quinta-feira, 9 de junho de 2011

Conselhos de Mario Bunge

querido blog:
no outro dia, recebi a longa transcrição que farei em seguida. o tema "como estudar" é tratado lindamente por Mario Bunge. o tema, claro, é discussão sobre ciência. em particular, em que medida sou solipsista, egoísta racional ou apenas me considero o blogueiro mais importante do mundo. mais que isto, o tema é se o que penso ser a realidade é mesmo realidade ou é apenas fantasia. o exemplo mais manjado que pensei ser de Kaneman & Tversky (grafia???) e parece que é mais gelstaltiano do que eu juraria é o que espero apareça bem direitinho: vou escrever as pontas de setas invertidas "<" e ">". e, entre elas, vou colocar cnco sinas "=". vejamos o que pensas disto:

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eu penso que o superior é maior do que o inferior, não pensas também assim? ou eu penso o contrário e o inferior é que é maior? ou eu não penso nada? ou eu, que fiz o desenho, não posso dizer que há distorções na tela que fazem parecer que o que era para ser igual não o é? ou o quê?

então, nas p. 237-240 (obra a ser citada em post scriptum post postagem), lemos bela transcrição, que só pode ter sido feita por quem tem dedos dourados ou um bom scanner. ou, ao contrário, mente dourada capaz de escanear todo o conhecimento humano, como fazia décadas não víamos ninguém fazendo:

Capítulo 16:  Carta a uma Aprendiz de Epistemologia

Possível futura colega:

