17 junho, 2022

A Ucrânia e a Esquerda Belicista



Primeiro: eu defendo o princípio da auto-determinação dos povos. Segundo: se o Brasil suspeitar que o Paraguay está prestes a criar o IV Reich, ou coisa que o valha, recomendo que não invadamos o país amigo. Ao contrário, recomendo a convocação de uma conferência de paz na OEA e ONU, pedindo providências para a comunidade internacional.

Terceiro: o primeiro e o segundo levaram-me, desde o início da invasão russa à Ucrânia, a condenar acremente a camarilha de Vladimir Putin, um déspota paranoico, presidente eterno da Rússia, com delírios de ser a reencarnação de Pedro, o Grande e beneficiário de uma lei recente que lhe garante imunidade jurídica (pode fazer o que quiser, fumar maconha, roubar pneus de carros estacionados na Rússia, roubar flores dos jardins da turma, matar e invadir a Polônia, os bálticos, o que seja) para o resto de sua inglória existência.

Quarto: o que mais me surpreendeu, descontado o morticínio decretado pelo Putin, foi que uma parcela da esquerda brasileira tenha visto no desempenho internacional dos Estados Unidos a maior justificativa para a invasão da Ucrânia. Meu ativismo de sofá levou-me a ver no mural de Salvatore Santagada no Facebook, no dia 9 de junho corrente, um texto de terceiros fazendo a apologia da invasão. Não me contive e escrevi:


Duilio De Avila Berni

Nada justifica a o invasão de um país por outro.

Na contramão do próprio Salva e de seu núcleo rígido, meu comentário recebeu apenas um “Curti”. Rapidamente vim a perceber tratar-se de Diane Porto, de quem agora transcrevo comentários analíticos de altíssima competência lógica e histórica:

Diane Porto

A Rússia invade, bombardeia, destrói cidades inteiras, mata milhares, põe a fugir milhares de milhares para salvar o mundo dos neonazis???? Não sei se choro ou se dou risada. Tá triste isso aí, viu?

Aí veio um comentário sugerindo que ela "ampliasse seus horizontes", recomendando-lhe ver o material produzido por Oliver Stone, dando a versão mais fidedigna dos acontecimentos na Ucrânia. Ela não deixou por menos:

Diane Porto

"Ampliar  meus horizontes a partir da visão de Oliver Stone, o cara que pediu para Putin que apadrinhasse a sua filha? Que tipo de análise imparcial pode fazer um tipo que bajula ditadores? Conhecido por sua entrevista de lambe-botas em que elogia as leis anti-propaganda gay da Rússia... Que utiliza de fake news para desinformar geral e, o pior de tudo, admite que Putin errou com a invasão da Ucrânia, mas não pelo fato de ele invadir uma nação soberana, saquear, destruir cidades inteiras, e matar ucranianos com requintes de crueldade. Veja só, para ele nada disso importa, pois o grande erro de Putin foi ter subestimado a resistência ucraniana!!! Fina flor da perversidade humana, né?"

E segue Diane Porto:

"O texto do mural de Salvatore Santagada toca todos os pontos menos no único que importa: a Rússia cometeu através do seu neo-czar nazista uma das maiores atrocidades deste século. Parece que Putin encarnou o fantasma de Catarina, a Grande e considera os ucranianos como meros servos do seu império, ou quem sabe encarnou o fantasma de Stálin que transformou os campos férteis da Ucrânia em colônias coletivas para alimentar russos, ou ainda o espírito de Hitler, quando ameaça explodir o mundo com armas nucleares caso não se curvem diante do seu desejo expansionista.

"A quem me recomenda informar-me com Oliver Stone, sugiro que leia as ideias de Putin, não pelos discursos deste ou daquele, mas os últimos discursos proferidos pela própria boca do genocida inspirado por seu guru espiritual, Dugin. E que leia o que eles dizem da Rússia e quais seus sonhos para o mundo. E busque conhecer a formação e atuação do Grupo Wagner."


Preciso dizer mais? Claro que preciso, pois o debate é interminável, enquanto as bombas seguem caindo sobre o território ucraniano, com mortos de todos os tipos, cabendo destacar as crianças e os soldadinhos, neste caso, tanto os ucranianos quanto os da Federação Russa. O que me deixa mais chocado de tudo é perceber o séquito de esquerdistas belicistas que aplaude os tais desatinos que até me atrevo a chamar de soviéticos, né?

DdAB

A imagem veio daqui.

E divulguei a postagem no blog com o texto:

Lembra da canção "La Llorona"? Uma estrofe diz:
"La pena (sofrimento) y lo que no es pena, Llorona,
Todo es pena para mi: ayer lloré por no verte, Llorona,
y hoy peno por que te vi."
Eu tou igualzinho: sofro porque a Rússia invadiu a Ucrânia e sofro por ter amigos integrantes da esquerda belicista que apoiam a invasão.

07 junho, 2022

A Pandemia, ah, pandemia, a pandemia...

 



Pois é, pandemia. Li montes, lerei montes, não tirarei a máscara em qualquer aparição pública durantes os próximos invernos de minha esperança e em locais fechados (exceto restaurantes, na hora das garfadas) também. Em compensação, estou lendo

KALIL, Gloria (1997) Chic; um guia básico de moda-estilo. 9ed. São Paulo: Senai São Paulo.

Tudo começou com um mal-entendido. Aquele "moda-estilo", não sei que me deu, que vim a ler "moda-etilismo" e achei que fosse uma espécie de auto-ajuda para gambás. Desfeito o engano, não demorei a sentir-me chic, um chiquê. Logo eu que adoro Chick Corea.

Não é que na página 15, considerei ter lido algo estupendo?

Tendo esgotado o conteúdo da eternidade, passamos a nos dar o direito de amar coisas passageiras.

No original, li e reli, sempre evocando em minha cabeça aquele som de nossas possibilidades/disponibilidades de amar coisas passageiras. De imediato, isto evocou-me Umberto Eco, numa frase cuja origem agora me foge:

Não espereis demasiado do fim-do-mundo.

Entendo tratar-se de frases sinônimas sob o ponto de vista semântico. Se o fim-do-mundo não nos vai redimir, que tal saborearmos nossa cachacinha, nosso frango à passarinha, nosso tope no tênis de jogging, nossos livros, novos livros, essas coisas. Lê-te que te lê-te até que me fixei no original ipsis litteris:

A Idade Média, tendo esgotado o conteúdo da eternidade, nos dá o direito de amar coisas passageiras.
Cioran, filósofo

Ao entender que falávamos da idade das trevas, até que fiquei feliz com minhas filosofadas. E tomei como dever de casa investigar quem é Cioram. Que fiz? Fui à
Stanford Encyclopedia of Philosophy. Pelo que nela vim a inferir, passei a suspeitar tratar-se de Emil Mihai Cioran (aqui). Para um especialista em introdução à filosofia (como me declaro nos bares do bairro), não é vexame algum patinar nesse nome, pois ele não é tema dos livros introdutórios que me foram dados a ler. Mas, pelo que aprendi no verbete que citei da Wikipedia, quero mesmo é manter-me no nível introdutório, deixando o velho romeno em Paris.

Pensando melhor, talvez aquele Cioran citado por Kalil não seja o mesmo do verbete da Wikipedia, pois minha leitura original e a leitura correta, ambas, apontam para uma pessoa de formidável otimismo. Pelo menos é meu caso...

