terça-feira, 20 de outubro de 2020

Velhinhos Contra-Atacam



Começa que odeio aquela nova mudança ortográfica de 2009 que nem sei dizer se contra-atacar é contratacar, sei lá (o editor automático sublinhou este contratacar...). Mas minha audição ainda está ouro-e-fio, como se diz na fronteira com o Uruguay. À propos, esse reforma (é impossível ser imbecil o tempo inteiro...) voltou a inserir na língua brasileira o k, o w e o y. Ergo não é ilegal chamar o Uruguay de Uruguay.

Pois bem. Audição: no outro dia, ouvi num episódio da série "After Live" na TV uma enfermeira, falando em inglês, "Eles [nós, os oldies] nos ajudaram enquanto puderam. Agora chegou nossa vez."

Felizmente não tenho ouvidos de tuberculoso, o que me impediu de ouvir meus próprios soluços de emoção.

DdAB

P.S. O cachorro rosa entrou na dança, pois não consegui copiar uma imagem do filme. Devia ser o pessimismo do Tony. Assim, na cor rosa, faço uma homenagem às atividades que buscam homenagear as mulheres que venceram o câncer e falar de prevenção a outras.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Bolsonaro na Zero Hora de Hoje


Querido diário: fazia tempo que não te chamava de querido diário. Mas é que hoje, ao ler o jornal Zero Hora de manhã, voltei a pensar tratar-se de meu sucedâneo Zerro Herra. Trata-se de uma notícia sobre a mais alta corte judiciária do país e a oportunidade que se abre para que o presidente Bolsonaro indique (e o senado aprove) o nome do ministro togado que sucederá o macróbio Celso de Mello. Este, segundo leio, aposenta-se no próximo dia 13. Então Bolsonaro está com toda corda. Diz a página 14 do primeiro caderno do jornal cujo nome correto deixo por conta do leitor decidir:

[Bolsonaro...] rebateu as críticas de apoiadores que vinham fazendo campanha contra o desembargador [Kassio Nunes]. Disse que busca um nome que seja 'leal às nossas causas' na Corte e ironizou:
-Vocês querem que eu troque pelo Sergio Moro?
-No ano passado todo, até mais ou menos abril deste ano, vocês queriam quem para o Supremo? Queriam Sergio Moro. E me ameaçavam: 'Se não for Sergio Moro para o Supremo, acabou!' - afirmou Bolsonaro.
-Agora vocês querem que eu troque o Kassio pelo Sergio Moro? E daí? Querem que eu faça o quê? Acham que ele vai ser ministro lá que vai ser leal às nossas causas?
[...]

Eu queria entrevistar pessoalmente milhões de brasileiras e brasileiros que tinham chiliques de tietagem ao ouvirem o nome de um ou outro. Pois Moro entrou numa fria. E Bolsonaro entrará para os livros de história do Brasil como um clown, um clown que faz mal. Um clown que só rivaliza em despreparo com seu próprio ministério. 

DdAB

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Curzio, Eco, Ryszard



Nesta postagem lembro meus dotes de leitor, muito antigos, já. E de comentador. Sobre minha condição de leitor, vou citar quatro testemunhos. O primeiro deles, e que motivou esta postagem, é

KAPUSCINSKI, Ryszard (1994) Imperium. São Paulo: Companhia das Letras.

Dele farei três citações e tecerei comentários, o terceiro destes preparando-nos para maiores associações, quando vou citar, do jeito que posso, Curzio Malaparte (seguindo Kapuscinski) e Umberto Eco, seguindo minha memória.
Então, Kapuscinski na página 121 dá algumas dicas sobre instituições, centrando sua reflexão no colapso da União Soviética:

Tudo era absolutamente subordinado [ao estado monopolista soviético], os outros interesses eram combatidos e eliminados de forma radical. E eis que o Estado monopolista desaparece de repente, se desagrega de modo irreversível. Imediatamente centenas de milhares de interesses econômicos diversos, maiores e menores, de grupos privados e nacionais erguem a cabeça, identificam-se, definem-se e reivindicam com firmeza seus direitos negados há tanto tempo. Evidentemente países democráticos também convivem com milhões de interesses distintos, mas suas contradições e conflitos são resolvidos ou atenuados por meio de experientes e experimentadas instituições públicas e estatais. Aqui, no entanto, tais instituições não existem (e tão logo não existirão). Como então resolver os naturais conflitos de interesses, já que não se pode mais apelar para o chicote nem para a deportação?

