16 março, 2020

O Movimento do Corona Vírus


Escrevi no Facebook:

Vi há pouco aqui mesmo no Facebook uma pessoa dizendo que o verdadeiro problema do Brasil - corrupção, tráfico de influência, autoritarismo, censura à imprensa - é tudo culpa do PT. E que a ameaça do corona vírus é menor que essa bandalheira toda. Meu argumento é que o principal problema do corona vírus é sua capacidade de contágio.

Em meu (e de Brena Fernandez) livro de teoria dos jogos, quem o tem pode olhar a página 212 com a figura "População cooperadora invadida por predadores." Um bondoso que interage com um malvadeza vira malvadeza e todos seus contatos sucessivos contagiam com o mal os bondosos.

E aqui temos a visão dinâmica do processo: uma pessoa portando o vírus corona, ao interagir com uma sadia, passa-lhe o vírus. É o Washington Post:


E dei este link que, infelizmente, não será eterno, mas durante este período crítico estou certo de que ajudará quem pensa que estamos frente a uma situação de risco médio ou alto, mas não vê que é altíssimo:

https://www.washingtonpost.com/graphics/2020/world/corona-simulator/

E aí vieram comentários:
abcz
Nadia Bogoni Querido Professor Duilio De Avila Berni....às vezes penso que já vi todos os absurdos. Mas não, tenho que ser testada todos os dias! O cérebro dessa criatura também é culpa do PT????
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  • Nadia Bogoni Eitaaaaa que ando sem paciência para pangaré 🙈
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  • Duilio De Avila Berni Parece estar ficando claro que, entre aqueles 57 milhões que votaram no Bolsonaro, havia uma divisão que se torna patente quando vemos como eles reagem a esta ameaça à saúde pública.
    Para aquela negadinha, como a velha Tatcher, não existe comunidade, apenas indivíduos.
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  • Nadia Bogoni Duilio De Avila Berni perfeito como sempre Divo Duílio
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  • Duilio De Avila Berni Agora tá ficando claro para quem tem olhos que aquelas balelas de estado mínimo são um viés ideológico que não ajuda a humanidade a progredir. Mercado-estado-comunidade terão tamanhos diferentes em diferentes circunstâncias históricas e de desenvolvimento de um país. A triste 'verità' é que mercados falham (tipo poder de monopólio), o estado falha (tipo logrolling) e a comunidade falha (tipo linchamento).
    Por fim, considerando a situação do Chile e a situação do corona vírus, entendo ter chegado a hora de sepultar esse discurso anti-social-democrata de vez.
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  • Nadia Bogoni Duilio De Avila Berni perdemos de vez pra estupidez?????? E a bonecada querendo trazer os cubanos de volta...ahhhh e vão, certamente, precisar do SUS. Que é isso??????
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  • A imagem pode conter: texto
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Silvio Cezar Arend o meu livro é o de 2004, da Reichmann e Affonso... tenho que comprar este outro... rsrs
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  • Duilio De Avila Berni Obrigado, querido Silvio. Faço questão de te enviar uma cópia autografada (o que dificulta a venda de segunda mão, hahaha). Peço uns dias para meter a mão no "teu" exemplar: o corona vírus me tirou da rua...
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  • Nadia Bogoni Duilio De Avila Berni
    Professor olha só que legal isso que recebi...: “E as pessoas ficaram em casa. E leram livros, ouviram, descansaram, se exercitaram, fizeram arte, jogaram jogos, aprenderam novas maneiras de existirem e ficaram paradas. E então o
    uviram mais profundamente. Alguns meditavam, outros rezavam, já outros dançavam. Alguns encontraram as suas próprias sombras. E o povo começou a pensar de maneira diferente.

    O povo foi curado. E, na ausência de pessoas vivendo na ignorância, perigosas, com a mente e o coração fechados, a Terra começou a se curar.

    E, quando o perigo passou, as pessoas se uniram novamente, sofreram com as suas perdas, fizeram novas escolhas, sonharam novas imagens e criaram novas maneiras de se viver e curar a terra completamente, como haviam sido curadas”. ~ Kitty O Meara
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  • Duilio De Avila Berni Nadia Bogoni Na madrugada, sono perdido, leio esta maravilhosa mensagem e reafirmo minha crença (iluminista) de crença no progresso e na racionalidade. E antes ia falar, achando ter tudo a ver, que "havia gente demais". Em boa medida, nesta questão, sou neo-malthusiano: com a tecnologia hoje existente, não se pode ter qualidade de vida com tanta gente. Prezo o conceito de "capacidade de carga do planeta". Mas a solução que vejo como democrática é dar aos pobres condições para ter o mesmo número de filhos que os ricos, nomeadamente, torná-los também ricos. Mas nem precisa serem tão ricos assim: basta pagar-lhes uma renda básica da cidadania que vão acabar-se tanto as migrações quanto a procriação irracional.
abcz
DdAB
Na imagem lá do início, vemos um abobado sendo seguido por milhares de abobados.

06 março, 2020

Guedes e a Retórica da Aritmética

Resultado de imagem para guedes e o coronavírus

Parece que já andei falando no tema deste lado do universo. Nem lembro se era o governo Temer ou algum outro governante destrambelhado. Seja como for, hoje nosso indefectível jornal Zero Hora em sua página 8 anuncia que "dólar dispara e vai a R$ 4,65, enquanto bolsa despenca". E eu pensei: claro que a responsabilidade daqueles 57 milhões de votos dados para Jair Bolsonaro tem tudo a ver com o corona-vírus.

Aí o mr. Mansueto Almeida, um prócer - inclusive com blog antigo em que até eu, myself, andei "dialogando", andou falando que um crescimento do PIB de 1,1% em 2019 "é muito baixo, não é normal e causa frustração na sociedade."

Em compensação o PHD Paulo Guedes disse que não esperava nada diferente, pois para ele... diga-o ele mesmo, diga-o este jornal:

   -A grande verdade é que, quando o governo Bolsonaro chegou, o crescimento do PIB, que tinha sido de 1,3% no primeiro trimestre do governo Temer, já tinha caído para 0,7% no primeiro trimestre do governo Bolsonaro - afirmou.
   Segundo o ministro, a tragédia de Brumadinho e o colapso da Argentina, que impactou 60% das exportações de veículos do Brasil foram ois principais fatores para esta desaceleração do ano passado.

Aí eu garrei de matutá que o vivente é outro que passa mal com o uso retórico da aritmética. Primeiro, inalcançável para ele é a conta (1,071)^10 = 2, ou seja, se o PIB (ou o que seja) crescer a 7,1% ao ano durante 10 anos seguidos, seu valor passa de 1 a 2, ou seja, ele experimenta um acréscimo de 100%, id est, dobra. Então, por exemplo, ao invés de possuir um computador (ou telefone) para olhar este blog, o leitor terá dois. Uma mesa na sala de jantar vira duas, um refrigerador vira dois, e assim por diante. Isto é dobrar! Claro que não preciso trocar de computador, ou de mesa, ou de refrigerador. Se minha renda dobra, posso gastar essa diferença em outros bens ou serviços. Mas tá na cara que é bom para mim que a renda dobre.

