19 outubro, 2026

O Pobre de Direita: Jessé e Gemini

 

No final de 2025, li

SOUZA, Jessé () O Pobre de Direita; a vigança dos bastardos. São Paulo: Companhia das Letras.

E, nestas antevésperas de nova eleição para presidente da república, quando a tênue social-democracia protagonizada por Lula e o PT pode ser derrubada não apenas pela direita, mas também pela extrema direita, deu-me muito que pensar.

A. O LIVRO

Este profundo ensaio de Jessé Souza busca desmontar a ideia simplista de que o trabalhador de baixa renda que vota na direita é burro, alienado ou que assim vote por mera desinformação. Para o autor, o comportamento humano não é guiado unicamente por motivações econômicas ou por interesses de classe puramente materiais. Jessé Souza sustenta que o fenômeno ocorre por razões sociológicas e psicológicas mais profundas.

1. A Busca por Dignidade e o Combate à Humilhação

Na tese de Jessé Souza, a grande maioria da população brasileira sofre uma rotina diária e histórica de humilhação e desvalorização (no transporte público, nas condições de trabalho, na falta de capital cultural e financeiro). O apoio à extrema-direita surge como uma reação emocional — uma forma de buscar reconhecimento e pertencimento. O indivíduo prefere se aliar a um discurso de autoridade que lhe prometa valorização moral a se ver apenas como um “assistido” ou “vítima”.

2. A Moral da Meritocracia e o Empreendedorismo de Si

Com o enfraquecimento dos sindicatos e dos laços coletivos tradicionais, o trabalhador precarizado passou a interpretar seu fracasso ou sucesso como uma questão puramente individual. A narrativa de direita valoriza a ideia do “batalhador” (a moral do esforço próprio), oferecendo a essa pessoa o orgulho de se sentir responsável pelas próprias conquistas, em vez de depender de políticas do Estado (educação, saúde, previdência etc.) que muitas vezes são estigmatizadas.

3. O Papel da Teologia da Prosperidade e das Igrejas Neopentecostais

Em regiões e bairros onde o Estado está ausente, as igrejas neopentecostais oferecem estrutura comunitária, acolhimento e uma narrativa de guerra espiritual entre o bem e o mal. A Teologia da Prosperidade valida o esforço individual, a disciplina e o desejo de ascensão financeira, alinhando a fé a uma visão de mundo associada ao liberalismo econômico e ao conservadorismo moral.

4. A Canalização do Ressentimento e o “Racismo Recreativo/Cultural”

Outro ponto crucial destacado por Jessé Souza é como a extrema-direita consegue capturar o ressentimento. O indivíduo em situação de vulnerabilidade encontra na direita a permissão para canalizar suas frustrações contra um “inimigo comum”, seja a pauta de costumes, seja os beneficiários de programas sociais, e as minorias ou estereótipos regionais. Ao definir quem está “abaixo” dele, a pessoa sente que recuperou alguma hierarquia social e status moral.

Em suma, para Jessé Souza, o pobre não adere à direita por ignorância, mas porque a direita oferece a ele um mecanismo de compensação psíquica e moral para lidar com a dor do abandono social e da precariedade.

B. RESSENTIMENTO

O ressentimento é, literalmente, o ato de “re-sentir”: reviver uma dor, uma ofensa, uma injustiça ou uma humilhação do passado, mantendo essa emoção viva e ativa na mente. Diferentemente da raiva momentânea (que costuma ser uma reação rápida e explosiva), o ressentimento é um sentimento amargurado que se arrasta no tempo, gerando remorso, rancor e, muitas vezes, um desejo de revanche que não pode ser satisfeito.

1. O Ponto de Vista Psicológico

Na psicologia, o ressentimento surge quando uma pessoa se sente injustiçada ou impotente diante de uma situação e acumula o afeto negativo sem conseguir processá-lo ou expressá-lo de forma assertiva.

... sensação de impotência: É a combinação da mágoa com a incapacidade de mudar o passado ou punir o causador do dano.

... ciclo ruminante: A pessoa repete a cena mentalmente dezenas de vezes, realimentando a mesma dor original.

... acometimento pessoal: Costuma-se dizer no senso comum que o ressentimento “é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”, pois ele consome prioritariamente quem o guarda.

