29 dezembro, 2021

"Nada é Meu"

 


Epígrafe para um novo livro:

O atributo de distribuição mais equitativa no Terceiro Planeta de Sol é o bom-senso: ninguém se queixa de ter pouco. (Blaise Pascal transmitido por Flávio Spanhol)

Nota ao que segue:

Se falarmos sobre a morte, não há como deixar de pensar nos sentimentos "de última hora": do medo do devir ao cansaço com o que veio. Mas está implícito que não morremos sozinhos, aliás, menos ainda, vivemos sozinhos.  A crônica que veremos a seguir, em transcrição integral, foi retirada do livro:

PAPINI, Giovanni Gog. (c.1970) Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Coleção Universo. Tradução de Marina Colasanti.) Páginas 99-100.

Nada é meu

Arosa 18 de setembro

   O maior problema do homem, como das nações, é a independência. Há solução?

   O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído, pelo que tenho. A única propriedade incontestável deveria ser o Eu - entretanto, procurando bem, onde está o resíduo absoluto, isolado, que não depende de ninguém?

   Ausentes ou presentes, os outros participam da nossa vida interior e exterior. Não há salvação. Mesmo na solidão perfeita sinto-me, com horror, átomo de uma montanha, célula de uma colônia, gôta de um mar. No meu espírito e na minha carne trago a herança dos mortos: meu pensamento é devedor a vivos e defuntos: e mesmo contra a vontade, meu comportamento é guiado por sêres que não conheço ou desprezo.

   Tudo o que sei aprendi de outros. Tudo o que eu uso é obra alheia - que importa se paguei? Sem o operário, sem o artesão, sem o artista estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero me locomover preciso de máquinas que não fabriquei e que não dirijo. Sou obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes de mim me impõem sem que eu o saiba, seus gostos, seus sentimentos, seus preconceitos.

   Ao desmontar o Eu peça por peça encontro sempre pedaços e fragmentos que vêm de fora - em cada um poderia colocar um rótulo de origem. Êste é da minha mãe, êste do meu primeiro amigo, êste de Emerson, êste de Rousseau ou de Stirner. Se levo a fundo o inventário das apropriações o Eu torna-se uma forma vazia, uma palavra sem conteúdo próprio.

   Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça - não consigo, por mais que faça, evadir-me dos confins que não tracei. Tôda idéia é um eco; todo ato um plágio. Posso afastar a presença dos homens mas grande parte dêles continua vivendo, invisível, em minha solidão.

   Se tenho empregados devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los - e o dinheiro deve ser olhado, cultivado , protegido, defendido Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias de que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem e que nunca vi. Conheço o que recebi mas ignoro o que dei.

   Consegui juntar algumas dúzias de bilhões. Não o teria podido fazer se milhões de homens não tivessem trabalhado para mim, se milhões de homens não tivessem precisado daquilo que eu podia vender, se milhares de homens não tivessem inventado as fórmulas, as máquinas, as regras sôbre as quais se baseia a vida econômica da Terra. Abandonado a mim mesmo teria sido um selvagem, comedor de raízes e de cães mortos.

   Onde está, então, o núcleo profundo e autônomo do qual ninguém mais participa, por ninguém mais gerado, e que eu possa verdadeiramente chamar meu? Sou, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos realmente nossa - o Eu - é, talvez, como todo o resto, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho?

É isto, era isto, isso tudo. É que nada é meu. É de Giovanni Papini.

DdAB

P.S. Mantive a grafia do livro original. Aqueles "sôbre", "êsse", "idéia" são daquele tempo que atribuí a 1970. Bons tempos, péssimos tempos: nem sabíamos que a ditadura militar seria tão longa.

23 dezembro, 2021

Investigação sobre o Conceito de Equilíbrio em Marx (Parte I)

Frases com mais de quatro linhas são proibidas, não se equilibram... Esta pérola da redação de TCCs não é de minha autoria, embora conste do livro de "métodos e técnicas" que co-organizei com Brena Fernandez. E tem mais: no livrinho sobre como fazer teses, Umberto Eco diz que parágrafos não devem ser muito grandes, a fim de "arejar o texto". Sabidos os integrantes da humanidade que nos levam a entender que estas regras não são estéreis. Seja como for, vou citar um material que meu ex-aluno e ex-orientando André Luis Contri selecionou para mim, há muitos anos.

A história é que ele assistiu a um curso que dei na graduação da UFRGS basicamente sobre economia marxista. E ao curso seguiu-se, com minha participação e incentivo, um inevitável seminário com os alunos interessados, uma boa meia-dúzia, incluindo Contri. Anos depois, conversando amigavelmente com ele, falei que Marx era equilibrista, mas não lembrava em que parte do volume 1 d'O Capital me baseei. Mas jurava que o pinta era mesmo equilibrista. 

Então agora decidi mexer naquele texto de André Contri (na verdade, citações e observações bibliográficas). Mas fui à internet para não digitar o paragrafão das páginas 246-7 do livro cujo link dou lá mais prá baixo. Contrariamete a meu hábito, o texto de Marx vai todo sem destaque, exceto o trecho citado por Contri, que vai em cor deste tipo e o negrito é dele mesmo. Marx não tinha nem coloridos nem negritados nesta parte.

[...]

