27 fevereiro, 2020

Ditos Gaúchos: velhos, novos e inventados

Resultado de imagem para imagem de rodad e carreta

Epígrafe:
Moreno, voy a decir
sigún mi saber alcanza:
el tiempo sólo es tardanza
de lo que está por venir;
no tuvo nunca principio
ni jamás acabará,
porque el tiempo es una rueda,
y rueda es eternidá.

POSTAGEM
Dia 20 de fevereiro de 2020, Juarez Fonseca fez um convite em seu mural no Facebook. Citou uma meia dúzia de ditos gaúchos e pediu a colaboração de seus seguidores. Contei mais de 200 contribuições até o dia 24 do mês corrente.

Como sabemos, já sou especialista em listas de provérbios e ditos. De fato, comecei uma série que não terei vida suficiente para terminar: (aqui: https://19duilio47.blogspot.com/2019/09/proverbios-portugueses-um.html). O fato é que os ditos gaúchos revigoraram meus sentimentos telúricos

Que fiz, mais faceiro que guri de bicicleta nova? Procurei um tanto mais na própria internet e editei todo material do jeito que melhor pude.

.a Normalizei as falas para fazer as comparações .
.b Tirei todos os “do que”, ficando apenas o “que”. Também tirei os , exceto no caso que estava clara a intenção de dar métrica de poema ao dito.
.c Editei alguns ditos, adaptei outras sentenças.
.d Eliminei meia dúzia de redundâncias.
.e Aproveitei e inventei um ou dois.
.f No final, cheguei a uma lista de 275 frases.
g. Não tive qualquer preocupação com os politicamente incorretos nem com excesso de presença masculina. Não que isto me deixe despreocupado, bem entendido...

1 Mais à vontade que bugio na safra do pomar.
2 Mais acanhado que bunda de freira.
3 Mais achatado que chinelo de gordo.
4 Mais adormecido que sapo morto estirado nos arreios.
5 Mais afiada que língua de sogra.

6 Mais afiado que navalha de barbeiro novato.
7 Mais afoito que cusco com saudade.
8 Mais agarrado que carrapato em culhão de touro.
9 Mais alegre que lambari em sanga.
10 Mais alto que cavalo de oficial.

11 Mais alto que poste de luz.
12 Mais alvoroçado que convento em dia de mata-mosquito.
13 Mais amontoado que uva em cacho.
14 Mais angustiado que barata de pontacabeça.
15 Mais ansioso que anão em comício.

16 Mais antigo que mijar em parede.
17 Mais apertado que bombacha de fresco.
18 Mais apertado que cu de pinto.
19 Mais apertado que cueca em bunda de gordo.
20 Mais apertado que dois paus no cu.

21 Mais apertado que nó de soga em dia de chuva.
22 Mais apertado que peido de burro em atoleiro.
23 Mais apertado que rato em guampa.
24 Mais apressado que cavalo de carteiro.
25 Mais arisca que china que não quer dar.

26 Mais arisca que moça virgem.
27 Mais arisco que cachorro que come banha.
28 Mais assanhada que solteirona em festa de casamento.
29 Mais assanhado que lambari de sanga.
30 Mais assustado que cego em tiroteio.

31 Mais assustado que véia em canoa.
32 Mais atirado pra trás que pica-pau em tronqueira.
33 Mais atirado que alpargata em cancha de bocha.
34 Mais atirado que lagarto dormindo.
35 Mais atrapalhado que sapo em cancha de bocha.

36 Mais atrasado que bola de porco.
37 Mais aumentado que barriga de prenha.
38 Mais baixo que vôo de marreca choca.
39 Mais bem-vindo que chuva em roça de milho.
40 Mais boca aberta que burro comedor de urtiga.

41 Mais bonita que laranja de amostra.
42 Mais branco que perna de freira.
43 Mais brilhante que ouro de libra.
44 Mais buenaço que namoro no começo.
45 Mais buliçoso que mico de viúva.