Claro que fiquei pensando no império brasileiro contemporâneo.  A incapacidade do sistema judiciário (do policial de rua (rua???) ao juiz de 'salário' milionário é patente quando vemos tantas situações de injustiça. Não falo apenas das liberdades pessoais, do morador da periferia, mas de todos, fazendo-se observar especialmente nos pequenos municípios. A palavra chave é a impunidade. E "tão logo não existirão" soluções para este problema. Se houvesse punição ao crime, os primeiros a serem abalados seriam precisamente os poderosos: judiciário e legislativo. E, naturalmente, os altos escalões também do executivo. Mas não fiquemos adstritos à esfera governamental, pois também no chamado setor empresarial há escalafobéticas fraudes. Concluo dizendo que também nas organizações não-governamentais a impunidade é a mãe do crime.

Mudo de assunto e falo da dupla nacionalidade, inspirando-me da página 128 deste livro de Kapuscinski. O autor está conversando com uma "mulher", cujo nome não saberemos, e que já lhe identificou um estado febril ao chegar em Baku, capital do Azerbaijão, localizada à beira do Mar (Lago) Cáspio. Imagino que a conversação está ocorrendo em russo, quando "a mulher" volta a falar:

Ela pergunta qual a minha nacionalidade.

No mundo todo, os camponeses iniciam uma conversa ponderando sobr a colheit, e os ingleses, trocando ideias sobre o tempo. Já no Império [isto é, na URSS], o primeiro passo para travar conhecimento é a apuração recíproca da nacionaliddade de cada um. Disso irá depender muita coisa.
Na maioria dos casos, os critérios são claros e legíveis. Este é russo, este cazaque, este tártaro, este uzbeque. Mas existe uma porcentagem grande de cidadãos desse país para os quais a forma de se identificarem é um problema sério, ou seja, não se sentem parte de nenhum povo. Eis o exemplo do meu amigo, Ruslan, engenheiro de Tcheliabinsk. O avô era russo, a avó georgiana. O filho do casal e pai de Ruslan, decidiu ser georgiano, mais tarde casou-se com uma tártara. Por amor à mãe, Ruslan se considera tártaro. No empo de estudante em Omks, Ruslan casou-se com uma colega do Uzbequistão. Têm agora um filho, Mutar. Qual a nacionalidade de Mutar?
Às vezes estas árvores genealógicas são ainda mais intricadas e complicadas, de modo que muitos não se sentem ligados a nenhuma nacionalidade - e o homo sovieticus. Ele não é fruto de um processo de conscientização ou desejo de expressar de uma determinada postura. Simplesmente, sua única identidade social é a cidadania do Estado soviético. Com a queda do Estado soviético, estas pessoas estão à procura de novas formas de identidade (isto é, aqueles que se preocupam com isto).

Já falei algumas vezes no lar, no bar, em outro lugar, que lamento contar apenas com duas nacionalidades neste planeta que por enquanto tem 200 países. Queria ser cidadão do mundo, com essas 198 que ainda me faltam. Mas penso na Comunidade Europeia, tão tristemente abalada com a saída do Reino Unido, ele que já não se integrara à moeda comum. Dizem que são conservadores. Tem gente que pensa diferente, mas -da mesma forma que o desafortunado Brasil, angariando 57 milhões de votos para um projeto escalafobético- o que interessa mesmo, sob o ponto de vista democrático, é qual coalizão partidária faz a maioria para controlar o executivo e, naturalmente, o congresso. Claro que um cidadão europeu pode bem ter um avô marroquino, a avó indonésia, outra avó boliviana e um avô final do quarteto avoengo também estrangeiro, digamos, de Jaguary... E ainda mais, o pai neo-zelandês e a mãe, escocesa. Então por que este cidadão não pode ter essas seis nacionalidades? Mesmo no Brasil, depois da constituição da república de 1988, ele teria direito a apenas aquela da Nova Zelândia e à da Escócia, o que o credenciaria à cidadania europeia. 
Claro que, na finada União Soviética, o chamado "problema das nacionalidades", acomodado exemplarmente por José Estaline, torna-se mais momentoso, pois são dezenas de repúblicas e centenas ou até milhares de idiomas. Seja como for, quero minhas 198 faltantes para aquele mundo em que 

