quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Óbvio Budista: lições de economia política

querido blog:
o primeiro Sidharta que li foi de Herman Hesse. depois li outras coisas dele e dele, ou seja, do Buda e do Hesse. e mais de um e outro e de outros e mais outros. até que li o que segue, na edição de 4 de maio de 2011 p.7 de Carta Capital:

A conta não fecha
A MATÉRIA da The Economist, em tom alarmista, destaca que "a conta não fecha". Segundo ela, um número crescentemente menor de pessoas ativas deve sustentar um número crescentemente maior de pessoas "inativas". Daí a conclusão implacável: devem-se reformar os sistemas previdenciários com reformas paramétricas (elevar idade mínima, diminuir benefícios etc.) e estruturais (adotar fundos de pensão etc.). O problema em argumentações desse tipo é que elas raramente mencionam a existência de uma variável igualmente importante: a produtividade dos trabalhadores. Há menos indivíduos ativos relativamente aos inativos, mas aqueles produzem muito mais do que seus antepsssados. Parece incrível que, em uma época  em que celebramos as realizações da tecnologia, que permitem potencialmente a diminuição do tempo de labor, sejamos instados a trabalhar até quando formos "vovôs", bem como informados de que o bem-estar na velhice é uma questão de cada um por si. É quase cínica a mensagem geral contida na matéria da The Economist, porque o problema é do trabalhador, que não teve a sorte de ser um dos ricos, os quais, como também informa o texto, "sempre vão ter uma aposentadoria confortável".
SIDARTHA SORIA SILVA, Recife, PE

cara, acho que este senhor só pode ser sociólogo, pois os economistas modernos mostram-se relativamente incapazes de ir tão a fundo numa das mistificações contemporâneas. tenho postado pilhas de coisas sobre a questão da produtividade e, o que dá na mesma, da teoria do valor. parece que os economistas, por esquecerem que vivem numa economia monetária, esqueceram de que Marx (de quem hoje vemos o 193o. ano do nascimento) nunca terminou o plano de sua obra prima, ou seja, a teoria do valor que eles pensam que ele escreveu é apenas da sociedade mercantil simles. não era capitalismo e menos ainda capitalismo financeiro. tá certo o sr. Sidartha Soria Silva, com sua carta à redação da Carta... e talvez todos nos beneficiássemos se viéssemos a reler, as soon as possible, o texto de Keynes em que ele define o desemprego tecnológico. e que fala que todos poderemos trabalhar pouquíssimo, pois a produtividade crescerá às nuvens. como já o fez. e seguirá fazendo.
DdAB
e a imagem é de: abcz.

2 comentários:

Igor Freiberger disse...

Concordo com Sidharta e contigo em gênero e grau. Mas não em número. Existe uma segunda variável a considerar: o trabalhador produz muitíssimo mais, mas esse ganho de produtividade é parcialmente consumido em sistemas cada vez mais complexos. O resultado final é um ganho reduzido.

Por exemplo: o tempo necessário para montar um automóvel hoje é muito menor do que na época em que Ford desenvolveu a linha de montagem. Mas a rapidez atual decorre de maquinário complexo que tem de ser controlado e revisado por diversos trabalhadores. Dá ainda para considerar que o maquinário e os componentes eletrônicos também exigem mais trabalho à medida que reúnem outros muitos trabalhadores em sua produção – e por aí vai. Essa necessidade não existia em 1910 e acaba oculta na conta final.

Ainda sobre carros: por serem muito mais complexos, os carros de hoje exigem manutenção também mais complexa, com uma série de serviços outrora desnecessários. Novamente, o resultado é mais trabalho para obter o mesmo resultado (o veiculo em condições de uso), dissipando a produtividade.

Na informática, o exemplo é muito nítido. Escrever um texto sem erros tornou-se tarefa de minutos e só quem enfrentou máquinas de escrever manuais tem a dimensão do ganho. Mas há uma perda considerável de tempo na manutenção e aprendizado do computador. Mais da metade dos programas instalados em um PC são para mantê-lo, o que envolve enorme consumo de tempo e dinheiro com o meio de produção no lugar da produção em si. Salvo a fatídica hora de trocar a fita da máquina, nada parecido existia no tempo das Remington de 20kg.

