05 novembro, 2009

A Arte Imita a Vida

Querido Blog:
Busquei "a arte imita a vida" no Google Images. Encontrei esta simpática imagem. Queria falar de Quincas Berro Dágua, segundo alguns o segundo livro que Jorge Amado escreveu quando começou a cair no abismo da mediocridade. O Ciclo do Cacau do milenar baiano é que seria sua grande viagem. Eu li tudo dele, ainda que lembre de pouco. Talvez até lembre de coisas de "Os Subterrâneos da Liberdade", tinha um carinha que roubava dinheiro do PCB que ele -carinha- angariava em doações de filiados da clandestinidade. Nada alheio à política brasileira: todo político é ladrão! Ok, volta e meia falo em "O Mundo da Paz", livro de viagens pela finada União Soviética. Li-o como uma espécie de antídoto a "Gato Preto em Campo de Neve", uma introdução maravilhosa à civilização americana e cartão de visita da obra de Érico Veríssimo. Pois bem, reli o "Gato Preto", li "A Volta do Gato Preto", li "México" e "Israel em Abril". Li mais vários Éricos em 2008/9, e lerei em 2010. Em Berlim, comprei "Capitães de Areia", os meninos de rua da Bahia lá dos seus 1930s, ia lê-lo, que já lera algumas coisas de Graciliano e Osman Lins, ao que parece. Pois bem, simplesmente odiei os tais precursores dos meninos de rua. Larguei-o e dei-o de presente a quem jurou-me que iria valorizar o presente.

E o Quincas? Aparentemente, a arte da história que tanto me agradou ("A Morte e a Morte de Quncas Berro Dágua", em francês, se bem lembro de contracapas ou o que seja, era algo como "as três mortes" dele, Quincas) acaba de repetir-se, na vida real, como comédia. Marx e sua história da história ocorrendo inicialmente como tragédia e, pela segunda vez, como comédia, creio que a propósito de algumas restaurações monárquicas na França, ou sei lá o quê.

Pois não é que Zero Hora de hoje, na p.42 fala que um pedreiro do município de Santo Antonio da Platina (pode?, sete vereadores, cada um com sete assessores, dá 49, elevando ao quadrado, temos quase 2.500 políticos, parentes, cunhados, todos empregados) compareceu ao próprio enterro. Quincas, meu chapa, puro Quincas, que também compareceu ao próprio enterro, embriagou-se. O porteiro já chegou -diria Lourdette- chumbado, e acabou com a farra: disse que o morto não era ele, o morto calou-se e desfez-se o mal-entendido.

Mais ainda, mas agora já não sei se é bem coincidência, ou a notícia fantástica alcançou Olyr Zavaschi, o jornalista da antepenúltima página de ZH. Hoje tem uma piadinha, como sempre, às vezes muito boa, chamada "Identidade":

O sujeito morreu e está sendo velado. No loca, apenas a mulher, dois filhos e meia dúzia de vizinhos. Na hora da cerimônia, o padre se estende em elogios:
-O finado era um bom marido, um excelente cristão, um pai exemplar...
A viúva, ouvindo a prédica, volta-se para um dos filhos e lhe diz no ouvido:
-Filho, dá uma olhada para ver se é mesmo teu pai que está no caixão.

É ou não é? Imita ou não imita?
DdAB

04 novembro, 2009

Workers of All Countries!

Querido Blog:
Você não é minha, eu não sou de você! Era assim? Ultraje a Rigor, 1985? Seja como for, era: "nós somos do Independente Futebol Clube". E eu agora digo: também estaríamos enterrados se fôssemos do "Highgate Futebol Clube", também no sentido de que é lá, no Highgate londrino, que Karl Heinrich Marx (05/maio/1818-14/mar/1883) foi enterrado. Esse clube de ludopédio localiza-se em Birmingham, ou Shirley, certamente nos Midlands, a terra de Bourton-on-the-Water. Deu-mo o Google Images, "m'o" era o Highgate Foot-Ball League, ou o que seja. Deu-me a dica sobre a cidadezinha de Bourton-on-the-Water o matemático Ian Stewart, num livrinho sobre caos determinístico. Claro que li o livro e claro que visitei a cidadezinha que tem uma casa que tem um terreno que tem uma miniatura da cidadezinha que tem uma casa que tem um terreno que tem uma miniatura, e por aí vai. [Esta postagem está cheirando a "Escritos" e "Vida Pessoal", não é mesmo?]

