domingo, 10 de agosto de 2014

Comim: é nóis contra a desigualdade


Querido diário:
Lembra que Flávio Comim escreveu há dias um artigo em Zero Hora que comentei aqui? E que ele fez uma avassaladora réplica, que publicou aqui? E que seu blog principal acaba de mudar-se para aqui? E que eu fiquei, de certa forma, compelido/desafiado a fazer uma tréplica aqui no Planeta 23? E que eu nunca fiz? Que poderia eu dizer? Dizer que a respostas avassaladoras de aplicação e carinho nada há a dizer, a não ser aplicação e carinho!

Mas muito mais disse ele. Não para mim apenas, mas para todo o leitor de Zero Hora de hoje, no recentemente criado Caderno PrOA, página 4 (eu quis colocá-lo aqui como anexo, mas não o localizei online). O artigo do caderno PrOA se intitula "A desigualdade segundo Piketty" (que se pronuncia 'piqueti', oxítona, pois neguinho é francês e provavelmente conhecido de Comim). [E tem mesmo aquele 'des' em vermelho].

No artigo, o prof. Flávio Comim faz uma resenha do livro de Thomas Piketty, o já famoso Le Capital au 21ème Siècle. Não vou resenhar o livro nem, menos ainda, a resenha. O que acho é que o que ele escreveu (ele, ambos, Comim e Piketty), Comim dando as ideias centrais do livro de Piketty ao leitor de Zero Hora e seu séquito.

Sobre o duplo sentido que leio no título (Das Kapital, de Karl Heinrich, e capital enquanto fundo de valor monetário), ocorre-me denunciar, com um sorrisinho de mofa, outra resenha, escrita por um campineiro, que li em alguma daquelas Cartas Capitais que me obrigo a ler com a regularidade de um parvo. Diz este último resenhista que há um pecado capital -sem trocadilho bíblico- é que Piketty não incorpora a sua investigação o lado da produção, mas apenas o da distribuição. [Ver Anexo I mais abaixo]. Com arrogante ironia, ao ler aquilo, dei-me conta de que Piketty não tratou de outras dimensões importantes, como a independência do banco central, a cerâmica marajoara e o rebaixamento do Grêmio há alguns anos. Primeiro, pensemos no Ricardo citado no citado anexo. Segundo, pensemos que o valor adicionado tem três dimensões: produto (geração), renda (apropriação) e despesa (absorção). Então não falou nem em produção nem em absorção. E por que falaria em todas as coisas? Pudor e discrição para não magoar a torcida do Grêmio?

Nenhuma delas é mais ou menos importante do que a outra, nenhuma delas vive sem a outra. Ademais, a distribuição secundária tenderá a ser até mais importante do que a primária na sociedade do século XXII. Mas existe ainda algo até mais interessante do que apenas ladear Piketty a Marx, a saber, ver o maravilhoso livro de David Harvey, um marxista da boa cepa:

HARVEY, David (2013) Para entender O Capital. Rio de Janeiro: BoiTempo. Titulo original: A companion to Marx's Capital. Tradução de Rubens Enderle (que, para tristeza dos estudiosos do tema, que chegaram muito antes dele, traduziu "surplus" por "mais valor").

Além do conceito de justiça que vemos de David Harvey (no Anexo II a seguir), o autor deste livro é enfático em deixar claro que não poderemos esperar uma sociedade justa e ecologicamente saudável sob a égide do sistema capitalista. Em outras palavras, vejo "no mercado" uma ânsia pela expressão de uma visão autenticamente de esquerda -marxista ou assemelhada- para o século XXI, depois de tantos anos de neoliberalismo, de deslocamento da classe trabalhadora dos países da Europa e Estados Unidos a uma posição de inferioridade na barganha pela distribuição primária da renda. Qual é a causa do enfraquecimento? É o fortalecimento da China. E qual a causa da causa? A penetração do capitalismo mundial (europeu e americano) nas sociedades chinesa e indiana. E todos os demais tigres asiáticos e, futuramente, a África e -quem nos dera- também a América Latina.

