27 agosto, 2026

Velhice e a Ilusão da "Melhor Idade"


Meu título para a postagem de hoje mostra má vontade quanto a esse clichê que atribui a alguns probleminhas trazidos pelo passar do tempo. Por exemplo:

Alergias. Arteriosclerose. Artrites, Artroses. Acidente vascular cerebral. Catarata. Colesterol. Diabetes. Distúrbios neurovegetativos. Diverticulose. Dor ciática. Esteatose. Gastrite. Glaucoma. Hemorroidas. Infarto. Joanetes. Mal de Alzheimer. Mal de Parkinson. Obesidade. Osteopenia, Osteoporose. Perda de memória. Pressão alta. Queda do cabelo. Queda do limiar da dor. Retração gengival e, ergo, cárie radicular. Surdez. Unhas quebradiças. Unheiro. Varizes.

É pouco? Claro que crianças também podem ter das alergias às varizes, mas a maior prevalência é mesmo da velharada. Para iluminar ainda mais o caminho da desmistificação da melhor idade, decidi transcrever o artigo que segue.

O PESO DE VIVER MUITO. JÁ FEZ O SEU DEVER?

Estamos comemorando a longevidade sem perguntar quem vai pagar a conta dela.

Por Kika Gama Lobo 

Veja Rio

 18 ago 2026

Há uma nova religião circulando por aí: a longevidade.

Vivemos fascinados pela ideia de chegar aos 90, aos 100, aos 110. Celebramos a nova régua do tempo como quem descobre uma terra prometida. Nas redes sociais, envelhecer virou quase um privilégio estético: cabelos brancos charmosos, corpos sarados, viagens, vinhos, sexo, pilates, skincare, trilhas, empreendedorismo depois dos 60 e aquela frase perigosíssima: a idade está apenas na cabeça. 

Não. A idade também está na conta bancária. No plano de saúde. Na solidão de uma terça-feira à noite. Na memória que falha. Na filha que mora em outro país. No filho que trabalha 12 horas por dia e não consegue cuidar de ninguém. No cuidador que custa uma fortuna. No aluguel que sobe. No remédio que não cabe no orçamento.

Precisamos falar do peso de viver muito.

Porque viver muito é uma conquista extraordinária — mas pode também ser uma operação logística, financeira, emocional e familiar de proporções gigantescas.

A medicina ampliou o prazo de validade. A sociedade, porém, ainda não aprendeu a financiar, cuidar e acolher esse novo tempo.

Estamos comemorando a longevidade sem perguntar quem vai pagar a conta 

dela.

E não estou falando apenas de dinheiro. 

Estou falando de planejamento.

Quem pretende viver até os 90 precisa começar a pensar nisso muito antes dos 70. Precisa construir patrimônio, cuidar do corpo, cuidar da cabeça, cultivar amizades, aprender a pedir ajuda, organizar documentos, discutir herança, pensar em moradia, entender como funcionará seu cuidado futuro e, sobretudo, construir uma rede.

Porque ninguém envelhece sozinho. 

Mesmo quando mora sozinho.

A grande mentira contemporânea é essa fantasia de independência absoluta. Como se envelhecer bem significasse não precisar de ninguém. Como se pedir ajuda fosse fracasso.

Como se uma mulher de 82 anos pudesse resolver tudo pelo celular, marcar consulta pelo aplicativo, autorizar procedimento por biometria, conversar com robô de atendimento e ainda sorrir para a câmera  dizendo que está “vivendo sua melhor fase”.

Estamos criando uma geração de longevos sem rede. 

Filhos moram longe. Famílias diminuíram. Casamentos terminam. Amigos morrem. As pessoas mudam de cidade, de país, de continente. A vida profissional exige mobilidade. A economia exige produtividade. E o cuidado — esse trabalho invisível que durante séculos foi empurrado para as mulheres da família — ficou caro.

Muito caro.

A chamada economia do cuidado está se transformando em um dos grandes 

desafios deste século. Cuidador, enfermagem, residência assistida, fisioterapia, acompanhamento médico, alimentação adequada, transporte, adaptação da casa. Tudo custa dinheiro. 

E quem não tem?

Quem não construiu uma reserva?