46 Mais calejado que joelho de freira rezadeira.
47 Mais calmo que água de poço.
48 Mais camuflado que um dado num sorvete de flocos.
49 Mais caro que argentina nova na zona.
50 Mais chato que chinelo de gordo.

51 Mais chato que gilete em ladrilho.
52 Mais cheio que corvo em carniça.
53 Mais cheiroso que mão de barbeiro.
54 Mais chiareira que locomotiva no cio.
55 Mais chorosa que noiva de soldado.

56 Mais ciumenta que mulher de tenente.
57 Mais cobiçada que anca de viúva nova.
58 Mais colado que merda em tamanco.
59 Mais comilão que padre com remorso.
60 Mais complicado que receita de creme Assis Brasil.

61 Mais comprido que cuspe de bêbado.
62 Mais comprido que destratada de gago.
63 Mais comprido que discurso de gago.
64 Mais comprido que esperança de pobre.
65 Mais comprido que suspiro em velório.

66 Mais comprido que trem pra Uruguaiana.
67 Mais conhecido que a reza do padre-nosso.
68 Mais conhecido que nota de cinco pila.
69 Mais conhecido que parteira na campanha.
70 Mais constrangido que padre em puteiro.

71 Mais contente que cusco de cozinheira.
72 Mais contraditório que tosa de porco: muito grito e pouca lã.
73 Mais contrariado que gato a cabresto.
74 Mais corriqueiro que pereba em moleque.
75 Mais coxuda que leitoa em engorde.

76 Mais criativo que gaúcho trovador.
77 Mais curto que coice de porco.
78 Mais curto que estribo de anão.
79 Mais de cara amarrada que pacote de despacho.
80 Mais delgado que cachaço emprestado.

81 Mais demorado que enterro de rico.
82 Mais demorado que remar com pau redondo.
83 Mais desastradp que espirrar na farofa.
84 Mais desconfiado que cavalo torto.
85 Mais desconfiado que cego com amante.

86 Mais desconfiado que gato em canoa.
87 Mais deslocado que metaleiro em CTG.
88 Mais deslocado que vegetariano em churrascaria.
89 Mais devagar que enterro carregado a pé.
90 Mais difícil que nadar de poncho.

91 Mais duro que pau de preso.
92 Mais duro que salame de colônia.
93 Mais eficiente que japonês na roça.
94 Mais encardido que peleia de caudilho.
95 Mais encolhido que cusco em dia de minuano.

96 Mais encolhido que tripa na brasa.
97 Mais encordoado que teta de porca.
98 Mais enfeitado que bidê de china.
99 Mais enfeitado que burro de cigano em festa.
100 Mais enfeitado que camionete de cigano.

101 Mais enfeitado que cavalo de cigano.
102 Mais enfeitado que guaiaca de gringo.
103 Mais enfiado que cueca em bunda de gordo.
104 Mais engordurado que telefone de açougueiro.
105 Mais engraçado que gorda botando o eslaque.

106 Mais engraxado que calculadora de açougueiro.
107 Mais engraxado que tablet de açougueiro.
108 Mais enrolado que linguiça de venda.
109 Mais entravado que carteira em bolso de sovina.
110 Mais escandaloso que relincho de burro chorno.

111 Mais esfarrapado que poncho de gaudério.
112 Mais espalhado que dedo de pé que nunca viu bota.
113 Mais espalhado que pó de mangueira em pé de vento.
114 Mais esperto que gringo de venda.
115 Mais esquecido que argentino veraneando que deixa a mulher.

116 Mais estressado que padre que perdeu a Bíblia.
117 Mais extraviado que chinelo de bêbado.
118 Mais extraviado que chinelo em cancha de osso.
119 Mais faceira que chinoca de brinco.
120 Mais faceira que égua com dois potrilhos.

121 Mais faceiro que gordo de camiseta.
122 Mais faceiro que guri de bombacha.
123 Mais faceiro que guri de calça nova.
124 Mais faceiro que mosca em churrascaria.
125 Mais faceiro que mosca em tampa de xarope.

126 Mais faceiro que pinto em quirera.
127 Mais faceiro que pinto no lixo.
128 Mais fácil que fazer um rádio falar.
129 Mais falso que nota de três pila.
130 Mais falso que rato em velório de gato.

