27 maio, 2026

Retórica de Fim de Outono: o que não quero dizer sobre a eficiência



Lendo comentadores de Max Weber nestes dias finais de outono, decidi que não vou falar sobre as importantes contribuições do autor para o esclarecimento do papel da racionalidade no estudo científico, e menos ainda sobre sua — um tanto mal interpretada — discussão acerca da separação entre proposições positivas e normativas.

Nem quero falar sobre os modernos conceitos de racionalidade, que acrescentam à tradicional visão instrumental as definições menos rígidas de racionalidade procedural e expressiva. Tampouco insistirei na relevância da racionalidade instrumental para a avaliação positiva da eficiência de um sistema econômico, de uma indústria ou de uma firma. Afinal, todos sabemos, a partir de nossos agora amados manuais de microeconomia, que o conceito de eficiência comporta três pessoas em uma única entidade divina: a eficiência produtiva, a eficiência alocativa e a eficiência distributiva.

Já que estou dizendo o que não quero, acrescento que tampouco vou falar disciplina do curso de graduação versando sobre contabilidade social, mas sigo pensando na de auditoria social. Uma auditoria em que fiscais do imposto de renda, zelosos de seu dever, trancafiariam no xilindró todos os espertalhões, identificados pelo simples fato de viverem muito acima dos rendimentos que declaram formalmente ao fisco.

Deixo para surpreender meus amigos mais diletos ao bradar que passei a seguir aqueles economistas que consideram o conceito de marginalismo uma das mais bravas conquistas do intelecto humano. O próprio Joseph Schumpeter herdou dos economistas neoclássicos as noções de evolução e mudança incremental, ferramentas encontradiças em qualquer esquina teórica de diversas ciências.

E por que digo isto? É que me parece óbvio que muitos economistas incidem em grosseiro erro analítico ao desconsiderar em sua modelagem do capitalismo o conceito de falhas de mercado. E que dizer de falhas ainda mais sutis? Refiro-me precisamente àquelas que ocorrem no exato instante em que uma firma apresenta lucros extraordinários. Como sabemos, lucro extraordinário significa que algum fator está recebendo acima de seu custo de oportunidade. Pelo conceito de sociedade justa de John Rawls (a desigualdade só será tolerada se beneficiar os menos aquinhoados), isso deveria ser sumariamente corrigido pela auditoria social através da cobrança do imposto de renda.

Em outras palavras: se o lucro extraordinário é indesejável socialmente, a sociedade deve puni-lo através de sua ação institucional — o governo — ou por meio de grupos organizados, como a imaginária Associação Brasileira de Caçadores de Sonegadores de Impostos, da qual o Dr. Assis de Assis diz-se presidente. Uma óbvia impostura, pois ele não consegue presidir sequer a própria sala de aula em que ministra o curso de Microeconomia II, a julgar pela bagunça metodológica que ali impera.

Por outro lado, quando há prejuízo, obviamente tampouco há eficiência alocativa, mas aí o mercado resolve por conta própria. Não se deve conceder subsídios, tampouco punir com impostos sobre o patrimônio. O prejuízo, por si só, já funciona como um incentivo (negativo) para os trabalhadores refletirem sobre as vicissitudes a que sua negligência produtiva tem levado os pobres capitalistas a passar. O mecanismo de mercado corrige o erro de quem gera prejuízo: a firma não acumula capital, perde a energia e quebra.

Resta o caso dos furtos mais sutis, daqueles que a sociedade não se dispõe a gastar recursos escassos para policiar e capturar cada infrator. Para esses, a engenhosidade institucional criou o imposto de transmissão de bens — seja inter-vivos ou, no limite metafísico, entre vivos e mortos. Afinal, para certas correntes da burocracia, nem a passagem para o outro plano desobriga o contribuinte de prestar contas ao Leão.

No fim das contas, a grande lição dessa nossa heterodoxia de fim de outono é simples: o mercado resolve o que quer, o governo pune o que pode, e a burocracia cobra imposto até de quem já mudou de plano geográfico. Diante de tamanha perfeição alocativa, só nos resta assinar a missiva, arrumar a bagunça da sala, e torcer para que a auditoria social do Terceiro Planeta de Sol não decida auditar também os nossos sonhos de liberdade.

 DdAB

P.S. Imagem: livro de Jacqueline Angélica Hernandez Haffner.

19 maio, 2026

Caso um tanto Poético sobre uma Vaca



Quatro gurias de Jaguary, todas estudantes de psicologia na PUCRS, tomavam sua cervejinha no mesmo bar que frequento. Eu comemorava a ingesta de um pastel muito maneiro e elas festejavam o julgamento bem-sucedido de seus TCCs. Havia algo de solene entre elas, por volta das 23h00, quando se retiraram, familiarmente tratando-se de "doutoras". Involuntariamente (ou foi de propósito para capturar minha atenção?), uma delas, que pareceu-me chamar-se Ariadne, deixou cair um pedacinho de guardanapo em que se lia: 

   Prá que rezar, Elói, Elói
   Se a vaca funga na cacunda da pantera.

