quarta-feira, 28 de novembro de 2012

CIE e ISI: não é por aqui

Querido diário:
Torno-me siglativo: ISI é bilíngue - industrialização por substituição de exportações, ou import substitution industrialization, ou até industrialisation. E CIE é crescimento induzido pelas exportações, export led growth. Claro que haverá milhares de outros "estilos" de crescimento econômico, como "dar saída aos excedentes" e "diversificação das exportações", para não falar da ampla variação de possibilidades em torno da economia fechada, que será a bola da vez da Argentina.

O problema com o Brasil é que ele não utiliza nenhum destes, pois tem crescimento rastejante, especialmente nos últimos dois anos. Ou seja, pode ter estilo, mas não tem crescimento (ainda que -sou o primeiro a festejar- não tenha tido enormes quedas no PIB mesmo nos anos aziagos). Claro que a crise mundial contribui para reter as taxas nesses níveis rastejantes, mas a demanda interna, contabilizada como fonte fundamental do crescimento ao longo dos últimos 60 anos, não cresce tanto quanto poderia, por razões várias.

Para mim, a principal causa da estagnação dos últimos 30 anos é mesmo a baixa qualidade do capital humano incorporado à mão-de-obra nacional. Terra de analfabeto quem sabe numerar até dez já tá eleito vereador ou ganha CC, se não exagero. Mas, sob a perspectiva da economia aberta, há dois pontos interessantes a referir.

O primeiro até já foi referido por mim na postagem daqui, ainda que muito superficialmente. Trata-se da citação de Akio Morita, o executivo da Sonny falecido em 1999 (aqui), no livro "Made in Japan", que veio -penso- a inspirar até o título do famoso "Made in Brazil", da dupla IEI/UFRJ-Unicamp. Pois lá digo que lá disse Morita: "nenhuma empresa pode ser competitiva externamente se não o for internamente". Assim, no Brasil, por exemplo, a Natura decidiu expandir-se no mercado francês, pois é lá que se aprende a fazer perfume!

Este é o maior breve que já vi contra a economia fechada. Numa economia fechada, não se vive no mundo contemporâneo, não se reserva mercado para a empresa nacional pela simples razão de que esta é incapaz de dar respostas adequadas à elevação do consumo per capita. Ver exemplo da Somália, cuja renda per capita é de U$ 600 (PPC). Ou seja, importar é o maior teste que recebe a empresa local contra a ineficiência. E, claro, não estamos falando em dumping (como o chinês, por exemplo). Ou seja, não pode vender no exterior mais barato do que vende em casa. E não pode vender em casa por um preço que nem sequer paga o custo de produção. Sob o ponto de vista internacional, não pode fazer dumping social, ou seja, países com direitos sociais e ambientais amplos não podem ser declarados iguais a países que nem respeitam o meio ambiente nem garantem direitos de férias, feriados, jornadas cada vez mais curtas a seus trabalhadores.

O segundo ponto a falar sobre a economia aberta retornou-me à mente em resposta a minha amada visita a Maringá. Lá, conversando com o prof. Gilberto Fraga (aqui), chegamos ao artigo

BALASSA, Béla (1964) Industrial development in an open economy: the case of Norway. Oxford Economic Papers. V.21 n.3 Nov. p.344-359. [Acessível no Periódicos/CAPES amplo]

O prof. Balassa fez um lindo estudo mostrando a mudança estrutural experimentada pela economia norueguesa depois da Segunda Guerra Mundial. Ele tinha em mente, entre outros aspectos, comparar a estratégia nórdica com a da substituição de importações latino-americana. Era tudo o que eu queria, pois aquele negócio que tenho argumentado de que houve "industrialização precoce" no Brasil, particularmente a partir dos anos 1950, com incentivos à industria nacional (nacional? Caterpillar? Volkswagen, Bosch?), distorceu os preços relativos de todos os cantos da economia. Mesmo admitindo outras importantes explicações para a descomunal distribuição da renda do Brasil, não é difícil entendermos que o fetichismo industrializante deixou de lado o culto à formação do capital humano.

Pois bem, então era óbvio que os salários rastejantes da economia brasileira contrastassem com as quuase-rendas tanto de capitalistas (e não falo de pro-labores) e principalmente do principado de funcionários públicos e, como tal, políticos. Então vejamos uma citação direta de Balassa (p.355):

The shift towards products with a high labour skill requirement is explained by the wage situation in Norway and the high educational level of the Norwegian labour force. As a result of the high productivity attained in the production of primary goods and internediate products at lower levels of transformation, wages reached levels approximating those of the major European countries. Correspondingly, industries relying to a large extent on unskilled and semi-skilled labour grew at a relatively slow rate (textiles, clothing, aod footwear) or even experienced a decline in output (lheather and leather producs), and the share of imports in the domestic consumption of these producs increaded substantially. In turn, the high educatonal level of the labour force permitted a rapid expansion in skill-intensive industries, such as engeneering and electrical machinery.

Olha só a situação atual de alguns países, em que destaco daqui a própria Noruega:

Claro que desigualdade per se não implicaria má educação, mas a verità é que não consigo imaginar um país mais igualitário e menos educado. O flagrante com o indicador do acesso ao crédito é fenomenal. E aquela relação entre a renda/consumo entre os 10% mais pobres e os 10% mais ricos?

Obviamente, não sabemos bem tudo o que esperar da abertura da economia brasileira. O que sabemos amargamente é que haverá formidáveis distorções que hoje levam o Brasil a ter precisamente o mesmo crescimento econômico rastejante e a mesma desigualdade característicos dos cantinhos mais aquecidos do inferno.

DdAB
P.S.: fora Janós, só conheço dois nomes de homem em húmgaro: Béla e Tibor. Haverá mais?
P..S.: imagem daqui. E parece que o que capturei foi a Finlândia...

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