131 Mais fechado que baú de solteirona.
132 Mais fedorento que arroto de corvo.
133 Mais feia que a necessidade.
134 Mais feia que mulher de cego.
135 Mais feio que bater na mãe na frente da igreja.

136 Mais feio que briga de foice no escuro.
137 Mais feio que encoxar a mãe no tanque.
138 Mais feio que indigestão de torresmo.
139 Mais feio que o diabo comendo mariola.
140 Mais feio que paraguaio baleado.

141 Mais feio que punhalada de louco.
142 Mais feio que sapato de padre.
143 Mais feio que tombo de mão no bolso.
144 Mais feliz que gordo de camisa nova.
145 Mais feliz que gordo de camiseta.

146 Mais feliz que pinto no lixo.
147 Mais feliz que puta em dia de pagamento de quartel.
148 Mais fingido que interesse de viúva.
149 Mais fino e comprido que pio de pinto.
150 Mais fino que assobio de papudo.

151 Mais firme que palanque em banhado.
152 Mais firme que prego em polenta.
153 Mais firme que ranho em parede.
154 Mais firme que São Jorge no cavalo.
155 Mais florido que guampa de marido broxa.

156 Mais folgado que bombacha de tuberculoso.
157 Mais folgado que peido em bombacha.
158 Mais forte e rijo que pescoço de corvo.
159 Mais forte que arroto de corvo.
160 Mais forte que mijada de zurrilho.

161 Mais forte que peido de burro atolado.
162 Mais furioso que gato em cano de bota.
163 Mais gasto que fundilho de tropeiro.
164 Mais gordo que cusco de cozinheira.
165 Mais gordo que gato de açougueiro.

166 Mais gostoso que beijo de prima.
167 Mais graúdo que parafuso de patrola.
168 Mais grosso que cinamomo de tapera.
169 Mais grosso que cintura de sapo.
170 Mais grosso que dedo destroncado.

171 Mais grosso que papel de embrulhar prego.
172 Mais grosso que parafuso de patrola.
173 Mais grosso que porta de igreja.
174 Mais grosso que rolha de poço.
175 Mais grudado que merda em tamanco.

176 Mais importante que o cunhado do cabo.
177 Mais incerto que punhalada de louco.
178 Mais inepta que a bancadinha do Jornal do Almoço.
179 Mais inesperado que vegetariano em açougue.
180 Mais informado que gerente de funerária.

181 Mais inútil que buzina de avião.
182 Mais inútil que cinzeiro de moto.
183 Mais inútil que mijar em incêndio.
184 Mais inútil que olho azul em mulher feia.
185 Mais inútil que seio nas costas.

186 Mais inútil que teta de homem.
187 Mais inútil que xampu de careca.
188 Mais judiado que passarinho em mão de piá.
189 Mais judiado que sovaco de perneta.
190 Mais ligado que rádio de preso.

191 Mais ligeirinho que serra elétrica
192 Mais ligeiro que tainha de açude.
193 Mais linda que camisola de noiva.
194 Mais louco que galinha agarrada pelo rabo.
195 Mais magro que guri com solitária.

196 Mais mão única que carro de enterro.
197 Mais medroso que cascudo em galinheiro.
198 Mais metido que dedo em nariz de guri.
199 Mais metido que piolho em costura.
200 Mais moderno que rebenque de nylon.

201 Mais nervoso que gato em dia de faxina.
202 Mais nervoso que minhoca em galinheiro.
203 Mais nervoso que potro com mosca no ouvido.
204 Mais no chão que os butiá que me caiu do bolso.
205 Mais nojento que mocotó de ontem.

206 Mais parado que cachorro em canoa.
207 Mais parado que olho de vidro.
208 Mais pelado que sovaco de perneta.
209 Mais perdido que Adão no dia das mães.
210 Mais perdido que cebola em salada de frutas.

