No final de 2025, li
SOUZA, Jessé () O Pobre de Direita; a vigança dos bastardos. São Paulo: Companhia das
Letras.
E, nestas antevésperas de
nova eleição para presidente da república, quando a tênue social-democracia
protagonizada por Lula e o PT pode ser derrubada não apenas pela direita, mas
também pela extrema direita, deu-me muito que pensar.
A. O LIVRO
Este profundo ensaio de Jessé Souza busca desmontar a ideia simplista de
que o trabalhador de baixa renda que vota na direita é burro, alienado ou que assim
vote por mera desinformação. Para o autor, o comportamento humano não é guiado
unicamente por motivações econômicas ou por interesses de classe puramente
materiais. Jessé Souza sustenta que o fenômeno ocorre por razões sociológicas e
psicológicas mais profundas.
1. A Busca por Dignidade e o Combate à Humilhação
Na tese de Jessé Souza, a grande maioria da população brasileira sofre
uma rotina diária e histórica de humilhação e desvalorização (no transporte
público, nas condições de trabalho, na falta de capital cultural e financeiro).
O apoio à extrema-direita surge como uma reação emocional — uma forma de buscar
reconhecimento e pertencimento. O indivíduo prefere se aliar a um discurso de
autoridade que lhe prometa valorização moral a se ver apenas como um “assistido”
ou “vítima”.
2. A Moral da Meritocracia e o Empreendedorismo de Si
Com o enfraquecimento dos sindicatos e dos laços coletivos tradicionais,
o trabalhador precarizado passou a interpretar seu fracasso ou sucesso como uma
questão puramente individual. A narrativa de direita valoriza a ideia do “batalhador”
(a moral do esforço próprio), oferecendo a essa pessoa o orgulho de se sentir
responsável pelas próprias conquistas, em vez de depender de políticas do
Estado (educação, saúde, previdência etc.) que muitas vezes são estigmatizadas.
3. O Papel da Teologia da Prosperidade e das Igrejas Neopentecostais
Em regiões e bairros onde o Estado está ausente, as igrejas
neopentecostais oferecem estrutura comunitária, acolhimento e uma narrativa de
guerra espiritual entre o bem e o mal. A Teologia da Prosperidade valida o esforço
individual, a disciplina e o desejo de ascensão financeira, alinhando a fé a
uma visão de mundo associada ao liberalismo econômico e ao conservadorismo
moral.
4. A Canalização do Ressentimento e o “Racismo Recreativo/Cultural”
Outro ponto crucial destacado por Jessé Souza é como a extrema-direita
consegue capturar o ressentimento.
O indivíduo em situação de vulnerabilidade encontra na direita a permissão para
canalizar suas frustrações contra um “inimigo comum”, seja a pauta de costumes,
seja os beneficiários de programas sociais, e as minorias ou estereótipos
regionais. Ao definir quem está “abaixo” dele, a pessoa sente que recuperou
alguma hierarquia social e status moral.
Em suma, para Jessé Souza, o pobre não adere à direita por ignorância, mas porque a direita oferece a ele um mecanismo de compensação psíquica e moral para lidar com a dor do abandono social e da precariedade.
B. RESSENTIMENTO
O ressentimento é, literalmente, o ato de “re-sentir”: reviver uma dor, uma ofensa, uma injustiça
ou uma humilhação do passado, mantendo essa emoção viva e ativa na mente. Diferentemente
da raiva momentânea (que costuma ser uma reação rápida e explosiva), o
ressentimento é um sentimento amargurado que se arrasta no tempo, gerando
remorso, rancor e, muitas vezes, um desejo de revanche que não pode ser
satisfeito.
1. O Ponto de Vista Psicológico
Na psicologia, o ressentimento surge quando uma pessoa se sente
injustiçada ou impotente diante de uma situação e acumula o afeto negativo
sem conseguir processá-lo ou expressá-lo de forma assertiva.
... sensação de impotência: É a combinação da mágoa com a
incapacidade de mudar o passado ou punir o causador do dano.
... ciclo ruminante: A pessoa repete a cena mentalmente
dezenas de vezes, realimentando a mesma dor original.
... acometimento pessoal: Costuma-se dizer no senso comum que
o ressentimento “é como tomar veneno e esperar que a outra
pessoa morra”, pois ele consome prioritariamente quem o guarda.
