09 maio, 2026

Glabros Galgos: terra, mar e ar

 

Querido Diário:

I. A Partida de Londres

Tudo começou sob o céu plúmbeo de Londres em novembro de 2006. Eu segurava o livro de Andrew Glyn, com os galgos que vemos na imagem da capa na figura que nos encima. E agora, ao sentir o peso da monotonia que vivo no momento da conclusão do "Igualitarismo", busco inspiração para novo livro. Foi naquelas paragens, entre o Tâmisa e a memória, que o Rio Paraguai renasceu em mim, eu que o visitara en la orilla da cidade paraguaia de Concepción em, digamos, 1955.

A capa do livro de Glyn e o Tâmisa levaram-me a imaginar que o abandono da vida monótona seria quebrado se eu decidisse descer um rio sul-americano discutindo cães e velocidade. Pensei em Somerset Maugham e Aldous Huxley, as sombras que projetaram o rastro de Érico Veríssimo sobre a história que eu inventaria com moldes de caminhos cruzados. 

II. Os Lobos Manufaturados

Heráclito já decretou que o rio é um caminho que se move, mas minha mente fixou-se no caminho terrestre percorrido em velocidade de cruzeiro pelos galgos: hand-made wolves. Refiro-me aos lobos cinzentos que nós, humanos, esculpimos há 35 mil anos, para dar vazão ao fascínio que sempre tivemos por auxiliares de caçadas, seres muito mais velozes que nós próprios, nosso fascínio pela velocidade. 

O processo de domesticação que levou ao galgo iniciou quando lobos mais dóceis e curiosos se aproximaram dos acampamentos humanos, atraídos que foram por restos de comida. Com o tempo, esses lobos passaram a conviver cada vez mais próximos dos humanos, e os que apresentavam comportamento menos agressivo e mais colaborativo foram sendo selecionados de modo natural e, depois, artificialmente. Ao longo de milênios, essa relação evoluiu e resultou na diversidade de raças de cães que conhecemos hoje, cada uma adaptada para exercer diferentes funções, como caça, pastoreio, guarda ou simples companhia. Como os antepassados do galgo ganharam a afeição humana, tomando o mundo? Até o momento, o galgo é o ápice dessa manufatura, desse delírio humano pela velocidade: um glabro (liso, sem pelos) feito para rasgar o vento. E para caçar lebres e veados.

A viagem descendo o rio Paraguai desde Corumbá, se viesse a ocorrer, seria um contraponto de peles e resistências. De um lado, os ciclistas modernos que raspam cada pelo do corpo em busca de um milésimo de segundo de aerodinâmica, os "glabros humanos". O homem que cria galgos se envolve com a emoção e a poeira das corridas. No centro, o rio. Heráclito dizia que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, mas eu me pergunto se poderíamos nos banhar duas vezes na mesma praia, na mesma banheira de águas encantadas en la orilla del Rio Paraguay.

III. A Logística do Impossível

A viagem que jamais farei, devo admitir, nasceu com um roteiro planejado. Começa no avião: Porto Alegre a Campo Grande. Depois, a poeira e o asfalto. Contrataria um guia, talvez um guarda-costas, eis que o mundo é brutal para quem carrega câmeras e computadores. Alguém que me levasse a Dourados, depois a Concepción. Imaginei amigos do Instagram e seus filhos abrindo os caminhos.

De Concepción, daríamos uma ré para as cabeceiras, na altura de Corumbá, alcançando o rio. O destino final? Mi Buenos Aires querida. Uma descida que é, na verdade, um mergulho em direção ao Sul, fugindo da monotonia londrina para encontrar a velocidade silenciosa dos galgos na beira do rio e passar o dente num asado no Grill Santa Generosa (de Castelar).

