Querido diário:
Alguns bons anos atrás, escrevi num artigo de economia "inflingir e intricar". Naturalmente boas revisoras que se encarregavam de examinar meus escritos partiram para a correção: infligir e intrincar.
Dizem os tipógrafos mais antigos que o erro ortográfico não é um mero descuido assumido pelo revisor, mas uma fenda por onde a língua tenta inventar palavras que o dicionário, em sua rigidez alfabética, recusa catalogar.
Prestemos atenção na diferença entre infligir e inflingir.
O verbo infligir (do latim infligere) é ato de autoridade: aplica-se uma pena, inflige-se um castigo, impõe-se uma dor. É uma ligação direta entre quem pune e quem é punido.
Já o clandestino inflingir destila uma sonoridade precisamente por causa daquele n, a língua tocando as costas dos dentes incisivos centrais. O n intruso transforma a punição em uma ressonância contínua. É a arte de impingir um dano que flui.
O mesmo fenômeno ocorre quando saltamos de intrincar para intricar.
Intrincar (com seu n estrutural) é o ato formal de emaranhar, enredar, tecer nós complexos. É a teia de aranha, o labirinto de ruas do centro histórico, a prosa acadêmica.
Porém, ao amputar-lhe o n e pronunciar intricar, a palavra perde complexidade estrutural e ganha a leveza da intriga doméstica. Intricar deixa de ser um estado da matéria emaranhada para virar um verbo de ação miúda: a provocação sutil de quem cutuca um ferimento leve, o ato de sussurrar um segredo truncado no canto da mesa do bar, a arte de criar um nó pensando naqueles que perdem a paciência ao fracassar na tentativa de destrinçá-lo.
Talvez a língua culta esteja certa ao expurgar o n do primeiro e exigi-lo no segundo. Mas há algo de fascinante em habitarmos, por um momento, esse território sombrio da ortografia paralela: onde inflingimos pequenas dores inventadas e intricamos os nós de histórias que nunca aconteceram.
DdAB
P.S. Tá na cara que lancei o desafio que refiro no título da postagem de hoje ao chatbot Gemini. Ele escreveu um texto refinado que tentei mudar algumas coisas para que tome o caráter de uma produção humana. E achei que, tudo pesado e medido, a versão que agora apresento poderia ser declarada minha, em dia, raríssimo, devo convir, de surpreendente inspiração.
DdAB
P.S.S. Olha o dicio.com.br:
Significado de Infligir
verbo bitransitivo
Atribuir pena a alguém; aplicar pena, castigo ou punição a: o juiz infligiu pena máxima ao réu; ele infligirá uma sentença rígida.
Ocasionar prejuízo a: as enchentes infligiram despesas ao Estado.
Coagir
alguém a aguentar certo sofrimento ou dor: infligiu ao filho
castigos terríveis.Etimologia
(origem da palavra infligir).
Do latim infligere.
E agora olha o chatbot Maritaca: (https://chat.maritaca.ai/)Significcado de Intrincar
Intrincar é um verbo (transitivo e pronominal) que significa:
Tornar emaranhado, enredado ou embaraçado — fazer com que fios, cordas, caminhos ou coisas se misturem de forma confusa e difícil de separar.
Exemplo: “A bordadeira intrincou os fios da meada.”
Sinônimos: embaraçar, emaranhar, enredar, entrelaçar, enovelarTornar obscuro, complicado ou confuso — dificultar o entendimento de algo, tornando-o mais complexo.
Exemplo: “A explicação intrincou ainda mais o problema.”
Sinônimos: complicar, confundir, dificultar.
Origem (etimologia)
Vem do latim intricāre, que significa “embaraçar, enredar”, formado por in- (“dentro”) + tricae (“tricas, dificuldades, embaraços”) — a mesma raiz que deu origem a palavras como intricado e intrincado.
P.S.S.S. O fuxico da foto lá de cima veio da Wikipedia. E não poderia ser mais adequado para essa discussão de bar entre infligir e intrincar.
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