segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Economistas: Dilma, Dudu e Diversionistas

Querido diário:
Costumo dizer que a afirmação de que a presidenta Dilma foi minha bolsista não é uma deslavada mentira. Nem todas as proposições não coincidentes com deslavadas mentiras são verdades, claro. Seja como for, trabalhando na Fundação de Economia e Estatística no mesmo período, não é difícil entender que houve alguma relação profissional entre nós. E, como tal, que Dilma é economista. E digo mais, que fez cursos na Unicamp que não se restringem ao curso de mestrado nos meados da década de 1970. E daí?

Daí que li na Carta Capital datada de depois de amanhã, lá na p.30:

A indústria é importante para articular os demais setores, ela tem um poder de inovação que se espraia pela economia, ela é decisiva para nós, que precisamos aumentar a nossa taxa de investimento [...].

Frase de Dilma Rouseff, presidenta da república. Como tal, política profissional. Economista? Bem, não duvido que ela seja uma das mulheres mais preparadas do Brasil de todos os tempos. E daí? Daí que qualquer setor é importante para articular os demais setores, a menos que se trate de economias de enclave. E daí? Daí que tanto a indústria como muitos dos demais setores da economia comungam desta notável capacidade de lançar inovações pelo resto da economia, ou seja, os demais setores, que -de qualquer modo- articulam-se de várias formas, comprando e vendendo insumos. Por fim, qualquer setor é decisivo para quem quer elevar a taxa de investimento.

No caso, como os chineses descobriram há décadas, a melhor maneira de fazê-lo é investir na construção: edifícios, pontes, túneis, fábricas. Em resumo: em que mesmo é que a indústria se diferencia, digamos, da plantação de suco de laranja? (Epa!). Indo mais diretamente ao ponto, vamos trocar a expressão "indústria" pela "educação" lá no discurso da presidenta:



A educação é importante para articular os demais setores, ela tem um poder de inovação que se espraia pela economia, ela é decisiva para nós, que precisamos aumentar a nossa taxa de investimento [...].

Economista por economista, assinatura por assinatura, eu assino com mais desenvoltura é esta frase com “educação”. E, no outro dia, ainda deixei claro o que entendo por educação: assistentes sociais, dentistas, guardas, faxineiros, cozinheiros, todos devidamente investidos de roupas, equipamentos, instalações. Agora precisamos decidir: quem é que pode contribuir mais aceleradamente para o crescimento, fazer a apologia da indústria ou a da educação? Parece óbvio que trator educado não transforma menino de rua em colheita, mas menino de rua educado transforma trator em colheita, sim senhor.

Não bastasse esta encrenca que agora arrumei logo com a presidenta da república, fui para o jornal Zero Hora (p.25). Economista diz cada uma:

Economistas alertam para o risco de 2013 piorar o prognóstico para a economia, caso o governo não mude o foco da política de crescimento – centrada no aumento do consumo – passando a incentivar mais o investimento e melhorar a produtividade.

Uma vez que os autores desta frase não são alheios à ciência econômica – caso o fossem, o conselho federal não lhes daria o diploma, não é isto? – somos forçados a crer que há uma enorme falta de seriedade nos jornais, que publicam qualquer coisa. Se antes me queixei da presidenta da república, do fato de que ela esgrimiu uma frase que não resiste à troca de uma simples palavra, agora queixo-me de que estes “economistas” não sabem o be-a-bá da contabilidade social. Aliás, nem é bem isto, não sabem o be-a-bá dos modelos elementares da determinação da renda do primeiro semestre da faculdade. Lá já aprendemos que tanto o consumo autônomo quanto o investimento autônomo, ambos, são capazes de movimentar a economia de seu nível de equilíbrio. Aumenta um ou outro, aumenta o outro, compreendeu?


Quero dizer: se o consumo em cachaça aumenta em R$ 1,00, a renda aumentará precisamente em R$ 1,00. Quem não entende isto nada sabe nem de Keynes, nem de Leontief nem de que-mais-seu-eu? Por outro lado, se todos nos devotarmos ao consumo desenfreado de cachaça por, digamos, 30 anos seguidos, neste caso, o investimento estará sacrificado e o crescimento de logo prazo, comprometido.


DdAB
P.S.: ainda não li, mas quem é que resiste ao título que relaciona Johnny Depp e o postulado da racionalidade? Tou indo prá lá agora mesmo, prô Bípede Pensante, vambora?

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