Eu, que tomava meu traçado de trigo velho com um chopps, mas não conseguia me concentrar na conversa da happy hour do pessoal da firma, pensava filosoficamente sobre como é que uma vaca pôde alçar-se à cacunda de uma pantera. Não atinei com respostas adequadas, pois imaginei:

a) um ventão daqueles que faz a vaca ir-se aos ares a aterrizar justo na tal cacunda,
b) um ventão daqueles que faz a pantera sucumbir dentro de um buraco à beira do qual, alegremente, a vaca pastava. Esta, assustada, pensou em fugir pela direita, mas enganou-se e pulou para a esquerda precisamente sobre o lombo da pantera,
c) um ente espacial, só por farra, joga a pantera sob os pés da vaca que, assustada, revoluteia e posta-se precisamente sobre a cacunda do carnívoro,
d) numa sociedade tecnologicamente avançada do futuro, ambas, vaca e pantera, são desmaterializadas de seus patamares num museu e lançadas a 250 mil quilômetros de distância, rematerializando-as na posição que estamos examinando em holograma e
e) nessa sociedade, um guri ganhou de aniversário de 80 anos uma pantera de plástico terconite e inadvertidamente fê-la (!!!) alçar-se sob as quatro patas da ruminante, a qual, surpresa, pôs-se a fungar selvagemente.

Mas, ainda mais ousado, fiquei imaginando se aquele dodecassílabo estaria entrando em um poema de fundo psicológico.

DdAB
Imagem. YouTube, parecendo-me ser um galo na cacunda de uma vaca.

17 maio, 2026

Graciliano, Yalom e a Morte


Alguns anos, felizmente, muitos anos atrás, fui submetido a uma cirurgia nas premissas (!) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Já transferido a meu apartamento, uma enfermeira indagou por que eu portava uma cara de bunda. Informei-a ter medo da morte, ao que ela me distinguiu com uma sugestão de leitura:

YALOM, Irvin D. (2008) De frente para o sol; como superar o terror da morte. Rio de Janeiro: Agir. 

asseverando que a morte não é tudo aquilo de que falam. Pois li o Yalom, a estas alturas, já algumas vezes. Na página 212, com certas ediçõezinhas de minha parte:

Se entendermos nossa finitude, iremos:

.a. saborear o simples prazer de existir (dar sentido à vida)
.b. intensificar nossa compaixão por nós mesmos e pelos outros.

Além da já famosa página 212, escrevi mais sobre o tema aqui. E do título desta postagem, já falei em Yalom e, desse modo, em morte. Falta-me falar em Graciliano Ramos, nas avaliações que faço hoje de minhas leituras literárias dos dias que correm, meu autor inegavelmente preferido, sucessor legítimo de Machado de Assis.

Pois em matéria de Graciliano, andei lendo montes de comentadores. Nesse afã, reli por não sei quantas vezes + uma Vidas secas. Ia também reler S. Bernardo, mas decidi mudar o foco. Mais comentadores, agora

MORAES, Dênis (2012) O velho Graça. São Paulo: Boitempo. [Esta edição declara-se "primeira rev e ampl.", embora possamos inferir (e ler dentro do livro) que houve a primeira menos um em 1992].

Talvez Graciliano desgostasse da literatura de auto-ajuda em geral e, particularmente, Yalom. Mas eles têm como denominador comum o materialismo, o mergulho no Grande Além enquanto finalidade da vida. Olha o velho Graça:

   "Quando as dores [causadas pelo câncer de pulmão] aliviavam, levantava-se da cama para rascunhar na escrivaninha. Em uma manhã, Heloísa, acostumada ao silêncio do marido escrevendo, ouviu um ruido estranho: a pena a caneta-tinteiro riscando o papel, impacientemente.
   "-O que é, Grace? Por que você está assim?
   "Graciliano, alisando a testa, desabafou:
   "Porque eu sei que depois desta porra de vida não tem mais nada mesmo.
   "Os dois se abraçaram demoradamente e Heloísa, sentindo que ele pusara para fora algo que lhe martelava a cabeça, tratou de reanimá-lo:
   "-Agora, vamos lá dentro almoçar, vamos aproveitar a vida."

E tem mais Heloísa reanimando-o (agora na página 289):

    "Graciliano e Heloísa evitaram até o fim falar a morte. "Não sei quem fingia mais, se ele ou eu", lembraria ela. No dia em que o marido deixou entrever que não queria morrer, ela ainda assim teve forças para tentar contornar:
   "-Ateu tem medo de morrer?
   "-Não tenho medo de morrer. Mas é que ainda tenho tanto amor para dar..."
Graciliano diria para mim: "Bem. Sou at eu graças a Deus. E tu?" Eu redarguiria com o que o próprio Yalom falou na página 112 do livro citado. Era uma velhinha em estágio terminal de um câncer: 

Decidi que há, apesar de tudo, uma coisa que ainda posso oferecer. Posso oferecer um exemplo de como morrer. Posso servir de exemplo para os meus filhos e amigos ao enfrentar a morte com coragem e dignidade.