Quem depende exclusivamente de um benefício previdenciário?

Quem pagou plano de saúde durante décadas e agora descobre que o preço ficou quase incompatível com sua renda?

Quem tem 78 anos e uma filha em Lisboa?

Quem tem 91 e nenhum filho?

A longevidade não é democrática.

E essa talvez seja uma das frases mais importantes que precisamos dizer neste momento.

Não existe um único envelhecimento.

Existe o envelhecimento de quem tem dinheiro e o de quem não tem. O de quem mora perto dos filhos e o de quem mora sozinho. O de quem tem  plano de saúde e o de quem depende exclusivamente do SUS. O de quem envelhece com amigos, amor e propósito e o de quem envelhece empilhando perdas.

Na internet, entretanto, parece que todos envelhecemos iguais.

Uma espécie de Disney grisalha.

Todo mundo ativo. Todo mundo desejável. Todo mundo viajando. Todo mundo fazendo musculação. Todo mundo começando uma segunda carreira. Todo mundo sexualmente potente, emocionalmente resolvido e financeiramente organizado.

É bonito.

É inspirador.

E é profundamente insuficiente.

Porque existe uma indústria poderosa vendendo a ideia de que envelhecer bem é uma questão de atitude. Tome colágeno. Faça exercício. Medite. Coma proteína. Tenha propósito. Faça terapia. Viaje. Ame. Dance.

Ótimo.

Mas quem paga?

Quem prepara a comida?

Quem leva ao hospital?

Quem fica quando a autonomia começa a escorrer pelas frestas?

A romantização da velhice pode ser tão cruel quanto o próprio preconceito contra os velhos.

Porque ela transforma uma questão coletiva em responsabilidade individual.

Se você envelhecer mal, a culpa será sua.

Não se cuidou.

Não guardou dinheiro.

Não fez terapia.

Não se exercitou.

Não teve propósito.

Ora, façam-me o favor.

É claro que escolhas individuais importam. Autocuidado importa. Saúde mental importa. Educação financeira importa. Resiliência importa.

Mas sorte também  importa.

Genética importa.

Classe social importa. 

Acesso à saúde importa.

Políticas públicas importam.

O problema é que não estamos preparados para essa vida.

Precisamos urgentemente de uma nova cartilha do bem viver. E ela deveria começar na adolescência.

Não para ensinar adolescentes a “envelhecer”, mas para ensinar que o tempo tem consequências.

Educação financeira deveria falar de longevidade.

Educação emocional deveria falar de perdas, solidão e dependência.

A escola deveria discutir cuidado.

A sociedade deveria discutir moradia para idosos.

As cidades deveriam ser pensadas para quem tem mobilidade reduzida.

O mercado de trabalho deveria considerar carreiras mais longas.

O sistema de saúde deveria se preparar para uma população que viverá décadas depois da aposentadoria.

E as famílias deveriam conversar sobre  dinheiro, cuidado, herança, moradia e decisões de fim de vida antes da emergência.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: “Como viver mais?”

Essa pergunta já está velha.

A pergunta que precisamos fazer agora é:

“Como vamos sustentar os anos que conquistamos?”

Porque chegar aos 100 pode ser maravilhoso.

Mas chegar aos 100 sem dinheiro, sem vínculos, sem assistência, sem saúde mental e sem uma rede de cuidado pode transformar o tão celebrado presente da longevidade em uma longa travessia de abandono.

Não quero uma sociedade obcecada por acrescentar anos à vida.

Quero uma sociedade preparada para sustentar a vida que esses anos acrescentaram.

Até quando vamos romantizar envelhecer sem discutir o preço de continuar vivo?

Porque viver muito é maravilhoso.

Desde que a gente consiga viver — e não apenas durar.

Retomo a palavra: tem gente que pensa que o INSS deve dar lucro. Já eu penso que o Tesouro Nacional é que deve financiar a renda básica universal em valor que permita ao recebedor financiar uma decente e, com essa renda, garantir um bom padrão de vida para os velhinhos que gastaram tudo o que ganharam em bebida ou por qualquer outro motivo.

P,S, Imagem: as seis fases da vida: Wikipedia.

