livro que referi aqui

P.S. Avancei mais um tanto no livro de Giovanni Papini, chegando a um capítulo intitulado "Visita a Lênin". Achei uma vergonha, uma irresponsabilidade apenas compartilhada por intelectuais de direita sem noção. Não tivesse Papini mudado do materialismo para o idealismo e, politicamente, chegando a apoiar o fascismo, eu até diria que aquilo era uma crítica sibilina aos detratores de Lênin.

05 dezembro, 2021

Um Adendo Totalmente Filosófico

 


Sempre que vou falar em filosofia, já começo avisando que, embora seja um Philosophy Doctor, tenho apenas conhecimentos de nível introdutório do tema. Talvez em breve faça exame (auto-teste) para ser promovido ao nível intermediário, pois já contei mais de 100 livros emprestados (e não devolvidos...), presenteados, comprados ou roubados. Quando chegar à leitura do milésimo (que ainda vou tomar emprestado, presenteado, comprado ou roubado, aí vou passar a declarar-me um doutor em introdução à filosofia. A prova que o tema carrega o maior interesse de minha parte é esta postagem que se alcança ao clicar aqui.

No link que deixei ali, tá na cara que estamos falando da Stanford Encyclopedia of Philosophy.

Aqui temos 52 entradas em que se dividem os verbetes (verbetões, na verdade) da enciclopédia que acabo de nominar. Ler tudo isso estará dando certamente o conhecimento de um curso de introdução à filosofia de caráter avançado:

17TH CENTURY PHILOSOPHY

18TH CENTURY PHILOSOPHY

19TH CENTURY PHILOSOPHY

20TH CENTURY PHILOSOPHY

AESTHETICS

AFRICAN AND AFRICAN-AMERICAN PHILOSOPHY

ANCIENT PHILOSOPHY

APPLIED ETHICS

ARABIC AND ISLAMIC PHILOSOPHY

ARISTOTLE

BIOMEDICAL ETHICS

CHINESE PHILOSOPHY

EPISTEMOLOGY

ETHICS

ETHICS AND INFORMATION TECHNOLOGY

FEMINISM

FORMAL EPISTEMOLOGY

HISTORY OF ETHICS

HISTORY OF LOGIC

INDIAN AND TIBETAN PHILOSOPHY

JAPANESE PHILOSOPHY

JUDAIC PHILOSOPHY

KANT

KOREAN PHILOSOPHY

LATIN AMERICAN AND IBERIAN PHILOSOPHY

LOGIC

LOGIC AND LANGUAGE

LOGIC, COMPUTATION, AND AGENCY

MATHEMATICAL LOGIC

MEDIEVAL PHILOSOPHY

METAETHICS

METAPHYSICS

NORMATIVE ETHICS

PHILOSOPHICAL LOGIC

PHILOSOPHY OF ACTION

PHILOSOPHY OF BIOLOGY

PHILOSOPHY OF COGNITIVE SCIENCE

PHILOSOPHY OF LANGUAGE

PHILOSOPHY OF LAW

PHILOSOPHY OF LOGIC

PHILOSOPHY OF MATHEMATICS

PHILOSOPHY OF MIND

PHILOSOPHY OF PHYSICS

PHILOSOPHY OF RELIGION

PHILOSOPHY OF SCIENCE

PHILOSOPHY OF SOCIAL SCIENCE

PLATO

QUANTUM MECHANICS

RENAISSANCE AND 16TH CENTURY PHILOSOPHY

SOCIAL AND POLITICAL PHILOSOPHY

SPACETIME

WOMEN IN THE HISTORY OF PHILOSOPHY


Quando eu terminar de ler o 52o. item, não necessariamente na ordem alfabética, avisarei aqui mesmo.

DdAB