211 Mais perdido que cego em tiroteio.
212 Mais perdido que cupim em metalúrgica.
213 Mais perdido que cusco em dia de mudança.
214 Mais perdido que cusco em procissão.
215 Mais perdido que galinha comprada.

216 Mais perdido que os Bolsonaros em biblioteca.
217 Mais perfumado que filho de barbeiro.
218 Mais perigoso que peidar com caganeira.
219 Mais pesado que pastel de batata.
220 Mais pesado que sono de surdo.

221 Mais pesado que submarino a remo.
222 Mais por baixo que o cu da cobra.
223 Mais por baixo que tapete de porão.
224 Mais por fora que braço de caminhoneiro.
225 Mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

226 Mais por fora que dedão de franciscano.
227 Mais por fora que peão em festa de patrão.
228 Mais por fora que quarto de empregada.
229 Mais por fora que saco de touro.
230 Mais por fora que surdo em bingo.

231 Mais por fora que umbigo de vedete.
232 Mais preguiçoso que gato de armazém.
233 Mais prestimosa que mãe de noiva quarentona.
234 Mais quente que frigideira sem cabo.
235 Mais quente que namoro de primo.

236 Mais quente que noiva de bobo.
237 Mais quentinho que calça cagada.
238 Mais quieto que guri cagado.
239 Mais quieto que porco nas batata.
240 Mais reboleado que bolacha em boca de velha.

241 Mais reboleado que minhoca na cinza.
242 Mais reforçado que sapato de mórmon.
243 Mais rengo que cusco na geada.
244 Mais revelador da fonte que água mineral.
245 Mais rosado que bunda de nenê.

246 Mais ruim que café pra louco.
247 Mais seco que cabelo de pedreiro.
248 Mais sentido que barroada.
249 Mais sério que cusco em canoa.
250 Mais sério que nenê cagado.

251 Mais sóbrio que defunto carola.
252 Mais sofrido que joelho de freira rezadeira
253 Mais solitário que galinha em gaiola de engorde.
254 Mais solto que peido em bombacha.
255 Mais sossegado que gato em saco de milho.

256 Mais sovado que gato de moça véia.
257 Mais sujo que curva de rio.
258 Mais sujo que pau de galinheiro.
259 Mais tonto que miliciano no Planalto.
260 Mais torto que havaiana em pé de borracho.

261 Mais tranquilita que filha de milico.
262 Mais tranquilo e sereno que nem baile de moreno.
263 Mais tranquilo que água de poço.
264 Mais tranquilo que cozinheiro de hospício.
265 Mais tranquilo que excursão de louco.

266 Mais tranquilo que vaca na Índia.
267 Mais triste que último dia de rodeio.
268 Mais usado que pronome átono em conversa de professor.
269 Mais vaidoso que guri em chineiro.
270 Mais velho que cagar pra baixo.

271 Mais velho que mijar em arco.
272 Mais velho que pisar no chão.
273 Mais viajandão que paisano com paiero uruguayo.
274 Mais viajante que mala de louco.
275 Mais vivo que cavalo de contrabandista.

Então terminei e fiquei mais realizado que ao pular muro de convento.

DdAB
Explicação da epígrafe: Martin Fierro (na versão de Jorge Luis Borges) estava na maior trova com o Moreno, que disse coisas que, pelo jeito, não eram da concordância de nosso herói. Ele respondeu com o que acabamos de ler. Chamo a atenção para a roda de carreta que selecionei e os últimos versos: o tempo é uma roda e roda é eternidade. E tirei estas reflexões daqui mesmo. Lá veremos citações ao tango "El Entrerriano", meu preferido de todos os tangos que jamais chegaram ou chegarão a meus rodados ouvidos. Tudo explicadinho, graças a meus amores por gaúchos e gauchos.

P.S. Primeiro reparo: me passei e não escolhi um entre o 167 e o 172. (29/fev/2020)
P.S.S. Ao fazer o primeiro reparo, fiz vários consertos.
P.S.S.S. Em 2 de junho de 2021 comecei a acrescentar novos ou adaptados. O início vem do Volume 1 (O Continente, livro 2) da trilogia (O Tempo e o Vento) de Érico Veríssimo: 
Mais triste que carancho em tranqueira.