            Você me diz que está a ponto de ingressar na universidade e se interessa pela Filosofia da Ciência. E pergunta-me o que deveria fazer para converter-se numa boa epistemóloga.
            Após meditar durante quarenta anos sobre este problema, elaborei a seguinte receita para a formação de epistemólogos:
1.      Consiga uma família que lhe assegure uma capacidade inata de fazer trabalho intelectual intenso e variado, continuado e prolongado, além de profundo e original. E, agora, a sério: convença-se de que é capaz de realizar trabalho intelectual produtivo da única maneira possível – tentando-o. Aborde problemas intelectuais difíceis porém não impossíveis para o seu nível atual e esforce-se para resolvê-los. Examine os resultados de seu esforço e assegure-se de que essa classe de trabalho lhe agrada mais do que qualquer outra. Além disso, peça que a critiquem e comentem os seus ensaios. E não se desalente se a crítica for adversa: todo começo é inseguro.
2.      Frequente boas escolas e rodeie-se de gente inteligente e produtiva, com amplos interesses, bem como de profissões e idades diversas. (Uma escola ruim pode ensinar maus hábitos intelectuais, cortar vocações autênticas, ou dar uma segurança injustificada. E amigos superficiais ou improdutivos podem conseguir os mesmos maus efeitos.) Rodeie-se de bons livros e boas revistas. Seja onívora mas não devore tudo que está a seu alcance: selecione.
3.      Estude a fundo uma ciência ou tecnologia. Escolha uma ciência ou tecnologia que tenha atingido maturidade teórica ou esteja em vias de alcançá-la. Isso a colocará em contato com problemas filosóficos interessantes e difíceis e a obrigará a estudar Matemática, a linguagem de toda ciência madura. A menos que acredite sentir uma vocação irresistível para a Física ou a Química, não as escolha, porque hoje em dia necessita-se de uma dezena de anos de árduos estudos universitários para atingir a fronteira da Física ou da Química. Escolha, se possível, uma ciência em desenvolvimento, de fronteira mais próxima, tal como a Biologia Molecular, a Biologia matemática, a Bioengenharia, a Psicobiologia, a Sociologia matemática, a pesquisa operacional ou a Administração científica de empresas. Se assim o fizer, poderá chegar com relativa rapidez à fronteira e poderá abordar problemas científicos e epistemológicos tão apaixonantes como inesperados e ainda não enfrentados.
4.      Não se contente com ler e assistir a alguns cursos: faça estudos formais intensivos, submetendo-se a exames e cumpra os requisitos para obter o grau de licenciado numa ciência pura ou aplicada. Mas não se contente com isso; empreenda o quanto antes pesquisas científicas, primeiro com o auxílio de alguém, depois por si mesma. Do contrário se verá forçada a consumir e mais tarde vender produtos de cuja produção não terá a menor idéia. Do mesmo modo que para escrever bons poemas de amor é necessário amar, para bem filosofar sobre a investigação científica é preciso tê-la efetuado. Os filósofos que jamais a fizeram traçam caricaturas dela, do mesmo modo que os cartógrafos medievais, que sem jamais terem saído de sua terra natal desenhavam mapas imaginários de longínquas regiões. Tudo isso implica que não será suficiente uma licenciatura em ciências: oriente-se para um mestrado e, em seguida, para um doutorado. Isso, porém, ainda não será o bastante: será conveniente continuar toda a sua vida dentro da ciência, mesmo que apenas lecionando, para não perder de vista o objeto mesmo da Filosofia da ciência. O epistemólogo não deveria ser um cientista fracassado e tampouco um filósofo desencaminhado, mas um filósofo que teve sucesso na ciência mas que sentiu-se atraído mais pelos problemas filosóficos por ela suscitados que pelos problemas científicos particulares.
5.      Especialize-se numa determinada ciência ou tecnologia sem abandonar as outras disciplinas científicas: mantenha-se a par, embora à distância, do que acontece em todas as ciências se quiser fazer Filosofia da ciência em geral e não só a de sua especialidade. Para tanto, visite laboratórios, assista a colóquios, e leia literatura séria de divulgação. Lembre-se de que a ciência é um grande sistema formado por subsistemas que se alimentam e controlam mutuamente. E lembre-se também que as divisões do trabalho intelectual são ignoradas pelo mundo exterior.
6.      Estude Filosofia por sua conta ao mesmo tempo em que estuda ciência ou tecnologia, mesmo arriscando-se a que seus estudos científicos marchem com alguma lentidão. Para isso, terá que programar cuidadosamente seu estudo independente de Filosofia. (Se se dedicar por inteiro à ciência, deixando a Filosofia para mais adiante, poderá perder seu atual interesse pela segunda. E se se dedicar desde o início exclusivamente à Filosofia, talvez chegue tarde demais à ciência. A quem consegue o mais difícil pouco custará o menos.)
7.      Introduza-se à Filosofia por via histórica ou pela porta da Lógica, de acordo com sua disposição atual, mas não descuide de nenhum dos dois pólos. Siga os passos dos bons filósofos antigos, medievais, modernos e contemporâneos. Leia algumas de suas obras. (Leia os clássicos em boas traduções. Não perca tempo aprendendo línguas clássicas, já que precisa dele para aprender a língua universal das ciências, ou seja, a Matemática.) Dedique um ou dois anos aos estudos históricos, mas cuide de preservar toda a vida o trato amistoso com os gigantes do passado. Dedique outro tanto ao estudo da Lógica matemática e de suas aplicações à análise das idéias científicas e filosóficas. Este estudo de lógica talvez não lhe inspire ideias originais, mas a poupará de mais de uma falácia, acostumando-a à clareza e ao rigor e ajudando-a a ordenar os seus pensamentos. Uma vez munida das ferramentas históricas e lógicas mencionadas, destine um ano a estudar Filosofia geral da ciência assim como a Filosofia da ciência de suas especialidade. (Em realidade, posto que o assunto já a interessa agora, você já terá feito, a contrabando, leituras epistemológicas durante todo o período anterior. Tanto melhor. Nada como uma pitada de desordem adicionada a uma vida por demais ordenada para realçar o seu interesse). Finalmente, dedique o último ano à Semântica, à ontologia e à ética da ciência. Se você completar este programa estará em condições de passar ao nível seguinte, que é o da pesquisa original.
8.      Não se limite a estudar em livros: consulte revistas e escreva, escreva incansavelmente, desde simples fichas de dados até ensaios de extensão variável. Não guarde esses ensaios como se fossem cartas de amor; mostre-os a seus amigos, colegas e professores. Discuta-os em grupo. Forme um pequeno círculo epistemológico composto de pessoas de formação díspar mas unidas pelo interesse pela Epistemologia. Desta maneira poderá trocar informações e críticas, assim como receber e dar estímulos. Já vai longe a época do filósofo solitário que não saía de seu isolamento senão para galgar uma cátedra, de onde pronunciava frases oraculares, sem tentar interagir com seus colegas e alunos. O filósofo moderno se comporta como o cientista: além de estudar e escrever por sua conta, discute ativamente com alunos e colegas das mais diversas disciplinas. A busca da verdade, seja filosófica ou científica, é uma empresa social, não uma aventura solitária.
9.      Procure e exerça a crítica, mas não se deixe esmagar por ela e não a exerça por mero prazer. Exerça-a com moderação e com ânimo de contribuir para o avanço dos conhecimentos, e não para sobressair-se ou vingar-se. Lembre-se de que a crítica destrói o erro mas também pode matar a verdade. Lembre-se de que a maior parte das pessoas vê com desconfiança as idéias novas. E lembre-se ainda que, seja ou não justificada, a crítica não substitui a criação.
10.  Comece por abordar problemas modestos, mas aponte para problemas mais ambiciosos. A modéstia inicial é necessária em razão da escassez de conhecimentos, mas não se passa a vida no jardim de infância. Modéstia não é o mesmo que incapacidade. Comece averiguando o que pensa o grande filósofo X sobre o problema Y. E mais adiante procure novos problemas. Comece abordando um assunto bem circunscrito, talvez até distante, com o objetivo final de ampliá-lo ou de abordar eventualmente problemas inéditos. Mas, não se proponha a atingir a originalidade por si mesma: é fácil demais. De fato, para ser inovador na Filosofia basta (embora não seja necessário nem honesto) dizer disparates em linguagem obscura e com ar sério. (Os argentinos chamam essa atividade, sempre em moda nos países latinos, de macanear. Os franceses poderiam chamá-la de charlacanisme.) A finalidade da pesquisa filosófica, como a da científica, é a verdade geral e profunda formulada de maneira clara e exata. No caso particular da Epistemologia, uma idéia é verdadeira neste campo se, e somente se, corresponde fielmente à realidade da ciência. As ideias deste tipo não abundam porque para concebê-las é necessário submeter-se a uma longa aprendizagem, que nem todos estão dispostos a fazer.