DdAB
A imagem veio daqui. E selecionei-a para deixar claro que a vida no pedregal pode também ser feita de bons mal-entendidos.

04 junho, 2022

Lista de Possibilidades para o Governo Lula



Às 9h46min de primeiro de junho corrente, minha amiga de Facebook, Jussara Ferreira, publicou em sua página o seguinte desejo:

Lula estará em POA hoje desejo que os gaúchos tenham um pouquinho de religiosidade e venham pedir a Deis que o abençoe! Um bom dia a toda militância do PT, que a luz da estrela permaneça em vossos corações. Paz e muita luz!

Esta visão super-esclarecida, numa postagem do FaceBook, deu o que falar. Gente irada falando daqui e dali. O mínimo tipo consenso da direita escalafobética é chamar Lula de ladrão e cachaceiro. Eu argumento que para esse tipo de retórica temos um atestado de falta de argumento, falta de poder de argumentação. Trata-se da cópia de chavões de uma propaganda bolsonarista que, talvez, nem os próprios autores acreditem. Mas tem seguidores, gente de baixo calibre intelectual, como falei na postagem daqui, quando citei Francisco Bosco.
 
Em 1o. de junho de 2022, Edemar Luiz Carneiro escreveu naquela conversa patrocinada por Jussara:

O voto de cada eleitor em outubro precisa ser bem raciocinado. Votar apenas em quem tenha foco nas necessidades básicas do povo:. PT e PSOL são os partidos que priorizam alimentação, moradia, emprego e renda familiar, escolas, hospitais, farmácias populares, fretes, passagens, transportes e combustíveis e gás doméstico baratos, segurança, direitos trabalhistas e previdenciários, economia social, soberania nacional, paz, amor, união nacional, nacionalismo verdadeiro, inclusão e justiça social. Nada disso está na cabeça dos bolsonaristas, milicianos, militares de alto escalão, mídias das elites, fanáticos de crenças dizimistas, pastores milionários e falsos profetas.

Fiquei impressionado com a listagem feita por ele e achei que eu mesmo deveria guardar aqui no blog para futuras referências. E estou pedindo autorização para usar por estas bandas ao autor, Edmar Luiz Carneiro.

Que poderíamos querer mais além de sua lista?

:: alimentação, moradia, emprego e renda familiar, escolas, hospitais, farmácias populares, fretes, passagens, transportes e combustíveis e gás doméstico baratos, segurança, direitos trabalhistas e previdenciários, economia social, soberania nacional, paz, amor, união nacional, nacionalismo verdadeiro, inclusão e justiça social.

DdAB

P.S. Pedi autorização (ex post) para Edemar Luiz Carneiro pelo Messenger e ele respondeu: "Mestre Duílio, sem problemas. Simplesmente vejo que os eleitores brasileiros ainda estão sob nefastas influências que os condicionam a fazer do votos uma brincadeira e não um compromisso com a democracia e os direitos básicos da população." Claro que isto evocou novamente para mim aquela análise que divulguei no outro dia feita por Francisco Bosco.

Fonte da imagem: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-forest-383852017

02 junho, 2022

Pensando no Futuro

 


João Bosco: quem não conhece? Eu mesmo ouvi pela primeira vez "O Bêbado e a Equilibrista" no ano de 1977, na cidade de Reading. Very interesting, rende uma história, uma postagem, umas 25 postagens que, talvez, nunca venham a acontecer. Em compensação seu filho -dele, João Bosco- deu uma entrevista para o Caderno DOC do jornal Zero Hora. O jornal, que volta-e-meia designo como Zerro Herra pelo conservadorismo, decidiu entrevistá-lo nas páginas 2-4 da edição de 28 e 29 de maio deste ano corrente.

O jornal, como acabo de denunciar, é conservador e -creio- só entrevistou Francisco Bosco pois este "falou recentemente no Fórum da Liberdade", também uma iniciativa de grupos conservadores. Mas, aparentemente, o filho de João Bosco, não é lá tão direitoso assim, se não o ofendo com este "não é lá tão"... O entrevistador foi o jornalista Daniel Feix (daniel.feix@zerohora.com.br) que fez perguntas inteligentes e recebeu respostas educadas. A última pergunta feita por Feix foi:

Por que a pauta de costumes é tão importante em um país com tanta desigualdade social e índices de pobreza e fome altos e hoje crescentes?

A resposta de Francisco Bosco mexe com uma questão que apenas sinuosamente me é familiar:

Porque somos humanos e a espécie humana se define precisamente por transcender a dimensão material. É claro que a fome, o abrigo, a saúde serão sempre questões fundamentais e urgentes. Mas as pessoas têm outras necessidades fundamentais, também, entre elas o senso de comunidade, de pertencimento. A religião, a família, a tradição, essas são instâncias imateriais fundamentais para muitas pessoas. O paradoxo da sua pergunta se situa aqui: quanto mais precarizado materialmente, mais o indivíduo precisa dessas instâncias fortalecedoras, mais elas têm centralidade em suas vidas. A religião oferece pertencimento espiritual e social, numa sociedade com pouco sentido comunitário. A família é o laço incondicional num país em que o Estado falha no processo de reconhecimento de grupos sociais vulneráveis. A tradição protege psiquicamente num mundo em que tudo que é sólido se desmancha no ar. Portanto não é difícil entender o porquê da força da pauta de costumes - difícil é descobrir como conciliar os valores conservadores com a legitimidade moral dos grupos que reivindicam seus plenos direitos políticos e sociais, como o dos indivíduos LGBTQIA+. Esse é um nó difícil de desatar. Minha sugestão [...] é que o caminho deve ser sobretudo indireto: melhores condições materiais, moradia digna, cidadania digna, acesso à boa escolaridade; tudo isso tende a aumentar a secularização da sociedade, tudo isso tende a enfraquecer a centralidade da religião na vida das pessoas. Ora, por mais que existam muitos cristãos liberais, ou apenas moderadamente conservadores, é também verdade que o núcleo do reacionarismo brasileiro é cristão. Com uma maior secularização, a agenda progressista teria melhores condições de prosperar.

Muito interessante, não é mesmo? Lembrou-me da hierarquização das necessidades humanas feita por Abraham Maslow que transcrevo daqui deste blog (https://19duilio47.blogspot.com/2010/10/dilma-e-sus-americanos-e-maquinas.html) mesmo:

Em 1943, [ele] classificou as necessidades humanas que se costuma resumir em:
a) necessidades fisiológicas (metabólicas),
b) necessidades materiais superiores (segurança e estabilidade),
c) necessidades sociais (reconhecimento e afeição derivados de se pertencer a um grupo), e
d) necessidades superiores (evolução pessoal ligada à busca da verdade e significado da vida).

Alinhadas na seqüência articulada por Maslow, tudo indica que não nos dispomos a trocar um prato de comida pela audição de um poema: apenas de barriga cheia é que teremos aguçada nossa sensibilidade artística.

E pensei no grande clube da baixaria brasileiro -que não juro venha a resolver-se com a Chapa Branca sendo eleita - em que convivem cirurgias delicadas, de R$ 500 milhões e outras mais e menos caras e a prosaica barriga d'água, os médicos treinadíssimos e os professores analfabetos. no dia em que os políticos tomarem doses de baixo preço de vergonha cívica, o orçamento universal começará a disciplinar estes despilfarros de recursos. in the meanwhile, vai votando na Dilma aí, sô!


Corrigendum: "vai votando na Dilma" deve ser lido como "vai votando no Lula, se queres social-democracia".