Um último exemplo, para sair da iniciativa privada: os recursos atuais permitem resolver um processo, seja administrativo ou judicial, em tempo muito menor do que há 30 ou 40 anos. Mas o volume de processos aumentou tanto nesse tempo que, em vez de diminuir, a estrutura do Estado teve de aumentar – e nunca está à altura da demanda. Novamente, temos aqui um ganho elevado de produtividade que se dissipa no ciclo produtivo.

Apesar dessas considerações, é extremamente importante ponderar o ganho tecnológico na conta previdenciária. Se existe perda de produtividade por causa da complexidade crescente, há também ganho pela economia de escala, pela padronização global, pelas facilidades de distribuição etc. No final, se calculados todos fatores, creio que o resultado seria exatamente o apontado por Sidartha e por ti.

Por isso é importante mostrar que há algo errado nessa alegação linear de que a-conta-não-fecha e de que é preciso trabalhar mais tempo para pagar pela expectativa de vida. Essa história não é nova: lembro de ter ouvido sobre o colapso da previdência quando estava no primeiro grau – e aí já se vão 25 anos. O resultado é sempre mais trabalho, com aposentadorias sempre postergadas. Sem falar na estigmatização social do aposentado, transformado em uma espécie de pária.

Curiosamente, os avôs de hoje, mesmo com seus celulares, iPads, GPS, carros elétricos, netbooks e afins, não têm tempo de fazer o que meu avô fazia, que era conviver com os netos. Em vez disso, têm de trabalhar para garantir o chamado equilíbrio previdenciário. E, é claro, pagar a indústria farmacêutica, as fraudes do INSS e a vergonhosa existência de Eikes em um país classe C.

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

oi, Igor:
muito obrigado pelas novas e instigantes reflexões. acho teus exemplos interessantes e, em particular, o da "datilografia", para mim, foi o mais dramático. vim a entender que, nos -digamos- 20 últimos anos de minha carreira de professor, as inovações da informática serviram para acabar com o cargo de "secretária" e mover as tarefas da garota para o professor. (claro que este também pode ter aproveitado e transferido coisas para o "bolsista"). o resumo da ópera é que não poss imaginar um ex-colega que trabalhe menos de 50 horas semanais. além das tarefas administrativas que lhe foram delegadas (nem falo de correções de provas, trabalhos, preparação de aulas), mas formulários, Moodle de lá, moody (alunos, rsrsrs) de cá, e por aí vai.

por outro lado, dada a escassez eterna de empregos (ainda que com episódicos excedentes de oferta), pareceu-me um crime contra a humanidade que o presidente FHC tenha elevado a idade da aposentadoria para 75 anos. parecia-me, ao contrário, que a economia iria beneficiar-se muito mais da troca da "velharada" pelo "sangue novo". isto também teria dois efeitos positivos sobre os ganhos de produtividade.

concluo falando em dois autores que certamente avalizam as linhas gerais de tua argumentação, também terminando na defesa (nem sempre explícita) da sociedade igualitária:
.a. lei de (Adolph) Wagner: diz que a elevação da participação do gasto do governo na despesa nacional bruta é crescente à medida em que o PIB aumenta. é uma lei empírica, podia ser diferente, mas -mesmo com todo o neoliberalismo- é assim que funciona até hoje.
.b. lei da infecção dos custos (esta se deve a William Baumol, economista jurado de não ganhar o prêmio nobel, por estar mais à esquerda do que seria desejado pela academia sueca). Baumol diz que a produtividade dos serviços (inclusive o governo) cresce menos do que a da indústria (e podemos talvez hoje no Brasil falar até na agropecuária). como tal, este setor vai elevar sua participação na renda, mas ao mesmo tempo venderá insumos (programação, educação) cada vez mais caros aos demais setores, fazendo-os também patinar em elevação de ganhos de produtividade.

tenho razões para acreditar que a lei de Wagner deve seguir existingo e devemos fazê-la ainda mais presente com a criação do "serviço municipal". com ele, o governo contratataria toda a mão-de-obra excedente e até pressionaria os setors "de mercado" para elevaram sua própria produtividade. e também tenho razões para crer que o próprio Baumol ajudou a fazer com que a revolução da informática (desde, digamos, os anos 1970s) levasse os Estados Unidos a retomarem o crescimento econÔmico. por ironia, menciono que, nos anos 1980s, o PIB per capita deles cresceu mais do que o brasileiro.
DdAB