Há duas razões para pensarmos que o ministro não foi capaz de fazer uma autocrítica sobre os limites de seu liberalismo. Primeiramente, ele sabe que, se a demanda final (no caso, as importações argentinas) cair, um sinônimo desta expressão negritada é o PIB que, enquanto sinônimo, não terá outra alternativa que não seja também cair. Sabe ou sabe-se que ele não sabe? Saberá ele que o valor adicionado tem três óticas de cálculo: produto, renda e despesa/demanda final? E digo mais, se o PIB cai em 60%, a renda também cai em 60%.

Em segundo lugar, agora ele também pode colocar ao lado de sua fé liberal a afirmação que a renda planejada mundial inteirinha está caindo por causa do corona-vírus. Quer dizer, não foi o corona-vírus que roeu as fábricas e lavouras, hotéis e restaurantes. Foi a expectativa de quedas generalizadas que levou os agentes a reduzirem sua produção (alguns até mesmo fechados à força, mas nenhum no Brasil...). O fato é que, ao cair a demanda planejada final, os efeitos multiplicadores de renda perdem força e o PIB cai.

Eram duas razões? Acrescento mais uma, uma imponente. A estrutura tributária do Brasil, repousando fortemente em impostos indiretos, influencia perversamente o sistema de preços. Com impostos assim, sabe-se lá o que o sistema de preços poderá estar informando para os tomadores de decisão (governantes ou empresários, para não falar nos trabalhadores). Os liberais falam que os impostos são "distorcivos". E são mesmo, como podemos constatar a partir do sistema de preços do modelo de insumo-produto. E por que não fazem nada? Por que não privilegiaram a reforma fiscal, deixando em segundo plano a da previdência? É, não é, né?

DdAB
Apresentei esta postagem no Facebook com os seguintes dizeres:
Quem terá razão: os que acham que o gasto do governo incentiva o crescimento do PIB ou os que acham que o atrapalha? Marx, Keynes e eu nos alinhamos na primeira corrente:

E, dias depois, escrevi lá mesmo no mural de Jorge Ussan:
Foi por meio dela que sepultaram a teoria da demanda efetiva de Marx e Keynes por pura ideologia. Como tal, não há evidência empírica que faça aquela turma entender que o governo pode socorrer o mercado em tempos de crise.

E acrescento agora: se 30 anos de neoliberalismo não ensinaram nada para os neoliberais, não podemos esperar que venham a fazê-lo, pois a ideologia é mais forte que o atendimento a procedimentos recomendados pelo método científico.

03 março, 2020

Astronomia Arcaica: Fósforo e Vésper

Vênus e Terra

Aviso: Postagem longa seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos.

Tempo T0
No ano de 1959, despedi-me da vida tropical que levava em Campo Grande, Matto Grosso. Pelo atropelo com o movimento sobre o Trópico de Capricórnio, quem ficava abaixo e quem ficava acima, acabei reprovado na primeira série do curso que, então, se chamava ginásio. Já houve outro designativo em meu horizonte de vida, não lembro, que depois passou a chamar-se parte do ensino de primeiro grau e agora (por quanto tempo, sporca madonna?) chamado de ensino fundamental. Bem, era o ginásio, eu fora reprovado e foi-me dada a chance de repeti-lo no Ginásio São José, da progressista Jaguari (ainda que não tenha saído do lugar desde então, já consagrado o abandono do nome Jaguary, jaguar pequeno, como ouvi falar). Ou  sequenciamento temporal está errado e tudo aconteceu, já em meu segundo ano de Jaguary e segundo ano do ginásio. Por estranho, decorei o seguinte verso que volta e meia dá badaladas em minha mente, ou seja, abala-me um estado mental:

Abrem-se flores, Vésper desponta, cantam os anjos: "Ave Maria".

Minhas pesquisas gnosiológicas, por assim dizer, nunca me levaram a destrinçar que diabos era aquilo, de que demônios se falava. Um tanto, desconfio: flores, abrir, cantar, anjos e até a velha oração do Ave, Maria. E dei-me por satisfeito por entender que Vésper é a estrela da manhã, hora do dia em que "abrem-se flores". Muito errado estava, como veremos em seguida. Mas cutucava-me "as ideia" o adjetivo "vespertino" que eu sabia tratar-se de evento da tarde. Ouvira mesmo falar em crepúsculo matutino e crepúsculo vespertino. Então flor não abre de tarde...

Tempo T1
Cultivando minha especialização em Introdução à Filosofia, andei lendo e seguirei até terminá-lo o fascinante livro:

GALVÃO, Pedro org. (2017) Filosofia; uma introdução pro disciplinas. Lisboa: Edições 70.

chegando ao capítulo 8:

MARQUES, Teresa e GARCÍA-CARPINTEIRO, Manuel. Filosofia da linguagem. pp.283-340.

Resumo até agora: eu tinha na cabeça que, quando as flores se abrem, desponta no céu Vênus. Aí, estudando introdução à filosofia, li o seguinte trecho das pp.301-302:


Tudo transcrito tintim por tintim, aqueles sinais de menor e maior (o sistema recusou-os), o "facto", o "Vénus", etc. Cada vez confio menos em minha memória, à medida que Th é maior que To (isto é, que hoje sou mais velho que ontem), mas confiava o suficiente naquele verso que apenas hoje vim a identificar como de Fagundes Varella. E tudo confirmado pelos verbetes correspondentes da Wikipedia em inglês:

Vesper means evening in Classical Latin. [Por extensão, estrela da tarde.]

Phosphorus (Greek Φωσφόρος Phōsphoros) is the Morning Star, the planet Venus in its morning appearance. Φαοσφόρος (Phaosphoros) and Φαεσφόρος (Phaesphoros) are forms of the same name in some Greek dialects.

Tempo T2
O que antes desconhecia, agora posso atribuir a Fagundes Varella himself. Olha o poema dele. Aqui [tristemente o site sumiu. Agora tireo o poema daqui]. E dizia: 
encontramos o poema de Fagundes Varela (os gramáticos de 1941 já lhe cassaram um L, Varella)

Ave Maria
Fagundes Varela

A noite desce – lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: – Ave! Maria!

Na torre estreita de pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vesper desponta,
Cantam os anjos: – Ave! Maria!

No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: – Ave! Maria!

E, longe, longe, na velha estrada,
Pára e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla,
E fala aos ermos: – Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: – Ave! Maria!
Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca,
Curva-se e clama: – Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: – Ave! Maria!

Ave! Maria! – No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! – Ave! Maria!