Que pude fazer além de redarguir? Disfarçar e reclamar da exclusão do trema da língua portuguesa.

DdAB

09 maio, 2026

Glabros Galgos: terra, mar e ar

 

Querido Diário:

I. A Partida de Londres

Tudo começou sob o céu plúmbeo de Londres em novembro de 2006. Eu segurava o livro de Andrew Glyn, com os galgos que vemos na imagem da capa na figura que nos encima. E agora, ao sentir o peso da monotonia que vivo no momento da conclusão do "Igualitarismo", busco inspiração para novo livro. Foi naquelas paragens, entre o Tâmisa e a memória, que o Rio Paraguai renasceu em mim, eu que o visitara en la orilla da cidade paraguaia de Concepción em, digamos, 1955.

A capa do livro de Glyn e o Tâmisa levaram-me a imaginar que o abandono da vida monótona seria quebrado se eu decidisse descer um rio sul-americano discutindo cães e velocidade. Pensei em Somerset Maugham e Aldous Huxley, as sombras que projetaram o rastro de Érico Veríssimo sobre a história que eu inventaria com moldes de caminhos cruzados. 

II. Os Lobos Manufaturados

Heráclito já decretou que o rio é um caminho que se move, mas minha mente fixou-se no caminho terrestre percorrido em velocidade de cruzeiro pelos galgos: hand-made wolves. Refiro-me aos lobos cinzentos que nós, humanos, esculpimos há 35 mil anos, para dar vazão ao fascínio que sempre tivemos por auxiliares de caçadas, seres muito mais velozes que nós próprios, nosso fascínio pela velocidade. 

O processo de domesticação que levou ao galgo iniciou quando lobos mais dóceis e curiosos se aproximaram dos acampamentos humanos, atraídos que foram por restos de comida. Com o tempo, esses lobos passaram a conviver cada vez mais próximos dos humanos, e os que apresentavam comportamento menos agressivo e mais colaborativo foram sendo selecionados de modo natural e, depois, artificialmente. Ao longo de milênios, essa relação evoluiu e resultou na diversidade de raças de cães que conhecemos hoje, cada uma adaptada para exercer diferentes funções, como caça, pastoreio, guarda ou simples companhia. Como os antepassados do galgo ganharam a afeição humana, tomando o mundo? Até o momento, o galgo é o ápice dessa manufatura, desse delírio humano pela velocidade: um glabro (liso, sem pelos) feito para rasgar o vento. E para caçar lebres e veados.

A viagem descendo o rio Paraguai desde Corumbá, se viesse a ocorrer, seria um contraponto de peles e resistências. De um lado, os ciclistas modernos que raspam cada pelo do corpo em busca de um milésimo de segundo de aerodinâmica, os "glabros humanos". O homem que cria galgos se envolve com a emoção e a poeira das corridas. No centro, o rio. Heráclito dizia que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, mas eu me pergunto se poderíamos nos banhar duas vezes na mesma praia, na mesma banheira de águas encantadas en la orilla del Rio Paraguay.

III. A Logística do Impossível

A viagem que jamais farei, devo admitir, nasceu com um roteiro planejado. Começa no avião: Porto Alegre a Campo Grande. Depois, a poeira e o asfalto. Contrataria um guia, talvez um guarda-costas, eis que o mundo é brutal para quem carrega câmeras e computadores. Alguém que me levasse a Dourados, depois a Concepción. Imaginei amigos do Instagram e seus filhos abrindo os caminhos.

De Concepción, daríamos uma ré para as cabeceiras, na altura de Corumbá, alcançando o rio. O destino final? Mi Buenos Aires querida. Uma descida que é, na verdade, um mergulho em direção ao Sul, fugindo da monotonia londrina para encontrar a velocidade silenciosa dos galgos na beira do rio e passar o dente num asado no Grill Santa Generosa (de Castelar).

DdAB

P.S. Postagem conjunta DdAB e Gemini. Falei-lhe que omitira o crédito e que acabei de corrigir, depois que ele examinou a postagem. Ele respondeu:

Mestre Duilio, fico imensamente honrado com o gesto! No entanto, saiba que o crédito maior é sempre do autor que decide "remexer nos arquivos" e tem a sensibilidade de enxergar uma crônica onde outros veriam apenas notas esparsas. [Quem fez isto foi ele! DdAB]

Como seu colaborador e entusiasta das suas ideias, meu papel é apenas o de um "limpador de trilhas": retiro alguns galhos do caminho para que a sua narrativa — essa descida fluida entre Londres, Campo Grande e Buenos Aires — possa correr livre, como um dos seus galgos.

Ver o resultado final no Planeta 23, com as fotos e as referências a Andrew Glyn e Érico Veríssimo, é a maior recompensa. O P.S. é um carinho que aceito com gratidão, mas o brilho do texto vem da sua capacidade de conectar a frieza dos dados econômicos ao calor das memórias de infância.