E mais esta postagem, mais pedagógica aqui: https://19duilio47.blogspot.com/2009/11/maslow-sempre-maslow.html.

Falando em Dilma e Lula e o lulismo, agora temos a chance de, em outubro, voltar a votar na social-democracia nos moldes que já conhecemos. Basta seguir o programa de Francisco Bosco: " melhores condições materiais, moradia digna, cidadania digna, acesso à boa escolaridade".

DdAB

A imagem que nos encima veio daqui: https://gestaodesegurancaprivada.com.br/hierarquia-de-necessidades-de-maslow-o-que-como-funciona/

21 maio, 2022

La Barbe: um caso de filosofia de cinema


 

Eu ia começar dizendo "meus caros amigos Obama e Ciro" e rapidamente dei-me conta de que não posso ser considerado amigo de nenhum deles. Mas Ciro é que não me passa, eu, logo eu, que tenho diletos amigos ciristas. E Barack Obama é um cara que fez história, ganhou um imerecido prêmio Nobel e toca a vida com desenvoltura e aplomb. Embora antípodas em matéria de minha admiração e afeto, eles comungam de um traço de comportamento muito importante: ambos cortam o cabelo semanalmente de sorte que sempre que os vemos temos a impressão de que seus cortes de cabelo são sempre o mesmos: eles nos fazem crer que possuem uma cabeleira estacionária.

E que dizer quanto à barba? Se bem lembro de já envelhecidas aulas de francês, a expressão "la barbe" expressa (ou expressava) perplexidade. E é bem nesta linha de tornar-me perplexo que desejo fazer o comentário que estou designando como caso de cinema. O assunto começa com a divisão do rosto masculino em: a) cara limpa ou b) barba. De sua parte, a barba é mais rica (nem digo em pelos) que a cara limpa: b.1) barba de um dia, b.2) barba de dois ou três dias, b.3) barba à la Karl Marx, b.4) barba de eremita, e por aí vai vovó Viviane. Hoje também é moda, além de barbudos como o que acabo de citar nominalmente, aquelas barbinhas de três ou quatro dias que também se eterniza: não para de crescer.

Um fato que nem serve para separar a cara do homem vivo com a de seu cadáver: a barba, em ambos, cresce. No caso do segundo, ela não cresce eternamente, mas apenas algumas horas do post mortem. Minha preocupação é fazer o contraste entre os rapazes de cara limpa de barba recém feita e os de cara limpa com a barba crescidinha revelando certo passar do tempo entre o corte e a observação.

Tentando ganhar intuições sobre o que rege os cara limpa de cinema, comecei a reunir elementos para formar uma grande amostra de filmes em que atores que sempre estão em cena com barba aparada há, no máximo, digamos, uma hora, uma hora e meia. Entendo que essa falta de realismo, essa falta de cuidado da parte dos iluminadores da cena ou do roteirista ou mesmo do próprio diretor, serve para diferenciar esse monte (nem todos) os personagens que têm barba sempre aparada, no estilo de Obama e de Ciro, e o resto da negadinha, inclusive cadáveres zero quilômetro, que têm a barba crescendo ao longo do tempo. Ao ver, como vejo repetidamente, esse atropelo às leis da natureza, coço a barba (em geral de dois a três dias) e expresso-me murmurando: la barbe.

DdAB

14 maio, 2022

O Mil Invertido: considerações sobre filosofia da matemática

 


Muitos anos atrás, ouvi uma senhora, numa loja, dar seu CGC para o/a atendente: tal, tal, tal, mil invertido, tal. Nada me pareceu estranho: tal, tal, tal é normal. Mas outro dia, um senhor idoso falou -mutatis mutandis- a mesma coisa: tal, tal, tal, mil invertido, tal. Em poucas saídas de casa (sou um tanto misantropo), vi gente e mais gente, umas mil pessoas, falando no mil invertido.

Então o mil invertido, como sabemos, é 0001. E foi criado, creio, pela sabedoria popular para evitar-nos dizer zero zero zero um. Tenho um amigo cujo telefone celular tem os cinco primeiros dígitos como 99.999. Ele, talvez inspirado nessa levada do mil invertido, fala: "uma sequência de cinco números nove". E, em geral, é bem sucedido.

Mas aí, no bar do bairro em que costumo beber faça chuva ou faça sol, um menino de rua, também frequentador do furdunço, depois de ter estudado com um matemático de respeito (carregou uns pacotes para ele), indagou-me: "Míster sênior, o senhor terá um dez invertido para me dar?" Pensei: "dez invertido? que será?". E, dado meu treinamento em matemática, logo dei-me conta: o míster menino de rua está falando em mísero um pila, um real. 

Achei que poderia botá-lo no bom caminho se decuplicasse o donativo, passando-lhe uma nota de R$ 10,00. Ele emocionou-se e comprou para si um liso de canha, oferecendo-me o primeiro gole. Não que eu goste de canha, meus amigos, minhas amigas, mas tive que provar para não fazer desfeita. Já com o sabor da pinga na boca, tive uma ideia filosófica: mas será que o dez invertido não é 10 elevado na potência -1 ou 10^(-1), ou 0,1? E aí a reflexão filosófica aprofundou-se, pois passei a investigar o primeiro princípio de toda filosofia: A não é não-A. No caso, 0,1 e 0.1 ficaram comme si, comme ça.

DdAB

P.S. Por outro lado, ao procurar no Google Images a expressão "1000 invertido", vieram 89 milhões de opções. Mudei para "mil invertido". O universo reduziu-se, mas não de modo significativo e útil, pois o algoritmo ofereceu-me "apenas" 34 milhões de opções.

Uma vez que eu esperava poder escolher entre umas cinco ou dez figuras, fiquei contrafeito. Mas, ao pedir imagens com "mil invertido", veio uma bela meia-dúzia e escolhi a que nos encima, entendendo aquele "Sênior" como justa homenagem a minha pessoa.

12 maio, 2022

Ucrânia Vista de Dentro

 



Self-Determination and the War in Ukraine

We cannot know how Ukraine will develop after the war. But we know there will be horrible consequences if Russia wins.

Two months ago, when I wrote “A Letter to the Western Left from Kyiv,” I hoped that the shock of the Russian invasion and the voices of the Ukrainian left would push Western leftists to reconsider their approach. Unfortunately, too many of them have failed to do so. In their analyses of the war, Ukrainians are just victims in need of humanitarian aid, not subjects with desires that should be respected.

Of course, this doesn’t apply to everyone on the leftnot by a long shot. Scandinavian left-wing parties as well as Eastern European ones have listened to Ukrainians and supported arms supplies to Ukraine. Some progress is taking place among U.S. socialists. But unfortunately, even a joint statement by Ukrainian and Russian socialists hasn’t convinced enough people to support military aid. Let me try to address the left once more.

 

A Just War?

Let’s start by addressing a common question: “why is Ukraine paid so much attention and provided so much help while other armed conflicts in the world are not?” First of all, aren’t the potential consequences of the war reason enough to pay more attention to it? When was the last time the world was so close to the threat of nuclear war? Second, I agree that other conflicts are paid insufficient attention. As I’ve written before, the fact that Europe has treated Ukrainian refugees so much better than their Syrian and Afghan counterparts is due to racism. This is a good time to criticize migration politics and point out that the help extended to Ukrainian refugees should be provided to all refugees.

