Um de meus melhores livros de 2013 foi mesmo
PINHEIRO-MACHADO, Rosana (2011) Made in China: (in)formalidade, pirataria e redes sociais da China ao Brasil. São Paulo: Hucitec, Anpocs. 340p .
Cheguei tarde, não é mesmo? Inclusive perdi a defesa da tese em 2009 (ver). Do belíssimo livro Made in China, tirei vários aprendizados muito importantes e mesmo fiz uma certa história de ficção: menti para um menino de rua que se tratava de um romance em que a autora, sem nada de autobiográfico, contava a história de uma antropóloga que se apaixonou por um camelô porto-alegrense, começou a viajar com ele em sua busca de estoques em Ciudad del Este e, de lá, encarregou-se de abrir uma sucursal de sua banca de venda de guarda-chuvas no delta do Rio da Pérola, em plena República Popular da China. E este madeinchina do título do romance teria a ver com um casal de gêmeos que a personagem (Feifei) teria tido durante uma estada no vibrante país do verdadeiramente velho oeste, pois está a oeste do velho oeste americano. O menino de rua mentiu que acreditou, mas disse "se non è vero è ben trovato", pois lera o original e o amara. Também asseverou-me que iria mentir a seus colegas de departamento tratar-se de um sine qua non da academia literária moderna. A versão da própria Rosana é bem diferente, como podemos ler na p.28:
O objetivo deste livro é remontar e dar visibilidade a essa cadeia que uniu a China ao Brasil, via Paraguai, graças ao interesse despertado pelas mercadorias baratas chinesas a partir do final dos anos 70 e início dos 80. Trata-se dos bens que são produzidos nas fábricas das Zonas Econômicas Especiais da província de Guangdong, importados pelo Paraguai por imigrantes chineses e taiwaneses e, no último estágio, comprados por comerciantes brasileiros, que os revendem em mercados populares de suas cidades.
Pois bem, meu interesse pelo assunto dela (ela, China, ela, Rosana, ergo, Elas) surgiu quando li a resenha bibliográfica feita por Pedro Fonseca (coisas aqui e aqui*)e e publicada no indefectível (para mim) jornal Zero Hora (3/mar/2012). Mais de um ano depois, ao ler o livro, vi tratar-se de autora madura intelectualmente (para uma garota de cerca de 30 anos de idade) e já com carreira maiúscula!
Pois bem, bem. Eu mesmo já usei blusões de lã (ou acrílico) com gola rolê, eram golas enroladinhas, que protegiam a garganta contra o frio tropical (tropical no sul do Brasil?), mas que me irritavam a parte superior do pescoço ainda coberta pela barba. Daí, passou-se a falar em dar um rolê, que equivalia a dar uma banda e daí veio o bonde, um bonde de gente, algo assim, não sou muito bom nestas coisas de colher material etnográfico (mas tampouco sou, pensava mamãe, de jogar fora com a água do banho). Então o rolezinho é algo que meu editor do Google/Blog não captura e parece escapar da gola de blusão e mesmo do passeio, associando-se mais ao bonde com gente.
Seguimos com Rosana. Dá uma olhada lá embaixo com minhas duas estrelas**. E nas três ***.
E o Planeta 23? Nóis semo de opiniau que ta na ora do brazil crescê, tem que t chopin pra todos, tem que t saúde e enducação pra todos, tem que ter justiça, tem que botar os agatunados na cadeia, tem que chamar a corte internacional de aia pra dá um abeas corpus praus inocentes (ela, eu, você, e só)!
Precisa ser mais contundente?