22 agosto, 2026

Sobre Senhores e Servos

 


Tenho presente que a revista Cláudia Responde, à p.3, disse que Alexandre Dumas Filho disse:

“Não estimeis o dinheiro nem mais nem menos do que ele vale: é um bom servo mas um péssimo amo.”

E eu tinha ouvido que esta frase era de Raúl Prebish com relação ao mercado: localizar “dinheiro” e substituir por “mercado”.

“Não estimeis o mercado nem mais nem menos do que ele vale: é um bom servo mas um péssimo amo.” 

Ou seja, uma substituição. Mercado e dinheiro não são a mesma coisa; se o fossem, não precisaríamos ter feito a substituição. Mas todas as sociedades monetárias conhecidas têm como base a troca, ou seja, de alguma forma, descobriram alguma mercadoria que assumiu o papel de unidade de conta.

Quem terá sido o primeiro a articular estas frases, pois já as ouvi:

Ptolomeu: “O Sol é um bom servo mas um péssimo senhor”

Boiadeiro Taurino: “O relho é um ótimo servo mas um péssimo senhor”

Pedreiro que bebe: “O fio de prumo é um ótimo servo, mas um péssimo senhor.”

Zagueiro de futebol: “O gol é um ótimo servo mas um péssimo senhor”

Goleiro do mesmo esporte: "O gol é um ótimo senhor mas um péssimo servo"

Doutor Taurino : "O bisturi é um ótimo servo, mas um péssimo senhor".

Professor: O giz é um ótimo servo, mas um péssimo senhor".

Açougueiro: "A faca é um ótimo servo, mas um péssimo senhor."

Poeta: "A rima é um ótimo servo, mas um péssimo senhor."

DdAB

Imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Dumas_fils. 

12 agosto, 2026

Parabéns a Você: em tupi-guarani

 


Meu amigo Gemini, a pedido, informou que o tradicional (vindo dos EUA) se desenvolve assim:

Melodia TradicionalVerso em GuaraniComo cantar (Divisão rítmica)
Happy birthday to you...Terevy'áitéko árapeTe-re-vy-’á-i-té-ko á-ra-pe...
Happy birthday to you...Nde aramboty árapeNde a-ram-bo-ty á-ra-pe...
Happy birthday, dear [Name]...Vy'apavẽ ndéve guarãVy-’a-pa-vẽ ndé-ve gua-rã...
Happy birthday to you!Terevy'áité rendápe!Te-re-vy-’á-i-té ren-dá-pe!
Nâo digo que seja fácil, mas a vida na selva, bem sabemos, nunca foi moleza!

E os gaúchos inventaram uma alternativa que vem fazendo sucesso:

Parabéns, parabéns, saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade!
Que o patrão velho te conceda
Em sua benevolência
Muitas e muitas campereadas
No potreiro da existência!
E unidos nesse afeto
Te saudamos neste dia
E para que siga a festança
Repetimos com alegria!

DdAB
Imagem da Wikipedia.

23 julho, 2026

Graciliano e a Busca de Renda (rent seeking)



 
Basicamente, desde que a ciência econômica se consolidou, a ótica da renda na mensuração do valor adicionado pode ser resumida (de forma simplificada) por:

Y = S + L

onde Y é a renda total gerada, S são os salários pagos aos trabalhadores e L é o excedente operacional (lucros) que resta aos capitalistas depois de pagos todos os custos de produção.

Esse lucro (L) já é o montante que remunera o capital empregado. Dele saem o pagamento de juros (quando se toma dinheiro emprestado) e o pagamento de aluguéis (pelo uso de terras ou outros ativos físicos). Ou seja, juros e aluguéis não se somam ao lucro como se fossem novas fontes de renda; eles são, na verdade, fatias do próprio lucro que são transferidas para quem detém o capital financeiro ou a propriedade fundiária.

A encrenca começa justamente aí, no aluguel. Na visão de David Ricardo (1772-1823), a renda da terra (o aluguel) não é um prêmio pela produtividade do proprietário, mas sim a apropriação de uma parcela do excedente gerado pela maior fertilidade de algumas terras em relação às piores. Como o preço dos grãos é definido pela terra menos produtiva, as terras melhores produzem com um custo menor e geram um excedente – que é inteiramente capturado pelo proprietário na forma de aluguel. É a chamada renda diferencial, um prêmio pago ao rentista (aquele que não trabalha, mas vive do rendimento da propriedade) sem que ele tenha contribuído com esforço ou capital para a colheita.