Voltemos a Marx, à conclamação de que os proletários de todas as nações devem unir-se, numa -e vem John Lennon- brotherhood of men. Eu já falei que acho o nacionalismo o fim da picada, ou seja, o mato virgem, o mato das feras e das tribos inimigas, o mato da morte, o mato do enterro, o mato de Highgate e outros cemitérios menos concorridos, o mato da briga de torcida de clube de futebol, o mato do bebê de oito meses de idade cuja rostinho risonho, com olhos vívidos, que vislumbrei na televisão inglesa, cujo bracinho fora decepado por uma bomba na guerra civil da Iugoslávia. Nacionalismo, meu? Inclua-me fora!

Examinemos Zero Hora de hoje. Na p.26, temos o que é -para mim- uma das melhores notícias do ano: "Fim do impasse; 'Constituição européia' supera o último entrave." Uma vez ouvi pessoalmente (ela em pessoa e eu, de ouvidos em pé na frente da TV) a Baronesa (ainda era simples mortal) Margareth Tatcher dizer: "somos europeus, o que não somos é federalistas", quando o Iuquêi recusou-se a ingressar no clube do euro. Achei bela retórica, mas decisão equivocada. Quando a Dinamarca recusou-se a referendar essa constituição eurupéia, sofri quase tanto quanto o rebaixamento do Grêmio me fez penar. Houve outras recusas, e a retomada -digamos- universalista. É um bom momento, o de hoje, para pensarmos nas origens.

Depois de todas as guerras da negadinha européia, culminando com a fragorosa vitória russo-americana em 1945, agora por lá só vale guerra civil, como a da Iugoslávia. Seja como for, acho que as contradições do capitalismo levaram os povos unidos em busca de paz a ver com simpatia a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço, a BeNeLux, algo assim, o Tratado de Roma, essas coisas, que culminam hoje com a "constituição européia", que dá enormes poderes ao federalismo daqueles desventurados 27 países.

Mas eles, a partir de agora, têm mais chances de pararem de se agredir, feito crianças de periferia (epa, os preconceitos...). Quando surgiu o euro, eu sugeri a um menino de rua que, no momento em que houvesse também uma união monetária entre o Banco Central Europeu, o Banco Central Americano e o Banco Central Japonês, teríamos implantado o governo mundial. Claro que era retórica, e ele não caiu nesta. Ainda assim, hoje acrescento a China, faço um ou dois reparos e pago-lhe um BigMac que estou certo de que ele concordará. By the way, speaking of BigMacs, também prevejo que os povos unidos melhorarão quando o McDonalds abrir sua lojinha no último dos 200 países do mundo e criar seu sindicato internacional de trabalhadores. Para mim, são dois símbolos civilizatórios, o banco central mundial e o primeiro sindicato internacional de trabalhadores. Se Marx e Trotszky sonharam, Stálin e Béria infernizaram.

O último a assinar, diz ZH, foi o presidente da República Checa, o quase-palindrômico Vaclav Klaus (eu ainda sou do tempo de Puskas e Di Stefano, algo assim). Ele disse: "Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, a República Checa deixa de ser um Estado soberano." Diz ZH que se trata de um "tom claramente exagerado." O coroa é um alarmista, ou apenas um retórico. Ainda assim, sou pela perda de autonomia daqueles estados que favorecem a tortura, a discriminação da mulher, e por aí vai. Mas parece tratar-se de ganhos induzidos pela inexorável marcha do capitalismo. Epa, agora sou eu defendendo a teoria da grande conspiração.

Mas não fiquemos por aí: devemos substituir o governo dos homens pela administração das coisas. Primeiro: dinheiro mundial, depois, fim do estado nacional, depois, fim do sindicato mundial em favor -nem digo da luta entre instituições, mas - da harmonia universal. O presidente do Banco Central Mundial transformará os pay-offs d e todos os jogos em "Caça ao Cervo", tratando de preservar a vida dos cervos, servindo -diria Lourdette- apenas electric sheeps, como no Blade Runner (remember? do androids dream of electric sheeps? e parece que os andróides sonhavam mesmo! E sabiam tocar piano.