Tempo T3
Tentando salvar nosso velho e bom Luis Nicolau, andei pensando, nessa linha do sequenciamento temporal, e fiz o seguinte poema (ainda sem título):

Abrem-se flores,
Pois o Sol acaba de nascer,
Ofuscando Fósforo,
O nome de Vênus em seu fulgir de manhã
Tomamos nosso café da manhã,
Escovamos os dentes,
Trocamos o pijama ou roupão
pelo nosso uniforme escolar.
Pegamos o ônibus escolar
(provisão pelo prefeito social-democrata)
Etc., etc.
Almoçamos, mais aulas, que o negócio
Era de dois turnos (na social-democracia), tudo
Diferente no mundo idílico que me foi prometido e nunca,
Nunca de núncaras, foi entregue, nem será.
Recreio, eba
Mais aulas, buá
São 5h00 da tarde:
hora de ir embora, eba, eba, eba!
Pois Vésper desponta
Cantam os anjos: Ave-Maria.

DdAB
P.S. Outro aviso: a imagem lá no início retrata os planetas Vênus (esquerda) e Terra (direita). Certamente Vênus tem uma coloração arbitrária. A Terra, como sabemos, é azul, supondo que o Yuri Gagárin não era daltônico.

P.S.S. Escrevo em 6/abr/2021, 9h10min. Veio-me à cabeça o nome "vesper" e queria lembrar seu alias. E não lembrei, mas agora sei, "fósforo". Pois vim ao blog, pois ainda tinha quente na memória esta postagem. Ativei o motor de busca do canto superior esquerdo da página inicial do blog. E eis que encontro aqui uma deliciosa explicação a minha pergunta feita diretamente ao prof. Conrado de Abreu Chagas. E lá encontramos sua refinada resposta. 

P.S.S.S. Não é que não é não que hoje, 25 de setembro de 2021 (Ano II da Pandemia do Corona-Vírus-19), estou dando uma olhada em meus 100 livros de introdução à filosofia (matéria em que me declaro PhD) e leio na folha de rosto de 

LAW, Stephen (c.2011) Filosofia; guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Zahar.

E que lá li? Lá na página 208, começamos tomando contato com a Lei de Leibnitz: 'objetos idênticos devem compartilhar todas as mesmas propriedades'. Então sigamos lendo o Mr. Law: 

Filósofos e cientistas frequentemente consideram afirmações de identidade. P.ex., uma antiga descoberta astronômica foi que Hesperus, a estrela da tarde, é idêntica a Phosphorus, a estrela da manhã. O que pareciam ser dois objetos distintos revelou-se ser um só - o planeta que hoje chamamos Vênus.

02 março, 2020

A Impunidade e Eu


Um passo importante na minha formação como economista político foi dado quando incorporei o conceito de causa da causa. Há muitos anos, portanto, dei-me conta de que o maior problema da vida social brasileira é a impunidade. Id est, se o prêmio pago por quem pratica o crime (oferta) for crescendo à medida que mais crimes vão ocorrendo, tá na cara que haverá mais crimes. Por contraste, a demanda de que falamos não é propriamente por crimes, mas pela possibilidade de evitá-los. Se o preço desta evitação é elevado, haverá pouca gente querendo proteção. E se for baixa muita gente irá insubordinar-se contra o ladrão.

Neste caso, o verdadeiro preço a ser encarado por quem pratica crimes é a impunidade: não paga nada para exercer atividades ilícitas, haverá muitas ilicitudes. Então temos uma lição sobre causa causans, a causa da causa. E quem é, quem incentiva a criminalidade no Brasil? Aqueles que não estabelecem preço alto para a prática da ladroagem: o sistema judiciário (do guarda de rua ao privilegiado ministro do supremo tribunal, passando por ascensoristas, arquivistas, motoristas, enfermeiros, roupeiros de presídios, agentes penitenciários, e por aí vai).

E segue a linha de causalidades: o que causa a ineficiência do sistema judiciário? É o judiciário, o poder judiciário. Este, precisamente, este que me trouxe a estas reflexões. Este que usurpa as funções do executivo e especialmente do legislativo. Com esta usurpação, não lhe sobra tempo para exercer com exação suas funções: julgar com sabedoria e rapidez querelas relevantes e não carnavalescas. Este, precisamente este de que nos fala a contra-capa do jornal Zero Hora da última sexta-feira de fevereiro, o dia 28. Li a matéria indicada para a página 22. Mas basta a chamada da contra-capa:

ORDEM PARA MELHORAS
Uma liminar da justiça determina que a prefeitura de Porto Alegre execute reparos no Complexo Cultural Porto Seco a tempo do início dos desfiles das escolas de samba, no dia 6 de março. O município diz que ainda não foi notificado, mas está trabalhando normalmente no local.

Já nos ensinou Raul Seixas: para o mundo que eu quero descer. Olha só. Para dar a liminar, o juiz achou sensatas as ponderações de alguém que requereu a prioridade. E este cidadão exemplar (estou lendo a página 22 do Nanico dos Pampas) era o vereador João Bosco Vaz (PDT), autor de uma emenda que destinava R$ 80 mil para as obras. Ora o judiciário toma o lugar do legislativo. E o edil João Bosco toma o lugar do executivo.

Ou seja, não sou detetive, não sou jornalista. Mas não me custou achar o que talvez seja a motivação do vereador João Bosco: ele era o secretário da secretaria municipal de esportes na administração José  Fogaça. A causa da causa da causa, etc., da causa nada mais é que o mal-estar do edil por não estar no executivo. Assim não dá! Não é sério.

E tem mais tecnicalidades: quem fez a análise de custo-benefício daqueles R$ 80 milhões? Não seria melhor empregar em reforma dos gabinetes dos ilustres vereadores? Ou em prosaicas melhorias nas escolas municipais?

O juiz, cujo excelso nome não foi divulgado por Zerro Herra, talvez seja Celso, ou teria sido registrado como Celso e os pais perceberam que era para ser Paracelso e sapecaram o ex-Celso. Sei lá. Só bebendo!

DdAB
A imagem lá de cima veio daqui: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/sme/default.php?p_secao=111
P.S. Ani Ew comentou o absurdo de que um montante com o elevado custo de oportunidade que referi seja mesmo desperdiçado. Acho óbvio que tanto ela quanto eu estejamos falando em benefício dos menos-aquinhoados e nada contra o carnaval. Aliás, nossa intuição é que esse monte de dinheiro está indo para o lixo. Olha que mundo pequeno, que acabei de ler em Zero Hora e comentei no comentário de Ani lá no Facebook:
Zerro Herra também tem seus acertos. No exemplar de hoje, 3/mar/2020, o colunista Paulo Germano fala que Porto Alegre odeia carnaval. E por quẽ? Porque deslocou-o dos locais tradicionais e, como tal, mais práticos, para o fim-do-mundo. Exatamente o local em que o santo João Bosco quer enterrar aqueles 80K. Diz Germano que as escolas de samba devem levar geradores de energia, pois a fiação da CEEE foi roubada.

27 fevereiro, 2020

Ditos Gaúchos: velhos, novos e inventados

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Epígrafe:
Moreno, voy a decir
sigún mi saber alcanza:
el tiempo sólo es tardanza
de lo que está por venir;
no tuvo nunca principio
ni jamás acabará,
porque el tiempo es una rueda,
y rueda es eternidá.

