quarta-feira, 28 de julho de 2010

Estabilizadores automáticos da desigualdade

querido blog:
minhas tentativas de formalizar e quantificar todos os fenômenos que consigo distinguir em meu cotidiano levam-me às vezes a, encaminhando-as, formular perguntas esdrúxulas. por exemplo, se o que vemos é realmente dinheiro falso e, principalmente, se o fenômeno de sua emissão afeta o nível geral de preços, por sobrepor-se aos cálculos do Banco Central sobre a equação quantitativa da moeda, precisamos conseguir determinar a magnitude desta influência e cobrar um imposto sobre os beneficiários desta mamata. ou seja, precisamos decompor dP em dR e DL, ou seja, a variação no logaritmo do nível geral de preços resulta da variação no log do resto das variações mais o log da variação devida à ladroagem. bem brasileiro, bem argentino.

por que argentino? porque percebo por aqui outro fenômeno importante e igualmente escalafobético. vi estas ruas tomadas por trabalhadores precários, como a Calle Florida, na noite de ontem, que me lembrou a Rua da Praia, de Porto Alegre,. seu eito central estee completamente tomado por camelôs, com filhos ou agregados de menos de cinco ou seis anos de idade brincando alegremente. tudo ocorria como se aquela via pública fosse o quintal de suas casas, ou do jardim da infância que deveriam frequentar ou da praça da esquina de sua confortável residência. para não falar das dezenas de papeleiros em seus indefectíveis carrinhos, das pilhas de lixo colocadas nas calçadas, da reciclagem estrondosamente grande de papéis, sobras de escritório, cartolinas, papelões, pedintes, vendedores ambulantes, enfin... (isto lembrou-me de Henri Agel ("puisque l'impossible accède à la categorie du vrai, le vrai, à son tour, peut accèdre à la categorie de l'impossible"). [e se "categorie" não se escreve assim?]

qual o futuro de um mundo portador destes contornos? qual o futuro da desigualdade? qual o futuro da ordem e do progresso, da ordem e da bondade? [como sabemos, "ordem e bondade" é o motto que propomos para a Organização dos Povos Unidos, a substituta da Organização das Nações Unidas]. pensei na perversidade de certos estabilizadores automáticos da desigualdade: assassinatos que bandidos (de renda não necessariamente inferior à média) vão inflingindo aos ricos e aos 10% inferiores. da mesma forma, cada atropelamento de trânsito de gente com renda postada nas rabeiras da distribuição (Lorenz) dá lá sua contribuição. este mundo de distopias esbarra em questões filosóficas, políticas e econômicas que transcendem minhas capacidades cognitivas e intelectuais e, portanto, nesta postagem, que é um de seus subconjuntos mais, digamos, vulnerável.

DdAB
captura da imagem: http://img.elblogsalmon.com/2009/12/dinero-falso-1.jpg. procurei: "estabilizadores automáticos". a primeira imagem que veio mostrou a mão de um homem usando um terno ou blazer e colocando um voto ("ballot") numa urna. seria o poder da democracia ou de algo parecido, que não consigo definir, para o encontro da paz social. ou não?

P.S. de 15/dez/2015: às 11h20min de hoje, troquei o nome de Rimbaut lá no alto do texto pelo que consta. A memória falhou ao citar aquele "puisque l'impossible..." E de onde tirei esta citação, eu, que nunca li o mr. Henri Agel? Da epígrafe do livro "O Púcaro Búlgaro", de Campos de Carvalho.

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