Neste caso, somos forçados a concluir que o próximo passo será a criação da Brigada Ambiental Mundial. Adicionalmente à renda básica de US$ 100 mensais, cada indivíduo humano maior de 24 anos (maioridade da ILO) que se alistar na BAM ganhará mais US$ 900 (ou menos, durante algum tempo, mas com o comprimisso de chegar a US$ 10,000 mensais em 20 ou 30 anos) para:
.a. fazer três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta)
.b. fazer três horas de aula por dia (para manter a mente quieta)
.c. fazer três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo).
DdAB

Twitter:
Primeiro: queres ver a extraordinária qualidade do jornal Zero Hora? Então clica aqui! E há outro extraordinário artigo de convidados, acessível ao simples clicar aqui para ler "Tempo de ler Clarisse. Hilda Simões Lopes trata, em linhas gerais desta coisa de brotherhood of men e mesmo de temas que mexi em meu "Tempo e dinheiro", que lhe está à esquerda (em página lindeira...).

Segundo: 45min depois de postar os acimas, fiz o primeiro twitter; mais 2h34min foram-se até este: sou muito inquieto com as críticas convencionais (demorei para achar este tempo, e precisaria procurar mais para descrever o que meu coração requer) à teoria econômica. Há dias, nos blogs de Leonardo Monastério e Cláudio Shikida (na ordem inversa da descoberta), vi uma remessa a um paper de David Colander, que li e amei e que resolve certos problemas conceituais, economizando-me de pensar muito a respeito. Dito isto, digo que vim a perceber que também tenho contestações radicais. Em particular, quando descobri o que quer dizer MV = PQ, ou seja, que o valor adicionado medido pela ótica da renda é dado pelo presidente do banco central, mais que nunca tornou-se clara minha crença (emergente da matriz de contabilidade social) que devemos substituir a luta de classe pela luta das instituições. Pobre não é pobre porque é trabalhador, mas porque são os ricos que avançam em maior fração da renda, em resposta a transferências que lhes faz o governo ou mesmo um mercado de trabalho enviesado, digamos, em favor de juízes, traficantes de drogas, promotores, médicos e jogadores de futebol.

Terceiro: este gráfico do blog do Leonardo Monastério é casca grossa. É hora de quem achou que acabara o império americano passar a acreditar na máxima: "não espereis demasiado do fim-do-mundo".
Isto evocou-me (e vice-versa) o artigo da p.2 da mesma Zero Hora, de onde tanto citei acima. Claudia Tajes é fulminante, ao dizer: "O fim da linha, o fim da carreira, o fim do mundo, oba, não estão próximos."

03 novembro, 2009

Maslow, sempre Maslow

Querido Blog:
Achei que seria obrigatório tomar a figura que ilustra links de Abraham Maslow na Wikipedia de empréstimo e guardá-la aqui para minha posteridade. Há anos, ouvi uma definição de necessidade atribuída a Maffeo Pantaleoni. Quando vi o conceito de Maslow, parece que tudo esclareceu-se. E há quem desgoste, bem o sei. Mas esposo esta visão, pois ela tem base em Karl Marx: "food or fancy", ele falou umas coisas destas no Volume 1 do Capital.

Num mundo que ainda resiste a bolsões de pobreza, é arriscado elogiarmos desmesuradamente o mecanismo de preços para administrar a escassez. Não posso conceber "criatividade", no sentido elevado das necessidades para o menino de rua que não recebe o "respeito dos outros, dos demais". Nem vice-versa, ou seja, um juiz de direito ganhando R$ 24 mil, quando uma professorinha ganha mil é casca grossa.
DdAB

02 novembro, 2009

Crack e o MAL*

Querido Blog:
Nunca escondi as intenções dos fundadores do MAL* - Movimento pela Anistia aos Ladrões Estrela eram e são -mais que nunca- criar um governo paralelo no Brasil (e no mundo) que -em due time- vai prescindir dos impostos governamentais e a desobediência civil em pagá-los vai matar à míngua os políticos (ergo, todos os ladrões). Pois este lixo que abrilhanta a ilustração que escolhi para esta postagem que quase não faço hoje, dia 2/nov aparentemente relaciona-se com uma sala de consumo de drogas de Frankfurt, na vetusta pátria alemã.