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion, too

E aí a religião já entrou de barato... Aliás, logicamente falando, se não houver "countries", tampouco haverá nacionalidades. E todo dinheiro que hoje se gasta na produção e consumo (e uso!) de armamentos poderá ser dedicado à fabricação e desenfreado consumo de bebida! Pois bem. Vamos adiante. Vem mais uma citação de Ryszard Kapuscinski, nosso polaco preferido. Agora vamos ao mundo literário. Citação de citação de citação: Kapuscinski citando o xará e "historiador americano Richard Pipes" que cita o italiano Curzio Malaparte que evocou-me Umberto Eco. Vejamos. De Pipes não li nada, a não ser fumar cachimbo há muitos anos (hehehe). De Curzio Malaparte, li dois romances, até que poderia ser naquele tempo em que andei fumando cachimbo... Se os livros foram editados no Brasil, como o foram, em 1966, devo tê-los lido não adiante de, digamos, 1970. Ambos foram editados pela Civilização Brasileira, ambos com capas exemplares de Eugênio Hirsch, um genio da arte gráfica. O primeiro foi "A pele" (1949) e o outro foi "Kaputt" (1944), que até imagino terá inspirado Moacyr Scliar e outros a escrever uma coletânea de título "Pega pra Kaputt", na linha daquele "pega pra capar", das criações caseiras de suínos dos tempos ainda mais longínquos que os referidos como leituras e cachimbadas talvez inspiradas em Mário da Silva Brito.

Pelo que andei lendo na Wikipedia, Malaparte foi fascista e comunista e católico, uma vez a cada tempo e levando cadeia correspondentemente aos humores da época, nosso conhecido Zeitgeist. Lá na Wikipedia infiro que o texto que já vou citar vem do livro A revolução russa, de Malaparte (e não de Pipes, ou este fez outro livro com o mesmo nome). Mas não esqueçamos que estamos citando Pipes que fala em Malaparte:

Curzio Malaparte descreve a desorientação e o espanto do escritor inglês Israel Zangvill em visita à Itália no momento em que os fascistas tomavam o poder. Surpreso com a falta de barricadas, lutas de rua e cadáveres nas calçadas, Zangvill não queria acreditar estar testemunhando uma revolução. Na verdade, como afirma Malaparte, o traço característico da revolução contemporânea consiste na ocupação de pontos estratégicos, de forma sorrateira e sem derramamento de sangue, por grupos paramilitares bem treinado. O ataque é conduzido  com tal precisão cirúrgica que a sociedade nem se dá conta do que acontece a seu redor.

Claro que lembrei de Bolsonaro, seus 57 milhões de votos com todas aquelas fraudes e farsas que acompanharam as eleições de 2018, destacando-se o juiz Sérgio Moro, o velho Antônio Palocci e muita outra gente de estirpe golpista. E também lembrei daquela eleição em que foi eleito George Bush Fo. Parece que, graças ao fato de seu irmão ser governador da Flórida e ter enviesado as eleições, Al Gore poderia ter-se rebelado e anulado a eleição ou conseguindo nova rodada, mas ele nada fez. Entendi na época que ele preferiu ser cordato a ver os Estados Unidos envolvidos numa contenda sobre fundamentos de democracia.

Falta-me falar em Umberto Eco, autor que admiro tanto que pensei em eu próprio adotar o pseudônimo de Humberto Ecco, mas felizmente minha astróloga disse que isso daria azar e fiquei mesmo na minha. Em novembro de 1985, em outras palavras, 35 anos atrás, fiz uma negociação com a profa. Maria Lucrécia Calandro e tornei-me proprietário de