But, in spite of the numerous analogies and links connecting them, division of labour in the interior of a society, and that in the interior of a workshop, differ not only in degree, but also in kind. The analogy appears most indisputable where there is an invisible bond uniting the various branches of trade. For instance the cattle-breeder produces hides, the tanner makes the hides into leather, and the shoemaker, the leather into boots. Here the thing produced by each of them is but a step towards the final form, which is the product of all their labours combined. There are, besides, all the various industries that supply the cattle-breeder, the tanner, and the shoemaker with the means of production. Now it is quite possible to imagine, with Adam Smith, that the difference between the above social division of labour, and the division in manufacture, is merely subjective, exists merely for the observer, who, in a manufacture, can see with one glance, all the numerous operations being performed on one spot, while in the instance given above, the spreading out of the work over great areas, and the great number of people employed in each branch of labour, obscure the connexion. But what is it that forms the bond between the independent labours of the cattle-breeder, the tanner, and the shoemaker? It is the fact that their respective products are commodities. What, on the other hand, characterises division of labour in manufactures? The fact that the detail labourer produces no commodities. It is only the common product of all the detail labourers that becomes a commodity. Division of labour in society is brought about by the purchase and sale of the products of different branches of industry, while the connexion between the detail operations in a workshop, is due to the sale of the labour-power of several workmen to one capitalist, who applies it as combined labour-power. The division of labour in the workshop implies concentration of the means of production in the hands of one capitalist; the division of labour in society implies their dispersion among many independent producers of commodities. While within the workshop, the iron law of proportionality subjects definite numbers of workmen to definite functions, in the society outside the workshop, chance and caprice have full play in distributing the producers and their means of production among the various branches of industry. The different spheres of production, it is true, constantly tend to an equilibrium: for, on the one hand, while each producer of a commodity is bound to produce a usevalue, to satisfy a particular social want, and while the extent of these wants differs quantitatively, still there exists an inner relation which settles their proportions into a regular system, and that system one of spontaneous growth; and, on the other hand, the law of the value of commodities ultimately determines how much of its disposable working-time society can expend on each particular class of commodities. But this constant tendency to equilibrium, of the various spheres of production, is exercised, only in the shape of a reaction against the constant upsetting of this equilibrium. The a priori system on which the division of labour, within the workshop, is regularly carried out, becomes in the division of labour within the society, an a posteriori, natureimposed necessity, controlling the lawless caprice of the producers, and perceptible in the barometrical fluctuations of the market-prices. Division of labour within the workshop implies the undisputed authority of the capitalist over men, that are but parts of a mechanism that belongs to him. The division of labour within the society brings into contact independent commodityproducers, who acknowledge no other authority but that of competition, of the coercion exerted by the pressure of their mutual interests; just as in the animal kingdom, the bellum omnium contra omnes [war of all against all – Hobbes] more or less preserves the conditions of existence of every species. The same bourgeois mind which praises division of labour in the workshop, lifelong annexation of the labourer to a partial operation, and his complete subjection to capital, as being an organisation of labour that increases its productiveness - that same bourgeois mind denounces with equal vigour every conscious attempt to socially control and regulate the process of production, as an inroad upon such sacred things as the rights of property, freedom and unrestricted play for the bent of the individual capitalist. It is very characteristic that the enthusiastic apologists of the factory system have nothing more damning to urge against a general organisation of the labour of society, than that it would turn all society into one immense factory. 

Trecho colorido é o que foi marcado por André Country. O negrito também é dele. Eu selecionei o parágrafo monstro retirado daqui. Ele dá ainda as traduções brasileiras de duas obras, mas preferi traduzir pelo Google Tradutor e revisar o trecho colorido no paragrafão: 

As diferentes esferas de produção, é verdade, tendem constantemente para um equilíbrio: pois, por um lado, enquanto cada produtor de uma mercadoria é obrigado a produzir um valor de uso, para satisfazer uma necessidade social particular, e enquanto a extensão desses desejos difere quantitativamente, ainda existe uma relação interna que estabelece suas proporções em um sistema regular, e um sistema de crescimento espontâneo; e, por outro lado, a lei do valor das mercadorias determina, em última instância, quanto de seu tempo de trabalho disponível pode ser gasto com cada classe particular de mercadorias. Mas esta tendência constante ao equilíbrio, das várias esferas da produção, é exercida, apenas na forma de uma reação contra a constante perturbação desse equilíbrio.

Assumo eu daqui em diante. Entendo que se a perturbação do equilíbrio é contínua, obviamente também sua recomposição também é. Houve construção e, como se diz modernamente, desconstrução do equilíbrio num processo interminável de busca e rejeição: desequilíbrio gera equilíbrio que gera desequilíbrio que gera equilíbrio, até o fim dos tempos capitalistas.

DdAB

11 dezembro, 2021

Os Milagres da Mão

 



Esta postagem está levando jeito de enturmada nas magias do Natal. Já na linha das promessas de amor e paz para aquele momento dos brindes familiares, falando-se em juras de amor e calando-se nos propósitos de vingança. Ora, não foi George J. Stigler que falou que a família é aquele combinado de amor, conveniência e frustração? Foi.

E também foi que sempre ouvi falar no escritor italiano Giovanni Papini* e especificamente o livro "Gog". Pois na pandemia cheguei a ele, for the first time, e estou lendo-o. Já li o terço (epa, novamente insinuações de reza e votos de amor...) inicial, que muito me fez pensar. Trata-se de pseudo-crônicas/contos cheios de citações de cidades, situações, livros, autores, pintores, um mundo cheio de mundos. 

Pela aritmética, lendo uma página de cada vez, cheguei à 47. Nela, Papini fala, pela boca de Gog, em "Thormon, o soteriólogo". E o narrador (Gog) explica que soteriólogo é o pinta que estuda "a ciência das libertações". A propósito, o amigo de um amigo disse que tinha apenas duas libertações em vista para 2022: "da caña e da muié". Nada comentei, pois estava ocupado em baixar o nível de meu próprio copo da primeira.