2. A Dimensão Filosófica e Sociológica

O conceito ganhou enorme relevância na filosofia moderna, especialmente através de Friedrich Nietzsche e, mais tarde, do sociólogo Max Scheler:

... Nietzsche (A Genealogia da Moral): Para Nietzsche, o ressentimento é a atitude do indivíduo fraco ou impotente que, incapaz de agir ou se afirmar no mundo real, canaliza sua frustração criando uma mágoa moralizada. Ele passa a julgar o “outro” (o forte, o bem-sucedido) como mau ou injusto para se sentir moralmente superior.

... fenômeno social: Em termos sociológicos e políticos, o ressentimento descreve a amargura coletiva de grupos que se sentem privados de status, riqueza ou reconhecimento, alimentando hostilidade contra elites ou contra outros grupos sociais.

Síntese

Em suma, o ressentimento é a incapacidade de metabolizar o passado. Ele combina mágoa acumulada, desejo sufocado de reparação e um foco obsessivo no que já aconteceu, impedindo o indivíduo de avançar.

C. OUTRAS CONDICIONANTES

O ressentimento é a engrenagem emocional, mas não é a única força em jogo.

Na própria tese de Jessé Souza, o ressentimento funciona como o combustível (a dor, a indignação acumulada e a raiva represada), mas para esse combustível se transformar em voto e identificação política, é preciso uma infraestrutura concreta e ideológica por trás. Existem pelo menos quatro outros fatores essenciais que complementam essa dinâmica:

1. Suporte Comunitário e Redes de Acolhimento

Para além da ideologia, há uma dimensão prática do dia a dia. Em territórios onde o Estado é omisso (sem saneamento, saúde pública precária ou segurança de qualidade), instituições como as igrejas neopentecostais oferecem amparo real:

... redes de solidariedade para momentos de desemprego ou doença;

... espaço de pertencimento, sociabilidade e valorização pessoal;

... apoio psicológico e moral diante de vidas extremamente duras.

A adesão passa a ser uma escolha pragmática por uma comunidade que acolhe, e essa comunidade traz consigo uma visão de mundo alinhada ao conservadorismo moral e à Teologia da Prosperidade.

2. Disputa Narrativa e “Invisibilização” dos Verdadeiros Mecanismos

Como o próprio Jessé destaca, o trabalhador que vê o salário ser corroído pela inflação ou que não consegue acesso a serviços públicos está visivelmente indignado. No entanto, o debate público raramente lhe explica os mecanismos econômicos estruturais (como a política fiscal, o rentismo ou o subfinanciamento dos serviços públicos).

Sem um diagnóstico claro das causas estruturais, a direita oferece uma explicação simples e compreensível:

... “A culpa é da corrupção moral do Estado.”

... “A culpa é do imposto que financia quem 'não quer trabalhar'.”

... “A culpa é do Diabo ou da perda de valores da família.”

3. O Desejo Positivo de Ascensão e Autonomia (A Moral do Trabalhador)

A adesão não ocorre apenas por medo ou raiva (“sentimentos negativos”), mas também por aspirações positivas:

... o orgulho de ser um “batalhador”, de sustentar a própria casa com o suor do rosto.

... o desejo de empreender, de prosperar financeiramente e de não ser tratado como “coitado” ou mero dependente de programas sociais.

... a valorização da disciplina, do esforço individual e da ordem.

A narrativa liberal e conservadora valida essa autoimagem: trata o sujeito como um agente capaz, forte e responsável pelo seu próprio destino.

4. A Disputa Hegemônica nas Redes Digitais

Há também o aspecto da comunicação moderna. A extrema-direita e os movimentos liberais souberam se apropriar das redes sociais e dos algoritmos (como os do YouTube, TikTok e WhatsApp) de forma infinitamente mais ágil que a esquerda tradicional, utilizando uma linguagem direta, popular, bem-humorada e focada no cotidiano real da população.

5. RESSENTIMENTO EM UMA FRASE

O ressentimento é o motor de tração, mas a adesão se concretiza porque a direita conseguiu articular uma rede de acolhimento físico/espiritual, uma narrativa simples para a dor, uma validação do orgulho do trabalhador e uma máquina eficiente de comunicação.

DdAB e Gemini

P.S. Imagem da Wikipedia.