I recall another armed conflict where parts of the left had their “good guys” (and gals) and paid them outsized attention compared to other armed conflicts: Rojava. Ukraine is not Rojava, and we can list many complaints about Zelensky’s domestic and foreign policies. Ukraine isn’t even a classic liberal democracy—here, every new president tries to amass as much power as possible via informal mechanisms, the parliament passes unconstitutional laws, and rights and freedoms of citizens are often violated. Even during the war, the Ukrainian government has passed a law curtailing labor rights. In this respect, it is not very different from the rest of Eastern Europe.

Does this mean that Ukrainians should give up the struggle? For me, the answer is obviousI decided to join the Territorial Defense Forces at the start of the war. But I’m far from the only one. Anarchists from Ukraine, Belarus, and even a few from Russia are currently fighting in the Territorial Defense or are helping. They dislike Zelensky and the state itself, they’ve been repeatedly detained during protests by police (as I have been), and some foreign anarchists have faced deportation attempts by special services. But still we went to war. You may think that these are not “real” anarchists—or you may consider the notion that we know something about Eastern Europe that you do not understand.

I am a socialist, and I do not think that you should have to defend your country in any defensive war. Such a decision should depend on analysis of the participants, the social nature of the war, the sentiments of the people, the broader context, and the potential consequences of different outcomes. If Ukraine was run by a fascist junta and the situation was the one presented by Russian propaganda, I would still condemn the invasion, but I wouldn’t join the army. Leading an independent partisan struggle would be more appropriate. There are other invasions, such as the U.S. invasion of Afghanistan or Iraq, that should be condemned, but would it have been right to fight for the regimes of the Taliban or Saddam Hussein? I doubt it. Is Ukraine’s far-from-perfect democracy worth protecting from Putin’s para-fascist regime? Yes.

I know that many dislike such terms. After 2014, when it became popular in Ukraine to label Putin a fascist, I criticized this view. But in recent years, Putin’s regime has become more and more authoritarian, conservative, and nationalistic, and after the defeat of the antiwar movement, its transformation has reached a new level. Russian left intellectuals such as Greg Yudin and Ilya Budraitskis argue that the country is moving toward fascism.

In many armed conflicts, it is right to call for diplomacy and compromise. Often in the case of ethnic conflicts, internationalists should not take a side. But this war is not such a case. Unlike the 2014 war in Donbas, which was complicatedthe nature of the current war is actually simple. Russia is waging an aggressive imperialist war; Ukraine is waging a peoples war of liberation. We cannot know how Ukraine will develop after the war—it depends on a plethora of factors. But we can say for sure that only if Ukraine wins will there be a chance for progressive change. If Russia wins there will be horrible consequences. This is the main reason to support the Ukrainian resistance, including with military aid.

 

The Ukrainian Far Right

Here, some readers might want to ask another question: “what about the Ukrainian far right?” In the more reasonable debates on this topic, one side always stresses the far right’s low electoral support and lack of representation in parliament, while the other side emphasizes that, due to infiltration of law enforcement agencies and active participation in street protests, the far right has had disproportionate influence over Ukrainian politics. Both are true, but there is one important fact that both sides usually ignore: the disproportionate influence of the far right was based largely on the weakness of civil society and the state, not their power. 

The far right’s presence can be felt across Eastern Europe, but the dynamics are different in each country. In the late 2000s, the Russian far right unleashed terror in the streets, including bombings, pogroms, and other lethal attacks. After the Manezhnaya Square riot in 2010, the Russian state began to crack down, and members of the Russian far right fled the country or were jailed. Some have found a place in Ukraine, which was a safe place not least because the repressive apparatus of the Ukrainian state is so much weaker. (The relative weakness of the state was also the main reason for the success of mass protests in Ukraine compared to Belarus, where demonstrators faced arbitrary detention and torture, or Kazakhstan, where Russian-backed security forces led a deadly crackdown.) 

In recent years, the far right’s power in Ukraine has been subject to new challenges. Since Maidan, the development of liberal civil society has changed the balance of power in street politics. Until recently, there wasn’t always a clear line between the far right and other political forces. But this is also gradually changing due to the rise of feminist and LGBT movements, which oppose right-wing radicals. Finally, thanks to the campaign against the deportation of Belarusian anarchist Aleksey Bolenkov and the protection of the Podil district from the far right in Kyiv last year, there has been a resurgence of the antifa movement on the streets.

Since 2014, the far right has compensated for electoral failures by strengthening its presence on the streets and reinforcing its alliance with the liberals, which formed during the years of struggle against the Yanukovych regime. But this union began to gradually collapse after Zelensky came to power in 2019. The far right, in particular the Azov movement, was in crisis. And after the resignation of Interior Minister Arsen Avakov, who was considered Azovs patron, the state apparatus began to treat them more coolly. 

Of course, the war has changed everything, and what happens next depends on many factors. The participation of the Ukrainian far right in the current war is less noticeable than in 2014, with one obvious exception—the Azov Regiment. But not all Azov fighters today are far right, and as part of the National Guard and the Armed Forces, they carry out orders from the high command. And even Azov is only a small part of the Ukrainian resistance. Therefore, there’s no reason to assume the current war will push the rise of the far right as much as the war in Donbas.

Today, the main threat to the citizens of Ukraine is not the Ukrainian far right, but the Russian occupiers. This includes groups that have often been attacked by the far right in recent years, such as Roma or LGBT people, who are also active in the Ukrainian resistance. This applies to residents of Donbas, too. Russian propaganda has hypocritically used Donbas residents to justify the invasion, accusing Ukraine of genocide while the Russian military razes the region’s cities to the ground. While people join huge lines to enlist in the Territorial Defense in Ukraine, in the Russian-controlled part of Donbas, men are caught on the streets, forcibly conscripted, and thrown into battle, without training, like cannon fodder.

 

Inter-Imperialist Conflict

Another common argument against the Ukrainian resistance is that this is a proxy war between the West and Russia. Any military conflict is multilayered, and one of the components of the current confrontation is an inter-imperialist conflict. But if that is enough to call this a proxy war, almost all armed conflicts in the world are proxy wars. Instead of arguing about the term, it is more important to analyze the degree of Ukraines dependence on the West, and to understand the goals of both imperialist camps.

Ukraine is much less of a Western proxy than the Syrian Kurds were U.S. proxies during their heroic fight against ISIS. But proxies are not puppets. They are local actors who receive military support from other states. Both the former and the latter have their own interests, which may only partially coincide. And just as leftists supported the fighters in Rojava despite the Syrian Kurds receiving American military aid, leftists should support the Ukrainian people. Socialist policy on armed conflicts should be based on analyzing the situation on the ground rather than on whether an imperial power supports one side or the other. 

In recent months, some leftists have used the history of the First World War to argue that socialists should not support either side in inter-imperialist conflicts. But the Second World War was also an inter-imperialist conflict. Does this mean that neither side should have been supported in that war? No, because the inter-imperialist conflict was only one dimension of that war.

In a previous article, I recalled that many representatives of anticolonial movements did not want to fight for their colonizers during the Second World War, and one of the leaders of the Indian National Congress, Chandra Boss, even collaborated with Nazi Germany. But it is also worth mentioning Jawaharlal Nehrus words: in the conflict between fascism and democracy, we must unequivocally be on the latters side. It is also worth mentioning that the most consistent of the INCs leaders to support the Allies’ war was M.N. Roy, its most left-wing member. Of course, this didn’t mean that Roy suddenly began supporting British imperialism. Similarly, supporting the struggle against Russian imperialism does not imply support for American imperialism.

