segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mais Deus

querido blog:
como podemos querer mais Deus, se por definição ele tudo abarca? muito simples, esta importante questão filosófico-religiosa teve a resposta pela Lebre Marchadeira (que cheguei a pensar ser o Chapeleiro Louco) há muito tempo (cito a tradução de Márcia Feriotti Meira, da Editora Martin Claret, de 2007, p.84):

-Tome mais um pouco de chá - ordenou a Lebre de Março para alice, muito seriamente.
-Mas eu ainda não bebi nada... - replicou Alice, ofendida. -Como é que posso tomar mais?
-Menos, você quer dizer - disse o Chapeleiro. É muito mais fácil tomar mais do que nada.

então pensei em corrigir o título da postagem para "Mais de Deus" e achei que, se é verdade - como apregoam os crentes - que ele é indivisível, então tampouco tem essa de "de", preposição que dá idéia de inclusão, posse. claro que tudo isto foi evocado pelo comentário (conundrum, diria o Mad Hatter na Alice original) de Sílvio à postagem de ontem. mas aí achei melhor mandar ver no verdadeiro tema, continuação das mais recentes postagens. nunca as pensei completas, mas tampouco pensara em completá-las tão cedo. mas ainda tem mais: se "ele" é indivisível, "ele" não é ele, pois não haverá três pessoas gramaticais: tudo se resume apenas à pessoa que fala, pois ela não tem com quem falar, ou falará sozinha, mas o que será falar, o falar de Deus?

e aí cheguei no livro que lerei em breve, ou talvez nunca:

LODGE, David (2010) Surdo mundo. Porto Alegre: L&PM. p.311-312:

Para mim é honra suficiente pertencer ao universo - um universo tão grandioso, e um esquema tão grandioso das coisas. Nem mesmo a Morte pode me tirar essa honra. Pois nada pode alterar o fato de que eu vivi, eu existi, mesmo que por um tempo tão breve. E, quando eu estiver morto, a matéria que compõe o meu corpo será indestrutível - e eterna, de modo que, aconteça o que acontecer, a minha "alma", a minha poeira durará para sempre, cada um dos meus átomos desempenhando seu papel individual - eu sempre terei um dedo por trás de tudo. Quando eu estiver morto, podem ferver-me, queimar-me, afogar-me, espalhar-me - mas não me destruir: os meus pequeninos átomos simplesmente zombariam de uma vingança tão terrível. A morte não faz mais do que nos matar.

primeiro: ele, Lodge, atribui a frase a Bruce Cummings, designando-o como um naturalista do início do século XX (conferi em: http://en.wikipedia.org/wiki/Bruce_Frederick_Cummings, se é que isto é conferência, se é que se pode confiar na Wikipedia, se é que se pode confiar na L&PM, se é que se pode confiar no blogger do Google, se é que se pode confiar no que estou escrevendo, se é que se pode confiar no plástico que reproduz esta escrita aos olhos de quem a lê...).

segundo: vejamos o resto step-by-step. gostei desta de também poder sentir-me honrado em pertencer ao Universo (já joguei a maiúscula), esse troço grandioso. e já comecei a coçar o queixo ao ler que o trço grandioso também é presidido por um esquema grandioso. será que sobre o troço grandioso existe alguma outra coisa, por exemplo, um esquema? será que este esquema, este esquema grandioso, é o que os antigos chamavam de "os deuses"? acho que bem por aí é que começa a questão. existe algo. o míster ou proféssor Cummings, aparentemente, era materialista, o que rima com naturalista e não com religiosista, palavra que acabo de inventar. mas deste tipo de problematização que, 100 anos após a redação do texto, me parece relativamente elementar podemos retirar uma lição interessante.

joguei o Bruce nos braços da Jihad, por assim dizer. quero dizer, aparentemente, ele não queria dizer bem isto: que existe um esquema que preside tudo o que percebemos, e até o que não percebemos e que existe do mesmo jeito, o dark side of the moon, por exemplo, para italizar outros ingleses... então torna-se claro: se eu existi, então está pronto, está existido, e não tem como acabar com isto. na verdade, este ponto (simétrico) foi-me levantado pela primeira vez pela colega Vera Schneider, evocando o possível desejo de alguém preservar sua privacidade a tal ponto que pudesse escolher não ter existido, que o Universo não lhe guardasse qualquer traço da existência, que ele não teria qualquer registro deste alguém. trata-se da mesma questão: o Universo guardará algum registro de mim ou, ainda que menos radicalmente do que a problematização da Vera, nunca mais o locus chamado de DdAB será reconstituído em qualquer detalhe.

