sábado, 16 de julho de 2011

Mistérios da Visão Humana: de Salviano a Severiana

querido blog:
não que Salviano falasse diretamente, suas elipses eram famosas. e ponto. e ponto, dizia ele. com frequência assim se expressava: entendi que aqui é ponto, andei e andei, cheguei e ponto. fui, voltei, capitulei, venci e ponto. tudo terminava com ponto. ele chegou até a falar em ponto mortal, o que significava o último ponto a ser pingado na história do indivíduo, da espécie e de tudo o mais. nem que ele falasse exageradamente, era contido, e ponto...

por solitário, talvez, Salviano não compartilhou com ninguém a angústia que sentia em, aos 39 anos e meio de idade, perceber que não mais conseguia ler o pit 9 de suas projeções nas telas também projetdas. vivia, claro, daqui a um milhão de anos. viverá, se não é erro de temporalização. por nostalgia de tempos que nunca foram seus, usava, desde essas anomalias óticas, óculos, com os de seus ancestrais do ano 2011. também, como eles, usava detergente caseiro (uma fortuna, nos tempos de Salviano), uma relíquia produzida com impressão em 3D, com o qual, uma vez por dia, higienizava os óculos.

sempre que o fazia, lançava um jato do precioso líquido sobre uma das lentes (óculos queriam dizer: para os dois olhos, e ponto). fazia o mesmo para a outra. começava a esfregar o anverso de uma delas e percebia que invariavelmente, seu verso também se ensaboava. repetia o procediemnto para a segunda lente e, da mesma forma, o anverso umedecia-se com o detergente. nunca entendeu bem o que fazia o líquido percolar o meio vítreo. até que encontrou Severiana, por quem se apaixonou numa tarde artificial, dessas com que setou a nave em que vivia. Severiana sorriu-lhe da tela de sua própria nave e não se foram mais de 10 anos para que conseguissem estabelecer uma ponte de terconite entre as duas naves, o que permitiu o contato imediato de primeiro grau.

afinidades esgrimidas, diferenças esmerilhadas, foram-se, ao sabor do momento e da paixão, a horizontes infinitos, quase que literalmente. num daqueles dias em que compartilhavam o ato de acordar, Salviano começou a higienizar suas lentes, que tanto agradarem a Severiana que esta o observava com carinhos em todos seus sentidos. sem nenhuma intenção de resolver mistérios milenares, Severiana comentou: "não é engraçado que este líquido com que limpas os óculos miscigenam-se entre teus dedos e parecem percolar o próprio vidro?"

Salviano olhou para Severiana como quem vê a salvação da humanidade. lembrou-se de uma planilha eletrônica que seus antepassados desenharam, com este peculiar e pretencioso nome. riu-se de si para si. e serviu-se de outra taça de champanha, ponto.
DdAB
ops: não é natal, precipitei-me... mas este presépio pareceu-me produzido naquela nave de que fala-se na postagem acima. ponto.

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