DdAB
* E este aqui está aqui (com os recortes originais):
DE MAO A MELHOR
PEDRO CEZAR DUTRA
FONSECA
Quando o professor Ruben Oliven, do Departamento de
Antropologia da UFRGS, convidou-me para participar de uma banca de qualificação
de doutoramento, minha primeira reação foi de tratar-se de um engano. Já havia
antes participado de outras bancas, e até orientado trabalhos em áreas próximas
da economia, como ciência política, administração, história e sociologia, mas
na antropologia era a primeira vez. Ele esclareceu que a tese possuía forte
interação com minha área de trabalho e, como orientador, julgava indispensável
alguém com essa formação compor a banca. Houve época, como em meados do século
XX, que Antropologia Econômica era disciplina valorizada e integrava o
currículo das mais importantes universidades do mundo. Com a pós-modernidade,
entraram em refluxo na academia os “paradigmas totalizantes”, como o marxismo e
o estruturalismo, e o recurso às variáveis econômicas para explicar as
formações sociais e suas possibilidades de transformação perdeu o charme. Ademais,
interdisciplinaridade é como o “politicamente correto” – difícil quem se
declare contra, mas na prática são outros quinhentos.
Justamente esse caráter de transitar entre várias áreas das
ciências sociais – sem, contudo, perder sua sólida visão de antropóloga, posto
que a transdisciplinaridade supõe o conhecimento especializado – é um dos
pontos fortes da tese, ora publicada em livro (Editora HICITEC, 339 p.), de
Rosana Pinheiro-Machado. Made in China
obteve a primeira colocação da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Ciências Sociais) entre as teses de doutoramento do país. E o
referido caráter, além da notória atualidade do tema e da qualidade da
pesquisa, certamente pesou, mais recentemente, para que a CAPES lhe conferisse
o prêmio de melhor tese de 2011, concorrendo com todas as outras áreas do
conhecimento.
O livro começa com a síntese das primeiras pesquisas da
autora, ainda como estudante de graduação, entre os camelôs de Porto Alegre.
Logo percebeu que estes integravam um circuito; de onde vinham aquelas
quinquilharias? Quem ganhava com isso? Como chegavam até aqui, quem as trazia?
Em seu mestrado, Rosana Pinheiro-Machado foi atrás das respostas. Viajou com
sacoleiros, foi para a Tríplice Fronteira, entrevistou e conversou “informalmente”
com chineses, taiwaneses, brasileiros, paraguaios, mulheres e homens,
comerciantes, taxistas e policiais. Mas logo compreendeu que para fechar o
circuito precisava conhecer a origem de tudo: a China seria o tema de sua tese
de doutorado. O trabalho multi-situado traz consigo, portanto, a bagagem
acumulada dessas múltiplas experiências e vivências de pesquisadora atenta e
disciplinada.
A viagem “global” das mercadorias, da produção à ponta, é
acompanhada e relatada em primeira pessoa e em estilo vivo e direto, o que
torna a leitura agradável e de interesse de todos que querem entender com mais
acuidade a cultura, a vida e as práticas cotidianas do país que, depois de
décadas, consegue sinalizar para uma mudança na hegemonia das relações
internacionais – a lembrar o fato mais próximo de nós, conseguiu, depois de
quase um século, ultrapassar os Estados Unidos como maior parceiro comercial do
Brasil. As mercadorias viajam. Em algum lugar do planeta precisam realizar seu
destino: transformar-se em dinheiro. E com elas levam pessoas, mudam vidas, famílias,
cidades e países. Mesmo que se resista, é impossível não lembrar a metáfora de
Marx no capítulo primeiro d’O Capital, para quem elas, a partir de certa escala
de produção, se autonomizam e constituem como um mundo seu – o “mundo das
mercadorias” – com exigências e regras próprias, as quais subordinam os seres
humanos, que parecem estar a seu serviço, confundindo quem é sujeito e quem é
objeto. Mas o mesmo Marx, geralmente sisudo e não afeito a tiradas de humor
mais chãs, surpreende o leitor que vira a página para começar o segundo
capítulo com uma frase nada metafórica, mas de pura concreção, que na
tradicional tradução da Civilização Brasileira aparece como: “Não é com seus
pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria”.