Postagem de 27 de fevereiro 2020 (ver também a de 22 de março de 2020)

POSTAGEM
Dia 20 de fevereiro de 2020, Juarez Fonseca fez um convite em seu mural no Facebook. Citou uma meia dúzia de ditos gaúchos e pediu a colaboração de seus seguidores. Contei mais de 200 contribuições até o dia 24 do mês corrente.

Como sabemos, já sou especialista em listas de provérbios e ditos. De fato, comecei uma série que não terei vida suficiente para terminar: (aqui: https://19duilio47.blogspot.com/2019/09/proverbios-portugueses-um.html). O fato é que os ditos gaúchos revigoraram meus sentimentos telúricos

Que fiz, mais faceiro que guri de bicicleta nova? Procurei um tanto mais na própria internet e editei todo material do jeito que melhor pude.

.a Normalizei as falas para fazer as comparações .
.b Tirei todos os “do que”, ficando apenas o “que”. Também tirei os , exceto no caso que estava clara a intenção de dar métrica de poema ao dito.
.c Editei alguns ditos, adaptei outras sentenças.
.d Eliminei meia dúzia de redundâncias.
.e Aproveitei e inventei um ou dois.
.f No final, cheguei a uma lista de 275 frases.
g. Não tive qualquer preocupação com os politicamente incorretos nem com excesso de presença masculina. Não que isto me deixe despreocupado, bem entendido...

01 Mais à vontade que bugio na safra do pomar.
02 Mais acanhado que bunda de freira.
03 Mais achatado que chinelo de gordo.
04 Mais adormecido que sapo morto estirado nos arreios.
05 Mais afiada que língua de sogra.

06 Mais afiado que navalha de barbeiro novato.
07 Mais afoito que cusco com saudade.
08 Mais agarrado que carrapato em culhão de touro.
09 Mais alegre que lambari em sanga.
10 Mais alto que cavalo de oficial.

11 Mais alto que poste de luz.
12 Mais alvoroçado que convento em dia de mata-mosquito.
13 Mais amontoado que uva em cacho.
14 Mais angustiado que barata de ponta-cabeça.
15 Mais ansioso que anão em comício.

16 Mais antigo que mijar em parede.
17 Mais apertado que bombacha de fresco.
18 Mais apertado que cu de pinto.
19 Mais apertado que cueca em bunda de gordo.
20 Mais apertado que dois paus no cu.

21 Mais apertado que nó de soga em dia de chuva.
22 Mais apertado que peido de burro em atoleiro.
23 Mais apertado que rato em guampa.
24 Mais apressado que cavalo de carteiro.
25 Mais arisca que china que não quer dar.

26 Mais arisca que moça virgem.
27 Mais arisco que cachorro que come banha.
28 Mais assanhada que solteirona em festa de casamento.
29 Mais assanhado que lambari de sanga.
30 Mais assustado que cego em tiroteio.

31 Mais assustado que véia em canoa.
32 Mais atirado pra trás que pica-pau em tronqueira.
33 Mais atirado que alpargata em cancha de bocha.
34 Mais atirado que lagarto dormindo.
35 Mais atrapalhado que sapo em cancha de bocha.

36 Mais atrasado que bola de porco.
37 Mais aumentado que barriga de prenha.
38 Mais baixo que vôo de marreca choca.
39 Mais bem-vindo que chuva em roça de milho.
40 Mais boca aberta que burro comedor de urtiga.

41 Mais bonita que laranja de amostra.
42 Mais branco que perna de freira.
43 Mais brilhante que ouro de libra.
44 Mais buenaço que namoro no começo.
45 Mais buliçoso que mico de viúva.

46 Mais calejado que joelho de freira rezadeira.
47 Mais calmo que água de poço.
48 Mais camuflado que um dado num sorvete de flocos.
49 Mais caro que argentina nova na zona.
50 Mais chato que chinelo de gordo.

51 Mais chato que gilete em ladrilho.
52 Mais cheio que corvo em carniça.
53 Mais cheiroso que mão de barbeiro.
54 Mais chiadeira que locomotiva no cio.
55 Mais chorosa que noiva de soldado.

56 Mais ciumenta que mulher de tenente.
57 Mais cobiçada que anca de viúva nova.
58 Mais colado que merda em tamanco.
59 Mais comilão que padre com remorso.
60 Mais complicado que receita de creme Assis Brasil.

61 Mais comprido que cuspe de bêbado.
62 Mais comprido que destratada de gago.
63 Mais comprido que discurso de gago.
64 Mais comprido que esperança de pobre.
65 Mais comprido que suspiro em velório.

66 Mais comprido que trem pra Uruguaiana.
67 Mais conhecido que a reza do padre-nosso.
68 Mais conhecido que nota de cinco pila.
69 Mais conhecido que parteira na campanha.
70 Mais constrangido que padre em puteiro.

71 Mais contente que cusco de cozinheira.
72 Mais contraditório que tosa de porco: muito grito e pouca lã.
73 Mais contrariado que gato a cabresto.
74 Mais corriqueiro que pereba em moleque.
75 Mais cochuda que leitoa em engorde.

76 Mais criativo que gaúcho trovador.
77 Mais curto que coice de porco.
78 Mais curto que estribo de anão.
79 Mais de cara amarrada que pacote de despacho.
80 Mais delgado que cachaço emprestado.

81 Mais demorado que enterro de rico.
82 Mais demorado que remar com pau redondo.
83 Mais desastrado que espirrar na farofa.
84 Mais desconfiado que cavalo torto.
85 Mais desconfiado que cego com amante.

86 Mais desconfiado que gato em canoa.
87 Mais deslocado que metaleiro em CTG.
88 Mais deslocado que vegetariano em churrascaria.
89 Mais devagar que enterro carregado a pé.
90 Mais difícil que nadar de poncho.

91 Mais duro que pau de preso.
92 Mais duro que salame de colônia.
93 Mais eficiente que japonês na roça.
94 Mais encardido que peleia de caudilho.
95 Mais encolhido que cusco em dia de minuano.

96 Mais encolhido que tripa na brasa.
97 Mais encordoado que teta de porca.
98 Mais enfeitado que bidê de china.
99 Mais enfeitado que burro de cigano em festa.
100 Mais enfeitado que camionete de cigano.

101 Mais enfeitado que cavalo de cigano.
102 Mais enfeitado que guaiaca de gringo.
103 Mais enfiado que cueca em bunda de gordo.
104 Mais engordurado que telefone de açougueiro.
105 Mais engraçado que gorda botando o eslaque.

106 Mais engraxado que calculadora de açougueiro.
107 Mais engraxado que tablet de açougueiro.
108 Mais enrolado que linguiça de venda.
109 Mais entravado que carteira em bolso de sovina.
110 Mais escandaloso que relincho de burro chorno.

111 Mais esfarrapado que poncho de gaudério.
112 Mais espalhado que dedo de pé que nunca viu bota.
113 Mais espalhado que pó de mangueira em pé de vento.
114 Mais esperto que gringo de venda.
115 Mais esquecido que argentino veraneando que deixa a mulher.