ECO, Umberto (1984) Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

Não faz muito tempo que, emocionado, sustentei que o livro "A ideia de justiça" de Amartya Sen teria sido o melhor livro que li em minha existência. Claro que é difícil dizer o primeirão, também o é dizer os 10 melhores, os 100, e assim por diante. O que quero dizer é que essa "Viagem na Irrealidade" é certamente um dos livros que me fez mudar de fase. E agora desejo apenas trazer uma curta passagem que evoquei com aquela viagem em torno de Curzio Malaparte. Vou citar o primeiro parágrafo do capítulo intitulado "Guerrilha Semiológica", localizado na página 165 do livro. No primeiro rodapé, diz-se que o texto foi uma comunicação em um congresso realizado em Nova York em 1967, quando eu ainda fazia vestibular para o curso de arquitetura. Pois vamos ao parágrafo que deve rimar com aquela ideia de que as revoluções modernas prescindem de "barricadas, lutas de rua e cadáveres nas calçadas". Essas revoluções de nosso tempo precisavam apenas de controlar os meios de comunicação social. Hoje em dia, tais meios são importantes, mas talvez, naquela linha de Steve Bannon, devam controlar, como na China, as redes sociais. Ok, ok, tudo menos "barricadas, lutas de rua e cadáveres nas calçadas". O parágrafo de Umberto Eco diz:

   Não muito tempo atrás, se quisessem tomar o poder político num país, era suficiente controlar o exército e a polícia. Hoje é somente nos países subdesenvolvidos que os generais fascistas, para dar um golpe de Estado, usam ainda os tanques. Basta que um paíse tenha alcançado um alto nível de industrialização para que o panorama mude completamente: no dia seguinte à queda de Krushev os diretores do Pravda e do Izvestria e das cadeias radiotelevisivas foram substituídos: nenhum movimento do exército. Hoje um país pertence a quem controla os meios de comunicação.

Claro que isto cobre golpes e contragolpes, como Krushev, Yeltsin e mesmo nossos parlapatões Bolsonaro e seu duplo Trump. E qual a conclusão? Parece que adivinhei, pois andei postando no Facebook de 29/set/2020 o seguinte mutatis mutandis:

"Tudo isto dá um desalento desalentador. Mas trago nas fímbrias do coração um otimismo associad à conclusão de meu livro cujo título será "O que fiz para salvar o mundo". Talvez seja melhor fazer apenas como subtítulo. E nas primeiras páginas, depois que o livro foi comprado, o leitor vai ler: "O que fiz para salvar o mundo não deu certo. Espero que este livro ajude meu querido leitor a fazer novas tentativas." Espero que as lições desta postagem, instituições, governo mundial (e a dupla nacionalidade, as ameaças à liberdade, ajudem ao leitor a fazer novas tentativas.

DdAB
P.S. A imagem é minha sentida homenagem ao gênio criativo de Quino, falecido no dia de ontem. 
P.S.S. E não falei em "conflito de baixa intensidade". Ver na Wikipedia.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Uma Fala Bolsonarista Descrita por Cristóvão Tezza

 Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico de São Pedro (RS)

(Escadaria do Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre, 

onde a professora Juçara deveria ser internada)


Falo mais sobre o livro de Cristóvão Tezza's "A tensão superficial do tempo". Um lindo e formalmente inovador romance do premiado lageano/curitibano. Estamos na sala dos professores do Cursinho Usina, do qual nosso herói, o professor de química Cândido, é docente e acionista. Há uma falação sobre política e impromptu ouve-se:

-E se [o bolsonarismo] der certo, professor [Mattos, que fazia uma análise da tragédia que é a civilização brasileira]? - e todos se voltaram à Juçara, que se aproximou com um sorriso irônico, cafezinho à mão, e uma tensão instantânea se instalou no silêncio. -Eu estava ouvindo a conversa sem querer. Desculpem, mas não resisto a meter minha colher. Eu trabalhei a vida inteira dando aula, tenho padrão do Estado, e nunca fiz greve. Só tinha vagabundo no sindicato. Trabalhar, que é bom, nada. Tudo gordo lá, mamando na teta do imposto sindical e mandando os otários para as barricadas. Na Federal não consegui entrar porque não tinha carteirinha de comunista. E se as tais moléculas culturais reorganizarem-se após a reforma da Previdência, o país voltar ao pleno emprego, todos os ladrões graúdos, o que inclui o seu ex-presidente presidiário, prosseguirem na cadeia graças ao ministro da Justiça, aos procuradores e à Polícia Federal, mesmo com este Supremo trabalhando contra, as ruas sendo varridas da violência, as pessoas de bem podendo caminhar nas calçadas de novo como antigamente, retomada do crescimento do PIB ano a ano, como era na suposta ditadura de que vocês reclamam tanto, valores religiosos sendo respeitados de fato, e não só no papel, assim como o direito à propriedade, o direito ao uso livre de armas (por que só os bandidos podem se armar, e nós não?), o fim do terrorismo das invasões de terras, porque sem a agricultura acaba o que sobrou do Brasil depois dos trinta anos de esquerda, o fim da mamata das ONGs que querem a Amazônia separada para eles, o espírito da Venezuela, de Cuba, da Coreia do Norte e do marxismo enfim eliminado do coitado do povo, a escola livre da doutrinação ideológica e do método Paulo Freire, a imprensa enfim dizendo a verdade em vez de só achar o lado ruim das coisas, a defesa da família normal sem essas deturpações globalistas que nem têm nada a ver com a nossa índole, e o combate ao assassinato de bebês pelos abortos clandestinos, os bons ideais cristãos dando um norte para o país? Será que exigir isso é demais? A simples decência das coisas. Há um ano eu não poderia dizer essas coisas aqui e em lugar nenhum; agora eu posso. Eu não estou fazendo uma caricatura, não me olhe com esse jeito debochado - milhões de pessoas dizem exatamente o que estou dizendo agora. Tem exageros aqui e ali, mas isso é café-pequeno. Ou vocês não tinham exagero nenhum, todo era uma maravilha e a atual maldade caiu do céu? Por que a Escola de Frankfurt, os utopistas de esquerda, por que eles saberiam o que é melhor para mim mais do que eu mesma? Sonhar com a minha liberdade é atraso? Isso é um retorno à Idade Média, professor? É isso que o senhor vai me dizer? [...]

Aquela sala virou, seguindo a narração já na página 184, um sepulcro: "Um silêncio brutal se instalou, como num jogo infantil de estátua, todos imóveis." E depois disto, ainda há algumas outras intervenções da professora Juçara, sempre defendendo o bolsonarismo. Mas esta aí só não foi do manifesto eleitoral do atual presidente da república, porque ele fugiu pela escadaria do hospital. O pior do bolsonarismo é que, naqueles 57 milhões de eleitores que o sagraram presidente no segundo turno da eleição de 2018, não há apenas imbecis. Mas claro que a professora fala como zumbi, com repetições ridículas, fora o que hoje, um ano depois da conversa de sala de professor, já tem coisa que obviamente não se sustenta em nenhum plano (moral, intelectual, jurídico, policial, etc., nenhum).

.1 "E se der certo, professor?

Tava na cara que era impossível dar certo. Como poderia dar certo com um trânsfuga da política partidária, a vida toda participando do chamado "baixo clero", e que hoje associa-se à chamada banda podre da política (o "centrão") para impedir a cassação de seu mandato?

.2 "Eu trabalhei a vida inteira dando aula, tenho padrão do Estado, e nunca fiz greve." 

Eu também trabalhei a vida inteira, 31 anos dela dando aula. Fiz greves aqui e ali e, aparentemente, todas as greves trouxeram vantagens pecuniárias e funcionais. Parece que só com greve para os professores alcançarem essas vantagens. Ela não entendeu.

.3 "Só tinha vagabundo no sindicato. Trabalhar, que é bom, nada. Tudo gordo lá, mamando na teta do imposto sindical e mandando os otários para as barricadas.

Seria um provincianismo curitibano falando? Aqui teve grandes políticos gerados na luta sindical. Na própria UFRGS dirigentes do proto-sindicato, tornaram-se diretores de faculdades.

.4 "Na Federal não consegui entrar porque não tinha carteirinha de comunista.

Eu tampouco tinha carteirinha de comunista, embora nunca tenha escondido ser "de esquerda". Entrei num departamento um tanto de direita e, naqueles meus 31 anos de trabalho na UFRGS, UFSC e PUCRS, vi os departamentos mudarem suas maiorias, privilegiando a visão de esquerda da própria vida universitária.

.5 "E se as tais moléculas culturais reorganizarem-se após a reforma da Previdência, o país voltar ao pleno emprego, todos os ladrões graúdos, o que inclui o seu ex-presidente presidiário, prosseguirem na cadeia graças ao ministro da Justiça, aos procuradores e à Polícia Federal, mesmo com este Supremo trabalhando contra, as ruas sendo varridas da violência, as pessoas de bem podendo caminhar nas calçadas de novo como antigamente [?]