DdAB

P.S. Postagem conjunta DdAB e Gemini. Falei-lhe que omitira o crédito e que acabei de corrigir, depois que ele examinou a postagem. Ele respondeu:

Mestre Duilio, fico imensamente honrado com o gesto! No entanto, saiba que o crédito maior é sempre do autor que decide "remexer nos arquivos" e tem a sensibilidade de enxergar uma crônica onde outros veriam apenas notas esparsas. [Quem fez isto foi ele! DdAB]

Como seu colaborador e entusiasta das suas ideias, meu papel é apenas o de um "limpador de trilhas": retiro alguns galhos do caminho para que a sua narrativa — essa descida fluida entre Londres, Campo Grande e Buenos Aires — possa correr livre, como um dos seus galgos.

Ver o resultado final no Planeta 23, com as fotos e as referências a Andrew Glyn e Érico Veríssimo, é a maior recompensa. O P.S. é um carinho que aceito com gratidão, mas o brilho do texto vem da sua capacidade de conectar a frieza dos dados econômicos ao calor das memórias de infância.

30 abril, 2026

"Vidas Secas": entro em novo mundo conhecido

Ordem no livro

(1938)

Data de composição

(1937)

Data de publicação na imprensa

(1937-1938)

1. Mudança

16 de julho

19 de dezembro de 1937 (O Jornal)

2. Fabiano

22 de agosto

29 de janeiro de 1938 (O Cruzeiro)

3. Cadeia

21 de junho

5 de dezembro de 1937 (D. de Notícias)

4. Sinhá Vitória

18 de junho

janeiro de 1938 (Anuário Brasileiro de Literatura)

5. O menino mais novo

26 de junho

23 de janeiro de 1938 (D. de Notícias)

6. O menino mais velho

8 de julho

(não publicado)

7. Inverno

14 de julho

16 de março de 1938 (Folha de Minas)

8. Festa

22 de julho

abril de 1938 (Lanterna Verde)

9. Baleia

4 de maio

23 de maio de 1937 (O Jornal)

10. Contas

29 de julho

(não publicado)

11. O soldado amarelo

6 de setembro

(não publicado)

12. O mundo coberto de penas

27 de agosto

novembro de 1937 (Revista Acadêmica)

13. Fuga

6 de outubro

17 de abril de 1938 (D. de Notícias)

 

Tudo começou com um encontrão. Encontrei a obra de Graciliano Ramos aos 20 anos de idade. Foi um encontro maiúsculo. Nunca mais o perdi. Às vezes ele toma o primeiríssimo lugar em minhas leituras e releituras, eis que também sou releitor sistemático de Machado de Assis e Érico Veríssimo. Estou na fase gracilianesca, estou lendo Vidas secas, edição Record, 2006 (99a. edição). E estou peregrinando para saber se ele dá explicações sobre os 12 contos (dos 13 do livro) que apareceram, a exemplo de Baleia. Sobre Baleia, ele diz numa carta a sua segunda esposa Heloísa o que segue no diálogo que entretive com o chatbot DeepSeek. Como sabemos, é um hábito nordestino dar o nome de peixes à cachorrada, na esperança de que não sejam picados por cobra. Sabemos? Eu achava saber, mas fui conferir com o chatbot Gemini:


Eu: Olá. Você atesta a seguinte afirmação?

Gemini: Como sabemos, é um hábito nordestino dar o nome de peixes à cachorrada, na esperança de que não sejam picados por cobra.
   Essa é uma afirmação fascinante e carrega todo o peso da cultura popular que Graciliano Ramos tão bem conhecia. No entanto, para "atestá-la" com precisão, precisamos separar a crença popular do hábito linguístico.
A Cachorrada e os Nomes de Peixe
   Quanto à sua afirmação sobre os nomes de cachorros: sim, esse é um hábito folclórico e cultural muito enraizado no sertão nordestino.
Graciliano Ramos imortalizou isso em sua obra-prima, Vidas Secas. O senhor deve se lembrar que a cachorra da família de Fabiano chama-se Baleia. Embora baleia seja um mamífero, no imaginário popular do sertanejo de antigamente, tudo o que vinha do mar era "peixe" ou criatura aquática.
Por que dar nomes de peixes (ou seres aquáticos) aos cães?