116 Mais estressado que padre que perdeu a Bíblia.
117 Mais extraviado que chinelo de bêbado.
118 Mais extraviado que chinelo em cancha de osso.
119 Mais faceira que chinoca de brinco.
120 Mais faceira que égua com dois potrilhos.

121 Mais faceiro que gordo de camiseta.
122 Mais faceiro que guri de bombacha.
123 Mais faceiro que guri de calça nova.
124 Mais faceiro que mosca em churrascaria.
125 Mais faceiro que mosca em tampa de xarope.

126 Mais faceiro que pinto em quirera.
127 Mais faceiro que pinto no lixo.
128 Mais fácil que fazer um rádio falar.
129 Mais falso que nota de três pila.
130 Mais falso que rato em velório de gato.

131 Mais fechado que baú de solteirona.
132 Mais fedorento que arroto de corvo.
133 Mais feia que a necessidade.
134 Mais feia que mulher de cego.
135 Mais feio que bater na mãe na frente da igreja.

136 Mais feio que briga de foice no escuro.
137 Mais feio que encoxar a mãe no tanque.
138 Mais feio que indigestão de torresmo.
139 Mais feio que o diabo comendo mariola.
140 Mais feio que paraguaio baleado.

141 Mais feio que punhalada de louco.
142 Mais feio que sapato de padre.
143 Mais feio que tombo de mão no bolso.
144 Mais feliz que gordo de camisa nova.
145 Mais feliz que gordo de camiseta.

146 Mais feliz que pinto no lixo.
147 Mais feliz que puta em dia de pagamento de quartel.
148 Mais fingido que interesse de viúva.
149 Mais fino e comprido que pio de pinto.
150 Mais fino que assobio de papudo.

151 Mais firme que palanque em banhado.
152 Mais firme que prego em polenta.
153 Mais firme que ranho em parede.
154 Mais firme que São Jorge no cavalo.
155 Mais florido que guampa de marido broxa.

156 Mais folgado que bombacha de tuberculoso.
157 Mais folgado que peido em bombacha.
158 Mais forte e rijo que pescoço de corvo.
159 Mais forte que arroto de corvo.
160 Mais forte que mijada de zurrilho.

161 Mais forte que peido de burro atolado.
162 Mais furioso que gato em cano de bota.
163 Mais gasto que fundilho de tropeiro.
164 Mais gordo que cusco de cozinheira.
165 Mais gordo que gato de açougueiro.

166 Mais gostoso que beijo de prima.
167 Mais graúdo que parafuso de patrola.
168 Mais grosso que cinamomo de tapera.
169 Mais grosso que cintura de sapo.
170 Mais grosso que dedo destroncado.

171 Mais grosso que papel de embrulhar prego.
172 Mais grosso que parafuso de patrola.
173 Mais grosso que porta de igreja.
174 Mais grosso que rolha de poço.
175 Mais grudado que merda em tamanco.

176 Mais importante que o cunhado do cabo.
177 Mais incerto que punhalada de louco.
178 Mais inepta que a bancadinha do Jornal do Almoço.
179 Mais inesperado que vegetariano em açougue.
180 Mais informado que gerente de funerária.

181 Mais inútil que buzina de avião.
182 Mais inútil que cinzeiro de moto.
183 Mais inútil que mijar em incêndio.
184 Mais inútil que olho azul em mulher feia.
185 Mais inútil que seio nas costas.

186 Mais inútil que teta de homem.
187 Mais inútil que xampu de careca.
188 Mais judiado que passarinho em mão de piá.
189 Mais judiado que sovaco de perneta.
190 Mais ligado que rádio de preso.

191 Mais ligeirinho que serra elétrica
192 Mais ligeiro que tainha de açude.
193 Mais linda que camisola de noiva.
194 Mais louco que galinha agarrada pelo rabo.
195 Mais magro que guri com solitária.

196 Mais mão única que carro de enterro.
197 Mais medroso que cascudo em galinheiro.
198 Mais metido que dedo em nariz de guri.
199 Mais metido que piolho em costura.
200 Mais moderno que rebenque de nylon.

201 Mais nervoso que gato em dia de faxina.
202 Mais nervoso que minhoca em galinheiro.
203 Mais nervoso que potro com mosca no ouvido.
204 Mais no chão que os butiá que me caiu do bolso.
205 Mais nojento que mocotó de ontem.

206 Mais parado que cachorro em canoa.
207 Mais parado que olho de vidro.
208 Mais pelado que sovaco de perneta.
209 Mais perdido que Adão no dia das mães.
210 Mais perdido que cebola em salada de frutas.

211 Mais perdido que cego em tiroteio.
212 Mais perdido que cupim em metalúrgica.
213 Mais perdido que cusco em dia de mudança.
214 Mais perdido que cusco em procissão.
215 Mais perdido que galinha comprada.

216 Mais perdido que os Bolsonaros em biblioteca.
217 Mais perfumado que filho de barbeiro.
218 Mais perigoso que peidar com caganeira.
219 Mais pesado que pastel de batata.
220 Mais pesado que sono de surdo.

221 Mais pesado que submarino a remo.
222 Mais por baixo que o cu da cobra.
223 Mais por baixo que tapete de porão.
224 Mais por fora que braço de caminhoneiro.
225 Mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

226 Mais por fora que dedão de franciscano.
227 Mais por fora que peão em festa de patrão.
228 Mais por fora que quarto de empregada.
229 Mais por fora que saco de touro.
230 Mais por fora que surdo em bingo.

231 Mais por fora que umbigo de vedete.
232 Mais preguiçoso que gato de armazém.
233 Mais prestimosa que mãe de noiva quarentona.
234 Mais quente que frigideira sem cabo.
235 Mais quente que namoro de primo.

236 Mais quente que noiva de bobo.
237 Mais quentinho que calça cagada.
238 Mais quieto que guri cagado.
239 Mais quieto que porco nas batata.
240 Mais reboleado que bolacha em boca de velha.

241 Mais reboleado que minhoca na cinza.
242 Mais reforçado que sapato de mórmon.
243 Mais rengo que cusco na geada.
244 Mais revelador da fonte que água mineral.
245 Mais rosado que bunda de nenê.

246 Mais ruim que café pra louco.
247 Mais seco que cabelo de pedreiro.
248 Mais sentido que barroada.
249 Mais sério que cusco em canoa.
250 Mais sério que nenê cagado.

251 Mais sóbrio que defunto carola.
252 Mais sofrido que joelho de freira rezadeira
253 Mais solitário que galinha em gaiola de engorde.
254 Mais solto que peido em bombacha.
255 Mais sossegado que gato em saco de milho.

256 Mais sovado que gato de moça véia.
257 Mais sujo que curva de rio.
258 Mais sujo que pau de galinheiro.
259 Mais tonto que miliciano no Planalto.
260 Mais torto que havaiana em pé de borracho.