Vencida a página 47, aquele rigor matemático levou-me à página 48, que cito verbatim:

[..] Muitos de nossos semelhantes sofrem a escravidão da fome e do trabalho, mas pelo menos são homens. Podem falar, amar e sobretudo possuem as mãos, estes instrumentos milagrosos que nenhuma máquina conseguirá suplantar.

Primeiro: amei ouvi-lo falar em "escravidão [...] do trabalho". Quem me lê amiudadamente sabe que odeio a expressão "gerar emprego e renda". Entendo que a sociedade gosta de renda e de lazer. E que o capitalismo dá renda e desemprego tecnológico. Esta ociosidade de homens, mas não de máquinas, deveria servir para reduzir a jornada de  trabalho da moçada. Mas tem mais.

Sua definição de "mãos" é das antigas. O livro é de 1931 e já se sabia da existência e possibilidade da produção de máquinas de calcular analógicas. No outro dia, na festa de aniversário de um amigo, a mãe dele levou para a mesa um bolo decorado com tantos confeitos que achei-me satisfeito ao olhar, mas rococós e outras florzinhas e rosáceas e o amigo exclamou: "estas florzinhas e rosáceas imitam a mão humana de forma inimitável." Ou seja, instrumento 1 x 0 mão.

Sou do time daqueles que consideram que, no futuro, todas as necessidades vitais do ser humano serão atendidas por máquinas. E hoje temos clara noção do que isto quex dizer, isto é, aquele x cujas demais letras e ele x foram sublinhados em vermelho, quer dizer, foi corrigido pelo cérebro da máquina que me permite escrever o que agora digito.

DdAB

* Não confundir com Giovanni Arpini, o cara do livro que referi aqui

P.S. Avancei mais um tanto no livro de Giovanni Papini, chegando a um capítulo intitulado "Visita a Lênin". Achei uma vergonha, uma irresponsabilidade apenas compartilhada por intelectuais de direita sem noção. Não tivesse Papini mudado do materialismo para o idealismo e, politicamente, chegando a apoiar o fascismo, eu até diria que aquilo era uma crítica sibilina aos detratores de Lênin.

05 dezembro, 2021

Um Adendo Totalmente Filosófico

 


Sempre que vou falar em filosofia, já começo avisando que, embora seja um Philosophy Doctor, tenho apenas conhecimentos de nível introdutório do tema. Talvez em breve faça exame (auto-teste) para ser promovido ao nível intermediário, pois já contei mais de 100 livros emprestados (e não devolvidos...), presenteados, comprados ou roubados. Quando chegar à leitura do milésimo (que ainda vou tomar emprestado, presenteado, comprado ou roubado, aí vou passar a declarar-me um doutor em introdução à filosofia. A prova que o tema carrega o maior interesse de minha parte é esta postagem que se alcança ao clicar aqui.

No link que deixei ali, tá na cara que estamos falando da Stanford Encyclopedia of Philosophy.

Aqui temos 52 entradas em que se dividem os verbetes (verbetões, na verdade) da enciclopédia que acabo de nominar. Ler tudo isso estará dando certamente o conhecimento de um curso de introdução à filosofia de caráter avançado:

17TH CENTURY PHILOSOPHY

18TH CENTURY PHILOSOPHY

19TH CENTURY PHILOSOPHY

20TH CENTURY PHILOSOPHY

AESTHETICS

AFRICAN AND AFRICAN-AMERICAN PHILOSOPHY

ANCIENT PHILOSOPHY

APPLIED ETHICS

ARABIC AND ISLAMIC PHILOSOPHY

ARISTOTLE

BIOMEDICAL ETHICS

CHINESE PHILOSOPHY

EPISTEMOLOGY

ETHICS

ETHICS AND INFORMATION TECHNOLOGY

FEMINISM

FORMAL EPISTEMOLOGY

HISTORY OF ETHICS

HISTORY OF LOGIC

INDIAN AND TIBETAN PHILOSOPHY

JAPANESE PHILOSOPHY

JUDAIC PHILOSOPHY

KANT

KOREAN PHILOSOPHY

LATIN AMERICAN AND IBERIAN PHILOSOPHY

LOGIC

LOGIC AND LANGUAGE

LOGIC, COMPUTATION, AND AGENCY

MATHEMATICAL LOGIC

MEDIEVAL PHILOSOPHY

METAETHICS

METAPHYSICS

NORMATIVE ETHICS

PHILOSOPHICAL LOGIC

PHILOSOPHY OF ACTION

PHILOSOPHY OF BIOLOGY

PHILOSOPHY OF COGNITIVE SCIENCE

PHILOSOPHY OF LANGUAGE

PHILOSOPHY OF LAW

PHILOSOPHY OF LOGIC

PHILOSOPHY OF MATHEMATICS

PHILOSOPHY OF MIND

PHILOSOPHY OF PHYSICS

PHILOSOPHY OF RELIGION

PHILOSOPHY OF SCIENCE

PHILOSOPHY OF SOCIAL SCIENCE

PLATO

QUANTUM MECHANICS

RENAISSANCE AND 16TH CENTURY PHILOSOPHY

SOCIAL AND POLITICAL PHILOSOPHY

SPACETIME

WOMEN IN THE HISTORY OF PHILOSOPHY


Quando eu terminar de ler o 52o. item, não necessariamente na ordem alfabética, avisarei aqui mesmo.

