17 junho, 2022

A Ucrânia e a Esquerda Belicista



Primeiro: eu defendo o princípio da auto-determinação dos povos. Segundo: se o Brasil suspeitar que o Paraguay está prestes a criar o IV Reich, ou coisa que o valha, recomendo que não invadamos o país amigo. Ao contrário, recomendo a convocação de uma conferência de paz na OEA e ONU, pedindo providências para a comunidade internacional.

Terceiro: o primeiro e o segundo levaram-me, desde o início da invasão russa à Ucrânia, a condenar acremente a camarilha de Vladimir Putin, um déspota paranoico, presidente eterno da Rússia, com delírios de ser a reencarnação de Pedro, o Grande e beneficiário de uma lei recente que lhe garante imunidade jurídica (pode fazer o que quiser, fumar maconha, roubar pneus de carros estacionados na Rússia, roubar flores dos jardins da turma, matar e invadir a Polônia, os bálticos, o que seja) para o resto de sua inglória existência.

Quarto: o que mais me surpreendeu, descontado o morticínio decretado pelo Putin, foi que uma parcela da esquerda brasileira tenha visto no desempenho internacional dos Estados Unidos a maior justificativa para a invasão da Ucrânia. Meu ativismo de sofá levou-me a ver no mural de Salvatore Santagada no Facebook, no dia 9 de junho corrente, um texto de terceiros fazendo a apologia da invasão. Não me contive e escrevi:


Duilio De Avila Berni

Nada justifica a o invasão de um país por outro.

Na contramão do próprio Salva e de seu núcleo rígido, meu comentário recebeu apenas um “Curti”. Rapidamente vim a perceber tratar-se de Diane Porto, de quem agora transcrevo comentários analíticos de altíssima competência lógica e histórica:

Diane Porto

A Rússia invade, bombardeia, destrói cidades inteiras, mata milhares, põe a fugir milhares de milhares para salvar o mundo dos neonazis???? Não sei se choro ou se dou risada. Tá triste isso aí, viu?

Aí veio um comentário sugerindo que ela "ampliasse seus horizontes", recomendando-lhe ver o material produzido por Oliver Stone, dando a versão mais fidedigna dos acontecimentos na Ucrânia. Ela não deixou por menos:

Diane Porto

"Ampliar  meus horizontes a partir da visão de Oliver Stone, o cara que pediu para Putin que apadrinhasse a sua filha? Que tipo de análise imparcial pode fazer um tipo que bajula ditadores? Conhecido por sua entrevista de lambe-botas em que elogia as leis anti-propaganda gay da Rússia... Que utiliza de fake news para desinformar geral e, o pior de tudo, admite que Putin errou com a invasão da Ucrânia, mas não pelo fato de ele invadir uma nação soberana, saquear, destruir cidades inteiras, e matar ucranianos com requintes de crueldade. Veja só, para ele nada disso importa, pois o grande erro de Putin foi ter subestimado a resistência ucraniana!!! Fina flor da perversidade humana, né?"

E segue Diane Porto:

"O texto do mural de Salvatore Santagada toca todos os pontos menos no único que importa: a Rússia cometeu através do seu neo-czar nazista uma das maiores atrocidades deste século. Parece que Putin encarnou o fantasma de Catarina, a Grande e considera os ucranianos como meros servos do seu império, ou quem sabe encarnou o fantasma de Stálin que transformou os campos férteis da Ucrânia em colônias coletivas para alimentar russos, ou ainda o espírito de Hitler, quando ameaça explodir o mundo com armas nucleares caso não se curvem diante do seu desejo expansionista.

"A quem me recomenda informar-me com Oliver Stone, sugiro que leia as ideias de Putin, não pelos discursos deste ou daquele, mas os últimos discursos proferidos pela própria boca do genocida inspirado por seu guru espiritual, Dugin. E que leia o que eles dizem da Rússia e quais seus sonhos para o mundo. E busque conhecer a formação e atuação do Grupo Wagner."