então sigo com o texto: "Nem mesmo a Morte pode me tirar essa honra. Pois nada pode alterar o fato de que eu vivi [...]." agora as condições de contorno tornam-se mais atraentes. lembro-me de Umberto Eco: "tudo pode ser, mas apenas uma coisa é ou foi ou está sendo", ou seja, tudo pode acontecer amanhã, mas até hoje, o que aconteceu é de uma imutabilidade absoluta. ainda assim, a concepção indiana e nietschzchiana de eterno retorno ameaça este tipo de visão, de contorno, de recorte, de "coisa que abarca todas as demais coisas, inclusive a si mesma". há tempos, venho entendendo que é por esta linha que podemos encontrar "o significado da história". trata-se, aparentemente, de nossa tentativa de lidarmos com nossa finitude, pensando na finitude dos que nos são próximos. claro que me doi (dói?) saber que minha avó morreu, mas doi-me muito mais saber que eu mesmo vou morrer, sô. e será que eu trocaria minha vida pela vida, digamos, de meus netos?

ok, chegamos à morte, que Cummings grafou com maiúscula. então, assim grafarei Vida, onde chego, claro, ao falar de morte. eu ia falar mesmo em algo nesta linha: em matéria de ciência econômica, vim a tornar-me um equilibrista geral por profissão a partir dos momentos que circunscrevem toda a pesquisa que levou a meu tão (por tantos anos) acalentado doutorado. eu queria saber o que acontece quando tudo depende de tudo, comecei a sensibilizar-me com o tema ao ler um dos livros do index porto-alegrense do final dos anos 1960s e início dos 1070s, nomeadamente, o artigo de Piero Sraffa sobre os rendimentos decrescentes (li-o muito antes de saber que Clifton já existia e estava preparando seu monumental artigo sobre a evolução do modo de produção capitalista). então chegamos na questão da natureza da vida. ainda não li nem a metade do que gostaria de saber sobre isto, tenho um livro que se chama "The Chemistry of Life", um penguinzinho que comprei de segunda mão em Berlim. tem também, parece-me, um livro de Schroedinger e milhares de coisas, fora as partes relevantes dos livros que já li, muitos deles na linha de meu velho amado Dawkins.

o que de melhor rima com "vida", vim a entender há pouco tempo, quando estudei um pouco da literatura associada à adaptação do conceito de entropia feita por Henri Theil destinada a medir a desigualdade de uma distribuição, é -assim- a inversão da entropia. no Universo Conhecido, funciona a terceira lei da termodinâmica, que obriga a existência de entropia (ou melhor, como sabemos, a terceira lei captura um dos modos de funcionamento do Universo que veio a ser batizado como "entropia", a impropriedade-impossibilidade de um pacote de cinza virar fênix. foi nesta linha que, ao buscar no Google Images, a figura (foto?) lá de cima, pensei que o buscador "mais de deus", deu-me o que de melhor pude escolher: o contraste entre a vida e a cinza, ou melhor, entre o que se parece com um indivíduo humano e dunas, ou seja, areia, ou seja, minerais mais ricos do que a cinza profunda. (aliás, preciso definir "cinza profunda", para benefício de minha futura definição de fênix).

mas esta visão terá algumas propriedades interessantes para gente que, como Cummings e eu próprio, gostaria de deixar algum traço de sua passagem pelo estágo fênix, ou seja, que esteve vivo. por um lado, a visão que ele expressa daí para baixo não é mais "paradigma" hoje em dia. hoje fala-se até em decadência dos prótons, ou seja, tudo vai mesmo para o beleléu, pelo menos dentro deste universo. ou seja, nada sobrará nem mesmo a geleia geral dos nadas. mas a saída é trocadilhescamente falando encontrada dentro do "dentro deste universo". haverá outros universos em que os pacotes de cinza viram mesmo fênix, com a mesma frequência e intensidade com que se transformaram no que chamamos de Universo. ou seja, naquilo que entendemos como natureza.

a bactéria, como sabemos, não fala. a bactéria, como sabemos, comunica-se com outros seres. os demais seres vivos também o fazemos. nós, "pérolas da evolução planetária", como eu mesmo escrevi lá no livrinho de teoria dos jogos, dominamos a emissão de sons e inventamos signos para representá-los, inclusive a música emitida pelos passarinhos e, acho que é a mesma coisa, a música emitida por Mozart. agora, se a bactéria e a conjunção de seus sucessores, passam a ter crescente consciência do meio externo, de que podem valer-se da areia para gerar não apenas dunas, mas vidro, sei-lá-que-mais-antes, então podemos pensar nossa existência independente da areia e, por que não?, das próprias condições materiais de contorno do Universo. por que não?

o que não precisamos fazer é chamar isto de "deuses" ou "Deus". no outro dia escrevi, pois no outro-outro dia, lera, que podemos pensar que o quarteto espaço-tempo-matéria-energia existe embalado em outra/s dimensão/oes que não dominamos complemente, mas que faz falta para fecharmos nossos pensamentos. chamo-a, em homenagem à inicial de meu nome, de dimensão D. claro que ela pode ser constituída por infinitas (sei lá que quer dizer isto) dimensões, mas um equilibrista geral sabe que tudo pode ser reduzido ao máximo autovetor de album blim-blim-blim. mais ainda, vejo-nos deslocando em D da mesma forma que nos deslocamos pelo trio comprimento-altura-largura quando falamos apenas em "espaço".