Enquanto no Brasil o jornal Zero Herra (chamo-o afetivamente assim, pois itself ele é uma droga) tem uma campanha malhadíssima chamada de "Crack? Nem pensar!", fadada ao fracasso, pois o problema é bem diferente de dificuldades de pensamento por parte dos viciados. Amadoristicamente, direi que eles "só pensam naquilo...", conforme a canção do Gaúcho da Fronteira. O MAL*, por contraste, lançou a campanha "Crack? Vamos pensar nesta droga!!", que já começou vencendo a ZH, pois temos dois pontos de exclamação!

Eu pensava em ligar "apoiese" com "livre arbítrio" nesta postagem. Mas terei de deixar a apoiese para outro momento. Exceto que: a + poiesis = não + making, epa, caí no inglês, as in onomatopoietic. Ou seja, a palavra onomatopéia terá lá sua fabricação a partir do radical grego.

Este negócio de salas de consumo pode ser fabricado, pois é é apoiético. Ou melhor, o que apoiético não foi fabricado, mas a sala de consumo, mesmo não existindo, poderá existir, por meio de emprego na indústria da construção, mais empregos na indústria da prestação de serviços de saúde e de segurança. Quer saber mais sobre elas? Clique aqui. É um bom paper para começar o assunto. E seus patrocinadores mais ainda.

Se eu tivesse mais tempo, iria ligar estas reflexões com crianças, criminosos e loucos, livre arbítrio e decisões constrangidas, consumo compulsivo, essas coisas. Em particular valeria a pena dar mais uma olhada no livro de Isahia Berlin e seus dois conceitos de liberdade. A questão central é que, quanto mais livre for o neguinho, menos ele vai tentar escravizar-se a uma droga. Dificilmente alguém se vicia em crack por puro diletantismo. Mas, sendo a maconha ilegal e o álcool totalmente legal, não há como um chapado ou um gambá resistir à tentação de uma viagem mais profunda. Chega.
DdAB

TWITTER:
Primeiro: No outro dia, mostrei a seguinte série de "salários" de funcionários do sistema judiciário do RGS, o estado de Yeda Crusius e do Dr. Armindo da Rosa:
: 862,80 1.007,60 1.238,54 2.405,36 24.100,00
E hoje calculei os duais dos índices de Theil T e L. Achei-lhes os valores de 0,59 e 0,61. Ou seja, esta macacada é uma miniaturazinha do Brasil, com seu Gini de 0,55 o.s.l.t.. Claro que a comparação não carrega total pedigree, dadas as naturezas de T, L e G, mas however...
Segundo: hoje ZH fala em corrupção, funcionário do progressista município de Alvorada flagrado vendendo fraude com os dinheiros do PAC, investimentos na construção civil.
Terceiro: idem, fala que, em novembro, a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre vai votar nova lei de diretrizes urbanas.
Quarto: frase do dia: quero construir uma película que me una ao mundo e dele me isole!
Quinto: caveat emptor!

01 novembro, 2009

Lydia, John e Nouriel

Querido Blog:
Hoje é domingo, todos sabemos. Eu nem sabia se ia postar, que é cedo e em poucos momentos estar-me-ei dirigindo ao Parque Marinha do Brasil. Pedalar, alongar, respirar, ou vice-versa. Mas, enquanto folhava, descompromissadamente, Zero Hora, cheguei ao primeiro erro do dia: na p.2 do caderno "Dinheiro", um setor circular intitulado "Para Entender Economês" explica o que é "contrato futuro": "[...] outraa [...]". O resto não interessa, o que marcou-me como uma flecha foi o erro! Outraa? Novo substantivo autoadjetivável ou artigável?