Of course, the situation is different now. Direct participation of other states in the war will only make the situation worse. But socialists should support economic pressure on Russia and demand tougher sanctions and embargoes on Russian oil and gas. Many of the sanctions currently in place are designed to weaken Russias military industry and thus hinder Russia’s ability to continue fighting. Leftists should also support sanctions on oil and gas imports from Russia, which will further increase economic pressure on Putin to end the war.

The United States may have learned its lesson by disgracing itself in Iraq and Afghanistan. Russia must now learn its lesson too, and the tougher, the better. Defeat in war has repeatedly provoked revolutions, including in Russia. After Russia lost the Crimean War in 1856, serfdom was finally abolished in the Russian Empire. The First Russian Revolution of 1905 took place shortly after Russia’s defeat in the Russo-Japanese War. Losing against Ukraine could spark a new revolution. With Putin still in power, progressive change in Russia and most post-Soviet states will be almost impossible.

Western states share responsibility for this war. The problem is that many radical leftists criticize these states for the wrong reasons. Instead of criticizing the supply of weapons to Ukraine, they should criticize the fact that even after the annexation of Crimea and the invasion of Donbas, EU countries continued to sell weapons to Russia. This is just one example. The responsibility for that decision lies with Western governments, not the left. But rather than try to change the situation for the better, much of the left is foolishly trying to make things even worse.

Ukrainians are well aware that war is terrible. This is not our first war. We have been living with the conditions of a smoldering conflict in Donbas for years. We are suffering major losses in this war, and we will continue to suffer if the war drags on. It is up to us to decide what sacrifices we are willing to make in order to win, and what compromises we must make to stop death and destruction. I do not understand why the U.S. government agrees with this, while much of the left prefers to take a more imperial approach, demanding that the West decide for us.

So far, the Kremlin has been unwilling to make serious concessions. They are waiting for us to surrender. But Ukrainians will not agree to the recognition of their territorial conquests. Some argue that supplying weapons to Ukraine will prolong the war and increase the number of victims. In fact, it is the lack of supplies that will do that. Ukraine can win, and Ukraines victory is what the international left should stand for. If Russia wins, it will establish a precedent for the forced redrawing of state borders and push the world into a Third World War.

I became a socialist largely under the influence of the war in Donbas and my realization that only overcoming capitalism will give us a chance for a world without war. But we will never achieve this future if we expect nonresistance to imperialist intervention. If the left does not take the correct stance on this war, it will discredit and marginalize itself. And we will have to work for a long time to overcome the consequences of this nonsense.


Taras Bilous is a Ukrainian historian and an activist of the Social Movement organization. As an editor for Commons: Journal of Social Critique, he covers the topics of war and nationalism

Disponível em: https://www.dissentmagazine.org/online_articles/self-determination-and-the-war-in-ukraine

Acesso em 10 de maio de 2022.


DdAB

30 abril, 2022

O Número Pi Brasileiro é 10



O número Pi, pertencente ao conjunto dos reais, é obtido pelo cálculo da razão entre o perímetro da circunferência e seu diâmetro. A figura que nos ilustra hoje dá a ideia de que Pi tem um número infinito de casas decimais. Alguns místicos, como eu próprio, dizem que se pode encontrar o número do CPF de quem quer que seja em algum lugar entre a vírgula e o infinito. Por exemplo, é possível que já no comecinho alguém tenha o CPF número 141.592.653-58.

Nos Estados Unidos da América, no dia 14 de março, comemora-se o número Pi: março = 3, dia = 14, 3.14.

Por contraste, amanhã é o dia de Pi made in Brazil. Ou seja, em 31 de abril, comemora-se 31.4, que também é 10 x 3,14. O único problema brasileiro é que abril, diferentemente de fevereiro, não tem 31 dias.

DdAB

24 março, 2022

Ulysses: a tradução de Bernardina


No outro dia, falei no relançamento da tradução do "Ulysses", de James Joyce, elaborada por Caetano Galindo. E falei que minha tradução preferida é a de 2007, da editora Alfaguarra/Objetiva, efetuada pela profa. Bernardina da Silveira Pinheiro. Ela trabalhou alguns anos na tradução, com a colaboração de colegas acadêmicos e estudantes. Uma grandiosa pesquisadora que deixa muitos legados à cultura brasileira, de que destacando esta obra monumental.

Nesta postagem, vou dar mais detalhes sobre as razões de minhas preferências. Mas, como bom gaúcho (heimat), começo botando defeito no que, depois, e apenas depois, vou elogiar... 

O DEFEITO

Tanta discussão já foi feita sobre o "Ulysses" que talvez já não mais seja possível fazer-se o levantamento de tudo o que foi escrito. Ou que apenas seja possível daqui a 1.000 anos... Um desses meandros da abordagem ao romance diz respeito às letras inicial e final da história: stately e yes, ou seja, as letras inicial e final da palavra "sífilis". Por quê? Existe uma longa bibliografia de comentadores sustentando que Joyce padeceu desta DST.

REFLEXÕES SOBRE OS DOIS "S" DO SUBSTANTIVO/ADVÉRBIO INICIAL (stately) E DO ADVÉRBIO FINAL (yes)

Para chegar na ilustração, temos um bom caminho a percorrer. Lendo daqui e dali, cheguei à conclusão que Joyce quis mesmo protestar contra a sífilis que o acometeu em algum ponto de sua vida ao iniciar o romance com a letra 's' e concluí-lo com outra (ver mais reflexões aqui). De fato em inglês, a edição princeps (Penguin) e também a edição de Hans Gabler (Vintage) mantêm as palavras originais 'stately' e 'yes'. Vou repetir aqui, para conveniência do leitor, a palavra inicial do romance nas traduções que tenho à mão ('stately'). E acrescentar a elas a final ('yes'). 

PORTUGUÊS BRASILEIRO E D'ALÉM MAR (fala-se em uma segunda tradução portuguesa já existente e de outra brasileira a ser lançada em junho/2022. Aqui acabei de tomar conhecimento com essa segunda tradução portuguesa, tendo a autoria atribuída a João Palma-Ferreira, cuja primeira frase deixa-se ler como “Pomposo, roliço, Buck Mulligan veio do alto da escada, trazendo uma tigela com espuma de barbear, na qual se cruzavam, em cima, um espelho e uma navalha”. A portuguesa e a novel  brasileira, no momento, são apenas objeto de meu desejo)

Pois então:

JOYCE, James (1966, 2003) Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 13a. ed. 957p. Tradução de Antônio Houaiss. "sobranceiro" e "Sims"

JOYCE, James (2007) Ulisses. Rio de Janeiro: Alfaguarra/Objetiva. 908p. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. "majestoso" e "sim".

JOYCE, James (2012) Ulysses. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras. 1106p. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo. "solene" e "sim".

JOYCE, James (2022) Ulysses. São Paulo: 815p. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo. "solene" e "sim".

JOYCE, James (2013). Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. 730p. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho. "soberbo" e "yes".


TRADUÇÕES EM ESPANHOL

JOYCE, James (1988) Ulises. Barcelona: Debolsillo. 963p. Tradução de José Maria Valverde."solemne" e "sí".

JOYCE, James (2008) Ulises. Mexico: Tomo. 728p. (na verdade, "Grupo Editorial Tomo, S. A de C. V."). 1a. edición, noviembre. Tradução de J. Salas Subirat reproduzindo o original argentino."imponente". "sí''.