2. A Dimensão Filosófica e
Sociológica
O conceito ganhou enorme relevância na filosofia moderna, especialmente
através de Friedrich Nietzsche e, mais
tarde, do sociólogo Max Scheler:
... Nietzsche (A Genealogia da Moral): Para
Nietzsche, o ressentimento é a atitude do indivíduo fraco ou
impotente que, incapaz de agir ou se afirmar no mundo real, canaliza sua
frustração criando uma mágoa moralizada. Ele passa a julgar o “outro” (o forte,
o bem-sucedido) como mau ou injusto para se sentir moralmente superior.
... fenômeno social: Em termos sociológicos e políticos, o
ressentimento descreve a amargura coletiva de grupos que se sentem privados de
status, riqueza ou reconhecimento, alimentando hostilidade contra elites ou
contra outros grupos sociais.
Síntese
Em suma, o ressentimento é a incapacidade de metabolizar o
passado. Ele combina mágoa acumulada, desejo sufocado de reparação e
um foco obsessivo no que já aconteceu, impedindo o indivíduo de avançar.
C. OUTRAS CONDICIONANTES
O ressentimento é a engrenagem emocional, mas
não é a única força em jogo.
Na própria tese de Jessé Souza, o ressentimento funciona como o combustível (a dor, a indignação
acumulada e a raiva represada), mas para esse combustível se transformar em
voto e identificação política, é preciso uma infraestrutura
concreta e ideológica por trás. Existem pelo menos quatro outros fatores
essenciais que complementam essa dinâmica:
1. Suporte Comunitário e Redes de Acolhimento
Para além da ideologia, há uma dimensão prática do dia a dia. Em
territórios onde o Estado é omisso (sem saneamento, saúde pública precária ou
segurança de qualidade), instituições como as igrejas neopentecostais
oferecem amparo real:
... redes de solidariedade para momentos de desemprego ou doença;
... espaço de pertencimento, sociabilidade e valorização pessoal;
... apoio psicológico e moral diante de vidas extremamente duras.
A adesão passa a ser uma escolha pragmática por uma comunidade que
acolhe, e essa comunidade traz consigo uma visão de mundo alinhada ao
conservadorismo moral e à Teologia da Prosperidade.
2. Disputa Narrativa e “Invisibilização”
dos Verdadeiros Mecanismos
Como o próprio Jessé destaca, o trabalhador que vê o salário ser
corroído pela inflação ou que não consegue acesso a serviços públicos está
visivelmente indignado. No entanto, o debate público raramente lhe explica os
mecanismos econômicos estruturais (como a política fiscal, o rentismo ou o
subfinanciamento dos serviços públicos).
Sem um diagnóstico claro das causas estruturais, a direita oferece uma explicação simples e compreensível:
... “A culpa é da corrupção moral do Estado.”
... “A culpa é do imposto que financia quem 'não quer trabalhar'.”
... “A culpa é do Diabo ou da perda de valores da família.”
3. O Desejo Positivo de Ascensão e
Autonomia (A Moral do Trabalhador)
A adesão não ocorre apenas por medo ou raiva (“sentimentos negativos”),
mas também por aspirações positivas:
... o orgulho de ser um “batalhador”, de sustentar a própria casa com o
suor do rosto.
... o desejo de empreender, de prosperar financeiramente e de não ser
tratado como “coitado” ou mero dependente de programas sociais.
... a valorização da disciplina, do esforço individual e da ordem.
A narrativa liberal e conservadora valida essa autoimagem: trata o
sujeito como um agente capaz, forte e responsável pelo seu próprio destino.
4. A Disputa Hegemônica nas Redes Digitais
Há também o aspecto da comunicação
moderna. A extrema-direita e os movimentos liberais souberam se
apropriar das redes sociais e dos algoritmos (como os do YouTube, TikTok e
WhatsApp) de forma infinitamente mais ágil que a esquerda tradicional,
utilizando uma linguagem direta, popular, bem-humorada e focada no cotidiano
real da população.
5. RESSENTIMENTO EM UMA FRASE
O ressentimento é o motor de tração, mas a adesão se concretiza porque a
direita conseguiu articular uma
rede de acolhimento físico/espiritual, uma
narrativa simples para a dor, uma
validação do orgulho do trabalhador e uma
máquina eficiente de comunicação.
DdAB e Gemini
P.S. Imagem da Wikipedia.
