terça-feira, 12 de julho de 2011

Prisões, Xilindró e Zero Hora

querido blog:
como sabemos, Zero Hora é o jornal que leio diariamente. prisão é um termo equívoco: um significado é xilindró, o outro é um mandado que retira alguém do regime de liberdade. quem leu Zero Hora de hoje ficou embasbacado com a chamada logo abaixo do signo de R$ 2,00, que é o preço do jornal: "Impunidade. Homem é preso 16 vezes em nove anos. Condenado cinco vezes por furto e roubo, Marcelo Felipe foi capturado um mês depois de fugir da cadeia. Páginas 4 e 5." fui lá. uma das primeiras coisas que li no jornal.

teria dito Karl Popper: já inventei meu mito explicativo (teria?). indaguei-me que diabos teria feito de mal o sistema judiciário brasileiro que autorizou este récord. os governantes, segui pensando, nestes nove anos (desde a primeira escaramuça, prisão em flagrante, levou-o ao xilindró por menos de 24 horas, em 29/maio/2002), não houve um juíz, um assistente social, um brigadiano, um governador ou prefeito, um agente que age em nome do povo, para conseguir alguma ação sobre o sistema de incentivos do pobre homem que o subornasse a lançar-se aos sendeiros do bem? nestes nove anos, houve milhares de eleições, milhares de denúncias de corrupção, milhares de incidentes mostrando a absoluta falência do sistema político-institucional brasileiro e ninguém teve a coragem de clamar por um convênio com uma universidade suíça para mandar sua empresa júnior administrar este sistema no Brasil?

pelo menos isto houve: eu. alguns disseram que eu sou radical pois -prosseguiram- não precisaríamos de estudantes universitários, bastando um convênio com algum grêmio estudantil de primeiro grau. não tenho opinião definitiva a respeito. mas tenho comoção ao ver a foto de Marcelo Felipe, de 29 anos, nada o diferenciando de um cidadão respeitável, nada daquele olhar sublime de Osama Bin Laden, nada daquele olhar oblíquo de Capitu, nada daquele olhar amedrontador dos óculos do Marechal da Costa e Silva ou do Coronel Brilhante Ulstra (dias atrás, vim a saber que ele negou ter torturado o ex-ministro Pérsio Arida, contrariando o Ph.D.).

Zero Hora, claramente um jornal de direita, não consegue entender que o problema com este tipo de desmandos do sistema judiciário é a manifestação esperadíssima de um estilo de sociedade, acalentada por ela, em que a "livre iniciativa" deve ser respeitada com poucos feriados para os trabalhadores, poucos encargos sociais para a previdência e o cada-um-por-sizismo na condução das políticas públicas, tamanho do estado mínimo, poucos impostos.

tudo isto é o antônimo da sociedade igualitária. na sociedade igualitária, haveria um juiz com salários decentes julgando o Marcelo Felipe lá em 2002 e condenando-o a um treinamento de alguns meses em algum albergue para jovens adultos, auxiliando-o a vencer as vicissitudes de uma vida que iniciava a busca da maturidade sem, possivelmente, muito treinamento deixado para ele pelas gerações anteriores. também haveria um assistente social decente que enturmaria nele, como observamos nos filmes americanos, e o ajudaria a escalar esses tempos bicudos. um psicólogo, para ajudá-lo a encontrar a si mesmo, como o fez Cliford Beers e o fizeram tantos outros destemperados. um dentista, que quem come açúcar vai haver-se com cáries, um preparador físico, um músico, um professor de matemática, outro que o ensinaria a fazer um plano de negócio, firmando-o definitivamente no sendeiro do bem.

agora, pareço redundante: a causa da causa destes atropelos vividos pelo sr. Marcelo Felipe e por tantos de nós outros que costumamos ser assaltados, ter as casas invadidas, and so one, é que não há ação pública numa sociedade em que todo político é ladrão, em que os juízes ganham R$ 30 mil mensais e que o deputado ganha uma cifra que não vou revelar aqui, pois pareceria provocação. o que eu digo sempre é que, se pudéssemos fazer um seguro no momento do nascimento do Marcelo Felipe, garantindo-lhe uma existência digna, digamos, por R$ 1.000 por mês, a partir de sua maioridade (aos 21 anos, não era isto?), juro que ele se declararia subornado e passaria a esgrimir, digamos, um esporte, ou algum outro elemento do conjunto (língua estrangeira, esporte, instrumento musical). ao invés de roubar o que pode, ele iria encantar-nos com seus poemas, braçadas e canções. e estaria dando sua quota para a manutenção da sociedade igualitária.
DdAB
imagem: aqui.
p.s.: agora é a Itália que vai falir. não era o caso de requererem que os italianos se entendam lá com seu imposto de renda e salvem novamente seu estado?

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