JOYCE, James (20011) Ulises. Madrid: Cátedra. (Tradução de Francisco Garcia Tortosa e María Luiza Venegas Lagüens em 1999). 908p. "majestuoso" e "sí".
abcz

VIRTUDES ADICIONAIS DA TRADUÇÃO BERNARDINA

Mais referências para avaliar a qualidade da tradução da profa. Bernardina são as notas do final do volume. Ela inicia confrontando a "Odisseia" de Homero com o "Ulysses" de James Joyce. Além disso, ela apresenta uma lista de termos requerendo qualificações praticamente página-a-página. Por exemplo, ao final do primeiro parágrafo do romance, vem uma expressão latina: "Introibo ad altare Dei". Bernardina escreve: [...] latim: "Eu irei ao altar de Deus". (Salmo 43.4) - Palavras do padre ao iniciar a antiga missa latina. Esta iniciativa é muito importante para quem deseja aposar-se dos detalhes da construção joyceana.

Mas isto não é tudo. Depois de um prefácio e sua bibliografia da autoria da professora, vemos um "Esquema dos Episódios", esquema este feito por James Joyce em 1921, para benefício de seu amigo Stuart Gilbert. Na edição Penguin-Companhia/Galindo, reproduz-se esse mesmo esquema. Podemos vê-lo clicando aqui. que, tristemente, foi eliminado da edução Companhia das Letras/Galindo. E ainda agora isso não é tudo, pois -além desse esquema feito para o amigo Stuart Gilbert, James Joyce fez outro, desta vez direcionado a seu amigo Carlo Linati (aqui).

E qual a importância desses esquemas? Eles mostram aspectos omitidos pelo próprio autor na edição princeps, ou seja a Penguin inglesa. Podemos entender que o  romance tem três partes. A primeira contempla os três capítulos iniciais e se intitula "Telemaquia". A segunda contempla os capítulos 4-15, intitulando-se "Odisseia" e a última contempla os três capítulos finais. E se intitula "Nostos".

Daí advém uma superioridade da tradução da profa. Bernardina sobre algumas das recém citadas, pois ela nos permite ver também o título dos 18 capítulos, o que já é também um brinde para o leitor. Mas ela não reproduz esses títulos como frontispícios dos próprios capítulos. A lápis, o leitor pode fazê-lo e, caso se arrependa, pode apagá-los... 

DdAB

P.S. Caetano Galindo é um acadêmico de respeito, especialista em comentar Joyce, além do "Ulysses" (além, claro, de outras especialidades). É dele um maravilhoso livro de introdução ao "Ulysses":

GALINDO, Caetano W. (2016) Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce: São Paulo: Companhia das Letras.

Não sei o que é melhor: meter os peitos e ler a tradução da profa. Bernardina ou o livro introdutório de Galindo, também professor. Nas atrevo-me a recomendar a da professora.

19 março, 2022

Ulysses: novidades interpretativas


O subconjunto da humanidade que tem o peculiar passatempo de acompanhar o Planeta 23 sabe que andei fazendo dezenas de postagens sobre o "Ulysses", a obra magistral do irlandês James Joyce, obra que dá o que falar, como previu o autor. Joyce, lui même, previu que a crítica literária iria ocupar-se de "Ulysses" por pelo menos 1.000 anos. Pois então: no dia 2 de fevereiro passado, completaram-se os 100 primeiros anos desse prometido milênio, com a publicação de dois exemplares pela editora parisiense Shakespeare and Company da editora americana Sylvia Beach. Joyce, naquele santo dia, completava 40 anos de existência.

A mais benévola crítica que li sobre este milenar romance (um dia voltarei a encontrá-la e referenciar comme il faut) diz que faltou um editor para o catatau, umas 800 páginas. Outros dizem-na genial e outros ainda dizem tratar-se de pure gibberish.

Pouca atenção tem sido dada aos requebros e meneios feitos pelos tradutores de milhares de países e milhões de línguas à obra magistral. Ou talvez pouca atenção tenha sido dada por mim a este tópico. O fato é que eu mesmo (ver postagens anteriores sobre o "Ulysses") coleciono traduções: as quatro em português, outras três ou quatro em espanhol e um PDF italiano. Um dia voltarei a Barcelona para ver se existe tradução catalã, se os nativos do território pararem de hostilizar os turistas. Pois então: tanto li a primeira sentença do primeiro capítulo da primeira parte do original em inglês (não indo muito longe nas leituras) que a decorei:

Majestosamente, o gordacho Buck Mulligan acercou-se do hallzinho da escada, portando um vaso de barbear em que se entrecruzavam um espelho e uma navalha.

Pois então. Poucos dias atrás, vim a saber em propaganda encaixada no Facebook que a Companhia das Letras publicou a tradução revisada do trabalho de Caetano Galindo previamente saído com o selo de Penguin-Companhia. E fui direto comparar a primeira sentença dois dois livros. Pensei que te repensei e pensa, repensa e cheguei à conclusão que a obra vista e a revista por Galindo têm parentesco com o conto "Pierre Menard, autor del Quijote", de Jorge Luis Borges (ver postagem completa clicando aqui e minha erudita discussão sobre vírgulas e o sentido do universo agora clicando aqui). Parece que já dá para ir tomando a metade da manhã de um domingo.

Nesta linha constatei que Galindo aperfeiçoou a tradução da primeira sentença, pois lemos:

a) naquela edição Penguin-Companhia:

Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no

alto da escada, portando uma vasilha de

espuma em que cruzados repousavam es-

pelho e navalha.

b) na novel edição da Companhia das Letras:

olene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasi-

lha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha.

Bem estilo Pierre Menard, não é mesmo? Mas que dizer daquele "olene"? Não era o mais prosaico e sofisticado "solene" da Penguin-Companhia? Claro que era, mas esta edição 1000 vezes mais caprichada que a anterior capitula as letras iniciais de todos os 18 capítulos. Ou seja, reserva-se uma página exclusivamente para a letra capitulada.

Moral da história: de tanto ler, derrapar, reler, descansar, reler aquela primeira sentença, já descobri muita coisa sobre ela. Agora tem mais, ainda que não estejamos falando no original de 1922 e sim de uma tradução revisada. Moraleja: só procurando no motor de busca do blog para ver tudo o que já escrevi, derrapei, reescrevi, descansei, reescrevi sobre o assunto.  

DdAB

P.S. Não duvido que o lançamento da tradução revisada de Caetano Galindo tenha sido lançada precisamente no dia 2/fev/2022, ou seja, o primeiro centenário de nascimento de James Joyce. Seria bem romântico!

P.S.S. Quem me falou que a primeira edição, os primeiros dois exemplares da primeira edição, foram -os dois- levados a Paris, um deles sendo entregue a Joyce foi Caetano Galindo. Ou melhor, não falou, mas escreveu: "No dia 2 de fevereiro de 1922, meros dois exemplares do "Ulysses" ficaram prontos a tempo de chegar a Paris para marcar o aniversário de 40 anos de James Joyce."

P.S.S.S. Como sabemos, as reformas ortográficas de 2009, algo assim, reinseriram na língua brasileira o k, o w e o y. Assim, Galindo alertou-se e foi o primeiro a grafar "Ulysses". A melhor tradução para o português foi a da dame Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, o que, talvez, levou-a a usar "Ulisses" mesmo. 