22 fevereiro, 2020

Cid

Resultado de imagem para patrola

Meu amigo no Facebook João Lopes reproduziu um artigo de André Coelho que eu mesmo reproduzi aqui para que me sirva para futuras consultas. Eu pouco ou nada falei publicamente sobre o caso Cid, Cid e a patrola. Nem preciso mais.

A ESQUERDA DIANTE DO ATO DE CID GOMES

Vocês têm que estar de sacanagem comigo! Então, pelo que estou entendendo, se eu for contra as milícias e a favor de uma reação generalizada contra elas, eu tenho que apoiar o que o Cid fez? Eu tenho que aplaudir aquele exato ato, feito daquela exata forma? Tenho que achar que um Senador da República dirigindo uma retroescavadeira para dentro de um prédio cheio de milicianos armados é o jeito certo de combater a milícia e dar uma resposta à sua ameaça, e não um ato teatral desnecessário de hipermasculinidade num ambiente em que macheza política de ocasião rende mais holofote que política de inteligência, investigação e desmontagem de redes milicianas?

Então, se eu for contra aquele exato ato, feito daquela exata forma, eu estarei sendo parte de uma esquerda cirandeira e ingênua, incapaz de compreender a brutalidade do quadro atual e de reagir com a radicalidade correspondente?

Espera aí. Eram trabalhadores superexplorados entrando de retroescavadeira na fábrica para tomar o processo produtivo para si? Eram camponeses despossuídos entrando de retroescavadeira no latifúndio para tomar para si o direito de existir e trabalhar na terra? Eram manifestantes anti-rentismo entrando de retroescavadeira na sede do Itaú numa rejeição simbólica do capitalismo financeiro? Eram eleitores pobres, carentes de voz e indignados com uma política que os trata como invisíveis, entrando de retroescavadeira no Congresso Nacional, no pontapé inicial de retomada de uma democracia radical? Eram cidadãos ciosos da República entrando de retroescavadeira num encontro nazi-fascista, numa sede da Universal, numa filial da Globo? Se for, contem comigo 100%. Apoio, defendo, compartilho, convido, participo, dou até dinheiro pras retroescavadeiras. Mas um dos Ferreira Gomes num surto de Rambo, aí, desculpa, mas vocês vão ter que aplaudir sozinhos.

Por último: Sim, o problema das milícias é gravíssimo e exige uma resposta firme e dura, à altura da ameaça. Mas eu achei que nós, da esquerda, éramos os caras das medidas eficazes mas lentas, difíceis de explicar à população exatamente porque não são nem teatrais nem imediatistas. Desmilitarizar a polícia, construir um plano de carreira para policiais, treinar e equipar melhor os esquadrões, investir em inteligência, integrar as polícias; evitar a brutalidade policialesca, o terrorismo punitivista, o abuso de abordagem, a confusão entre punição e extermínio, o tratamento do criminoso como inimigo; apostar em políticas sociais de educação, de lazer, de renda e de emprego, reforçar as associações de bairro e os movimentos sociais e populares dentro das áreas de risco ou dominadas, dar subsídios à vida cultural local, favorecer o pequeno negócio de bairro, recuperar a paisagem da periferia, urbanizar de forma democrática e incluir na vida da cidade, construir saídas de escolha e de resistência fora da adesão ou submissão ao crime organizado etc.

Achei que apostávamos nessas coisas não porque nos faltava estômago para a violência animalesca, mas porque sabíamos desde há muito tempo que a violência animalesca não funciona, que ela se combina com estereótipos de preconceito e exclusão, só atinge os mais pobres e segrega e extermina mais rápido os membros de grupos já perseguidos, não desmonta redes estruturais, não chega aos cabeças poderosos, não desmonta os tentáculos do crime com a política e com o judiciário, favorece e reforça a narrativa colonial, militarista e ditatorial latino-americana e des-sensibiliza a população para a vigilância, a crueldade e a morte, tornando-a despreparada para a política, para a cidadania e para a solidariedade. Que sabíamos que o discurso que elege a cada vez um novo inimigo para ser eliminado e coloca mais lenha na fornalha do direito penal é sempre - SEMPRE - uma arma que acaba se voltando contra os pobres, pretos e putas alegando defender os direitos dos pobres, pretos e putas.