Preciso dizer mais? Claro que preciso, pois o debate é interminável, enquanto as bombas seguem caindo sobre o território ucraniano, com mortos de todos os tipos, cabendo destacar as crianças e os soldadinhos, neste caso, tanto os ucranianos quanto os da Federação Russa. O que me deixa mais chocado de tudo é perceber o séquito de esquerdistas belicistas que aplaude os tais desatinos que até me atrevo a chamar de soviéticos, né?

DdAB

A imagem veio daqui.

E divulguei a postagem no blog com o texto:

Lembra da canção "La Llorona"? Uma estrofe diz:

"La pena (sofrimento) y lo que no es pena, Llorona,
todo es pena para mi:
ayer lloré por no verte, Llorona,
y hoy peno por que te vi."

Eu tou igualzinho: sofro porque a Rússia invadiu a Ucrânia e sofro por ter amigos integrantes da esquerda belicista que apoiam a invasão.

07 junho, 2022

A Pandemia, ah, pandemia, a pandemia...

 



Pois é, pandemia. Li montes, lerei montes, não tirarei a máscara em qualquer aparição pública durantes os próximos invernos de minha esperança e em locais fechados (exceto restaurantes, na hora das garfadas) também. Em compensação, estou lendo

KALIL, Gloria (1997) Chic; um guia básico de moda-estilo. 9ed. São Paulo: Senai São Paulo.

Tudo começou com um mal-entendido. Aquele "moda-estilo", não sei que me deu, que vim a ler "moda-etilismo" e achei que fosse uma espécie de auto-ajuda para gambás. Desfeito o engano, não demorei a sentir-me chic, um chiquê. Logo eu que adoro Chick Corea.

Não é que na página 15, considerei ter lido algo estupendo?

Tendo esgotado o conteúdo da eternidade, passamos a nos dar o direito de amar coisas passageiras.

No original, li e reli, sempre evocando em minha cabeça aquele som de nossas possibilidades/disponibilidades de amar coisas passageiras. De imediato, isto evocou-me Umberto Eco, numa frase cuja origem agora me foge:

Não espereis demasiado do fim-do-mundo.

Entendo tratar-se de frases sinônimas sob o ponto de vista semântico. Se o fim-do-mundo não nos vai redimir, que tal saborearmos nossa cachacinha, nosso frango à passarinha, nosso tope no tênis de jogging, nossos livros, novos livros, essas coisas. Lê-te que te lê-te até que me fixei no original ipsis litteris:

A Idade Média, tendo esgotado o conteúdo da eternidade, nos dá o direito de amar coisas passageiras.
Cioran, filósofo

Ao entender que falávamos da idade das trevas, até que fiquei feliz com minhas filosofadas. E tomei como dever de casa investigar quem é Cioram. Que fiz? Fui à
Stanford Encyclopedia of Philosophy. Pelo que nela vim a inferir, passei a suspeitar tratar-se de Emil Mihai Cioran (aqui). Para um especialista em introdução à filosofia (como me declaro nos bares do bairro), não é vexame algum patinar nesse nome, pois ele não é tema dos livros introdutórios que me foram dados a ler. Mas, pelo que aprendi no verbete que citei da Wikipedia, quero mesmo é manter-me no nível introdutório, deixando o velho romeno em Paris.

Pensando melhor, talvez aquele Cioran citado por Kalil não seja o mesmo do verbete da Wikipedia, pois minha leitura original e a leitura correta, ambas, apontam para uma pessoa de formidável otimismo. Pelo menos é meu caso...

DdAB
A imagem veio daqui. E selecionei-a para deixar claro que a vida no pedregal pode também ser feita de bons mal-entendidos.