261 Mais tranquilita que filha de milico.
262 Mais tranquilo e sereno que nem baile de moreno.
263 Mais tranquilo que água de poço.
264 Mais tranquilo que cozinheiro de hospício.
265 Mais tranquilo que excursão de louco.

266 Mais tranquilo que vaca na Índia.
267 Mais triste que último dia de rodeio.
268 Mais usado que pronome átono em conversa de professor.
269 Mais vaidoso que guri em chineiro.
270 Mais velho que cagar pra baixo.

271 Mais velho que mijar em arco.
272 Mais velho que pisar no chão.
273 Mais viajandão que paisano com paiero uruguayo.
274 Mais viajante que mala de louco.
275 Mais vivo que cavalo de contrabandista.

Então terminei e fiquei mais realizado que ao pular muro de convento.

DdAB
Explicação da epígrafe: Martin Fierro (na versão de Jorge Luis Borges) estava na maior trova com o Moreno, que disse coisas que, pelo jeito, não eram da concordância de nosso herói. Ele respondeu com o que acabamos de ler. Chamo a atenção para a roda de carreta que selecionei e os últimos versos: o tempo é uma roda e roda é eternidade. E tirei estas reflexões daqui mesmo. Lá veremos citações ao tango "El Entrerriano", meu preferido de todos os tangos que jamais chegaram ou chegarão a meus rodados ouvidos. Tudo explicadinho, graças a meus amores por gaúchos e gauchos.

P.S. Primeiro reparo: me passei e não escolhi um entre o 167 e o 172. (29/fev/2020)
P.S.S. Ao fazer o primeiro reparo, fiz vários consertos.
P.S.S.S. Em 2 de junho de 2021 comecei a acrescentar novos ou adaptados. O início vem do Volume 1 (O Continente, livro 2) da trilogia (O Tempo e o Vento) de Érico Veríssimo: 
Mais triste que carancho em tranqueira.

7 de abril de 2024 domingo
Volto ao tema dos ditos gaúchos, agora mais do lado dos inventados. Antes, aproveito para comentar o comentário que apus à publicação original parece que me dirigindo de alguma forma a Juarez Fonseca. E se era algo de fora do blog sumiu.

Já falei que, em geral, nos outonos, leio obras selecionadas de Érico Veríssimo. Este ano, cansado da lida da vida, decidi ler todo o "O Tempo e o Vento". E já estou no volume 2 da primeira parte: O Continente. Então fui adaptando frases de Érico e transformando-as em "ditos gaúchos inventados ou plagiados".
.1 Mais triste que carancho (carcará) em tranqueira (trincheira) (p.102)
.2 Mais assustado que negro fugido (p.103). E meu breve contra o racismo. Obviamente Érico não era racista, mas escrevia como se lia naquele tempo!!!
.3 Mais coisas no mundo que aquilo que os livros ensinam. (p.103)
.4 Mais rotineiro que uma balada insípida de rimas pobres. (p.123)
.5 Mais vazio que o olhar de uma estátua. (p.124)
.6 Mais parado que quem descobriu o óbvio (DdAB). Neste caso, inventei este dito, pois percebi que pareço ter descobertto o velocino de ouro (expressão que também aprendi com Érico). Ou melhor, percebi estar sendo objeto de um ataque de TOC. E parei.

Em 28 de dezembro de 2024, sábado, dei uma lida em tudo. E achei o seguinte comenário de um anônimo postado em 23de agosto de 2024.
276. Mais esquisito que suspensório de cobra.
Em 12 de outubro de 2025, domingo, acrescentei:
277. Mais velho que guaraná de rolha.
Em 12 de agosto de 2026 quarta-feira
Mais firme que rengo acocado (rima com "mais firme que prego em polenta".

Em 21 de agosto de 2026 sexta-feira:
278. Mais fino que chinelo de gordo.
279. Mais grosso que parafuso de patrola.
280. Mais duro que caroço de pêssego.
281. Mais tranquilo que água de poço.

Em 30 de agosto de 2026 domingo
282 Mais agourento que urubu deprimido.

Em 7 de setembro de 2026 segunda-feira
283. Mais tatibitáti que trova de gago.

Em 17 de setembro de 2026 quinta-feira
284. Mais perdido que quem se enreda nas macegas (retirado de uma das postagens pertinentes)
285. Mais falante que a turma que dá bom-dia a cavalo.
286. Mais oferecida que noz podre ou ardida.
287. Mais pão-duro que os que latem para economizar cachorro.

Em 14 de outubro de 2026 quarta-feira
288. Mais escondido que árvore em floresta (de Anna Mariano).
289. Mais apertado que meia de nylon em perna de china (de Anna Mariano).
290. Mais incompleto que beijo sem bigode (via Simone de Beauvoir). 
291. Mais apertado que dois paus no cu (de Túlio de Ávila)
292. Mais ardido que mordida de mutuca que tira boi do mato.


Extemporâneo:
Sem número: Mais necessitado de revisar essas duas postagens que nem sei o quê.

22 fevereiro, 2020

Cid

Resultado de imagem para patrola

Meu amigo no Facebook João Lopes reproduziu um artigo de André Coelho que eu mesmo reproduzi aqui para que me sirva para futuras consultas. Eu pouco ou nada falei publicamente sobre o caso Cid, Cid e a patrola. Nem preciso mais.

A ESQUERDA DIANTE DO ATO DE CID GOMES

Vocês têm que estar de sacanagem comigo! Então, pelo que estou entendendo, se eu for contra as milícias e a favor de uma reação generalizada contra elas, eu tenho que apoiar o que o Cid fez? Eu tenho que aplaudir aquele exato ato, feito daquela exata forma? Tenho que achar que um Senador da República dirigindo uma retroescavadeira para dentro de um prédio cheio de milicianos armados é o jeito certo de combater a milícia e dar uma resposta à sua ameaça, e não um ato teatral desnecessário de hipermasculinidade num ambiente em que macheza política de ocasião rende mais holofote que política de inteligência, investigação e desmontagem de redes milicianas?

Então, se eu for contra aquele exato ato, feito daquela exata forma, eu estarei sendo parte de uma esquerda cirandeira e ingênua, incapaz de compreender a brutalidade do quadro atual e de reagir com a radicalidade correspondente?

Espera aí. Eram trabalhadores superexplorados entrando de retroescavadeira na fábrica para tomar o processo produtivo para si? Eram camponeses despossuídos entrando de retroescavadeira no latifúndio para tomar para si o direito de existir e trabalhar na terra? Eram manifestantes anti-rentismo entrando de retroescavadeira na sede do Itaú numa rejeição simbólica do capitalismo financeiro? Eram eleitores pobres, carentes de voz e indignados com uma política que os trata como invisíveis, entrando de retroescavadeira no Congresso Nacional, no pontapé inicial de retomada de uma democracia radical? Eram cidadãos ciosos da República entrando de retroescavadeira num encontro nazi-fascista, numa sede da Universal, numa filial da Globo? Se for, contem comigo 100%. Apoio, defendo, compartilho, convido, participo, dou até dinheiro pras retroescavadeiras. Mas um dos Ferreira Gomes num surto de Rambo, aí, desculpa, mas vocês vão ter que aplaudir sozinhos.