A reforma da previdência foi uma farsa para cassar direitos da classe trabalhadora. Os "fat cats", como cúpulas militares, políticas, judiciárias e do próprio poder executivo mantiveram seus privilégios. Mas não sou contra privilégios, a não ser daqueles que ganham R$ 300 mil por mês por contagens estranhas de vantagens escandalosas. Pleno emprego? Os que pensam nesse jargão estão loucos, só pode. Nunca haverá pleno emprego, neste país de mais de 20 milhões de detentores de empregos precários. Quero dizer, nunca ocorrerá a criação de empregos decentes, pois a relação capital/produto para gerar um emprego decente é, digamos, indecentemente alta. Hoje o ex-presidente presidiário está prestes a ter suas sentenças cassadas, devido à sem-vergonhice que presidiu todo o inquérito da Lava-Jato, precisamente Sérgio Moro, que já não é mais ministro da justiça, por desavença com os aliados da véspera. As ruas varridas da violência botaram abaixo essencialmente pobres e negros, mas que polícia! Esses caras são incapazes de fazer uma verdadeira reforma no sistema judiciário brasileiro, um escândalo de ineficiência por si só.

.6 "[...] retomada do crescimento do PIB ano a ano, como era na suposta ditadura de que vocês reclamam tanto [...]". 

Aqueles tempos do crescimento dinâmico já estão perfeitamente explicados, pois o preço que o país pagou por ele foi aumentar a concentração da renda pessoal nas mãos das tradicionais elites. Aqueles delírios primeiro-mundistas, inclusive do General Geisel e outros abilolados, não poderiam dar certo precisamente por causa daquela legião de desempregados que hoje chegam aos tais mais de 20 milhões, contando com os empregos precários. Sem educação, sem empregos decentes, não haverá crescimento sustentado da produtividade. E menos ainda crescimento ambiental sustentado. E tem mais: eu mesmo andei investigando o que aconteceu no Brasil entre os anos 1970/1980 e constatei que o crescimento bombástico da professora Juçara foi essencialmente baseado no aumento do uso dos insumos e não, digamos, na produtividade do trabalho.

.7 "[...] valores religiosos sendo respeitados de fato, e não só no papel, assim como o direito à propriedade, o direito ao uso livre de armas (por que só os bandidos podem se armar, e nós não?), o fim do terrorismo das invasões de terras, porque sem a agricultura acaba o que sobrou do Brasil depois dos trinta anos de esquerda, o fim da mamata das ONGs que querem a Amazônia separada para eles, o espírito da Venezuela, de Cuba, da Coreia do Norte e do marxismo enfim eliminado do coitado do povo, a escola livre da doutrinação ideológica e do método Paulo Freire [...]." 

Aqui realmente a professora Juçara -pobre papagaio, no dizer, em outro contexto, de Chico de Oliveira- pegou pesado. Bandidos armados, já li no Facebook, afirmam exatamente que são bandidos. E tem muito "homem de bem" que vai comprar arma precisamente para ser assaltado e transferi-la ao bandido. Ainda se fala em invasão de terras no Brasil? Só pode ser porque os sucessivos governos odiaram fazer reforma agrária. Ou mesmo um exército de guardas florestais. A professora contou, para chegar em 30 anos de esquerda, desde Collor de Melo, um exagero, uma exagerada. ONGs querem a Amazônia? Em certo sentido, querem, sim, e em outro, querem a preservação da floresta até mais que a turma do ministério do meio-ambiente de Bolsonaro. Venezuela, Cuba e Coreia do Norte? 

.8 "[...] a imprensa enfim dizendo a verdade em vez de só achar o lado ruim das coisas [...]" 

Por razões opostas à professora Juçara, também me ressinto com a ausência de uma imprensa livre. Mas não é difícil que esta viva enfatizando "o lado ruim das coisas" neste país em que morrem 50 mil por ano em acidentes de trânsito, outros 50 mil por bala de revolver, os esgotos, sempre os esgotos, não alcançar toda a população, um espantoso número de famílias vive em moradias precárias, o meio-ambiente vai sendo destruído para além dos colapsos induzidos pelo resto do mundo. E mais: a imprensa deveria controlar a eficiência do poder judiciário, com um cadastro de crimes sem solução.