As mercadorias precisam de pés e, portanto, de braços, de
cérebros e de mentes, e aí começa o trabalho etnográfico da antropóloga. Junto
com elas viajam sonhos, necessidade de sobrevivência, ânsia por ganhos fáceis e
nem sempre tão fáceis, laços de solidariedade, preconceitos, mitos, conflitos e
laços familiares ora desfeitos ora fortalecidos. Como no filme “Um Conto
Chinês”, o espaço não mais se impõe como limite. Vende-se no camelódromo às
margens do Guaíba o mesmo que em Ciudad del Este, no centro de Capão da Canoa ou
nas Ramblas catalãs, nos “turcos” de São Borja as mesmas quinquilharias
encontradas no Time Square ou nas
lojinhas do Quartier Latin.
Difícil destacar os pontos altos em trabalhos como esse, mas devo
mencionar pelo menos três. Primeiro: não fugir de questões polêmicas e, ao
enfrentá-las, evitar respostas superficiais, preferindo esclarecer o teor e as
nuanças da complexidade. O exemplo mais claro, e na ordem do dia da política
externa, é quanto aos limites do relativismo cultural como argumento para
aceitar a flexibilização de temas como direitos humanos e legislação social. A
descrição de alojamentos de trabalhadores nas indústrias chinesas (nos quais a
televisão, explicava o dono, era pequena, mesmo que as grandes não fossem tão
mais caras, para “não distrair muito” os trabalhadores), a discriminação contra
mulheres, o trabalho infantil, as jornadas superiores a 12 horas, as doenças de
fadiga, o sufocar das críticas – tudo isso pode ser aceito em nome de se tratar
“de outra cultura”? A autora percebe, com muita precaução, que o relativismo
cultural nesses casos, mais que a originária defesa das minorias sob a égide da
virtude da tolerância, serve como uma luva para a ideologia do poder e do status quo: “a China precisa crescer” é
a palavra de ordem, e o nacionalismo ad
hoc recomenda não importar os valores “ocidentais e burgueses”. Tudo,
portanto, se consagra como legítimo, até porque os trabalhadores ora gozam
melhores condições de vida em comparação com sua situação anterior: os mesmos
argumentos utilizados na Inglaterra da Revolução Industrial e com relação aos
nordestinos migrantes de São Paulo. Os ocidentais nem sempre entendem a China; afirma
a autora: “Autoridades e empresários parecem ecoar um mesmo som, apelando para
a piedade das populações vulneráveis – algo
que somente um nativo seria capaz de compreender”.
Em segundo lugar, a bela descrição teórica e vivencial do guanxi, laços pessoais recíprocos que
aproximam as pessoas, constituindo-se numa espécie de rede de relacionamento
entre elas, incluindo autoridades e empresários, em troca de presentes e
favores. É inevitável a lembrança do “jeitinho” e do “brasileiro cordial” de
Sérgio Buarque de Holanda, pois não se trata de uma instituição organizada e
hierárquica como a máfia italiana, mas de uma teia constituída a partir de
indivíduos; e, ao incorporar representantes do Estado, dá lugar ao
entrelaçamento entre o público e o privado. No Brasil? Não, na China. E tudo
isso num país “cujas leis raramente são cumpridas”, no qual “ainda [se] anuncia
o ditado popular ‘leis foram feitas para serem desobedecidas’ – conforme
jocosamente ouvi muitas vezes ao longo da pesquisa”. Mais interessante ainda é
o fato de, para a pesquisa poder viabilizar-se, a própria autora precisou
“estabelecer e cultivar” guanxi, arte
de relacionamento aprendida às vezes com sofrimento e abaixo de preconceitos (o
clichê “mulher brasileira, jovem e com boa aparência”, na China, à procura de empresários
emergentes e ricos exportadores para
fazer pesquisa???), sem o que não teria acesso às empresas e às pessoas que
precisava conhecer e entrevistar. Nesse aspecto cabe ressaltar sua relação com
Feifei, sua tradutora, intérprete, guia e facilitadora de relações – uma
personagem à parte que, por si só, já vale a leitura da obra. Foi com ela que
Rosana teve de aprender como “as coisas aqui funcionam” e, mais que isso, pelo
seu comportamento (sugestões, atos, ideias, práticas simbólicas pessoais e no
mundo dos negócios), intencionalmente ou
não, consegue expressar ao leitor, como nos quadros de uma exposição, retratos
dos modos e do estilos de vida de uma sociedade.
