09 julho, 2022

PhD em Leitura Literária



Quantas vezes já disse que meu título de Doctor of Philosophy não me credenciou a diferenciar Platão de Plutão, socráticos de democráticos, e assim por diante? Umas 200, acho, e não é difícil de conferir com o motor de busca do próprio blog e o testemunho de dezenas de garçons nos bares das redondezas. E quantas outras tenho dito que gosto de ler materiais introdutórios à filosofia. Na última vez que contei, tinha em casa uns 100. E volta e meia falo neles neste blog. Mas hoje quero dar novo giro na mostra de meus interesses intelectuais. Desta vez falo de leitura literária.

Quem conhece traços de minha biografia intelectual há de lembrar que, tendo ganho uma bolsa do Conselho Britânico para estudar na University of Sussex, fiquei dois meses na cidade de Reading a estudar inglês. Isto que já tinha demonstrado certo conhecimento naqueles testes de antigamente. Mas tinha colegas de nível muito mais avançado que o meu. Seja como for, se eu tivesse ficado por lá fazendo o mesmo mestrado em economia industrial, teria recebido -diferentemente de Sussex, que me deu o título de Master of Arts- a titulação de Master of Literature. E nada saberia de literatura em termos de estudos da área em Falmer/Brighton.

Em compensação, depois de, talvez, 40 ou mesmo 50 anos, ter comprado o livro

CABRERA-INFANTE, G. (1980) Três tristes tigres. São Paulo: Global. Tradução de Stella Leonardos. 442p.

aproveitei o triste momento de ver minha liberdade de ir-e-vir cerceada pelos governantes que não levam a pandemia a sério e não incentivam a turma a usar máscara, higienizar as mãos, evitar aglomerações, essas coisas, e meti os peitos no livro. O texto me parece merecedor de um comentário mordaz que vi endereçado ao "Ulysses", de James Joyce: faltou um bom editor. Ou é muita inovação formal com a qual me dou mal. (E já quase vou virando poeta, com tanta rima).

Pois então. Vi-me prestigiado nas páginas 327-328, pois fala-se de milhares de autores que já li ou pelo menos já ouvi falar ou por ainda menos já vi livros seus expostos em vitrines das livrarias das cidades que andei percorrendo. Vejamos o texto original:

-Não vamos começar a discutir detalhes e muito menos, por Deus, nomes. Deixa isso para Salvador Bueno, ou como sei que és Latinista, homem de Nossa América e toda essa panóplia de plumas penduradas, deixa isso para Anderson Imert, Sánchez ou seus substitutos. Mas eu, Arsenio Cuê, considero que todos os escritores cubanos, todos [sic] - e disse os ss de cubanos e de todos com eco, úmidos de rum - com tua possível exceção, e se digo não é porque estás na frente, bem sabes, mas porque -Não estou atrás, disse eu- porque sinto vagamente que é assim - agradeci-. De nada. Mas, um momento, com um parêntese, ou se queres, uma frase musical, um compasso de espera. Todo o resto da tua geração não passa de maus leitores de Faulkner, Heminguay e Dos Passos, e entre os mais evoluidozinhos do Pobre Scott, de Salinger e Styron só par mencionar escritores que começam com s. -A escrever com s? perguntei e nem escutou-, há também os piores leitores de Borges e algum que lê mas não entende Sartre nem entende Pavese mas o lê, e leem e não entendem nem sentem Nabokov- me disse. Se queres que te fale de outras gerações podes pôr Heminguay e Faulkner onde eu disse Faulkner e Heminguay e agregar Huxley, Mann, Laurence o Hetero, e para fazer uma vez mais essa afirmação, que é uma metáfora nacional, para completar a quinquilharia, acrescentas então Herman Hesse, meu Deus, e Guiraldes - disse assim e não Güiraldes - e Pio Baroja, Azorín, Unamuno, Ortega e, talvez, Gorki, embora tenha ido dar nas terra de ninguém escritor  que é a outra geração republicana. Que sobra? Alguns nomes soltos como...

Interrompo com o final do parágrafo naquelas reticências. Senti-me à vontade, um verdadeiro Doctor of Literature informal, um literato que dá de barato fazer rimas ocasionais. E de quem nunca ouvi falar, se é que não ouvi?

Styron, Pavese, Guiraldes, Pío Baroja, Azorín. Fui à Wikipedia em inglês.

Styron: com este sobrenome tinha duas entradas. Acredito tratar-se de William Styron, pois a sra. Alexandra parece mais moderna. Pavese: Cesare Pavese. Güiraldes: Ricardo Güiraldes. Pio Baroja: existe! Azorín: pseudônimo de José Augusto Trinidad Martínez Ruiz. Muito erudito de minha parte, hein? Um dia os lerei e outro dia, falarei mais sobre a turma que ficou sem citar maiores detalhes, pois -como falei antes- ou li ou apenas ouvi falar.

DdAB

Imagem daqui.

06 julho, 2022

Ativismo de sofá: o muro da Mauá


O muro da Mauá poderia ser um código, como que para montar uma sociedade secreta devotada a desmoralizar a turma que invadiu a Ucrânia. Mas não é! Para meus xeno-leitores aviso que Mauá é uma avenida de Porto Alegre e muro é um muro mesmo, um muro de contenção das águas do rio Guaíba que ameaça avançar pelo centro da cidade, como o fez em 1941 e deixou de fazer em 2015. E por quê o Guaíba deixou de fazê-lo em 2015? Claro: o muro da Mauá.

Ocorre que a prefeitura da capital cogita de botá-lo abaixo, criando soluções mais -digamos- modernas, mais dispendiosas (afinal, manter o muro gasta menos que substituí-lo pelo que quer que seja). E tem gente que odeia o muro, mas creio que odiaria ainda mais a enchente. Aí articulei meu ativismo de sofá e escrevi para a seção "Opinião do Leitor" da página 20 do jornal Zero Hora de hoje:

O muro da Mauá segue levantando polêmicas entre a população de Porto Alegre. Da reportagem das p. 16-17 de ZH de 5.07.22 ao comentário de Vitor Stepanski no dia 6, vê-se uma onda desejosa de botar o muro abaixo. A realidade é que as comportas do muro, nas enchentes de 2015, mostraram seu valor na proteção da zona central da cidade. Demoli-lo e construir substitutos nada mais é que desconsiderar que os recursos envolvidos poderiam ter usos alternativos mais urgentes sob o ponto de vista da população da cidade. 

Ao lado desta ponderação um tanto bem-educada, havia uma diatribe contra o "horrível Muro da Mauá" que me pareceu bastante estranha, como a anterior citada por mim. Aproveito e conclamo a população brasileira a nos organizarmos e desancar a turma que quer derrubar o tal arrimo.

DdAB
A imagem que nos ilustra é uma foto de Nilson Pedro Wolff, publicada bem sobre meu comentário. E tem a legenda: "Cerejeiras floridas em meio à cerração em Morro Reuter, Como sabe a turma da festiva cidade de São Leopoldo, Reuter se pronuncia "róiter".