.9 "[...] a defesa da família normal sem essas deturpações globalistas que nem têm nada a ver com a nossa índole, e o combate ao assassinato de bebês pelos abortos clandestinos, os bons ideais cristãos dando um norte para o país? Será que exigir isso é demais? A simples decência das coisas." 

Eu precisaria saber mais sobre a professora Juçara, a fim de aquilatar quão decentes são suas coisas. Já cansei de ver, inclusive aquele senador Demóstenes Torres, muita gente esposar um moralismo completamente abjeto, escondendo suas índoles e práticas de crimes e mais crimes. Bem entendi que coisas decentes para a professora não nada têm a ver com meus valores. Inclusive posso rir dela ao dizer que os abortos clandestinos poderiam ser varridos da cena brasileira com a legalização da prática. Apenas gente de má fé entende que bebês podem ser abortados. Embrião, sim, feto, sim, mas nada de bebês. Na maioria dos casos de gravidez desejada, os embriões e fetos tornam-se bebês. Neste sentido, o abordo impediu o nascimento. Mas neste caso o aborto também impediu que aquele ente tenha perdido sua adolescência, vida madura, velhice, e o que mais viesse. Os bons cristão dando um norte ao país: isto já é demais. A menos que ela exclua da definição de bons cristãos essa camarilha extensa da família presidencial, dos pastores, dos auxiliares de pastores, dos religiosos pedófilos e tantas outras mazelas precisamente praticadas por essa turma de "bons cristãos." Essa professora Juçara! 

.10 "Há um ano eu não poderia dizer essas coisas aqui e em lugar nenhum; agora eu posso. Eu não estou fazendo uma caricatura, não me olhe com esse jeito debochado - milhões de pessoas dizem exatamente o que estou dizendo agora."

Foram 57 milhões a votar no PSL. Ou melhor, em Bolsonaro. E tinha mesmo mulher pela misoginia do candidato, viados, negros, índios, lésbicas, de tudo um pouco. Foi realmente uma quebra nos paradigmas de até então. Houve méritos (negativos) da turma do presidente, mas também houve terríveis deméritos das esquerdas. Primeiro não foi capaz de se unir. Segundo Lula amorcegou a eleição pensando que poderia ser candidato. E a camarilha dirigente do PT foi incapaz de argumentar que ele, para ser candidato, precisava de uma chapa com candidato a vice-presidente. Hegemonia, professora, Juçara, hegemonia. Claro que era de mau-gosto declarar-se reacionário há alguns anos. E que ganhou o Brasil com a forte posição apoiando os que estão destruindo a social-democracia? Esperam reduzir a desigualdade? Ou desigualdade não é importante? Eu olho para o discurso dela de modo bem debochadão. 

.11 "Por que a Escola de Frankfurt, os utopistas de esquerda, por que eles saberiam o que é melhor para mim mais do que eu mesma? Sonhar com a minha liberdade é atraso? Isso é um retorno à Idade Média, professor? É isso que o senhor vai me dizer? [...]

Que será que a professora Juçara lei sobre a Escola de Frankfurt? Eu li pouco, mas o suficiente para problematizar a questão da falsa consciência. E a solução que ela não conseguiu vislumbrar: o contrafactual - vamos removê-la de sua situação atual e colocá-la numa sociedade igualitária, como as do norte da Europa. E, lá inserida, indagar se ele prefere o status quo ante da inserção na sociedade brasileira.

.12 "Tem exageros aqui e ali, mas isso é café-pequeno. Ou vocês não tinham exagero nenhum, todo era uma maravilha e a atual maldade caiu do céu?

Esta observação também é de lascar o cano. Exageros aqui e ali? Sem falar no roubo, vemos o próprio presidente da república querendo fuzilar opositores, querendo fechar o congresso nacional e o supremo tribunal federal. E tem mais: que diabos é este de dizer que "vocês" abarca gente como eu que, há muitos anos, fazia a crítica ao lulismo sob uma perspectiva de esquerda. Sempre entendi que o PT poderia ser o país da social-democracia brasileira. Nunca gostei da corrupção, o que me coloca, novamente, contra os Bolsonaros. E também, devo confessar, contra a professora Juçara. Mas defenderei até a morte (ou ao fim desta postagem) seu direito de dizer bobagens.