Se você, possível futura colega, conseguir percorrer o longo caminho que lhe recomendo, se converterá gradualmente numa autêntica epistemóloga. Porém, se não procurar a autenticidade, mas somente fazer-se passar por epistemóloga para ganhar a vida, já sabe o que não tem a fazer. Como vê, a decisão que você está a ponto de tomar é de ordem moral, como o é toda decisão que possa afetar o próximo. Neste ponto, não servem conselhos. Apesar de tudo, não resisto ao impulso de dá-lo: Escolha o caminho longo, não apenas porque é o único capaz de levá-la aonde você deseja, e não só porque é o único honesto, mas também porque é o único interessante.

não é uma coisa querida? e adivinha se fui eu mesmo que escrevi este "não é uma coisa querida?". e adivinha se acho que teus sentimentos te enganam. e que tuas intuições podem trair-te. e que teus sentimentos não te enganam e que tuas intuições são o dom mais precioso que tens para te manteres na condição de um ser vivo e respirante.
DdAB
p.s.: a imagem veio do simpaticíssimo site do click. a primeira vez que vi esta imagem foi no livro de Rubem Alves, intitulado -não o Alves, por suposto- "Filosofia da Ciência; intridução ao jogo e suas regras", 5a. edição da Brasiliense, Sampa. na p.156 é que tá o desenho. e lê-se: "Meu ermão, já faz 11 anos que não vejo mais a velha!" e depois: "hoje, 13/nov/2005, vi." e ainda, "14/set/2008: procurá-la com o olhar pendendo para a diagonal. a jovem olha para a linha do horizonte." sábias palavras, não é?

P.S.S.: olha o que vou escrever em 4/nov/2014:
Primeiro, aquelas linhas têm nome: Müller-Lyer Illusion (aqui).
Segundo, postei coisas laterais aqui.
Terceiro, aquele blog do primeiro p.s. "click" deixou de funcionar. Este é um problema para tudo o que é link da internet. Teremos que construir a wikipedia dos mundos perdidos...

2 comentários:

Tania Giesta disse...

DUILIO:concordo em parte com a receita para a formação epistemóloga que descreveste para tua amiga, porem, esqueceste de acrescentar a importãncia das experiencias vividas e que sao essenciais em qualquer área de estudo. É necessário a vivencia, a pratica de todo ato de estudo para que ocorra de fato a aprendizagem , caso contrario nada foi assimilado, teremos somente a teoria, a hipotese...e, para que possas ajudar o menino de rua, ensina-lo a ler e escrever primeiramente temos que ver o mundo dele atraves de seus relatos e vivencias...
Abraços

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Taninha:
não vi o comentário no dia. apenas hoje! estás coberta de razão!
DdAB