E se ladearmos a visão de Piketty sobre o futuro com a minha? Parece óbvio que aí passamos a falar na salvação. Reforma ou revolução? Sou da Paz, meu chapa, quero reforma. Reformas democráticas que conduzam ao socialismo. Depois, daqui a muitos-muitos-muitos anos, veremos o que é mesmo que socialismo significa.

Para o que nos diz respeito no mundo mundano, no mundo de hoje, devemos pensar numa reforma na linha da Tobin tax, o imposto propalado por James Tobin sobre transações financeiras a ser aplicado nos países pobres. Que diz a aba deste blog? Diz o seguinte: que eu sou

proponente da criação de uma Brigada Ambiental Mundial voltada à ocupação da mão-de-obra prestadora de cuidados pessoais e ambientais com: _1 três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta), _2 três horas de aula por dia (para manter a mente quieta) e _3 três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo). Ao apontar o sentido correto da evolução planetária como vinculado à esquerda, sinalizo a sociedade igualitária e, como tal, o emprego. 

E por que o emprego? Por um lado, vivo dizendo que, dado o nível do produto, quanto menos emprego, melhor, mais lazer, mais produtividade e menores preços das mercadorias. E por outro, vivo sugerindo que devemos educar nossos bimbos, devemos tratar bem nossos presos, devemos manter nossas estradas em boas condições, devemos ajardinar nossas ruas, cuidar da mata ciliar, tudo isto, tudo de bom. E por quê? Pois professores, assistentes sociais, cozinheiros, motoristas, e tantas outras ocupações que se vinculam à prestação destes serviços dão os empregos que -otherwise- deixam a mente desocupada. Como sabemos, este é o caso em que se situa a oficina do diabo.

DdAB
A imagem é daqui. Por 40 anos (mais ou menos 1942 a 1982), vemos o que Andrew Glyn chamaria de um profit squeeze. E depois aquela elevação estonteante a combinar by and large com os milagres da nova Ásia. Quem deu vida nova ao capitalismo? O comunismo chinês. E terá mais? Claro, o que Glyn mostra no livro "Capitalism Unleashed" que o "capitalismo" está cada vez tomando mais conta das atividades governamentais: terceirização de tudo, inclusive presídios, arrecadação de impostos, segurança pública, que a água e o transporte urbano já o está há muito tempo.

ANEXO I
Definição de economia política: aqui postei o seguinte, referindo-é à "nota de rodapé da p.4, ele/Keynes diz que, numa carta de 9/out/1820 a Thomas Malthus, David Ricardo disse: 'Political Economy you think is an enquiry into the nature and causes of wealth - I think it should be called an enquiry into the laws which determine the division of the produce of industry amongst the classes who concur in its formation.'"

ANEXO II

ANEXO III
De acordo com Joan Robinson e John Eatwell (1973), as principais questões cuja resposta é objeto da ciência (filosofia) econômica são oito:
1. de onde provém a riqueza material?
2. de onde se originam o excedente e o lucro?
3. a exemplo do trabalho, o capital também cria riqueza, ou os lucros são meramente retirados da riqueza gerada pelo trabalho?
4. haverá algum princípio associado aos valores das mercadorias que expliquem as variações erráticas em seus preços?
5. qual é o papel do dinheiro numa economia?
6. qual é a relação do rendimento monetário dos indivíduos com a riqueza total da sociedade?
7. existe justiça social num contexto em que algumas famílias vivem em extravagante suntuosidade, contrastando com aquelas que mal conseguem alimentar seus filhos?
8. existe algum mecanismo endógeno ao funcionamento do sistema que garanta um nível de procura capaz de manter homens e máquinas plenamente ocupados?

ANEXO IV
As fontes dos Anexos II e III estão neste livro:
Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social: A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Duilio de Avila Bêrni; Vladimir Lautert (e colaboradores). Páginas 65 e 74.
abcz

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