DdAB

30 novembro, 2021

Quintana e Pinker

 


Stephen Pinker - cito de memória:

A gente não escreve como fala: fala como escreve.

Mario Quintana: na página 4 do livro que já vou referenciar, tem um título chamado de "O que acontece com as crianças" e na página 5 lê-se:

[... ] se essas  crianças, coitadas, nunca adquiriram o hábito da leitura, como saberão um dia escrever?"

É a mesma coisa, não é mesmo?

DdAB

24 novembro, 2021

Três Traduções e Certas Considerações


Na pandemia tenho lido literatura como talvez apenas o tenha feito no final da adolescência. E, em qualquer tempo, gosto de reler obras que marcaram época, minha época, coisas da minha vida. Garanto que, no tempo antigo, li

SOMERSET MAUGHAM, William [1944; (2003)] O fio da navalha. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo. Tradução de Lígia Junqueira Smith.

E que, mais recentemente, com essa imprenta, li em 2010 (conforme o registro que fiz aqui) e, ainda mais recentemente, acabei de ler há um par de horas. Sempre a mesma erudita tradução de Lígia Junqueira Smith.

Falei em três traduções no título da postagem, não é mesmo? Então já posso adiantar duas: do inglês ao português e do francês (tu) ao... francês (vous). O interessante é que o contraste entre as línguas inglesa e francesa mostram a questão de gênero ausente no inglês, mas presente no francês, assim como no português.

Então o romance, no original inglês, a certa altura, que agora não localizei, fala em "you", que pode ser "tu" ou "vós". E fica indefinido o gênero de quem se fala: you, the king, you, the queen. Claro que, em francês, não há titubeios: "tu" (como em português) e "vous". O interessante é que, pelo que conheço da Langue Et de Civilisation Françaises, mesmo pessoas íntimas dirigem-se uma a outra como "vous" e não como "tu": est ce que tu veux un verre de vin? do papai ao filhinho em seu berço, contra est ce que vous voulez cinc verres de vin? Mas ainda mais interessante é que esse negócio de tu e vós tem correspondentes entre o francês e o espanhol. Pelo menos em Buenos Aires, diz-se "vos" mesmo para os íntimos, como pai e filha. E, por lá, nunca me chamaram de tu, apenas Dudu.

DdAB 


27 outubro, 2021

Igualitarismo e o Facebook

 



(Forças centrífuga e centrípeta na montanha russa do site da Infoescola.com)

Tudo começou com um telefonema entre a profa. Brena Fernandez e mim. Ela apontou uma reportagem virtual em que ela própria deu algumas informações ao autor (da reportagem). Podemos ler a matéria clicando aqui. Dei este link em meu mural do Facebook tipo às 19h00 de hoje mesmo. Poucos minutos depois, minha querida prima Neli Nunes escreveu: "Sem falar no assédio sexual que era corriqueiro com as mulheres e que antigamente não era visto como crime...". De fato, aquele artigo não fala nesta dimensão da discriminação da mulher. Mas certamente Brena, em outros momentos, está atenta a este crime.

Pensando nesta questão e nas outras levantadas pelo artigo que acabo de referenciar, acho que tive um insight sobre a modelagem da sociedade igualitária. E lá escrevi o seguinte, que aqui já vai editado: 

"Essa questão tem interessantes implicações para a sociedade igualitária. Há, no igualitarismo, forças centrípetas e centrífugas. Em certa medida, até um tanto indesejável (uma vez ouvi alguém ofender outro dizendo que ele provocava paz de cemitérios), podemos ver a sociedade perfeitamente igualitária como aquela em que rege o mais absoluto equilíbrio entre essas forças. Mas, na sociedade contemporânea, há forças centrífugas impulsionam a sociedade para um padrão menos igualitário, ou seja, para uma posição mais distante daquele suposto equilíbrio que demarca a paz social. As forças centrípetas amplificam o igualitarismo. 

No primeiro caso, por exemplo, um jogador de futebol extremamente talentoso e avaliado a peso de ouro no mercado esportivo vai puxar contra a igualdade. Por contraste, a educação universal, o emprego de professores, faxineiros, cozinheiros, bibliotecários, motoristas de ônibus escolares, tudo conspira para tornar a sociedade mais igualitária."

E acho que esta moldura pode dar o que falar, o que talvez eu mesmo faça aqui ou em outro canto.

DdAB

26 setembro, 2021

Pescando com Machado



Nada impede que me declare um especialista em Machado de Assis. Primeiro, durante a pandemia, decidi reler o trio Memórias Póstumas, Quincas Borba e Dom Casmurro:

MACHADO DE ASSIS ([1880], 2014) Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

_____ ([1891, 2012). Quincas BorbaSão Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

_____ ([1899], 2016) Dom Casmurro. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras. Introdução de Luis Augusto Fischer.

Como podemos ver, as três obras vêm na capa da Companhia das Letras. Todo o trio foi publicado entre 2012 e 2016. A pandemia não acaba nunca (sendo certamente mais comprida que aquilo que nos resta do governo Bolsonaro, que não se aguenta mais) e li o tal trio de cabo a rabo. Este Dom Casmurro tem uma erudita, inteligente, ilustrada e bem-humorada introdução de Luis Augusto Fischer, convidando-me a pescar com ele... E assim o fiz, aqui e ali, mas ainda mais aqui falo de uma passagem dele Fischer e outra dele Machado de Assis.

A questão, se não ofendo a aritmética e a gramática, são duas. Primeiro, na ficção, Bento Santiago manda reconstruir a casa em que viveu pelo menos a infância e a adolescência, vizinha de portão da casa em que veio a residir Capitu. Em segundo lugar, aquela paternidade que legou a cor parda a Machado de Assis não era apenas de um pintor de paredes, como fui levado a crer até este momento. 

