domingo, 8 de maio de 2011

entre bin Ladden e Raul Carrion: o quê que o mundo inteiro mais gosta?


querido diário:
ter-te-ei dito (terteei? terei te dito?) que sigo lendo o prof. Nicholas Alchin, in "Theory of knowledge"? e que nas pp.48-49 ele tem daquelas informações extraordinárias que me deixam pensando por meses, se é que há tantos meses quantos problemas que agendei para pensar, inclusive alguns sobre calibração de parâmetros populacionais por meio de ... calibração, Delphi, you know...? a matéria original é de Christina Lamb, do "The Sunday Times", de dezembro de 1996. se foi tipo no dia de natal, eu poderia tê-lo lido e não tê-la feito o mesmo. ambos eles, ou seja, ele -o jornal- e ela -a jornalista- encontravam-se ocupando o mesmo território que eu: em torno do Paralelo 50 Norte. no livro, o título é "What the whole world likes best" e me leva a pensar, como insinuei, em milhões de coisas, desde Raul Carrion e a visão reacionária do PCdoB sobre a linguagem, o finado bin Ladden (passei a escrever com dois "dd", pois "laden" poderia significar que estou achando que ele foi "carregado", quando, actually, foi transladado.

olha o Cambridge sobre kitsch: art, decorative objects or design considered by many people to be ugly, without style, or false but enjoyed by other people, often because they are funny.

mas olha só, basta clicar, o "komar & melamid", no Google Images. na wikipedia, temos: abcz. olho estas referências agora, pois a reflexão básica começou com o livro de Alchin mesmo. quem são eles? em resumo, pintores (eu diria "políticos", no sentido mais elevado da palavra do que "kitsch", "embusteiro" ou "patrolador") que passaram a usar técnicas de marketing político para decidir qual o tipo de quadro lhes daria mais sucesso no meio (millieu, não diria Carrion) da arte e do comércio. eles fizeram pesquisas em vários países e chegaram à conclusão de que um universal (ver minha postagem de 6 ou 8/nov/2008) entre a negadinha é o tipo geral de pintura que propagandeio hoje. não é um Caravaggio, admito, mas bem que eu adoraria ser carregado a morar numa daquelas casas (sem espionagem soviética), banhar-me várias vezes naquele rio (sem preconceitos heraclitianos), subir nas árvores (sem despentear-me), pentear macacos (sem deixar-lhes lembranças)..., epa, estou exagerando (mas o grooming é prática vezeira entre a vera macacada)...

não preciso dizer nada, basta traduzir um trechinho de Melamid, da p.49: "Esperaríamos que houvesse muitas escolhas distribuídas entre as diferentes classes sociais, grupos étnicos e idades. Ao contrário, brancos e negros, latino-americanos e judeus, ricos e pobres, todos desejavam a mesma coisa." e que queriam? cito o autor na p.48: "Em todos os países, as pessoas escolhiam avassaladoramente a predominância da cor azul, com uma cena campestre e um curso dágua". retorno a palavra a Malamid: "What this shows is that there is no such thing as national culture."

então tá: pode ser que eles estejam errados? difícil, pois eles não disseram que houve unanimidade universal, mas apenas uma overwhelming predominance, o que -se eu me chamasse Raul Carrion- deixar-me-ia de orelha em pé. ele é contrário a algo espantosamente desejado pelas massas. ou não eram as massas que responderam à refinada pergunda dos dois artistas? vou indagar à classe baixa que vota em comunistas o que ela considera de a proibirem de chamarem seus pimpolhos de Maicon, Daiane, Jéferçon, Alandelon, e por aí vai.

vim a aprender que o maior estabilizador social é uma pequena desigualdade no consumo per capita. altos diferenciais internacionais ou nacionais levam à guerra civil, numa citação antiga que fiz a Platão, pela via de livros de microecnomia (desta vez não foi Bowles). se na casa de bin Ladden acharam na lata do lixo uma lata de coca-cola e outra de pepsi-cola, isto estará dando alguma lição de alguma natureza (implantadas pela CIA para dar cárie na garotada?), descontada a questão de quem matou mais gente, nesse pingue-pongue iniciado pelo Binho no dia 9 de setembro lá de 2001. em outras palavras, aparentemente, talvez não houvesse luz nem na cabana que Binho habitava, se não me torno parnasiano.