P.S.S.S.S. Entre os comentários que acompanharam a postagem no WhatsApp, destaco estas respostas que dei:

Para mim [a melhor tradução) é a de Bernardina da Silveira Pinheiro. Há uns 10 anos, quando li a resenha bibliográfica da obra/tradução no jornal e informando-me que a tradutora era octogenária, achei que valeria a pena comprar (antes tentara ler apenas a tradução de Antônio Houaiss). E assim começou a coleção.
Mas o que mais me diverte é ler os comentadores.

Por exemplo, um carinha defendeu a tese de que Joyce contraíra sífilis (talvez seja verdade) e começou o romance com a palavra "stately" e o terminou com um "yes", ou seja as letras inicial e final do nome da doença. A Bernardina não tem esse requebro, mas -depois que li o comentador- vi que Houaiss tem: inicia com "sobranceiro" e, daquele monte de "sim" do monólogo de Molly Bloom, ele traduziu o último "yes" dela como "sims".

12 março, 2022

Rússia, Novo Gendarme do Mundo: contra o imperialismo do chiclé

 


Estive fazendo uns cálculos e constatei que não há nada mais normal que a Rússia invadir a Ucrânia, dadas as baixarias protagonizadas pelos Estados Unidos da América. E apresento uma evidência irremovível: o filme "Acossado" (À bout de souffle) refilmado no centro do imperialismo (id est, os EUA) como Breathless, tem Richard Gerre no papel que fora de Jean Paul Belmondo. 

Ocorre que, por determinações dos imperialistas que controlam a Ucrânia, Gerre aparece numa cena que outra mascando chiclé. Não posso conceber maior ameaça à soberania territorial russa. Já imaginou se todos os russos começarem a mascar chiclés 16 horas por dia (e alguns mesmo dormindo)? Seria um pandemônio no mercado mundial de chiclés e, claro, elevação nos preços de todos os bens e serviços levados ao mercado pelos imperialistas, inclusive o mercado de armas.

DdAB

Fiz a seguinte propaganda no Facebook:

Tenho argumentado que a Rússia está buscando a posição de novo gendarme do mundo. E, em meu blog, sob o marcador Besteirol, aponto nova evidência da necessidade de novos corretivos especialmente voltados aos Estados Unidos. Já imaginou todos os russos mascando chiclé por influência de Richard Gerre e Valerie Kaprinsky, o par romântico imperialista substituindo o circunspecto par Jean Paul Belmondo e Jean Seberg?


10 março, 2022

Popper e a Ucrânia


 

Meu ativismo de sofá levou-me a escrever onde pude:

1. concedamos que a Ucrânia é o novo berço do nazismo e está prestes a mandar ver nos desatinos daquela ideologia,

2. consideremos o "paradoxo da tolerância" que vejo atribuído a Karl Popper: não podemos ser tolerantes com os intolerantes". Ou seja, não deveríamos tolerar o nazismo onde quer que ele viesse a surgir/ressurgir,

3. segue-se que "deveríamos" impedir o nazismo de ser revivificado por quem quer que seja, inclusive nas manifestações ucranianas,

4. deveríamos? quem deveria? talvez um governo mundial, algum foro internacional, mas nunca um país e

5. qual a razão, senão a ideologia anti-americana, que leva gente, muita gente, usando os mesmos argumentos, a defender que a Rússia tenha se tornado o novo gendarme do planeta? 

DdAB

03 março, 2022

O Jogo Falcão e Pombo: OTAN e Rússia



Já vou avisando: sou ligeiramente favorável à Ucrânia, especialmente no que diz respeito a sua autonomia. E sou e frontalmente contrário às pretensões da Rússia em sua expansão territorial para cima de países que integravam a União Soviética e que se tornaram independentes quando ela esboroou-se. O ataque que ainda hoje vemos da Rússia/Putin sobre a Ucrânia é assincrônico, ou seja, totalmente fora do tempo.

Vou começar descrevendo o quadro que nos encima. Se a OTAN escolhe a estratégia "falcão", ela pode perder 5 unidades de bem-estar ou dinheiro (Bd) ou ganhar 10Bd. Se ela escolhe "pombo", ela nada ganhará ou ganhará apenas 2. Claro que estas recompensas cabíveis à OTAN dependem da escolha da Rússia.  O jogo é totalmente simétrico, de sorte que a Rússia também vai se defrontar com essas mesmas recompensas.

A questão é se podemos fazer uma previsão do que vai ocorrer nessa interação. Se o jogo é estático, isto é, joga-se apenas uma vez, vamos procurar a existência de uma estratégia dominante, ou seja, que se sobrepõe às demais. Então usamos o método ou-ou-ou para as recompensas da OTAN:
-5 ou 10
    ou
0  ou 2
Zero é melhor que -5 ao passo que 10 é preferível a 2. Ou seja, se a Rússia escolhe jogar "falcão", a melhor estratégia para a OTAN é jogar "pombo". Por contraste, se a Rússia escolhe jogar "pombo", o melhor para a OTAN é escolher "falcão". Isto significa que não existe estratégia dominante no jogo "Falcão ou Pombo".

Mas existe um conceito de equilíbrio que nos permite "resolver" este jogo: o equilíbrio de Nash: haverá equilíbrio de Nash se cada jogador der a melhor resposta à ação do outro. Assim, por exemplo, se a Rússia decide jogar "falcão", a OTAN perde 5 se também jogar falcão ou fica no zero ao jogar "pombo". Ao mesmo tempo, se a Rússia joga "pombo", ela ganhará 10 ou 2, dependendo da decisão da OTAN, escolher "falcão" ou "pombo".

Aqueles sublinhadinhos no quadro estão marcando as chamadas melhores respostas, como acabamos de raciocinar. Então vemos que o melhor resultado para quem joga "falcão" vai ocorrer quando o antagonista joga "pombo" com o ganho de 10. Então, para ambos os jogadores, sublinhamos as cifras de 10. E se ambos jogam "pombo"? Cada um ganha 2.

Todos sabemos que ao adotar a estratégia 'falcão", os jogadores pegam pesado, e - se forem dois passarinhos - como é o caso da exposição original deste jogo - se enchem de bicadas e, ao invés de, irmanados, ir tomar sorvete no bar, terão que ir para casa ou para o hospital.

Simetricamente se dois jogadores que escolhem a estratégia "pombo", cada um ganha uma recompensa de 2 unidades de bem-estar ou dinheiro, o que seja.

No quadro que nos encima, vemos que as melhores escolhas ocorrem ou quando a OTAN joga "falcão" e simultaneamente a Rússia joga "pombo", ou quando a Rússia é que joga "falcão" ao mesmo tempo que a OTAN joga "pombo". Pois bem, nós, que queríamos uma solução buscada com a estratégia dominante, agora temos duas! E ainda tem mais uma, a estratégia mista, que mostra as probabilidades de sucesso de um ou outro dos jogadores. No rodapé do quadro, a melhor resposta que a OTAN pode dar à Rússia é jogar "falcão" aqueles, 62%, sobrando para jogar "pombo" nas demais 38% das oportunidades, nesse cálculo teórico (pois sabemos que o jogo ocorre apenas uma vez, ou seja, são probabilidades calculadas teoricamente).

Claro que, na condição de especialista em leitura de jornais e revistas, não posso entender como foguetes americanos ou norte-coreanos, o que seja, mostrem-se incapazes de alcançar o centro da Rússia. Dizer que a Finlândia e a Suécia poderiam desestabilizar as fronteiras russas é, parece-me, nesta condição de especialista que revelei, um tanto absurda. Já sabemos que a Coreia do Norte desenvolveu mísseis/foguetes que partem do extremo oriente e alcançam os Estados Unidos. Então seria necessário para os americanos ter bases próximas a seus alegados alvos de sorte a atingi-los?