Mas de repente somos nós propondo combater um fenômeno complexo como a milícia com porrada, tiro e bomba... substituindo todo o conhecimento sociológico e a sabedoria política acumulada na luta de classes, na luta decolonial e na luta anti-racista pela tentação fácil de montar numa retroescavadeira... Tá bom, então. Vão lá. Não deu certo contra o tráfico de drogas, contra o tráfico de armas, contra a corrupção, contra assaltos e homicídios e contra o terrorismo... Mas quem sabe contra a milícia, né? Quem sabe dessa vez o porrete não resolve... Quem sabe se a gente só calibrar a mira do porrete para quebrar os crânios certos...

Francamente, gente. Francamente. Do André Coelho


Não falei que é demolidor? E falo mais: o assunto é mesmo a eleição municipal de 2020. Quem despreza os municípios, como fez o PT em 2016 só pode pagar mico, da forma como fez o PT em 2018.

DdAB
Revoltado com as retroescavadeiras, selecionei para nos ilustrar a imagem de uma patrola.

13 fevereiro, 2020

Ulysses: a magia da tradução e/m meus livros


Como sabemos, sou doctor of philos... Epa, como sabemos sou metido a ler traduções do "Ulysses", festejado romance do irlandês James Joyce. Tenho um (um, apenas um!) amigo que revela ter lido o original. Como sabemos, até aí há problemas, pois há uma bruta divergência sobre quem é a verdadeira edição prínceps: a Bodley Head de 1960 idêntica a da Random House de 1961 ou a de Hans Gabler, de 1984 e publicada em 1986 pela Vintage Books de Nova Yorque:

JOYCE, James (2000) Ulysses. London: Penguin. With an Introduction by Declan Kiberd, 1992. 933p.
 [Esta edição Penguin reproduz o texto que se tornou princeps a partir de 1960, com a editora Bodley Head, de Londres e, de 1961, com a editora Random House, de Nova York.]
Edições relevantes: 1922, 1937, 1968, 1984].
e
JOYCE, James (1986) Ulysses; the corrected text. New York: Vintage (Random House). 644p. (Edição coordenada por Hans Walter Gabler, cuja primeira edição é de 1984. Esta edição chegou a ser considerada princeps, mas pouco durou e hoje os especialistas têm-na como variorum).

Selecionada a edição em inglês, vamos deparar-nos com a chamada fixação do texto, o que me parece um conceito irrelevante para o caso. E o caso é "James Joyce e seu Ulysses", contexto em que parece que falar em edição princeps é prematuro. Estou certo de que num futuro próximo alguém vai retomar a ideia de fixação de texto, compulsando todo o material disponível para os scholars. E lançando nova e sensacionalizada edição.

A outra questão é a tradução. Tomado de curiosidade, eu não era mais que um pós-adolescente quando a editora Civilização Brasileira lançou no Brasil a tradução de Antônio Houaiss e eu a adquiri. Foi quando, nos anos subsequentes, comecei a leitura umas 200 vezes, o que me fez decorar a primeira sentença. Como eu achava o tradutor meio pernóstico, meio empolado e meio ininteligível, ia parando pro aí mesmo, até chegar-me às mãos a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Não nego a possibilidade de que Houaiss tenha "afofado" o texto de Bernardina para mim. Aqui estão as traduções em meu poder:

PORTUGUÊS BRASILEIRO E D'ALÉM MAR

JOYCE, James (1966, 2003) Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 13a. ed. 957p. Tradução de Antônio Houaiss.

JOYCE, James (2007) Ulisses. Rio de Janeiro: Alfaguarra/Objetiva. 908p. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

JOYCE, James (2012) Ulysses. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras. 1106p. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo.

JOYCE, James (2013). Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. 730p. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.