04 junho, 2022

Lista de Possibilidades para o Governo Lula



Às 9h46min de primeiro de junho corrente, minha amiga de Facebook, Jussara Ferreira, publicou em sua página o seguinte desejo:

Lula estará em POA hoje desejo que os gaúchos tenham um pouquinho de religiosidade e venham pedir a Deis que o abençoe! Um bom dia a toda militância do PT, que a luz da estrela permaneça em vossos corações. Paz e muita luz!

Esta visão super-esclarecida, numa postagem do FaceBook, deu o que falar. Gente irada falando daqui e dali. O mínimo tipo consenso da direita escalafobética é chamar Lula de ladrão e cachaceiro. Eu argumento que para esse tipo de retórica temos um atestado de falta de argumento, falta de poder de argumentação. Trata-se da cópia de chavões de uma propaganda bolsonarista que, talvez, nem os próprios autores acreditem. Mas tem seguidores, gente de baixo calibre intelectual, como falei na postagem daqui, quando citei Francisco Bosco.
 
Em 1o. de junho de 2022, Edemar Luiz Carneiro escreveu naquela conversa patrocinada por Jussara:

O voto de cada eleitor em outubro precisa ser bem raciocinado. Votar apenas em quem tenha foco nas necessidades básicas do povo:. PT e PSOL são os partidos que priorizam alimentação, moradia, emprego e renda familiar, escolas, hospitais, farmácias populares, fretes, passagens, transportes e combustíveis e gás doméstico baratos, segurança, direitos trabalhistas e previdenciários, economia social, soberania nacional, paz, amor, união nacional, nacionalismo verdadeiro, inclusão e justiça social. Nada disso está na cabeça dos bolsonaristas, milicianos, militares de alto escalão, mídias das elites, fanáticos de crenças dizimistas, pastores milionários e falsos profetas.

Fiquei impressionado com a listagem feita por ele e achei que eu mesmo deveria guardar aqui no blog para futuras referências. E estou pedindo autorização para usar por estas bandas ao autor, Edmar Luiz Carneiro.

Que poderíamos querer mais além de sua lista?

:: alimentação, moradia, emprego e renda familiar, escolas, hospitais, farmácias populares, fretes, passagens, transportes e combustíveis e gás doméstico baratos, segurança, direitos trabalhistas e previdenciários, economia social, soberania nacional, paz, amor, união nacional, nacionalismo verdadeiro, inclusão e justiça social.

DdAB

P.S. Pedi autorização (ex post) para Edemar Luiz Carneiro pelo Messenger e ele respondeu: "Mestre Duílio, sem problemas. Simplesmente vejo que os eleitores brasileiros ainda estão sob nefastas influências que os condicionam a fazer do votos uma brincadeira e não um compromisso com a democracia e os direitos básicos da população." Claro que isto evocou novamente para mim aquela análise que divulguei no outro dia feita por Francisco Bosco.

Fonte da imagem: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-forest-383852017

02 junho, 2022

Pensando no Futuro

 


João Bosco: quem não conhece? Eu mesmo ouvi pela primeira vez "O Bêbado e a Equilibrista" no ano de 1977, na cidade de Reading. Very interesting, rende uma história, uma postagem, umas 25 postagens que, talvez, nunca venham a acontecer. Em compensação seu filho -dele, João Bosco- deu uma entrevista para o Caderno DOC do jornal Zero Hora. O jornal, que volta-e-meia designo como Zerro Herra pelo conservadorismo, decidiu entrevistá-lo nas páginas 2-4 da edição de 28 e 29 de maio deste ano corrente.

O jornal, como acabo de denunciar, é conservador e -creio- só entrevistou Francisco Bosco pois este "falou recentemente no Fórum da Liberdade", também uma iniciativa de grupos conservadores. Mas, aparentemente, o filho de João Bosco, não é lá tão direitoso assim, se não o ofendo com este "não é lá tão"... O entrevistador foi o jornalista Daniel Feix (daniel.feix@zerohora.com.br) que fez perguntas inteligentes e recebeu respostas educadas. A última pergunta feita por Feix foi:

Por que a pauta de costumes é tão importante em um país com tanta desigualdade social e índices de pobreza e fome altos e hoje crescentes?

