domingo, 9 de outubro de 2011

... não vive, apenas aguenta.

querido blog:
nem sempre os domingos pedem cachimbo, nem sempre os domingos oferecem vida mansa. nem sempre os domingos tratam de superficialidades. nem sempre os domingos tratam de acontecimentos de domingo. ontem, sábado, mergulhei na bicicleta às margens do Rio Guahyba. ao voltar, passava pela Praça Estado de Israel, no Menino Deus de Porto Alegre, quando ouvi o que classifiquei de "um marginal" dizer para "outro marginal":

"[m] que tá querendo te dar uma punhalada nas cos[tas]."

traduzo: ouvi um finalzinho de palavra com "m", tipo "alguém" ou mesmo "Menén", se for o caso. e inseri o "tas" das "costas", pois não ouvi bem o final, pois minha bicicleta viajava a velocidade superior à do som.

gelei. pensei naquela coisa das gentes que dizem que este tipo de indivíduo exerce plenamente sua liberdade de escolha. afinal, ele escolheu esta vida de esbórnia e dissipação e não a da contemplação e do estudo. este argumento sempre me pareceu avesso ao primeiro princípio da lógica, mas tomei-me de coragem para desancá-lo quando li em Isahia Berlin algo sobre os "felás" (que aprendi num álbum de figurinhas da Editora Vecchi ser um camponês egípcio tradicional). dizia Berlin que nem quer discutir com aquela negadinha que acha que este indivíduo, com sua vida aparentemente bucólica, exerce plenamente sua liberdade. pensei, na verdade, em dois coitados, dois marginais que vivem à sombra da sociedade, acompanhados de tantos outros, para falar economês, cooperativos e competitivos. pensei que sempre incrimino o prefeito por este tipo de desmazelo da cidade e da sociedade ("suciedad", como dizia Quino).

e pensei que o marginal não estaria falando figuradamente (figuradamente, é "pelas costas"). não sei por quê, achei que ele falava mesmo de uma ameaça de luta ou traição a faca. Rubem Fonseca e Jorge Luis Borges. em parpticular, creio ter lido em Borges que os duelos a faca, tão comuns na Argentina do século XIX, deviam-se ao desequilíbrio sexual: muitos migrantes homens lutando por um número reduzido de mulheres. funcionalista, mas interessante.

e que se passa no Brasil contemporâneo? todas as campanhas de desincentivo ao uso de armas de fogo parece -tese que começo a investigar- que incentivaram é o uso de armas brancas. no outro dia, vi o anúncio de seis assassinatos a faca tudo na mesma página do jornal. ontem, li que o Brasil foi o campeão mundial de assassinatos, com quase 50 mil pessoas perdendo a vida de maneira ignóbil, num país sem justiça (não esquecer que agora os juízes ganharão R$ 32 mil).

não surpreende que tenhamos vivido aquela pantomima do "plebiscito das armas", outra manifestação de desvio dos verdadeiros temas da nacionalidade. obviamente o primeiro é a educação. que se desdobra em várias componentes, mas que nenhuma delas encontra-se realmente na -epa!- linha de tiro. quando falo em educação de adultos, obviamente estou pensando também naqueles dois marginais e no terceiro que, parece, vai encarregar-se de assassinar um deles (dos já citados ou um deles, terceiros). a renda básica universal ajudaria. e o serviço municipal, com sua brigada ambiental mundial é que são a verdadeira salvação da lavoura, ou melhor, da erradicação destas ervas daninhas que infestam o meio urbano por incúria societária. elegêramos o prefeito para isto.

DdAB
a foto é do Conselho de Justiça e Segurança do Menino Deus.



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