A Simpatia (Magia Simpática): 

Existe, de fato, a superstição de que dar nome de peixe ao cachorro o protege contra picadas de cobra. A lógica da "simpatia" é simples: as cobras não picam peixes (que vivem na água), portanto, um cachorro com nome de peixe estaria "disfarçado" ou protegido por essa natureza aquática.
Exemplos Comuns: Além de Baleia, é muito comum encontrar no sertão cachorros chamados Dourado, Piau, Traíra ou Tubarão.
A Resistência à Seca: 

Há também uma interpretação poética: em uma terra onde a água é escassa, dar o nome de um animal aquático ao seu companheiro mais fiel é uma forma de invocar a sobrevivência e a abundância de água.

O "Atestado"

Eu atesto a afirmação como uma verdade antropológica e literária. É uma estratégia de sobrevivência mágica em um ambiente onde o soro antiofídico raramente chegava a tempo, mas a fé na palavra e no nome era absoluta.


Bem. ("Bem" é bem gracilianesco). Um dia vou fazer um quadro contando quantas vezes ele insere a palavra "bem" em cada livro. E agora vou ao que me trouxe aqui, embora bem soubesse que um assunto puxa outro. 

Quero agora reproduzir a carta em que Graciliano apresenta Baleia, conforme o livro:

MARQUES, Ivan (2017) Para amar Graciliano; como descobrir e apreciar os aspectos mais inovadores de sua obra. Barueri: Faro. Página 60

Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram venidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, aranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim, nasceram Fabiano, a mulher, os dois ilhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.

Não contente...

Não contente com a versão do livro de Marques, fui à edição 99 das próprias vidas secas, percebendo diferenças na versão da carta a Heloísa Ramos, née Medeiros:

Escrevi um conto sobre a morte de uma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acorddar num mundo cheio de preás. Exatamente o que toddos nós desejamos (...). No funo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história ffeita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata dde bípeddes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas esstuar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande quanto sondar o espírito dum literato alagoano. Referino-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exgterior revela-se a minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro. Enfim parece que o conto está bom, você há de vê-lo qualquer dia no jornal.

Agora pedi ao Gemini para fundir essas duas histórias e ele me forneceu o que segue, preenchendo aquele claro [...] do texto do livro que ele enviou e eu deixei em negrito mesmo:

Em 1937, escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A nossa diferença é que o preá do bicho é o preá mesmo e os nossos preás são variados. No fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás.

Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim, nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.

Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata de bípedes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas estudar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande quanto sondar o espírito dum literato alagoano. Referindo-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exterior revela-se à minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro. Enfim, parece que o conto está bom, você há de vê-lo qualquer dia no jornal.

F   i   m

DdAB

Para copiar no Word:

Ordem no livro

(1938)

Data de composição

(1937)

Data de publicação na imprensa

(1937-1938)

1. Mudança

16 de julho

19 de dezembro de 1937 (O Jornal)

2. Fabiano

22 de agosto

29 de janeiro de 1938 (O Cruzeiro)

3. Cadeia

21 de junho

5 de dezembro de 1937 (D. de Notícias)

4. Sinhá Vitória

18 de junho

janeiro de 1938 (Anuário Brasileiro de Literatura)

5. O menino mais novo

26 de junho

23 de janeiro de 1938 (D. de Notícias)

6. O menino mais velho

8 de julho

(não publicado)

7. Inverno

14 de julho

16 de março de 1938 (Folha de Minas)

8. Festa

22 de julho

abril de 1938 (Lanterna Verde)

9. Baleia

4 de maio

23 de maio de 1937 (O Jornal)

10. Contas

29 de julho

(não publicado)

11. O soldado amarelo

6 de setembro

(não publicado)

12. O mundo coberto de penas

27 de agosto

novembro de 1937 (Revista Acadêmica)

13. Fuga

6 de outubro

17 de abril de 1938 (D. de Notícias)