Por último: Sim, o problema das milícias é gravíssimo e exige uma resposta firme e dura, à altura da ameaça. Mas eu achei que nós, da esquerda, éramos os caras das medidas eficazes mas lentas, difíceis de explicar à população exatamente porque não são nem teatrais nem imediatistas. Desmilitarizar a polícia, construir um plano de carreira para policiais, treinar e equipar melhor os esquadrões, investir em inteligência, integrar as polícias; evitar a brutalidade policialesca, o terrorismo punitivista, o abuso de abordagem, a confusão entre punição e extermínio, o tratamento do criminoso como inimigo; apostar em políticas sociais de educação, de lazer, de renda e de emprego, reforçar as associações de bairro e os movimentos sociais e populares dentro das áreas de risco ou dominadas, dar subsídios à vida cultural local, favorecer o pequeno negócio de bairro, recuperar a paisagem da periferia, urbanizar de forma democrática e incluir na vida da cidade, construir saídas de escolha e de resistência fora da adesão ou submissão ao crime organizado etc.

Achei que apostávamos nessas coisas não porque nos faltava estômago para a violência animalesca, mas porque sabíamos desde há muito tempo que a violência animalesca não funciona, que ela se combina com estereótipos de preconceito e exclusão, só atinge os mais pobres e segrega e extermina mais rápido os membros de grupos já perseguidos, não desmonta redes estruturais, não chega aos cabeças poderosos, não desmonta os tentáculos do crime com a política e com o judiciário, favorece e reforça a narrativa colonial, militarista e ditatorial latino-americana e des-sensibiliza a população para a vigilância, a crueldade e a morte, tornando-a despreparada para a política, para a cidadania e para a solidariedade. Que sabíamos que o discurso que elege a cada vez um novo inimigo para ser eliminado e coloca mais lenha na fornalha do direito penal é sempre - SEMPRE - uma arma que acaba se voltando contra os pobres, pretos e putas alegando defender os direitos dos pobres, pretos e putas.

Mas de repente somos nós propondo combater um fenômeno complexo como a milícia com porrada, tiro e bomba... substituindo todo o conhecimento sociológico e a sabedoria política acumulada na luta de classes, na luta decolonial e na luta anti-racista pela tentação fácil de montar numa retroescavadeira... Tá bom, então. Vão lá. Não deu certo contra o tráfico de drogas, contra o tráfico de armas, contra a corrupção, contra assaltos e homicídios e contra o terrorismo... Mas quem sabe contra a milícia, né? Quem sabe dessa vez o porrete não resolve... Quem sabe se a gente só calibrar a mira do porrete para quebrar os crânios certos...

Francamente, gente. Francamente. Do André Coelho


Não falei que é demolidor? E falo mais: o assunto é mesmo a eleição municipal de 2020. Quem despreza os municípios, como fez o PT em 2016 só pode pagar mico, da forma como fez o PT em 2018.

DdAB
Revoltado com as retroescavadeiras, selecionei para nos ilustrar a imagem de uma patrola.

13 fevereiro, 2020

Ulysses: a magia da tradução e/m meus livros


Como sabemos, sou doctor of philos... Epa, como sabemos sou metido a ler traduções do "Ulysses", festejado romance do irlandês James Joyce. Tenho um (um, apenas um!) amigo que revela ter lido o original. Como sabemos, até aí há problemas, pois há uma bruta divergência sobre quem é a verdadeira edição prínceps: a Bodley Head de 1960 idêntica a da Random House de 1961 ou a de Hans Gabler, de 1984 e publicada em 1986 pela Vintage Books de Nova Yorque:

JOYCE, James (2000) Ulysses. London: Penguin. With an Introduction by Declan Kiberd, 1992. 933p.
 [Esta edição Penguin reproduz o texto que se tornou princeps a partir de 1960, com a editora Bodley Head, de Londres e, de 1961, com a editora Random House, de Nova York.]
Edições relevantes: 1922, 1937, 1968, 1984].
e
JOYCE, James (1986) Ulysses; the corrected text. New York: Vintage (Random House). 644p. (Edição coordenada por Hans Walter Gabler, cuja primeira edição é de 1984. Esta edição chegou a ser considerada princeps, mas pouco durou e hoje os especialistas têm-na como variorum).

Selecionada a edição em inglês, vamos deparar-nos com a chamada fixação do texto, o que me parece um conceito irrelevante para o caso. E o caso é "James Joyce e seu Ulysses", contexto em que parece que falar em edição princeps é prematuro. Estou certo de que num futuro próximo alguém vai retomar a ideia de fixação de texto, compulsando todo o material disponível para os scholars. E lançando nova e sensacionalizada edição.

A outra questão é a tradução. Tomado de curiosidade, eu não era mais que um pós-adolescente quando a editora Civilização Brasileira lançou no Brasil a tradução de Antônio Houaiss e eu a adquiri. Foi quando, nos anos subsequentes, comecei a leitura umas 200 vezes, o que me fez decorar a primeira sentença. Como eu achava o tradutor meio pernóstico, meio empolado e meio ininteligível, ia parando pro aí mesmo, até chegar-me às mãos a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Não nego a possibilidade de que Houaiss tenha "afofado" o texto de Bernardina para mim. Aqui estão as traduções em meu poder:

PORTUGUÊS BRASILEIRO E D'ALÉM MAR

JOYCE, James (1966, 2003) Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 13a. ed. 957p. Tradução de Antônio Houaiss.

JOYCE, James (2007) Ulisses. Rio de Janeiro: Alfaguarra/Objetiva. 908p. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

JOYCE, James (2012) Ulysses. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras. 1106p. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo.

JOYCE, James (2013). Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. 730p. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.


TRADUÇÕES EM ESPANHOL

JOYCE, James (1988) Ulises. Barcelona: Debolsillo. 963p. Tradução de José Maria Valverde.

JOYCE, James (2008) Ulises. Mexico: Tomo. 728p. (na verdade, "Grupo Editorial Tomo, S. A de C. V."). 1a. edición, noviembre. Tradução de J. Salas Subirat reproduzindo o original argentino.

JOYCE, James (20011) Ulises. Madrid: Cátedra. (Tradução de Francisco Garcia Tortosa e María Luiza Venegas Lagüens em 1999). 908p.