TRADUÇÕES EM ESPANHOL

JOYCE, James (1988) Ulises. Barcelona: Debolsillo. 963p. Tradução de José Maria Valverde.

JOYCE, James (2008) Ulises. Mexico: Tomo. 728p. (na verdade, "Grupo Editorial Tomo, S. A de C. V."). 1a. edición, noviembre. Tradução de J. Salas Subirat reproduzindo o original argentino.

JOYCE, James (20011) Ulises. Madrid: Cátedra. (Tradução de Francisco Garcia Tortosa e María Luiza Venegas Lagüens em 1999). 908p.

TRADUÇÃO ITALIANA (minha cópia em PDF)

JOYCE, James Ulisse (2013). Torino: Giulio Einaudi. 500p. Tradução de Gianni Celati,

A tradução tem uma enorme capacidade de ser copiada. E suponho que cada tradutor procurará trabalhos anteriores em sua própria língua para ver como o fulano disse coisas complicadas. Como sabemos, a primeira palavra do romance é "stately". Vejamos em minhas quatro traduções para o português, minhas três para o espanhol e meu PDF para o italiano:

Português brasileiro
Houaiss: sobranceiro
Bernardina: majestoso
Galindo: solene

Português europeu
Relógio D'Água: Soberbo

Espanhol
Salas-Subirat: imponente
Valverde: solemne
Garcia-Tortosa: majestuoso

Italiano (PDF)
Celati: imponente

Por falar em italiano, é de lá que vem a boutade de afirmar que "traduttore traditore". Mas não esmoreçamos. Além de darem margem a diferentes abordagens por diferentes tradutores, uns podem copiar dos outros. Com efeito, neste sentido, Salas-Subirat deve ter sido consultado por todos os demais, por ter sido o primeiro a colocar numa língua  irmã do português. Nesta linha, vemos que "majestoso" e "imponente" encontram-se em mais de um livro. É interessante e deixo para as novas gerações avaliar quantas palavras comuns encontram-se nas diferentes traduções, tarefa hercúlea, admito, pois imagino que, nos próximos 100 anos, haverá mais 100 traduções nessas quatro línguas com que hoje estou lidando. Por enquanto, na linha da declaração de Gabler como edição princeps e depois seu impeachment, imagino que também os tradutores poderão retratar-se e fazer novo trabalho. No caso, a turma que traduziu de Gabler e não de Penguin há de estar com a cabeça quente.

Nessas traduções do "Ulysses" que me chegaram ao bolso..., há milhares de observações a fazer. Por exemplo, eu mesmo fiz uma direto na segunda frase do primeiro parágrafo. Dona Bernardina fala em "peinhoar" (isto é, aportuguezou do francês), mas meu ponto é sugerir que o velho James, nos esquemas produzidos para Carlo Linati (1920) ou Stuart Gilbert (1921) diz que a viagem começa às 8h00 a.m., o que é compatível com a indumentária de Buck Mulligan ao chegar-se ao topo da escada... Mas o que mais interessa são as gralhas (termo que aprendi com Galindo, parecendo ser jargão dos literatos e gráficos, mas não comprovei, querendo dizer dizer aquilo que inocentemente ouço designar como erro de imprensa).

Li que a edição feita por Hans Walter Gabler constatou cinco mil problemas pequenos ou grandes, corrigindo-os. O próprio Joyce corrigiu milhares de vezes os originais da editora de 1922, deixando as correções posteriores ainda mais confusas. Consta que o autor irlandês fez as últimas correções nas edições supervenientes do "Ulysses" até 1937, ou seja, quatro anos antes de morrer e já envolto tanto quanto pôde no "Finnegan's Wake". As correções nunca pararam e eu mesmo até no original acho que há encrencas. No outro dia li, e infelizmente não gravei a origem nem a autenticidade, mas não interessa, que a ideia é boa por si mesma. Um estudioso irlandês (precisa sê-lo?) diz que o "Ulysses" é maravilhoso, e tudo aquilo, mas lhe faltou um bom editor. Ou seja, aquela sra. americana, a mrs. Sylvia Beach, deveria ter trabalhado mais ou contratado alguém para fazê-lo. Mas também estou certo de que Joyce iria montar num porco, se o fizessem.