Ce n'est pas un blog serieux... Ainda assim, folhei mais e -induzido pela capa- fui ver o que se diz sobre o Final Feliz. Tinha Nouriel Roubini, e aí gelei: que diz "o homem que previu a crise"? Cara, eu já dizia que milhares de outros também previram a crise, todo mundo prevê crises no capitalismo, basta ler o jornal (eu disse "jornal", ainda que me contente em ler Zero Hora). E, uma vez que houve, há e haverá milhares de crises, somos forçados a refrear nosso pessimismo com Umberto Eco: "não espereis demasiado do fim-do-mundo". Pois Roubini esperou e deu-se mal. Não tenho, infelizmente, condições mentais de seguir-lhe os escritos, a fim de testar de quantas previsões corretas recende sua fama.

Ce n'est pas tout. A crise não acabou, claro. Mas Roubini está preparando uma saída honrosa. Na p. 5, ZH cita o que ele disse em 16/ago/2009: "Se ela [id est, a crise] terminar -como parece- no fim de 2009, terá sido três vezes mais longa e cinco vezes mais profunda do que as últimas duas recessões." Então, e mais ainda, um ano antes, tudo era possível, inclusive o fim-do-mundo. Mas alguns otimistas tentaram achar que esta hipótese extrema era um tanto extrema. Roubini, em 19/out/2008 disse: "[... não] se pode descartar a perspectiva de uma recessão em forma de L, que dure uma década inteira [...]." Claro que não se podia, como não se podia descartar a hipótese de que o mundo vai acabar precisamente daqui a 24 horas (sinto tremores).

E o pior ainda é que a bailarina Lydia que dá título à postagem, cujo marido era conhecido por todos como Maynard -se não por apelidos-, talvez confundisse a referência a seu bacán na mesma p.5 com oura referência ao pai dele, seu sogro. John Neville Keynes, John Maynard Keynes. Pensei que os autores da reportagem em que Roubini é confrontado com seu pior inimigo, nomeadamente, suas próprias previsões sobre os rumos da economia mundial, nomeadamente, Alexandre de Santi e Rodrigo Münzel, tinham inventado chamar o Maynard de John Keynes. Olhei no Google, há vários outros. Pelo domingo, por tudo isto, lembrei-me de meu colega Darci Geraldo da Costa Vieira, presidente da turma da sala 104, cuja família conhecia por "Geraldo" e nós -seguindo o costume dos professores de designarem os alunos pelo prenome (exceto, creio, Joões, Josés e Marias)- chamávamos de "Darci". John Maynard, no Brasil, virou John, pois a regra de três permite:

Darci está para John
assim como
Geraldo está para Keynes.

Ontem, fiz exaltados elogios ao poder dos modelos lineares. Hoje, estou exproprando este tipo de regra de três: Darci está para Geraldo assim como John está para Maynard. Keynes e Costa Vieira é que não são lineares, isto é que é certo...
Carpe diem!
DdAB

p.s.: Mês novo, novo novembro. Peesses passam a ser Twitters:
Um : esqueci de dizer: citado no mesmo local, no mesmo dia do pedido de arreglo de Roubini, Paul Krugman (16/ago/2009, p.5 deste domingo) disse: "Parece que não teremos uma segunda Grande Depressão. O que nos salvou? A resposta, basicamente, é: O Grande Governo." esqueci de indagar: Roubini não sabia que o keynesianismo produziu o Grande Governo?

Dois :: tem duas piadinhas reacionárias boazinhas, nas p.3 (Marco Aurélio) e 12 (Sérgio da Costa Franco)
.a. nave cabralina chegando e o vigia diz: "Terra à vista"; dentro do Brasil, vemos um militante do MST dizendo: "Terra a prazo".
.b. artigo intitulado: O Primeiro Magistrado. Tópico frasal: "O presidente Lula não parece muito familiarizado com a história brasileira, como, aliás, com outras disciplinas do Ensino Fundamental".

Três ::: e o Moacyr Scliar na p.6 do caderno "Donna"? Fala sobre morte, finados e Freud:
E aí a pergunta emerge: o que podemos dizer a nós mesmos para afastar o espectro que teimosamente nos persegue? Numa entrevista dada ao jornalista americano George S. Viereck, disse Sigmund Freud: "Vivi mais de 70 anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas: a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?".

Estava Freud mentindo a si próprio? Estava desempenhando o papel que o mundo (ao menos o mundo psicanalítico) esperava dele, o papel de supremo guru? Pode ser. Não sabemos o que terá ele pensado, ou sentido, no momento do derradeiro suspiro, da palidez final. O que podemos fazer é falar ou escrever, é transformar nossa ansiedade em palavras.