TRADUÇÃO ITALIANA (minha cópia em PDF)

JOYCE, James Ulisse (2013). Torino: Giulio Einaudi. 500p. Tradução de Gianni Celati,

A tradução tem uma enorme capacidade de ser copiada. E suponho que cada tradutor procurará trabalhos anteriores em sua própria língua para ver como o fulano disse coisas complicadas. Como sabemos, a primeira palavra do romance é "stately". Vejamos em minhas quatro traduções para o português, minhas três para o espanhol e meu PDF para o italiano:

Português brasileiro
Houaiss: sobranceiro
Bernardina: majestoso
Galindo: solene

Português europeu
Relógio D'Água: Soberbo

Espanhol
Salas-Subirat: imponente
Valverde: solemne
Garcia-Tortosa: majestuoso

Italiano (PDF)
Celati: imponente

Por falar em italiano, é de lá que vem a boutade de afirmar que "traduttore traditore". Mas não esmoreçamos. Além de darem margem a diferentes abordagens por diferentes tradutores, uns podem copiar dos outros. Com efeito, neste sentido, Salas-Subirat deve ter sido consultado por todos os demais, por ter sido o primeiro a colocar numa língua  irmã do português. Nesta linha, vemos que "majestoso" e "imponente" encontram-se em mais de um livro. É interessante e deixo para as novas gerações avaliar quantas palavras comuns encontram-se nas diferentes traduções, tarefa hercúlea, admito, pois imagino que, nos próximos 100 anos, haverá mais 100 traduções nessas quatro línguas com que hoje estou lidando. Por enquanto, na linha da declaração de Gabler como edição princeps e depois seu impeachment, imagino que também os tradutores poderão retratar-se e fazer novo trabalho. No caso, a turma que traduziu de Gabler e não de Penguin há de estar com a cabeça quente.

Nessas traduções do "Ulysses" que me chegaram ao bolso..., há milhares de observações a fazer. Por exemplo, eu mesmo fiz uma direto na segunda frase do primeiro parágrafo. Dona Bernardina fala em "peinhoar" (isto é, aportuguezou do francês), mas meu ponto é sugerir que o velho James, nos esquemas produzidos para Carlo Linati (1920) ou Stuart Gilbert (1921) diz que a viagem começa às 8h00 a.m., o que é compatível com a indumentária de Buck Mulligan ao chegar-se ao topo da escada... Mas o que mais interessa são as gralhas (termo que aprendi com Galindo, parecendo ser jargão dos literatos e gráficos, mas não comprovei, querendo dizer dizer aquilo que inocentemente ouço designar como erro de imprensa).

Li que a edição feita por Hans Walter Gabler constatou cinco mil problemas pequenos ou grandes, corrigindo-os. O próprio Joyce corrigiu milhares de vezes os originais da editora de 1922, deixando as correções posteriores ainda mais confusas. Consta que o autor irlandês fez as últimas correções nas edições supervenientes do "Ulysses" até 1937, ou seja, quatro anos antes de morrer e já envolto tanto quanto pôde no "Finnegan's Wake". As correções nunca pararam e eu mesmo até no original acho que há encrencas. No outro dia li, e infelizmente não gravei a origem nem a autenticidade, mas não interessa, que a ideia é boa por si mesma. Um estudioso irlandês (precisa sê-lo?) diz que o "Ulysses" é maravilhoso, e tudo aquilo, mas lhe faltou um bom editor. Ou seja, aquela sra. americana, a mrs. Sylvia Beach, deveria ter trabalhado mais ou contratado alguém para fazê-lo. Mas também estou certo de que Joyce iria montar num porco, se o fizessem.

É que o próprio autor, além das gralhas, algumas das quais ele próprio inseriu (claro que involuntariamente), tem citações em milhares de línguas e a invenção de palavras, além de fusão de outras, como andei vendo ser mania de Mia Couto.

Tempos atrás, eu me diverti intensamente (aqui) comparando James Joyce e John Maynard Keynes, na broma com a língua alemã, que já fora objeto de brincadeira por Mark Twain, ao elogiar a língua de Goethe, sugerindo que é necessário ter um telescópio para identificar o substantivo no final da palavra que vai abarcando milhares de outras, tudo sem separação de um espaço, como o texto que agora chega aos olhos do leitor. Keynes fala que "cálculo de probabilidade", em alemão, se escreve como Wahrscheinlichkeitsrechnung.

E depois falei nas páginas 361-2 do capítulo 12 - Os Cíclopes da edição Alfaguarra, na tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, aquele capítulo do "diz Joe, diz Bloom, digo eu..." O paragrafão começa na página 360. Diz ela: "O último adeus estava afetando ao máximo". Digo eu: afetando quem?, diga lá, James. É tudo assim... Depois de um monte de informações relevantes e irrelevantes, chegamos à frase cujo final transcrevi por outras paragens:

A delegação, toda ela presente, consistia no commendatore Bacibaci Beninobenone (o semiparalisado doyen [decano] do grupo que tinha que ser içado ao seu assento por meio de uma grua a vapor poderosa), monsieur Pierrepaul Petitépatant, o grandegozador Vladinmire Pokethankerstcheff, o arquigozador Leopold Rudolph von Schwanzenbad-Hodenthaler, a condessa Martha Virága Kissazonhy Putrá-Baba Backsheesh Rahat Lokun Effendi, señor Hidalgo Caballero Don Pecadillo y Palavras y Paternoster de la Malora de la Malaria. Hokopoko Harakiri, Hi Hung Chang, Olaf Kobberkeddelsen, Mynheer Trik van Trumps, Pan Poleaxe Paddyrisky, Goosepond Prhklstr Krqatchinabritchisitch, Borus Hupinkoff, herr Hurhausdirektorpresident, Hans Chuechli-Steuerli, Nationalgymnasiummuseumsanatoriumandsuspespensoriumordinaryprivatdocentegeneralhistoryspecialprofessordoctor Kriegfried Ueberallgemein. Todos os delegados sem exceção se expressaram nos mais fortes termos heterogêneos a respeito da barbaridade inominável que tinham sido convidados a testemunhar [...].

Não vou alongar-me, mas comentarei as primeiras autoridades. Começamos com o título que possivelmente se deve a um italiano ("commendatore"), mas o nome já vai retirando qualquer seriedade do 'delegado' meridional. Pelo que entendo, versado em italiano, Joyce meteu o nome do cara como Beijosbeijos. O sobrenome já me deixa patinando: Beni vai bem, mas nobenone não sei o que é. E assim por diante, até aquele prenome de um alemão mais longo que a esperança de todos os pobre de Jaguary encordoada, chegando até Santiago. Lá no finalzinho, Kriegfried faz guerra e paz, mas fried é frito em inglês. E o ueberallgemein não pode ser sobrenome nem aqui nem na China.

É complicado. E, para facilitar, eu tenho um projeto de pegar a tradução feita por John Gledson para o inglês do Dom Casmurro, de Machado de Assis, e trazê-lo de volta ao português brasileiro. Já achei algo que oferece garantidamente uma nota de rodapé: Gledson traduz Central do Brasil para Central Line do metrô de Londres.

DdAB
Imagem: "edição econômica" do Ulysses anunciada na Amazon. Para mim aquelas duas figuras masculinas da capa estão muito longe de representar a dupla Stephen Dedalus e Leopold Bloom. Ao contrário, lembram-me algo parecido com Ringo Starr e Peter Ustinov.

P.S. Minha biblioteca ulysseana.
P.S.S. Sobre "faltou editor", em 17 de abril de 2023 [escrevo em 24 e abril e 2026], fiz a postagem daqui] dizendo precisamente isso!