Olha a página 81 desta edição de Dom Casmurro:

[...] Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. [...]

E olha o que diz na página 14 da introdução Luis Augusto Fischer da genealogia de Machado de Assis:

[...] Pelo lado paterno, [Machado de Assis] descendia de africanos escravizados: seu avós eram escravos alforriados, e seu pai, homem livrem desde sempre, era pintor, ofício humilde mas não totalmente desprovido de certo virtuosismo, já que pintores, naquele tempo não apenas cobriam paredes com tinta, mas também faziam alguma decoração, algum traço, alguma ilustração. [...]

Quem sabe, num paradoxo do tempo literário, se não foi o próprio pai que pintou afrescos e o teto da casa de Matacavalos? E, se não foi na casa de dona Glória, teria feito este tipo de trabalho em outros locais. Em qualquer caso, é patente que Bentinho é que está falando pela boca de Machado de Assis, experiências de vida de ambos, agente e testemunha.

Eu já lera Dom Casmurro umas duas ou três vezes ao longo de minha longa vida, inserindo-o na mediana do pentateuco machadiano (os dois citados, a mediana de Dom Casmurro e o duo final Esaú e Jacó e Memorial de Aires). Além, ou aquém, dos cinco romances do pentateuco machadiano, Luis Augusto Fischer, na página 16 da introdução, acrescenta "[... outro romance inteiro apenas em folhetim, que veio a conhecer a forma do livro (o intrigante Casa Velha) só bem depois de sua morte, pela mão de Lúcia Miguel Pereira." Para mim, um texto com no máximo 44 páginas deve ser declarado conto ou novela. Aliás O Alienista é declarado conto para lá e, para cá, tacho-o de novela.

DdAB

P.S. Muito estranha é aquela indústria da "fixação de texto", que fala em "cálix, cousa e dous". Até parece tratar-se dos louquinhos da Editora Boitempo que, ao invés de falarem em "mais-valia", como todo mundo, escrevem "mais-valor".

22 setembro, 2021

Duelo Desleal: Mujica x Bolsonaro


O planeta está marcado pelo discurso de abertura da assembleia da ONU de 2021. Como sempre, tradicional, o Brasil faz o discurso de abertura. Bolsonaro, pessoal ou em teleconferência, já cumpriu a rotina duas vezes e agora o faz pela terceira vez. Ouvi montes de falas e li montes de comentários sobre a falta de juízo do presidente da república. E lembrei do espantoso discurso de José Mujica, na condição de presidente do Uruguay, há alguns anos. Sem muito mais a explicar, decidi colocar aqui os dois discursos. Prá mode poder ler ambos e decidir se isto é um diálogo ou uma farsa.

Jornal do Brasil:
Bolsonaro na ONU: veja o discurso descolado da realidade do presidente
Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/politica/2021/09/1032964-bolsonaro-na-onu-veja-o-discurso-descolado-da-realidade-do-presidente.html. Acesso hoje mesmo.
Hashtag #QUEVERGONHA explode nas redes sociais.
Bolsonaro levou seu país imaginário à ONU
Por JORNAL DO BRASIL
Publicado em 2021-09-21 11:32:00
O presidente Jair Bolsonaro discursou nesta terça (21) na abertura da sessão de debates da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos.
Cabe ao presidente do Brasil fazer o discurso de abertura do evento, seguido do presidente dos Estados Unidos. A tradição vem desde os primórdios das Nações Unidas, quando o diplomata Oswaldo Aranha, então chefe da delegação brasileira, presidiu a Assembleia Geral, em 1947.
Para esta terça-feira, estão previstas mais de 100 intervenções dos chefes de Estado e de governo. O evento começou no último dia 14 e, desde então, estão acontecendo reuniões, conferências e encontros paralelos. O tema desde ano é “Construindo resiliência por meio da esperança - para se recuperar da covid-19, reconstruir de forma sustentável, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas”.
Em 2020, devido à pandemia de covid-19, o evento foi virtual. Neste ano, o modelo adotado é o híbrido, com declarações presenciais e por vídeo.
Bolsonaro e a comitiva presidencial viajaram para os Estados Unidos no domingo (19). Ontem (20), ele se reuniu com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e, à noite, participou de uma recepção oferecida pela representação permanente do Brasil junto às Nações Unidas.
Antes do discurso desta terça-feira, Bolsonaro teve encontro com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, e com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. A previsão é que o presidente embarque ainda nesta terça de volta ao Brasil.(com Agência Brasil)
A íntegra do discurso do presidente Jair Bolsonaro na 76ª Assembleia-Geral da ONU

Senhor Presidente da Assembleia-Geral, Abdullah Shahid,
Senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres,
Senhores Chefes de Estado e de Governo e demais chefes de delegação,
Senhoras e senhores,