31 outubro, 2009

O Problema da Transformação dos Valores em Preços

Querido Blog:
Primeiro, devemos ter presente que existe uma diferença fundamental na forma como o homem se apropria da natureza, comparativamente, por exemplo, a uma abelha. Em segundo lugar, também no que diz respeito à apropriação da produção. O abelheiro tem regras de distribuição bastante simples, mas que foram deixadas para trás pelos vertebrados. O mapa do Brazil que selecionei do Google Images mostra uma distribuição da produção, ou das belezas turísticas.

Mas, quando falamos na distribuição entre os indivíduos, começamos a ver a perversidade da simetria com a distribuição entre as abelhas. A desigualdade é enorme entre os humanos, em parte devido a uma peculiaridade da sociedade rica: se pouco existe, pouco será distribuído. É a idéia de Simon Kuznets para explicar a regularidade parabólica entre renda per capita e índice de Gini.

Entre as abelhas, há divisão do trabalho que não chega a permitir qualquer comparação nem com lobos nem com humanos. Ficando com os humanos, já sabemos que esta, a divisão do trabalho, gerou enormes possibilidades de crescimento da produtividade. Com isto, gerou-se mais abundância, mais bem estar, mais divisão do trabalho, maiores ganhos de produtividade. Tudo isto implica que o conteúdo de trabalho de cada mercadoria reduz-se ao longo do tempo. Claro que a massa de valores que hoje vemos gerada em qualquer economia é muito maior do que aquela que existia sob condições ridículas de produtividade, mas o conteúdo de trabalho para cada equivalente é menor. N'est ce pas?

Por que Marx acabou o primeiro capítulo do Capital com uma seção intitulada "O Fetichismo da Mercadoria e seu Segredo"? Segundo muitos pensadores importantes, a razão da existência desta seção é a própria raison d'être do próprio capítulo e de toda a teoria do valor marxista. Ou seja, precisamos pensar numa economia monetária simples para podermos entender sua evolução e, como tal, a crescente divisão do trabalho, os ganhos de produtividade e a queda no valor das mercadorias. Insisto: o valor total deve estar crescendo, pois há novas mercadorias, e tudo o mais. Ademais, mesmo que a negadinha trabalhe menos, digamos, daqui a 10 anos, o valor poderá seguir crescendo. O trabalho cada vez torna-se mais produtivo (reduzindo o valor), mas a massa de mercadorias torna-se cada vez mais volumosa em virtude da redução do -lá no dizer dele- do exército industrial de reserva.

E qual a relevância de pensarmos no problema da transformação dos valores em preços? Na economia muito simples do volume 3 do Capital, há indicações da solução do problema, o qual foi definitivamente sepultado pelo "sistema de emprego do modelo de Leontief" e, se tivesse ainda sobrado algo insepulto, o livro da teoria da produção de Luigi Pasinetti teria dado a pá de cal. Não entendo tanto do livro de Pasinetti quanto entendo da singeleza cristalina do sistema de emprego de Leontief. Se tu me acompanhas:
L = m^D x B x f
onde L é o vetor do emprego dos setores (produtores da MaCS), m^D é a matriz diagonal cujo elemento característico é o coeficiente de emprego por quantidade-monetária (valor $ da produção), B é a inversa de Leontief, ou seja, segurando os requisitos diretos e indiretos da produção de cada mercadoria e f é o vetor da demanda final pelos produtos dos setores produtivos (e "x" é a operação de multiplicação de matrizes e vetores).

Claro que nesta visão leontiefiana estou equalizando os elementos do vetor L com os do vetor f. E claro que na visão puramente algébrica isto se deve a duas arbitrariedades:
.a. joguei na parada a matriz B
.b. joguei na parada a diagonal m^D.
Não há muito a falar sobre B, exceto as considerações feitas em qualquer livro texto de respeito. Mas vale a pena pensarmos um pouco no elemento característico de m e os correspondentes elementos de f e L. Os elementos de f são medidos em quantidades monetárias, ou seja, reais, ou seja, preços vezes quantidades. Os elementos de L são medidos em horas de trabalho.