A resposta de Francisco Bosco mexe com uma questão que apenas sinuosamente me é familiar:

Porque somos humanos e a espécie humana se define precisamente por transcender a dimensão material. É claro que a fome, o abrigo, a saúde serão sempre questões fundamentais e urgentes. Mas as pessoas têm outras necessidades fundamentais, também, entre elas o senso de comunidade, de pertencimento. A religião, a família, a tradição, essas são instâncias imateriais fundamentais para muitas pessoas. O paradoxo da sua pergunta se situa aqui: quanto mais precarizado materialmente, mais o indivíduo precisa dessas instâncias fortalecedoras, mais elas têm centralidade em suas vidas. A religião oferece pertencimento espiritual e social, numa sociedade com pouco sentido comunitário. A família é o laço incondicional num país em que o Estado falha no processo de reconhecimento de grupos sociais vulneráveis. A tradição protege psiquicamente num mundo em que tudo que é sólido se desmancha no ar. Portanto não é difícil entender o porquê da força da pauta de costumes - difícil é descobrir como conciliar os valores conservadores com a legitimidade moral dos grupos que reivindicam seus plenos direitos políticos e sociais, como o dos indivíduos LGBTQIA+. Esse é um nó difícil de desatar. Minha sugestão [...] é que o caminho deve ser sobretudo indireto: melhores condições materiais, moradia digna, cidadania digna, acesso à boa escolaridade; tudo isso tende a aumentar a secularização da sociedade, tudo isso tende a enfraquecer a centralidade da religião na vida das pessoas. Ora, por mais que existam muitos cristãos liberais, ou apenas moderadamente conservadores, é também verdade que o núcleo do reacionarismo brasileiro é cristão. Com uma maior secularização, a agenda progressista teria melhores condições de prosperar.

Muito interessante, não é mesmo? Lembrou-me da hierarquização das necessidades humanas feita por Abraham Maslow que transcrevo daqui deste blog (https://19duilio47.blogspot.com/2010/10/dilma-e-sus-americanos-e-maquinas.html) mesmo:

Em 1943, [ele] classificou as necessidades humanas que se costuma resumir em:
a) necessidades fisiológicas (metabólicas),
b) necessidades materiais superiores (segurança e estabilidade),
c) necessidades sociais (reconhecimento e afeição derivados de se pertencer a um grupo), e
d) necessidades superiores (evolução pessoal ligada à busca da verdade e significado da vida).

Alinhadas na seqüência articulada por Maslow, tudo indica que não nos dispomos a trocar um prato de comida pela audição de um poema: apenas de barriga cheia é que teremos aguçada nossa sensibilidade artística.

E pensei no grande clube da baixaria brasileiro -que não juro venha a resolver-se com a Chapa Branca sendo eleita - em que convivem cirurgias delicadas, de R$ 500 milhões e outras mais e menos caras e a prosaica barriga d'água, os médicos treinadíssimos e os professores analfabetos. no dia em que os políticos tomarem doses de baixo preço de vergonha cívica, o orçamento universal começará a disciplinar estes despilfarros de recursos. in the meanwhile, vai votando na Dilma aí, sô!


Corrigendum: "vai votando na Dilma" deve ser lido como "vai votando no Lula, se queres social-democracia".

E mais esta postagem, mais pedagógica aqui: https://19duilio47.blogspot.com/2009/11/maslow-sempre-maslow.html.

Falando em Dilma e Lula e o lulismo, agora temos a chance de, em outubro, voltar a votar na social-democracia nos moldes que já conhecemos. Basta seguir o programa de Francisco Bosco: " melhores condições materiais, moradia digna, cidadania digna, acesso à boa escolaridade".

DdAB

A imagem que nos encima veio daqui: https://gestaodesegurancaprivada.com.br/hierarquia-de-necessidades-de-maslow-o-que-como-funciona/