É uma honra abrir novamente a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões. O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019.
Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção. O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo. Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo. Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas.
Nosso Banco de Desenvolvimento era usado para financiar obras em países comunistas, sem garantias. Quem honra esses compromissos é o próprio povo brasileiro. Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada. O Brasil possui o maior programa de parceria de investimentos com a iniciativa privada de sua história. Programa que já é uma realidade e está em franca execução.
Até aqui, foram contratados US$ 100 bilhões de novos investimentos e arrecadados US$ 23 bilhões em outorgas. Na área de infraestrutura, leiloamos, para a iniciativa privada, 34 aeroportos e 29 terminais portuários. Já são mais de US$ 6 bilhões em contratos privados para novas ferrovias. Introduzimos o sistema de autorizações ferroviárias, o que aproxima nosso modelo ao americano. Em poucos dias, recebemos 14 requerimentos de autorizações para novas ferrovias com quase US$ 15 bilhões de investimentos privados.
EM NOSSO GOVERNO PROMOVEMOS O RESSURGIMENTO DO MODAL FERROVIÁRIO.
Como reflexo, menor consumo de combustíveis fósseis e redução do custo Brasil, em especial no barateamento da produção de alimentos. Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da história no setor foi realizado em abril, com concessão ao setor privado dos serviços de distribuição de água e esgoto no Rio de Janeiro.
Temos tudo o que investidor procura: um grande mercado consumidor, excelentes ativos, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo. Também anuncio que nos próximos dias, realizaremos o leilão para implementação da tecnologia 5G no Brasil. Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional.
Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa. Nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países. O Brasil é um país com dimensões continentais, com grandes desafios ambientais. São 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 66% são vegetação nativa, a mesma desde o seu descobrimento, em 1500.
Somente no bioma amazônico, 84% da floresta está intacta, abrigando a maior biodiversidade do planeta. Lembro que a região amazônica equivale à área de toda a Europa Ocidental. Antecipamos, de 2060 para 2050, o objetivo de alcançar a neutralidade climática. Os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal.
E os resultados desta importante ação já começaram a aparecer! Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior.
QUAL PAÍS DO MUNDO TEM UMA POLÍTICA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL COMO A NOSSA?
Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia! O Brasil já é um exemplo na geração de energia com 83% advinda de fontes renováveis.
Por ocasião da COP-26, buscaremos consenso sobre as regras do mercado de crédito de carbono global. Esperamos que os países industrializados cumpram efetivamente seus compromissos com o financiamento de clima em volumes relevantes.
O futuro do emprego verde está no Brasil: energia renovável, agricultura sustentável, indústria de baixa emissão, saneamento básico, tratamento de resíduos e turismo.
Ratificamos a Convenção Interamericana contra o Racismo e Formas Correlatas de Intolerância. Temos a família tradicional como fundamento da civilização. E a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e expressão.
14% do território nacional, ou seja, mais de 110 milhões de hectares, uma área equivalente a Alemanha e França juntas, é destinada às reservas indígenas. Nessas regiões, 600.000 índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades.
O Brasil sempre participou em Missões de Paz da ONU. De Suez até o Congo, passando pelo Haiti e Líbano. Nosso país sempre acolheu refugiados. Em nossa fronteira com a vizinha Venezuela, a Operação Acolhida, do Governo Federal, já recebeu 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana.
O futuro do Afeganistão também nos causa profunda apreensão. Concederemos visto humanitário para cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos. Nesses 20 anos dos atentados contra os Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001, reitero nosso repúdio ao terrorismo em todas suas formas.
Em 2022, voltaremos a ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Agradeço aos 181 países, em um universo de 190, que confiaram no Brasil. Reflexo de uma política externa séria e responsável promovida pelo nosso Ministério de Relações Exteriores.
Apoiamos uma Reforma do Conselho de Segurança ONU, onde buscamos um assento permanente. A pandemia pegou a todos de surpresa em 2020. Lamentamos todas as mortes ocorridas no Brasil e no mundo.
Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo.
No Brasil, para atender aqueles mais humildes, obrigados a ficar em casa por decisão de governadores e prefeitos e que perderam sua renda, concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020.
Lembro que terminamos 2020, ano da pandemia, com mais empregos formais do que em dezembro de 2019, graças às ações do nosso governo com programas de manutenção de emprego e renda que nos custaram cerca de US$ 40 bilhões.
Somente nos primeiros 7 meses desse ano, criamos aproximadamente 1 milhão e 800 mil novos empregos. Lembro ainda que o nosso crescimento para 2021 está estimado em 5%.
Até o momento, o Governo Federal distribuiu mais de 260 milhões de doses de vacinas e mais de 140 milhões de brasileiros já receberam, pelo menos, a primeira dose, o que representa quase 90% da população adulta. 80% da população indígena também já foi totalmente vacinada. Até novembro, todos que escolheram ser vacinados no Brasil, serão atendidos.
Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina. Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina.
Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label.
Não entendemos porque muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos.
No último 7 de setembro, data de nossa Independência, milhões de brasileiros, de forma pacífica e patriótica, foram às ruas, na maior manifestação de nossa história, mostrar que não abrem mão da democracia, das liberdades individuais e de apoio ao nosso governo.
Como demonstrado, o Brasil vive novos tempos. Na economia, temos um dos melhores desempenhos entre os emergentes. Meu governo recuperou a credibilidade externa e, hoje, se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos. É aqui, nesta Assembleia Geral, que, vislumbramos um mundo de mais liberdade, democracia, prosperidade e paz.
Deus abençoe a todos.


 Em seguida, achei oportuno citar um discurso de José Mujica na ONU em setembro de 2013. A fonte é: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2013/09/leia-a-integra-do-discurso-de-jose-mujica-na-onu-4281650.html, e o acesso foi hoje mesmo.
Leia a íntegra do discurso de José Mujica na ONU
Presidente uruguaio criticou o capitalismo e o individualismo em discurso que empolgou nas Nações Unidas

Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.
Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz - porque, uma vez, fui um rapaz - que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.
Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.
Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.
Carrego o dever de lutar por pátria para todos.
Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.
A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.
O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.
Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.
O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.
Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.
Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.
O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.
Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.
Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.
Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fóruns e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões...
Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos "reclamáveis", que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegando a nossos limites biológicos.
Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.
A cobiça, tão negativa e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.
Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.
Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é "tudo", essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.
Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.
Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chauvinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.
A ONU, nossa ONU, enlanguesce, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.
Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.
Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.
Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.
O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.
Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso "nós".
Obrigado.
Tradução: Fernanda Grabauska

16 setembro, 2021

Armínio Fraga: um Conservador Modernizante?