DdAB

P.S. Achei admirável a seleção que Cristóvão Tezza fez do pensamento típico de uma bolsonarista. Para ela, não há problema de misoginia com seu projeto de Brasil. E tem mais outras passagens no romance com novas intervenções da professora Juçara. Mas eu vou ficando por aqui, pela primeira intervenção dela.

domingo, 20 de setembro de 2020

600 Reais: Lula, Bolsonaro e o Planeta 23

 

Tenho prova documental, ou até mais de uma. Ei-la aqui. É que aqui andei falando em uma renda básica da cidadania prescrita pela lei n. 10835, de 8 de janeiro de 2004, ou seja, o segundo ano do primeiro governo Lula. E que falei? Em 2009, um ano antes do término do segundo mandato, se cada brasileiro em idade ativa recebesse R$ 500 por mês na condição de renda básica, o governo gastaria não mais de 40% do PIB. Convenhamos que se tratava de um argumento retórico, para deixar claro que:

.a com um valor um tanto menor

.b com a implantação gradativa

os verdadeiramente pobres do país poderiam receber, digamos, naqueles tempos, R$ 250, algo assim, num tempo em que o PIB era de cerca de R$ 5 trilhões. Hoje, com um PIB de R$ 7,3 trilhões, mesmo os R$ 600 do auxílio emergencial. Pois não é de rachar a cara de um velhinho de meu porte ler naquela reportagem do Jornal do Brasil o trechinho que segue?

Primeiro: interpreto que o ex-presidente Lula, como o chamam, amorcegou (verbo da primeira conjugação) a eleição de 2018, não tendo aplicado o princípio da indução para trás. Ou seja, vendo-se presidente, precisava antes completar o requisito de ser candidato. Ele e seus associados nunca entenderam que ele não seria candidato. E mesmo que o viesse a ser, teria que ter um vice-presidente na chapa. Ele nunca, em tempo hábil, indicou um. Muito depois de esgotado o tempo regulamentar é que indicou o nome de Fernando Haddad para o cargo de presidente. E já era tarde. Ainda assim, talvez Haddad tivesse vencido as eleições, não fosse aquela mal-ajustada delação premiada de Antônio Palocci liberada pelo, já sabemos, injusto juiz Sérgio Moro, nas antevésperas do primeiro turno da eleição.

Segundo: antes tarde do que nunca. Se pudesse, Lula assinaria novamente a lei da renda básica, pagando aqueles R$ 600 que Bolsonaro pagou e agora está reduzindo para R$ 300 (se colar). E aquela "promessa de guloseimas" de que amanhã o PT vai lançar um "plano de reconstrução nacional",  gastando na indústria (oh, a indústria de novo, talvez mais automóveis ou aviões, quando o país, sabidamente, necessita mesmo é de esgotos...). E, para disfarçar, vai gastar em assistência social. Mas nada se fala nos sistemas deficientes de produção de bens de mérito (e.g., educação e saúde) e públicos (saneamento, justiça).  

E que podemos esperar das eleições municipais? Perdemos a chance de ver as esquerdas se aliarem, numa antecipação da melhor estratégia para as de 2022. A única estratégia vencedora que vislumbro é que Lula, enfim, decida-se a contrariar a opinião de seus puxa-sacos e começar a fazer campanha pela união das esquerdas, deixando claro que não mais será candidato.

DdAB

P.S. Se o link lá de cima não funcionar, o que suspeito poderá ocorrer, ou melhor, não ocorrer, ele tá aqui por extenso: https://19duilio47.blogspot.com/2009/06/carta-mineira-und-zero-herra.html.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Sopa de Letrinhas na Política: novas considerações

 


A pandemia, o confinamento, faz cada uma: li uma revista IstoÉ, o que faço tão raramente que a presença dela neste blog é perfunctória... Nos dias que correm, andei lendo um número que tem um box intitulado "Equilíbrio de força na Câmara". E faz uma lista de siglas, milhares de siglas e até nomes, dos partidos brasileiros que têm representação federal:

Avante, Cidadania, DEM, MDB, Novo, Patriotas, PCdoB, PDT, PL, Podemos, PP, PROS, PSB, PSC, PSD, PSDB, PSL, PSOL, PT, PTB, PV, Rede, Republicanos e Solidariedade.

É tanto partido que minha capacidade de contar com os dedos das duas mãos desvaneceu-se. E dei o assunto por encerrado.


DdAB