Claro que temos um problema dimensional de conversão de $$$ em hhh. E claro que ele é resolvido pelas matrizes de transição m^D e B. Mas há algo ainda mais interessante na matriz L. Este algo aponta para o fato de que a solução matemática do sistema de equações simultâneas (nomeadamente, L = m^D x B x f), quando alcançado (e, uma vez que pudemos montar nossa tabela de insumo-produto, concluímos que ele foi efetivamente alcançado), implica que o problema da transformação já está -como não poderia deixar de ser- simultaneamente resolvido.

Em L temos horas hhh de trabalho, em f temos reais $$$ realejos. Um (hhh) transformou-se no outro ($$$) e o outro (hhh) gerou o outro ($$$), como diz a velha piadinha da região localizada a oeste da Espanha e da França. Mas voltemos a pensar em que mesmo é que é mais interessante na matriz L. É que, entre os elementos de L, vemos horas de trabalho também dedicadas a atividades improdutivas, como é o caso das obturações dentárias, cirurgias cardíacas, cortes de cabelo, essas irrelevâncias da vida cotidiana declaradas improdutivas pelos economistas clássicos e especialmente por Marx. Em outras palavras, para produzir $$$ 1 em dinheiro gasto em cortes de cabelo, são necessárias, digamos, 1hhh horas de trabalho. Claro que agora o adjetivo "necessárias" diz respeito a uma simples equiparação algébrica. Ou seja, não nos estamos referindo à concepção de "trabalho necessário e trabalho excedente", ainda que estejamos examinando a complicada (e, parece, errada) questão da relevância da distinção entre "trabalho produtivo e improdutivo".

Em outras palavras, a questão do trabalho necessário x trabalho excedente é improcedente para o caso e a do trabalho produtivo e improdutivo é irrelevante. O fato é que o modelo de Leontief permitiu-nos rastrear todos os requisitos diretos e indiretos de trabalho socialmente necessário, inclusive aqueles alocados nas horas de trabalho declaradas improdutivas (como os cortes de cabelo realizados -comprados e vendidos- no mercado)

Claro que não estou dizendo que esta equação resolveu o problema da transformação dos valores em preços, não é isto? (ou eu disse acima e agora estou corrigindo?). Seja como for, é evidente que estamos vendo correspondências entre a demanda final de cada setor e o número de horas de trabalho direta e indiretamente necessários para produzi-la (à demanda final daquele setor). Ou seja, o problema da transformação não foi resolvido em negrito, mas ele foi resolvido num sentido mais mundano: uma hora de trabalho vale uma unidade monetária. Claro que também este "vale" foi escrito em negrito, pois também este verbo tem dois significados (vale quantidades monetárias e vale quantidades de trabalho social).

O que estou certamente dizendo é que o sistema de preços que faz com que os elementos de f compareçam precisamente com os valores que por lá podemos ler depende de todos os demais preços de todos os demais elementos de f, ou seja, tudo está sendo criado simultaneamente. Ou melhor, tudo foi criado simultaneamente. Neste caso, devemos lembrar que, ainda que a equação L = m^D x B x f seja "equação de comportamento", os valores de L e f do ano passado não foram "de comportamento", mas valores verdadeiros reais verídicos. Assim mesmo é que eles foram gerados pelo mundo.

O mercado foi aberto, digamos, no primeiro dia de janeiro e iniciou-se um processo de ajustamentos, algumas transações sendo realizadas e outras sendo postergadas para o dia 2. No dia 3, tudo repetiu-se, e assim por diante, até o dia 365, quando o mercado foi fechado e nada mais será vendido ou comprado. Nesse momento, por exemplo, as horas de trabalho despendidas na extração de ouro que não foi comprado (e que tem meia-vida de apenas um segundo) simplesmente não geraram valor, ou seja, foram desperdiçadas.