Título estilo oximoro. Resposta: não, Armínio não é modernizante, pelo menos não o é no sentido progressista do conceito. Por exemplo, ele se qualifica para praticante das tolices de que trata o livro de Jessé Souza intitulado "A Tolice da Inteligência Brasileira", uma vez que a palavra igualdade ou igualitarismo ou desigualdade não constam de seu arsenal liberalizante. Vou reproduzir aqui um texto/entrevista ao Jornal do Brasil:
Disponível em: https://www.jb.com.br/economia/2021/09/1032830-pais-esta-quase-falido-afirma-arminio-fraga.html
Acesso: 16/set/2021

E vou colocar o fundo castor (clarinho) para as  referências originais, ao passo que retenho o fundo branco para meus comentários.

'País está quase falido', afirma Armínio Fraga

Em evento do grupo 'Derrubando Muros', ex-presidente do Banco Central diz que quase 80% dos recursos do País são gastos com folha de pagamento e previdência

Já começo pegando pesado: a falência do Brasil pode ser evitada já em 2022 ou terá que esperar para 2023 ou 2024, a fim de ver uma reforma do imposto de renda, do imposto sobre grandes fortunas e do imposto sobre heranças de caráter fortemente progressivo. Se a encrenca não vergar até esse distante 2024 para ver a lei do orçamento de 2023 entrando em vigor, ainda será necessário mais algum tempo, para que essa reforma tributária fortemente progressiva possa ser absorvida com baixo impacto.

O economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirmou nessa terça (14) que, quantitativamente, o Estado brasileiro está em situação pré-falimentar e que é preciso repensar as prioridades dos gastos públicos para mudar essa situação. “Algo precisa acontecer, pois hoje essas prioridades espelham a captura do Estado, o sistema político nacional”, destacou ele, em evento do grupo ‘Derrubando Muros’, movimento que reúne empresários, investidores, políticos e intelectuais em oposição ao governo de Jair Bolsonaro.

Quando escrevi meu primeiro comentário talvez tivesse em mente precisamente essa sinopse do texto do jornal: é preciso repensar as prioridades do gasto público. E minha resposta: claro, mas também é proibido esquecer a reforma tributária (não essa piada grotesca que está nos escaninhos de Brasília nos dias que correm. E por que falei em "modernizante" no título da postagem? Ele refere algo de fundamento: a captura completa das instituições brasileiras pelo "sistema político", o que abarca, óbvio, os três poderes da república e os salários milionários especialmente dos juízes e deputados (e senadores).

Quanto a este ponto, volta e meia, desfaço da capacidade intelectual dos governantes estaduais que não se dão conta de que, mesmo que não cortem os salários milionários de juízes, altos executivos, policiais coronéis e deputados cum assessores, vão ganhar rios de dinheiro do imposto de renda devido quando pressionarem por uma reforma do imposto de renda federal. Segue a entrevista do Fraga:

Para Arminio, a comparação internacional mostra que o Estado brasileiro é grande para um País de renda média. Avaliando os dados pré-pandemia, o gasto ficou entre 30% e 35% do Produto Interno Bruto (PIB). Nesse cenário, os gastos sobem e os investimentos caem. “O Brasil tem uma característica fora da curva global. Quase 80% de seus recursos são gastos com folha de pagamento e previdência. Esse número supera em uns 20% o topo dos demais países.”

Sigo eu.
Essa regra da relação direta entre o tamanho do estado e a renda per capita é antagonizada pela chamada Lei de Wagner, mas digamos que a lei seja excessivamente empírica, não se sustentando teoricamente. Mas existem outras dezenas de razões para um estado como no Brasil e em milhares de outros países de renda média e baixa tornar-se um empregador de última instância. Uma solução sorridente para reduzir esses 80% de recursos jogados na folha de pagamento é, como já falei, um imposto de renda realmente progressivo. E outra é mais alheia ao ideário anti-estatizante: precisamente com o investimento do governo, dinamizar a economia, aumentar o PIB, ipso facto reduzindo esses 80%. Se o PIB dobra, ceteris paribus, os 80% tornam-se 40%! 

Segue Armínio:
Junta-se a isso o fato de o déficit primário estar negativo desde 2014. Isso significa que o Brasil está tomando dinheiro emprestado para pagar juros, o que eleva ainda mais a dívida, hoje acima de 90% do PIB. “Esse é um número alto para um país com a nossa história.” Na avaliação de Arminio, em algum momento será preciso encarar os problemas de frente e repensar as prioridades dos gastos. Trazer o saldo primário para o terreno positivo não será suficiente para equilibrar a situação, disse o ex-presidente do BC.

Venho cá eu:
Se a renda dobrar, esses leões 90% tornam-se gatinhos de 45%. 

Volta o Armínio:
Mas ele disse acreditar que um governo bom e com projeto desenhado conseguirá colocar o País nos trilhos do crescimento. Hoje, diz o economista, há espaço para crescer em todas as áreas e melhorar os serviços. “Precisamos evoluir muito. Estamos há 40 anos com crescimento muito baixo, mesmo nos melhores momentos, como FHC e Lula (1.º governo). A pergunta que temos de fazer é por que nós, como nação, não conseguimos nos organizar e fazer melhor as coisas de forma inclusiva e sustentável?”