É que o próprio autor, além das gralhas, algumas das quais ele próprio inseriu (claro que involuntariamente), tem citações em milhares de línguas e a invenção de palavras, além de fusão de outras, como andei vendo ser mania de Mia Couto.

Tempos atrás, eu me diverti intensamente (aqui) comparando James Joyce e John Maynard Keynes, na broma com a língua alemã, que já fora objeto de brincadeira por Mark Twain, ao elogiar a língua de Goethe, sugerindo que é necessário ter um telescópio para identificar o substantivo no final da palavra que vai abarcando milhares de outras, tudo sem separação de um espaço, como o texto que agora chega aos olhos do leitor. Keynes fala que "cálculo de probabilidade", em alemão, se escreve como Wahrscheinlichkeitsrechnung.

E depois falei nas páginas 361-2 do capítulo 12 - Os Cíclopes da edição Alfaguarra, na tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, aquele capítulo do "diz Joe, diz Bloom, digo eu..." O paragrafão começa na página 360. Diz ela: "O último adeus estava afetando ao máximo". Digo eu: afetando quem?, diga lá, James. É tudo assim... Depois de um monte de informações relevantes e irrelevantes, chegamos à frase cujo final transcrevi por outras paragens:

A delegação, toda ela presente, consistia no commendatore Bacibaci Beninobenone (o semiparalisado doyen do grupo que tinha que ser içado ao seu assento por meio de uma grua a vapor poderosa), monsieur Pierrepaul Petitépatant, o grandegozador Vladinmire Pokethankerstcheff, o arquigozador Leopold Rudolph von Schwanzenbad-Hodenthaler, a condessa Martha Virága Kissazonhy Putrá-Baba Backsheesh Rahat Lokun Effendi, señor Hidalgo Caballero Don Pecadillo y Palavras y Paternoster de la Malora de la Malaria. Hokopoko Harakiri, Hi Hung Chang, Olaf Kobberkeddelsen, Mynheer Trik van Trumps, Pan Poleaxe Paddyrisky, Goosepond Prhklstr Krqatchinabritchisitch, Borus Hupinkoff, herr Hurhausdirektorpresident, Hans Chuechli-Steuerli, Nationalgymnasiummuseumsanatoriumandsuspespensoriumordinaryprivatdocentegeneralhistoryspecialprofessordoctor Kriegfried Ueberallgemein. Todos os delegados sem exceção se expressaram nos mais fortes termos heterogêneos a respeito da barbaridade inominável que tinham sido convidados a testemunhar [...].

Não vou alongar-me, mas comentarei as primeiras autoridades. Começamos com o título que possivelmente se deve a um italiano ("commendatore"), mas o nome já vai retirando qualquer seriedade do 'delegado' meridional. Pelo que entendo, versado em italiano, Joyce meteu o nome do cara como Beijosbeijos. O sobrenome já me deixa patinando: Beni vai bem, mas nobenone não sei o que é. E assim por diante, até aquele prenome de um alemão mais longo que a esperança de todos os pobre de Jaguary encordoada, chegando até Santiago. Lá no finalzinho, Kriegfried faz guerra e paz, mas fried é frito em inglês. E o ueberallgemein não pode ser sobrenome nem aqui nem na China.

É complicado. E, para facilitar, eu tenho um projeto de pegar a tradução feita por John Gledson para o inglês do Dom Casmurro, de Machado de Assis, e trazê-lo de volta ao português brasileiro. Já achei algo que oferece garantidamente uma nota de rodapé: Gledson traduz Central do Brasil para Central Line do metrô de Londres.

DdAB
Imagem: "edição econômica" do Ulysses anunciada na Amazon. Para mim aquelas duas figuras masculinas da capa estão muito longe de representar a dupla Stephen Dedalus e Leopold Bloom. Ao contrário, lembram-me algo parecido com Ringo Starr e Peter Ustinov.

P.S. Minha biblioteca ulysseana.