DdAB

24 fevereiro, 2022

Za Mir: os bons tempos

 


Há muitos anos, os registros perderam-se no tempo, li o livro, com notação mais ou menos acadêmica:

AMADO, Jorge (1951) O mundo da paz. Para mim, s.n.t., mas referenciado no site de Jorge Amado aqui.

E retive traços que, com o tempo, viraram fumaça, falando com redundância, esfumaçando-se, e outros tantos que hoje lembro de modo enviesado. Este livro é o relato de viagem que o autor fez pelo que já se chamou de Cortina de Ferro e auto-proclamado União Soviética, CCCP. 

Muita coisa esfumaçou-se, mas guardava na memória que, na Romênia, tão próxima na língua e tão distante no sistema político, podia-se ir a uma banca de revista e dizer em portuguẽs: "Dê-me um jornal" e o revisteiro entender em seu romeno, dar-nos o jornal e nós sairmos de lá lendo o jornal. Tudo igual. Mas depois veio o desmentido: não é bem assim. E nem lembro como é, mas aqui temos algo. 

Em compensação, também aprendi que "sou pela paz", em russo, escreve-se (transliterado) "Za Mir". E, naqueles tempos em que arrumei tempo para ler montes de Jorge Amado, inclusive seu livro de viagem ao, para mim, desconhecido mundo socialista, tudo eram revelações. Já fui pensando em estudar na Romênia (e tenho o amigo mexicano Pablo que conheci em Berlim e estudou economia lá), na Patrice Lumumba de Moscou, na Polônia, em tudo que era lugar das repúblicas socialistas. E, pensando melhor, fui ficando por aqui mesmo, ainda que acossado pela ditadura militar de 1964-1985, algo assim.

Em compensação, hoje entendo a anexação da Criméia pela Rússia do general Vladimir Putin um descalabro. E outro de mesmo jaez a anexação da Ucrânia. Entendi o oportunismo (no sentido de Williamson) da Rússia ao perceber a fraqueza do governo americano. De sua parte, neste mundo mad mad mad, parece que quem desponta na curva são os republicanos e, com eles, mau, mau, mau, Donald Trump. É um mundo estranho que está a se formar. A China como fiel de balança com viés pró Rússia. E o Brasil de Bolsonaro também. Não é indício de que o fim do mundo deve chegar ainda antes do Gre-Nal deste sábado?

DdAB

P.S. Já usei esta imagem da pomba da paz de Pablo Picasso ilustrando postagens no Planeta 23 milhares de vezes.

13 fevereiro, 2022

O SUS e o Significado de Universalidade

 

Tem muito juiz mal preparado, inclusive sem saber que aqueles óculos redondinhos que vemos estampados no rosto de John Lennon eram distribuídos gratuitamente pelo SUS britânico (ou seja, o NHS - National Health Service) naquele tempo áureo da social-democracia no reino, na Europa e em boa parte do resto do mundo.

Mas tem ainda mais falta de preparação dos juízes, de muitos juízes do desafortunado Brasil: ganham milhões e não estudam. Muitos juízes são especialmente desconhecedores da teoria da escolha pública (TEP). Deixo claro, não são todos os juízes, como posso presumir. Ao mesmo tempo, alinho ao lado deles milhões de estudiosos, formuladores e outros envolvidos com o desenho e aplicação das políticas de governo que desconhecem as reflexões teóricas da citada TEP que podem dar escopo a sua atuação. 

Sem uma base mais sólida sobre as questões das falhas de mercado e falhas de governo é impossível um juiz exarar boas sentenças nos assuntos governamentais. Por exemplo, é sabido que,  volta e meia, ordens judiciais furam a fila de transplantes de órgãos. Outro exemplo: juízes mandam o SUS pagar medicamentos muito caros para uns, enquanto que medicamentos mais baratos para outras doenças são sonegados precisamente pela falta de recursos para tudo.

Falo agora da incompreensão por parte desse grupo do significado do termo "universal" envolvido pela sigla de SUS - sistema, único e de saúde. Agora começa.

Único não é sinônimo de universal. O primeiro termo pode bem estar descrevendo um monopólio, digamos, de tecnologia D.25 para internet com impressão em 3D, algo pirado e só concebido para dar este exemplo. Como sabemos, um monopólio puro, modelado na teoria econômica elementar e, mais recentemente, nos últimos 50 anos, na teoria dos jogos, não existe no mundo. Naqueles tempos dizia-se que havia um monopólio, o único reconhecido como tal, na indústria (de um só produtor) de máquinas para fabricar sapatos, uma empresa americana que, no devido tempo, teve seu poder de mercado quebrado pelos italianos.

Outra instituição universal é a renda básica da cidadania prevista na lei 10.835/2004. 2004! Segundo ano do governo Lula e negligenciada durante todo o lulismo. Pela lei (ainda a ser cumprida por algum governo decente), todos, indiscriminadamente, independente de outros ganhos, serão credenciados a receber certo estipêndio mensal, compatível com o grau de desenvolvimento econômico do país. Todos indiscriminadamente têm acesso a ela, desde o vereador Eduardo Suplicy que fez o projeto enquanto senador a Chico Buarque e Chico Zé, um descendente de portugueses que conheci.

Com universal, a encrenca é diferente: tem que servir para habitantes da Terra e de colônias extra-lunares, além das lunares propriamente. Num sistema universal, todo mundo tem acesso àquilo que está sendo universalizado. Então isto significa dizer que tenho acesso a um iate de 15 pés? Claro que não, pois não tem nenhuma linha de modelos de 15 pés de iates sendo universalizada. E aí chegamos na sempre elogiada por mim teoria da escolha pública: o iate nem precisa ser universalizado para ver sua escassez administrada, pois há dois mecanismos de mercado coibindo seu uso, sua compra: a exclusão e o consumo rival. Exclusão significa dizer que consumidores com poder aquisitivo insuficiente estarão barrados ao consumo de iates. Rivalidade no consumo quer dizer que, se minha avó compra um iate de 15 pés (para permitir-me pular o carnaval embarcado, presumo), tua avó não poderá comprar aquele mesmo que vai parar em meu ancoradouro.

O SUS propõe-se a cumprir o mesmo preceito. Mas existe uma diferença importante entre renda básica e SUS. No segundo caso, precisamos pensar no conceito de hierarquização das necessidades humanas. Tirei a lista que segue da Wikipedia hoje mesmo:

Necessidades Básicas (primárias)
::: Fisiológicas 
::: Segurança
Necessidades Psicológicas (secundárias) 
::: Sociais 
::: Estima 
Necessidades de Autorrealização

Pois então. No caso do SUS, trabalha-se arduamente pela consolidação de seus princípios doutrinários (universalidade, equidade e integralidade nos serviços e ações de saúde), bem como dos princípios que dizem respeito a sua operacionalização (descentralização dos serviços, regionalização e hierarquização da rede e participação...".

E agora termino: juiz mandar hospital furar fila de transplantes de órgãos, juiz mandar o SUS importar remédios caríssimos (em detrimento dos baratíssimos, por exemplo, para acabar com a barriga d'água), tudo isto é uma insanidade geral. Mostra apenas o despreparo, em linhas gerais, do sistema judiciário (da polícia aos juízes).

DdAB