E eu:
Precisamente o desprezo ao planejamento governamental ajudou a botar o país no buraco. Mas também a política, por exemplo, aquele assalto ao poder pelos militares em 1964 que quebrou meros 20 anos de democracia. Depois de mais 20 anos de poder, deixaram a encrenca que até hoje, já indo para 40 anos, um país facilmente predado pelos políticos e outras quadrilhas organizadas.

Armindo seguindo:

O Estado pouco planeja, administra mal e e quase não avalia

Não falei? O planejamento foi desprezado e agora nota-se que faz falta.

Adiante vem ele:

Em relação à reforma do Estado, Arminio afirmou acreditar que é possível atacar o problema de forma rápida e eficaz com instrumentos já existentes. Um desses caminhos está na Constituição e permitiria avaliar o servidor público. “Não consigo entender como não se avalia um servidor público. Isso está há 23 anos esperando.”

Agora vem aquela cachaça de incriminar o funcionário público. O emprego público deve é duplicar ou triplicar para lançar bases igualitárias que poderão conduzir a verdadeiras instituições democráticas.

Mais um passo do Armínio:

O economista disse que, no geral, o Estado pouco planeja, administra mal e quase não avalia. “É fundamental que se crie uma cultura de justificar tudo que se faz. É preciso administrar com rigor e avaliar. O Brasil preciso de um modelo de RH para melhorar as coisas.”

E mais outro comentário all of mine:

Parece óbvio que, se o planejamento não tivesse sido destruído pelos governos recentes, todo projeto e toda atividade teria avaliação. E o estado deveria estar preparado para corrigir os erros, incentivar os acertos e... deixar a turma viver em paz, sem essas ameaças de demissão a qualquer pretexto. Aliás, a estabilidade no emprego levaria o Brasil muito mais para frente se fosse estendida a todos os brasileiros, além do pagamento da renda básica universal. O trabalho deve ser uma opção tipo de lazer e não uma forca de pressão.

E volta ele:

Tradicionalmente otimista com as questões políticas e econômicas do País, Arminio disse que infelizmente “chegamos a um ponto em que temos de contar um pouquinho mais com a sorte para as coisas darem uma ajeitada”. Mas ele ainda disse acreditar que há tempo para encontrar uma terceira via, mesmo que seja para melhorar o debate eleitoral. “No curto prazo, não é para se desesperar, mas é preciso se preocupar com certeza.”(Renée Pereira/Agência Estado)

Meu finale:
Parece que meu finale se aproxima do dele. Tenho dito que será mais útil para a democracia e as instituições brasileiras que Lula, a exemplo de Cristina Kirchner, seja candidato a vice-presidente, deixando para alguma pessoa com menor rejeição em segmentos importantes da sociedade o papel de presidente. Sem excluir outros luminares, tenho apontado quatro alternativas:
Tatiana Roque
Laura Carvalho
Renato Janine Ribeiro
Sílvio de Almenda.

DdAB

24 agosto, 2021

O Solstício de Inverno e seus Desdobramentos

 


(Nota Bene: até eu 'curti'. E o fiz por engano)

Texto do quadrinho publicado às 18h18min de 21 de junho de 2021.

Às 0h32min da madrugada de hoje festejou-se o solstício de inverno. Pensei:
a) não gosto de inverno (pneumonia)
b) não gosto de primavera (alergia)
c) não gosto de verão (brotoejas e calor)
d) não gosto de outono (desânimo)

Olha esta, minha gente. Em geral escrevo originalmente aqui e propagandeio o escrito para meu círculo de amizades do Facebook. Hoje varro ao contrário: vem de lá um monte de lindos comentários e estranhas respostas. Tudo começou às 0h32min da madrugada de segunda-feira, quando deu-se o solstício de inverno do hemisfério sul do terceiro planeta de Sol. Seguem-se comentários: 

    • Duilio De Avila Berni
      Ana Barros Pinto: também me pergunto o que sobra, querida Ana. E sempre respondo: não sou deste mundo. Já li que "é perigoso viver em planeta", o que implica que sonho com uma nave com iluminação artificial (com 77 sub-naves de iluminação plagiando os elétrons do átomo de irídio), zero de giro no "equador" e, então, o paraíso, se a nave comportar milhares de amigos.
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    • Ana Barros Pinto
      Duilio De Avila Berni uau já i magino a nave
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  • Eliane Spolaor
    Gosta de que?
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  • Eliane Spolaor
    Qual estacao
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  • Analice Amazonas
    Isso tem diagnóstico: mau humor de pandemia. Já já passa.
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  • Leda Guidotti Dillmann
    Que vida difícil, meu amigo! Em que Planeta ficarás bem?
    • Duilio De Avila Berni
      Leda Guidotti Dillmann: mais acima, querida Ledinha, respondi para Ana Barros Pinto: também me pergunto o que sobra, querida Ana. E sempre respondo: não sou deste mundo. Já li que "é perigoso viver em planeta", o que implica que sonho com uma nave com iluminação artificial (com 77 sub-naves de iluminação plagiando os elétrons do átomo de irídio), zero de giro no "equador" e, então, o paraíso, se a nave comportar milhares de amigos.
      Em nossa nave, prometo solenemente, teremos dromedários e camelos (para atualizares aquela linda foto). E churrascos de carne-fake, processada em laboratório e impressa em 3D
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      • Arminda Lopes
        Meu querido e amigo primo, acordaste com o nariz virado?
        Estás fora de órbita?
        Queres zarpar??????
        Saudades. Bjo
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