Talvez meu argumento ainda seja insuficiente para tirar duas conclusões, mas estou certo de poder fazer todas as mediações para chegar a elas. A primeira implicação é que o banco central é que determina a massa de valor (monetário, monetário, meu!) a ser distribuída entre os diferentes "ramos" industriais (os setores, id est, produtores da MaCS). Ao mesmo tempo, ao falarmos assim, estivemos pensando apenas como a figura que nos ilustra na postagem de hoje: divisão geográfica num lado e divisão setorial no outro. Ou seja, estamos deixando de referir que o valor adicionado pode ser distribuído geograficamente, mas além disto também terá lá sua distribuição setorial, pessoal etc.. Em outras palavras, o valor adicionado terá três maneiras de ver sua distribuição mensurada: a ótica do produto, a da renda e a da despesa.

A segunda impliação é mais contundente para a orientação da política pública (tenho em mente a sindical, pois todo político é ladrão e não adianta falar nada sério com essa corja). Não existe exploração de um trabalhador individual específico por um capitalista individual específico. Ou seja, ao falarmos de exploração, estamos pensando na ótica do produto da mensuração do valor adicionado? Claro que não podemos falar nisto, pois -neste caso- teríamos que dizer que um trabalhador de um setor é mais explorado do que o de outro, coisas assim. E isto é um inominável absurdo. O que, obviamente, podemos dizer é que o trabalhador da indústira química (ascensoristas) tem produtividade maior do que o da educação (motoristas), se ambas forem mensuradas em quantidades monetárias. E isto não implica que L seja igual a f, claro, né? Assim, oh, é que os valores -dados em horas de trabalho- que são iguais, depois de certas correções corriqueiras, foram fetichizados pelo mercado. E os preços de mercado que fetichizaram os valores emergiram precisamente da solução do problema de equações simultâneas que Marx buscou afanosamente lá no Livro III. Não é isto?
DdAB

30 outubro, 2009

Ladrão ladrão ladrão

Querido Blog:
espero não estar capturando coisa que não devia do Google Images. por exemplo, se a figura da caricatura fosse, digamos, o avô do Bruce Lee, sei lá. seja como for, esta figura foi-me oferecida quando pedi singelamente imagens com "ladrão ladrão ladrão", três vezes ladrão. não lembro se é uma canção: "se alguém gritar 'pela ladrão', não fica um meu irmão". claro que isto rima, em meu presente estado de sinapses com "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "o último a sair deve apagar a luz do aeroporto". singelezas.

o Sr. Armínio da Rosa, presidente do Tribunal de Justiça (do RGS), cuja lata vemos estampada na p.11 da you-know-what, dizque:

O fato é que o Supremo reajustou seus subsídios. Não podemos ficar com subjustiça. Se deixarmos isso, não poderemos reclamar da menor qualificação dos nossos magistrados.

cara, só bebendo. minhas citações, em geral, vêm indentadas em 'courier' e fonte pequena. esta saiu-me com o mesmo 'courier', mas não o tamanho avantajado não pôde ser evitado. (tem acento em 'pôde', oh, clube da ladroagem?). o princípio da cascata quer dizer: mentira e tomar carona na iresponsabilidade dos demais. comentário frontal a esta criatura, o Armínio, que se pensa, penso eu, pelo menos, um semideus, para não dizer um dos deuses do clube da baixaria do Brazil de Pero Vaz de Caminha (essa ortografia cambiante...).

no outro dia, anunciei que os R$ 27.000 dos juízes federais não era cascata, no sentido de mentira, mas seria cascata, no sentido da água morro a baixo, que todo mundo vai ganhar este montante. a teoria dos jogos prevê que -in Brazil- ninguém se envergonha de nada, tudo é ladrão, tem que apagar a luz do aeroporto mesmo. ou tem que virar o jogo, o Grêmio passar a ganhar grenais e nós a baixarmos pau, pau e pau nas mudanças ortográficas, mas não apenas nelas.

nós, quem, amado povo ordeiro e pacífico? não o povo do Exército de Libertação dos [...], que já está envolvido em refregas dignas da Bolívia, Rodésia, Albânia, Somália (ou Zâmbia), Índia e Líbano, num acróstico de fazer medo. olha aqui, como está na mesma p.11 de Zero Hora, alguns salários iniciais que penso referir-se a 40 horas de trabalho semanal:

.a. soldado da Brigada Militar: R$ 1.007,60
.b. investigador da Polícia Civil: R$ 1.238,54
.c. classe inicial do magistério: R$ 862,80
.d. técnico-científico: R$ 2.405,36.

Só bebendo.
DdAB