não acho que haja conclusão mais óbvia do que entendermos que não podemos mais pensar em "estado nacional", que as redes (de terror, lavagem de dinheiro, 5 à Sec, coca-cola, McDonalds, aliás, citado no box das p.48-49, dinheiro, nylon, rayon, Chinese food, e, naturalmente, as most wanted pictures, most wanted ice creams, most wanted bombs..., tudo isto só pode ser combatido verdadeiramente com o nivelamento do consumo per capita. e, obviamente, incluo entre os itens de consumo acelerados pela renda o gasto em educação! e como se consegue esta façanha? com a renda básica universal. se tem mesmo 6 bilhões de habitantes sublunares e o PIB mundial é de US$ 63 trilhões (PPP), então podia molhar a mão de cada vivente com US$ 1,000 por ano, ou seja, mais de US$ 80.00 por mês, uma fortuna, gastar-se-ia menos de 10% do PIB mundial, uma ninharia.

em resumo absoluto: qual a moral da minha história? é que a história não tem moral. e a macacada tem pago muito caro por isto.

DdAB
p.s. retirei a imagem do quadro de Komar & Melamid daqui. nada mais indicado do que citar o crítico da matéria referida acima: "The resulting paintings rank high, frandly, on the kitsch scale." que diria Raul Carrion de traduzirmos "the" por "o", "resulting" por "assim obtidas", etc., e "kitsch"? talvez "patrolar", ainda que não tenha origem russa e seja um anglicismo originário da Alemanha. ou seja, os ingleses são reexportadores. e não lhes percebo pejo. aliás, ouvi dizer que "commodity" originou-se do português. mas meu Webster diz que é do francês: commodité. e o Webster dá a terceira acepção como o que eu sempre soube: "in commerce, any article that is bought and sold.
p.s.s.: aliás, não podemos esquecer que a vingança americana não foi propriamente matar bin Ladden e sua turminha, mas milhares de iraquianos e afegões. ou não? ou seria apenas destruir completamente as vidas comunitárias daqueles dois infelizes (longe de serem os únicos) países.
p.s.s.s.: e se fosse para falar certo mesmo (já teria que começar a dizer "falar certamente", "falar corretamente", "falar de modo certo"), o deputado teria que ler o título desta postagem como "o de que o mundo inteiro mais gosta", não é mesmo?

23h30min de 23/maio/2016 - terça-feira, em Curitiba, dia em que o senador e ministro do governo Temer (que derrubou a presidenta Dilma em 12/maio/2016, etc.), decidi fazer uma brincadeira, aditando algo.

É que lá em cima falei em "ter-te-ei", uma mesóclise em tudo normal para um velhinho de meu porte, acostumado a ler Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de Almeida e acho que paro nesta altura. Não li José de Alencar, sei lá. Taunay, parece que li. Mas o assunto não é esse. É os modernos. É? É Graciliano Ramos, no livro "Infância", que li pela primeira vez em Berlim, ou seja, em 2006-7 e agora dei umas olhadinhas. Denunciando o clube da baixaria que cercou sua infância, ele achou injusto que uma criança devesse aprender quatro alfabetos:
.a. caixa alta (como se diz hoje para "versais")
.b. caixa baixa
.c. maiúsculas manuscritas
.d. minúsculas manuscritas.
É pau, como dizem amigos nordestinos.
Em compensação, ao reler aqui e ali, chamou-me a atenção aquele "ter-te-ão". E depois ele -Graça- passou a pensar em um gigante monstruoso empenhado em gerar mal-estar para a criançada.
Volta e meia eu falo em plágios que fiz. Claro que falo de modo brincalhão, pois o fato de que acabo de escrever "volta e meia" não significa que eu esteja plagiando pilhas de autores e jornais em que li esta expressão. Mas tem umas que, cá entre nós, como ilustro em mais de uma postagem.
Neste caso, tudo se torna claro: Terteão deve ser o pai de Terteei.

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