Tudo começou com um encontrão. Encontrei a obra de Graciliano Ramos aos 20 anos de idade. Foi um encontro maiúsculo. Nunca mais o perdi. Às vezes ele toma o primeiríssimo lugar em minhas leituras e releituras, eis que também sou releitor sistemático de Machado de Assis e Érico Veríssimo. Estou na fase gracilianesca, estou lendo Vidas secas, edição Record, 2006 (99a. edição). E estou peregrinando para saber se ele dá explicações sobre os 12 contos (dos 13 do livro) que apareceram, a exemplo de Baleia. Sobre Baleia, ele diz numa carta a sua segunda esposa Heloísa. Como sabemos, é um hábito nordestino dar o nome de peixes à cachorrada, na esperança de que não sejam picados por cobra. Sabemos? Eu achava saber, mas fui conferir com o chatbot Gemini:
Eu: Olá. Você atesta a seguinte afirmação?
Gemini: Como sabemos, é um hábito nordestino dar o nome de peixes à cachorrada, na esperança de que não sejam picados por cobra.
Essa é uma afirmação fascinante e carrega todo o peso da cultura popular que Graciliano Ramos tão bem conhecia. No entanto, para "atestá-la" com precisão, precisamos separar a crença popular do hábito linguístico.
A Cachorrada e os Nomes de Peixe
Quanto à sua afirmação sobre os nomes de cachorros: sim, esse é um hábito folclórico e cultural muito enraizado no sertão nordestino.
Graciliano Ramos imortalizou isso em sua obra-prima, Vidas Secas. O senhor deve se lembrar que a cachorra da família de Fabiano chama-se Baleia. Embora baleia seja um mamífero, no imaginário popular do sertanejo de antigamente, tudo o que vinha do mar era "peixe" ou criatura aquática.
Por que dar nomes de peixes (ou seres aquáticos) aos cães?
A Simpatia (Magia Simpática):
Existe, de fato, a superstição de que dar nome de peixe ao cachorro o protege contra picadas de cobra. A lógica da "simpatia" é simples: as cobras não picam peixes (que vivem na água), portanto, um cachorro com nome de peixe estaria "disfarçado" ou protegido por essa natureza aquática.
Exemplos Comuns: Além de Baleia, é muito comum encontrar no sertão cachorros chamados Dourado, Piau, Traíra ou Tubarão.
A Resistência à Seca:
Há também uma interpretação poética: em uma terra onde a água é escassa, dar o nome de um animal aquático ao seu companheiro mais fiel é uma forma de invocar a sobrevivência e a abundância de água.
O "Atestado"
Eu atesto a afirmação como uma verdade antropológica e literária. É uma estratégia de sobrevivência mágica em um ambiente onde o soro antiofídico raramente chegava a tempo, mas a fé na palavra e no nome era absoluta.
Bem. ("Bem" é bem gracilianesco). Um dia vou fazer um quadro contando quantas vezes ele insere a palavra "bem" em cada livro. E agora vou ao que me trouxe aqui, embora bem soubesse que um assunto puxa outro.
Quero agora reproduzir a carta em que Graciliano apresenta Baleia, conforme o livro:
MARQUES, Ivan (2017) Para amar Graciliano; como descobrir e apreciar os aspectos mais inovadores de sua obra. Barueri: Faro. Página 60
Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram venidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, aranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim, nasceram Fabiano, a mulher, os dois ilhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.
Não contente...
Não contente com a versão do livro de Marques, fui à edição 99 das próprias vidas secas, percebendo diferenças na versão da carta a Heloísa Ramos, née Medeiros:
Escrevi um conto sobre a morte de uma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acorddar num mundo cheio de preás. Exatamente o que toddos nós desejamos (...). No funo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história ffeita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata dde bípeddes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas esstuar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande quanto sondar o espírito dum literato alagoano. Referino-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exgterior revela-se a minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro. Enfim parece que o conto está bom, você há de vê-lo qualquer dia no jornal.
Agora pedi ao Gemini para fundir essas duas histórias e ele me forneceu o que segue, preenchendo aquele claro [...] do texto do livro que ele enviou e eu deixei em negrito mesmo:
Em 1937, escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A nossa diferença é que o preá do bicho é o preá mesmo e os nossos preás são variados. No fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás.
Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim, nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.
Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata de bípedes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas estudar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande quanto sondar o espírito dum literato alagoano. Referindo-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exterior revela-se à minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro. Enfim, parece que o conto está bom, você há de vê-lo qualquer dia no jornal.
F i m
DdAB
Aqui o texto da imagem que nos encima em Word:
Vidas secas. Dados editoriais.
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Ordem no livro (1938) |
Data de composição (1937) |
Data de publicação na imprensa
(1937-1938) |
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1. Mudança |
16 de julho |
19 de dezembro de 1937 (O Jornal) |
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2. Fabiano |
22 de agosto |
29 de janeiro de 1938 (O Cruzeiro) |
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3. Cadeia |
21 de junho |
5 de dezembro de 1937 (D. de
Notícias) |
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4. Sinhá Vitória |
18 de junho |
janeiro de 1938 (Anuário Brasileiro
de Literatura) |
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5. O menino mais novo |
26 de junho |
23 de janeiro de 1938 (D. de
Notícias) |
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6. O menino mais velho |
8 de julho |
(não publicado) |
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7. Inverno |
14 de julho |
16 de março de 1938 (Folha de Minas) |
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8. Festa |
22 de julho |
abril de 1938 (Lanterna Verde) |
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9. Baleia |
4 de maio |
23 de maio de 1937 (O Jornal) |
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10. Contas |
29 de julho |
(não publicado) |
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11. O soldado amarelo |
6 de setembro |
(não publicado) |
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12. O mundo coberto de penas |
27 de agosto |
novembro de 1937 (Revista Acadêmica) |
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13. Fuga |
6 de outubro |
17 de abril de 1938 (D. de Notícias) |
Existem explicações similares para os outros contos?
Sobre Fabiano: Ele via o personagem como um ser "em formação", alguém que não conseguia atingir a plena humanidade pela falta da palavra. Em cartas, ele menciona a dificuldade de escrever diálogos para quem quase não fala.
Sobre a estrutura de "retalhos": Graciliano admitiu que o livro não nasceu como um plano arquitetônico, mas por necessidade econômica. Ele precisava vender contos para os jornais para sobreviver. Quando percebeu que os personagens tinham "fôlego", costurou-os. Ele chamava essa técnica de "arrumar narrações".