Essa forma de apropriação da riqueza alheia – viver do simples fato de possuir algo – aproxima-se, em espírito, do que hoje chamamos de rent seeking, embora, em sentido técnico, o termo moderno designe a busca de privilégios artificiais por meio do Estado. O que importa, aqui, é o cerne moral: a renda que flui sem contrapartida produtiva, como um tributo cobrado sobre o trabalho e o risco dos outros.


No trecho que reproduzo do segundo volume das "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos, na página 505:

   Afinal a virtude me escapava. Quem me provava que os indivíduos supressos pelo sírio faziam falta num mundo cheio de excrescências? Talvez não fizessem. E era-me indifferente estar a propriedade aqui ou ali. Não aprovei as aventuras dde Gaúcho, meu amigo na Colônia Correcional; não as aprovei por serem perigosas. Gaúcho não prodduzia riqueza. Muitos não a produzem, e contuddo acham maneira de apropriar-se dela sem arriscar-se. Gaúcho e Paulo Turco haviam pelo menos revelado coragem. E em situação difícil achavam maneira e praticar ações generosas, incompreensíveis.

Despeço-me.
DdAB
Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Graciliano_Ramos

22 julho, 2026

Penteados (alguns ousados)

 

Em 79 anos de vida, já observei muito corte de cabelo, mas nada igual. Fico pensando numa baita fatia de melão.

DdAB

Fonte: Zero Hora, Caderno Donna, quinta-feira, 16 de julho de 2026.

27 maio, 2026

Retórica de Fim de Outono: o que não quero dizer sobre a eficiência



Lendo comentadores de Max Weber nestes dias finais de outono, decidi que não vou falar sobre as importantes contribuições do autor para o esclarecimento do papel da racionalidade no estudo científico, e menos ainda sobre sua — um tanto mal interpretada — discussão acerca da separação entre proposições positivas e normativas.

Nem quero falar sobre os modernos conceitos de racionalidade, que acrescentam à tradicional visão instrumental as definições menos rígidas de racionalidade procedural e expressiva. Tampouco insistirei na relevância da racionalidade instrumental para a avaliação positiva da eficiência de um sistema econômico, de uma indústria ou de uma firma. Afinal, todos sabemos, a partir de nossos agora amados manuais de microeconomia, que o conceito de eficiência comporta três pessoas em uma única entidade divina: a eficiência produtiva, a eficiência alocativa e a eficiência distributiva.

Já que estou dizendo o que não quero, acrescento que tampouco vou falar disciplina do curso de graduação versando sobre contabilidade social, mas sigo pensando na de auditoria social. Uma auditoria em que fiscais do imposto de renda, zelosos de seu dever, trancafiariam no xilindró todos os espertalhões, identificados pelo simples fato de viverem muito acima dos rendimentos que declaram formalmente ao fisco.

Deixo para surpreender meus amigos mais diletos ao bradar que passei a seguir aqueles economistas que consideram o conceito de marginalismo uma das mais bravas conquistas do intelecto humano. O próprio Joseph Schumpeter herdou dos economistas neoclássicos as noções de evolução e mudança incremental, ferramentas encontradiças em qualquer esquina teórica de diversas ciências.

E por que digo isto? É que me parece óbvio que muitos economistas incidem em grosseiro erro analítico ao desconsiderar em sua modelagem do capitalismo o conceito de falhas de mercado. E que dizer de falhas ainda mais sutis? Refiro-me precisamente àquelas que ocorrem no exato instante em que uma firma apresenta lucros extraordinários. Como sabemos, lucro extraordinário significa que algum fator está recebendo acima de seu custo de oportunidade. Pelo conceito de sociedade justa de John Rawls (a desigualdade só será tolerada se beneficiar os menos aquinhoados), isso deveria ser sumariamente corrigido pela auditoria social através da cobrança do imposto de renda.

