quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Crack e seus Cúmplices

Querido diário:
Já vira no outro dia e hoje estampa-se com mais visibilidade a notícia do " [...] médico Cesar Duilio Gomes Bernardi, 53 anos, por porte ilegal de arma, cárcere privado e agressão a uma namorada [...] " na p.46 de Zero Hora. Segue: "expõe mais um drama familiar impulsionado pelo crack."

Pensei: só familiar? e a solidariedade internacional entre os Duilios? Parece-me já haver registrado entre os Duilios universais um, destacando-se com o nome de Duilio Bernardi. Pensava haver um fotógrafo com este nome, mas na Wikipedia está um professor emérito da UFRGS.

Há, claro, cumplicidade entre as dezenas de Duilios espalhados pelos continentes que compõem a fase atual do planeta Terra. Mas pensei, mais amargamente, em outra cumplicidade, aquela observada entre os governantes e os traficantes. Mas tampouco trata-se exclusivamente de governantes. Há um número expressivo de médicos, jornalistas, políticos, policiais "formadores de opinião" defendendo com unhas e dentes a atual política pública voltada ao problema das drogas: mais repressão.

Aprendi, ao morar na ladeira,
que água morro abaixo
não se tranca com peneira.

Minha visão para a solução do problema das drogas no Brasil é bem diversa: contratar a empresa júnior de alguma faculdade de medicina de algum país do norte da Europa e encarregá-la de administrar a distribuição gratuita de drogas a todos os brasileiros. O brasileiro passaria por uma peneira, peneira mais humana. Iniciar-se-ia tentando saber de quem se trata: criança, criminoso ou louco. A criança seria jogada aos cuidados dos pais ou responsáveis. O criminoso seria retrancafiado, ou seja, não iria às consumption rooms públicas. O louco é que seria objeto delas. Mas, ao invés de defrontar-se com um traficante, muitas vezes ainda mais louco do que o de que estamos falando.

Claro que, para acabar com a criminalidade, é necessário dar assistência às crianças e aos criminosos. Torna-se claro que muitas vítimas (familiares, em geral) estaria disposta a adotar, se pudesse prever, um menino de rua que irá matar, em poucos anos, o netinho ou a filhinha. Mas este é o outro problema, que não arranha o conceito de consumption room.

Claro que eu, por exemplo, e centenas de milhares de outros Duilios, não iríamos qualificar-nos para receber drogas nas consumption rooms, ou onde mais seja. Além de nós, é certo que a estrondosa maioria dos brasileiros e demais cidadãos mundiais tampouco o faria. E quem se qualificaria? Um rapaz como Cesar Duilio, provavelmente, se o tivesse feito há alguns anos, não estaria protagonizando esta tragédia. Provavelmente milhares de brasileiros que atualmente consomem o crack, 50 mil deles apenas no Rio Grande do Sul, como informou o próprio jornal um bom tempo atrás.

Este número deve ter aumentado, o que deve ser tomado como evidência de que há algo de errado com a política de combate ao consumo. Como sabemos -e odiamos- tal política é referendada também pela linha editorial (conservadora) deste jornal. E o aumento do consumo é explicado como mais uma prova de incopetência do sistema judiciário (o que é verdade, por outras razões, entre elas, os altos saláros dos juízes) do que como declaração de falência da política de drogas que avalizam.

Minha visão da distribuição gratuita é no sentido de acabar com o mercado, não reprimi-lo. Não se reprime com peneira a água que flui morro abaixo. A lei da oferta e procura é mais insinuante do que a lei da gravidade.

Crianças, criminosos ou loucos estão, em princípio, excluídos dos destinatários da distribuição gratuita. Mas, na verdade, os loucos é que estariam consumindo o crack de provisão pública e produção privada. E é esta mesmo a intenção: jogar o viciado nas mãos de estudantes de medicina e seus auxiliares e não na de traficantes e seus repressores. O mercado ilegal, ao ser incentivado precisamente pelas autoridades que desejam proibi-lo, mostra sua face mais cruel, que culmina com a morte de inocentes e, como tal, também de policiais inocentes. Tal é o caso do capítulo atual da guerra civil, front de São Paulo.

Diz ainda o jornal que a indigitada namorada de Cesar Duilio foi forçada por este (este, quero dizer, ele e não o que subscreve esta...) a consumir crack. Fora o caso de fumantes passivos, temos nova incursão do crack a um mundo distópico: vai viciar-se? como será sua síndrome de abstinência? E, como ela, haverá milhares de outros casos. É impossível que, com talvez 500 mil casos ativos, não haja este tipo de efeito nos fumantes compulsórios ou fumantes passivos.

A questão é como tratá-los: deixá-los aos cuidados dos traficantes ou dos enfermeiros noruegueses.

DdAB

4 comentários:

Anônimo disse...

Apaixonei-dem por um DUILIO. E apontar o dedo para um DUILIO príncipe que, dentro de um universo de juízes profissionais que somos, como a ZERO HORA o é, a mesma que lança campanhas educacionais e não faz absolutamente NADA pela educação brasileira, quiçá local,isto é muito fácil. Este paíseco que não dá a mínima pela saúde ou educação de seus cidadãos é o mesmo país que joga um médico para ficar mais próximo ao que mais lhe fez mal, a droga. Agora, junto aos traficantes companheiros de cela, este DUILIO será mais um, ou deveria dizer, menos um DUILIO médico que, aqui fora, com um programa de recuperação clínica, poderia ser útil e se sentir útil a esta sociedade desprovida de tudo, inclusive de discernimento racional. Mais criminosos e menos médicos! Que ótima matemática para o Brasil! Indigitada e anônima namorada! Sra. Rocio Rodriguez Rescic Milanez. Assuma sua identidade e seu papel de mãe e de enfermeira também! Uma ingênua enfermeira que não conhecia nada de drogadição e que dividia uma alcova com este DUILIO.

Anônimo disse...

Acho que os DUILIOS são homens inteligentes! E este artigo do BLOG sobre DUILIO BERNARDI (avô da vítima do crack) foi inteligentemente escrito! Minha pergunta é: E a Santa Casa de Porto Alegre ainda tem uma profissional desta em seu quadro de funcionários? Que perigo! Enfermeira crackeira no Neonatal! A saúde de Porto Alegre vai de mal a pior!

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Povos unidos do mundo!
Quem vir minha postagem de 9/dez/2012, observará dois tipos de comentários. Um deles remete considerações relevantes para cá. Os dois comentários acima direcionam-se ao post de 1/nov/2012. Às vezes, olho comentários endereçados a postagens antigas. E sempre que o faço, respondo-os. No presente caso, ainda não os vira.

Que posso dizer a uma mulher, neste contexto? Acho que duas coisas:
.a. antes de casar, veja como o sogro trata a sogra (pois é possível que o filho deles trate a esposa no mesmo padrão)
.b. não se permita autorizar um homem a espancá-la mais de uma vez (se ele perdeu o controle a este ponto uma vez, então não há razão para esperar que ele não o perca novamente).
DdAB

Anônimo disse...

Boa Noite Prof. Duilio!
Esta curiosa anônima finalmente encontrou o que procurava. Gostaria que alguém pudesse ajudar este médico que ainda encontra-se perdido e sem direito a defesa.
Será que as pessoas acham que a violência e o descaso seriam os ingredientes perfeitos para amenizarmos as mazelas do mundo?
Quem não tem pecados que jogue a primeira pedra! Quem ainda acredita no ser humano que SEJA HUMANO!