sexta-feira, 17 de março de 2017

Terça e Sexta em Zero Hora


Querido diário:

Na terça-feira passada, aqui mesmo falei em duas cartas de leitores de Zero Hora. Em uma delas há um erro factual: o responsável pela criação do Plano Piloto de Brasília não é Oscar Niemayer, mas Lúcio Costa. Ao ler o -por assim dizer- slip of tongue do autor da carta, talvez tenha pensado com meus próprios botões que "amigo de meu amigo é meu amigo", ou seja, um cara baixando cacete nos políticos brasileiros contemporâneos só pode ser meu amigo. Mais afinada que eu com a arquitetura, minha amiga Maria Lúcia Sampaio, arquiteta de escol, sinalizou aquilo que depois identifiquei como "pobrema". Pois então.

Então é que hoje tem um caderno, talvez Segundo Caderno, ou Caderno de Cultura, já não lembro, em Zero Hora/Herra. O jornal tem matéria de divulgação sobre nova edição do fórum "Fronteiras do Pensamento", que novamente dá água na boca, dada a envergadura dos oradores, distribuídos ao longo do ano. Tem esquerda e direita, claro, que o mundo não é pintado de cinza... Gostaria de fazer-me presente, pelo menos, agora evoco, nas conferências de Thomas Piketty, Leonardo Padura e Martha Nussbaum.

Piketty teve seu livro diagonalizado por mim, que não sou bobo de ter lido aquela encrenca toda. Tornou-se até um livro de consultas e não um dos amados, como é o caso -por contraste- o livro de Leonardo Padura sobre amar cães. Em compensação, a obra de Nussbaum foi um tanto subestimada, em virtude de sua inserção na chamada abordagem das capacitações, também ligada -a abordagem e a própria Martha- ao nome de Amartya Sen.

Pois cheguei num ponto importante, dois pontos aliás. O primeiro é comprometedor a minha pessoa, a meus interesses intelectuais, a meus conselhos aos jovens. Diz respeito a minhas razões para ausentar-me de tão concorrido evento nesta cidade que já foi considerada como túmulo do pensamento (cuja sede do poder executivo -parece- foi edificada sobre um cemitério índio). É que eu acho que, cada vez que meus horizontes culturais são ampliados, a sociedade é que vai beneficiar-se e, como tal, ela é que deve pagar a conta. Em outras palavras, sou a favor da ampliação da demanda por bens culturais, ou o que seja, com o estabelecimento de preço zero para qualquer evento assim classificado por uma comissão da qual eu devo necessariamente fazer parte.

O segundo, menos delirante, é que, a minibiografia de Leonardo Padura, fala no livro "El Hombre que Amava a los Perros" que declarei minha best reading de 2014, adquirido que foi na casa/museu em que Leon Trotsky viveu na cidade do México. É que meu querido e finado amigo Jesiel de Marco Gomes fora um tempo atrás a Cuba e lá conheceu o este livro de Padura. E, hospedando Jesiel em minha casa, vi em sua bagagem e, instantes após, sobre o criado mudo (trabalhador deficiente oral?) a edição cubana do livro. Ele, Jesiel, disse estar com dificuldade de ler, pois na parte não romanceada temos um espantoso libelo contra um lado importante do comunismo real realejo, tal como o que viveram Cuba e a União Soviética. Não propriamente motivado por sua dificuldade em seguir a leitura, mas pela provocação que ela representava, fiquei motivado a ler o livro que vim a entender não era "El Hombre", mas três hombres: Trotsky, seu assassino e o narrador da epopeia paduriana.

E, seguindo na sensatez oposta a minha posição de receber em dinheiro o valor que atribuo à contribuição que dou para a sociedade cada vez que me torno mais culto, chego ao cerne do segundo ponto. Fala-se lá naquela região da Zero Herra que Leon Trotsky era russo. Ele era ucraniano. Brasília teve seu plano piloto engendrado por Lúcio Costa. Mas é possível e, quem sabe, provável, que Niemayer tenha opinado aqui e ali, coisa que também fiz, mas no caso as opiniões que emiti não chegaram aos ouvidos de Lúcio Costa. Então, resumo: Zero Herra é um jornal que tenta ser um grande jornal, mas seu tamanho nanico já o condena. Talvez descontente com esta sina original, ela está afanosamente se encaminhando para ser um jornal de tela.

DdAB
Imagem: parece que até aquele topete despertou a ira de José Estaline, se é que a grafia de Trótski da Wikipedia merece referência em uma postagem séria.

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