Em outras palavras: se o lucro extraordinário é indesejável socialmente, a sociedade deve puni-lo através de sua ação institucional — o governo — ou por meio de grupos organizados, como a imaginária Associação Brasileira de Caçadores de Sonegadores de Impostos, da qual o Dr. Assis de Assis diz-se presidente. Uma óbvia impostura, pois ele não consegue presidir sequer a própria sala de aula em que ministra o curso de Microeconomia II, a julgar pela bagunça metodológica que ali impera.

Por outro lado, quando há prejuízo, obviamente tampouco há eficiência alocativa, mas aí o mercado resolve por conta própria. Não se deve conceder subsídios, tampouco punir com impostos sobre o patrimônio. O prejuízo, por si só, já funciona como um incentivo (negativo) para os trabalhadores refletirem sobre as vicissitudes a que sua negligência produtiva tem levado os pobres capitalistas a passar. O mecanismo de mercado corrige o erro de quem gera prejuízo: a firma não acumula capital, perde a energia e quebra.

Resta o caso dos furtos mais sutis, daqueles que a sociedade não se dispõe a gastar recursos escassos para policiar e capturar cada infrator. Para esses, a engenhosidade institucional criou o imposto de transmissão de bens — seja inter-vivos ou, no limite metafísico, entre vivos e mortos. Afinal, para certas correntes da burocracia, nem a passagem para o outro plano desobriga o contribuinte de prestar contas ao Leão.

No fim das contas, a grande lição dessa nossa heterodoxia de fim de outono é simples: o mercado resolve o que quer, o governo pune o que pode, e a burocracia cobra imposto até de quem já mudou de plano geográfico. Diante de tamanha perfeição alocativa, só nos resta assinar a missiva, arrumar a bagunça da sala, e torcer para que a auditoria social do Terceiro Planeta de Sol não decida auditar também os nossos sonhos de liberdade.

 DdAB

P.S. Imagem: livro de Jacqueline Angélica Hernandez Haffner. Um péssimo livro de microeconomia.

19 maio, 2026

Caso um tanto Poético sobre uma Vaca



Quatro gurias de Jaguary, todas estudantes de psicologia na PUCRS, tomavam sua cervejinha no mesmo bar que frequento. Eu comemorava a ingesta de um pastel muito maneiro e elas festejavam o julgamento bem-sucedido de seus TCCs. Havia algo de solene entre elas, por volta das 23h00, quando se retiraram, familiarmente tratando-se de "doutoras". Involuntariamente (ou foi de propósito para capturar minha atenção?), uma delas, que pareceu-me chamar-se Ariadne, deixou cair um pedacinho de guardanapo em que se lia: 

   Prá que rezar, Elói, Elói
   Se a vaca funga na cacunda da pantera.

Eu, que tomava meu traçado de trigo velho com um chopps, mas não conseguia me concentrar na conversa da happy hour do pessoal da firma, pensava filosoficamente sobre como é que uma vaca pôde alçar-se à cacunda de uma pantera. Não atinei com respostas adequadas, pois imaginei:

a) um ventão daqueles que faz a vaca ir-se aos ares a aterrizar justo na tal cacunda,
b) um ventão daqueles que faz a pantera sucumbir dentro de um buraco à beira do qual, alegremente, a vaca pastava. Esta, assustada, pensou em fugir pela direita, mas enganou-se e pulou para a esquerda precisamente sobre o lombo da pantera,
c) um ente espacial, só por farra, joga a pantera sob os pés da vaca que, assustada, revoluteia e posta-se precisamente sobre a cacunda do carnívoro,
d) numa sociedade tecnologicamente avançada do futuro, ambas, vaca e pantera, são desmaterializadas de seus patamares num museu e lançadas a 250 mil quilômetros de distância, rematerializando-as na posição que estamos examinando em holograma e
e) nessa sociedade, um guri ganhou de aniversário de 80 anos uma pantera de plástico terconite e inadvertidamente fê-la (!!!) alçar-se sob as quatro patas da ruminante, a qual, surpresa, pôs-se a fungar selvagemente.

Mas, ainda mais ousado, fiquei imaginando se aquele dodecassílabo estaria entrando em um poema de fundo psicológico.

DdAB
Imagem. YouTube, parecendo-me ser um galo na cacunda de uma vaca.