termino com Cummings: "a morte não faz mais do que nos matar". ao mesmo tempo, gente como ele e como eu, além de milhares de outros, queremos a garantia de "eternidade", queremos algo que permita-nos pensar que poderemos reconstituir tudo o que quisermos, a começar por nós próprios. o menor dos problemas, penso, para não alongar-me, é o de que os átomos que constituíram as células que morreram enquanto eu fazia esta postagem e que -como tal- serão excretados de meu corpo já foram usados por milhares de outros seres vivos, foram gerados em milhares de estrelas, uma zorra completa.

ou melhor, não terminei ali, mas termino agora, para fazer a anunciada zorra, ainda que incompleta, como todas as demais zorras. preciso falar na diferença entre figura e fundo, entre parte e todo, entre o Universo (linha do equilíbrio geral) e seus integrantes (linha do equilíbrio parcial), e por aí vai. nós, os seres vivos, temos a mania de colocar o pacotinho de matéria que consideramos nosso em primeiro lugar. este abarca, obviamente, meu próprio corpo, como as bactérias, mas também, como os castores e pavões, minhas propriedades privadas, inclusive, no caso dos pavões, a poliginia. ou seja, o projeto "vida" é individualista. ao traduzir, com Adalberto Alves Maia Neto, o artigo de Stephen Hymer sobre Robinson Crusoé, também metemos a mão com Bertrand Russell: "todo ser vivo é uma espécie de imperialista, procurando transformar a maior parte possível do meio-ambiente em seu benefício." ou seja, temos o ser vivo beneficiário e outros seres, vivos ou não, que o beneficiam.

por ser postado numa etapa avançada da cadeia evolucionária, eu não me beneficio diretamente de uma pedra, a não ser para jogar sobre os políticos, pois não sou capaz de transformar a matéria inorgânica em matéria viva, de transformar a areia em células de meu corpo. mas me beneficio com a ingestão dos bisnetos das bactérias, como as folhas de alface, e os parentes das lebres (os coelhos, por exemplo). sou imperialista até o limite do Dr. Inocêncio de Oliveira, que tem escravos, beneficia-se da posse de outros seres vivos mamíferos humanos.

acabo de deslocar-me para o terreno das ciências sociais, da exploração do homem pelo homem. já falei num artigo que devemos substituir a luta de classes pela luta das instituições, querendo dizer que não acho de maior proveito insistir nesta questão da exploração de uma classe sobre outra. seja como for, o que quero salientar é que os seres vivos habitam um espaço em que a cooperação e a competição são a bola da vez. sem cooperação entre bactérias, eu não estaria vivo e sem competição minha com outras netas delas, e mesmo seus pacotes. no caso, os coelhos e as alfaces. compito (é, "compito" mesmo, que este verbo não me parece defectivo).

então concluo: digamos que nossos bisnetos consigam ressucitar-nos. com que átomos? digamos que seja em dimensões ainda não exploradas de D (e não de "mete", ou matéria energia espaço tempo). então: em que tempo eles irão colocar-me? em meus tempos felizes? em todos os meus tempos? neste caso, para escrever este tipo de coisa, eu precisaria viver outros 63 anos? ou não precisaria escrever? haveria eterno retorno, ou eu poderia escolher variantes sobre, por exemplo, minha relação com meus desafetos, evitando-os? em resumo, uma zorra completa.
DdAB
captura da imagem:http://viverteologia.blogspot.com/2010/04/o-poder-das-tentacoes.html.

3 comentários:

maria da Paz Brasil disse...

ôba! se você parar com calma notará que aí tem matéria prima para uns 4 livros. Falo sério.
MdPB

Sílvio e Ana disse...

Quando, humildemente, conseguirmos admitir que nunca entenderemos a maioria das coisas, poderemos apenas viver, sem o tormento dessas dúvidas. Para o que não conseguimos entender, devemos tentar inventar uma explicação que nos acalme, que nos ajude a viver melhor, e devemos acreditar nela por conveniência.
Acreditar que somos um com o universo, por exemplo, nos cria um sentimento de responsabilidade por tudo e por todos, que no fundo seriam a mesma coisa que nós mesmos: isso é bom. Acreditar em um deus que nos acolhe depois de nossa vida terrena, e que só nos pede que sejamos bons com os outros, não é nada mal também. Acreditar que devo ser bom nesta vida para não voltar como um bode na outra também tem as suas vantagens. Mas qualquer tentativa de tentar explicar o inexplicável fracassará. A ignorância faz parte da natureza humana. Newton explicou COMO massa atrai massa, mas confessou que jamais saberia POR QUE isso ocorre, e deixou de pensar nisso. A vida deve ser suficiente para os que vivem, mesmo não sabendo por que vivem.
Vista a roupa, coma o arroz, beba o chá.
(Sílvio)

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

oi, gentes!
quando eu fizer mais 10.000 postagens, terei material que fatalmente responderá todas as questões e do qual retirarei quatro livros (isto requererá mais 30 anos rsrsrs).
DdAB