Finalmente, como terceiro ponto, o relato da visão dos
empresários integrantes do circuito e a linha tênue entre o formal e o
informal, entre o mercado “paralelo” e o “reconhecido”. “No mundo nada se cria,
tudo se copia” é o título de um capítulo. Não se trata de uma economia
“subterrânea”, ilegal, às escondidas. Só é falsificado o que merece ser. Como
afirma um alto executivo da fábrica D&G Benetton na China: “Se um dia uma
bolsa não for falsificada, aí vamos ter um problema sério”. Assim, a pirataria
vira marketing, o pretensamente
ilegal ganha status, o mercado acaba criando regras próprias à margem e junto
com o estado. As autoridades não apenas toleram, mas incentivam; a falsificação
é condenada, mas ao mesmo tempo praticada e abertamente defendida. Muitas vezes
os jornais locais noticiam que o governo agirá “energicamente” contra a
pirataria. Faz parte do jogo a negação, mas resta evidente sua
indissociabilidade tanto da flexibilização e da terceirização das atividades, como
da mundialização do circuito mercantil. Ou seja, justamente as marcas
estruturais do estilo de crescimento das últimas décadas, nas quais se assentam
o crescimento da China e de outros países asiáticos. Termos de conotação
costumeiramente jocosa ou de carga negativa - como contrabando, pirataria e
suborno - adquirem outros significados, posto que não só são tolerados, mas em
certos casos, pelo que se depreende, até incentivados pelas autoridades. Ocorre
na prática um arranjo muito peculiar entre mercado e estado que me ocorreu
chamar de “feixes” de legalidade (e de ilegalidade), até porque essas
atividades de produção e distribuição acabam influenciando significativamente o
desempenho invejável das variáveis econômicas integrantes da mensuração
contábil dos países, como PIB, balanço de pagamentos, arrecadação tributária e
ingressos de capitais.
Made in China, portanto, traz colaboração
inestimável para entendermos melhor a cultura desse país tão surpreendente e
ainda misterioso para nós, que cultua a memória de Mao Tsé-Tung e pressiona
diplomaticamente para ser reconhecido como economia de mercado; que
oficialmente é comunista, mas lidera a produção massiva e globalizada de
mercadorias e ressuscita relações de trabalho da época da Revolução Industrial;
que, ao lado do ateísmo oficial, adapta o confuncionismo ao espírito
capitalista, confundindo o leitor weberiano (aliás, muito bem abordado por
Rosana ao tratar “Do espírito do Capitalismo Chinês”, no capítulo 4). E que
está tão longe de nós geograficamente, mas, como a leitura permite perceber,
tão próximo em práticas e no imaginário coletivo: o país do futuro, que quer crescer
50 anos em 5, como o Brasil sonhou no século XX, o lucro fácil e rápido do
aventureiro salientado por autores como Sérgio Buarque de Holanda e Viana Moog,
a simbiose público/privado, as relações pessoais a perpassarem o mundo
“racional” dos negócios, o nacionalismo como ideologia do desenvolvimento, o
crescimento coetâneo com o aprofundamento das desigualdades. E enquanto nos
perguntamos até quando a China terá fôlego para crescer a taxas invejáveis, com
inflação baixa e sem mudanças nas instituições políticas e na legislação
social, tudo em plena crise internacional, o país parece não se preocupar com
essas mazelas teóricas dos economistas ocidentais. Ou vai de Mao a melhor, como
sugere a bem-humorada autora do livro.
E agora os dois asteriscos **:
O rolezinho é bom para pensar o Brasil
Rosana Pinheiro-Machado
(ZH/18/jan/2014, Caderno Cultura, última página, aqui)
Reações
aos encontros de jovens ajudam a entender questões estruturais do país
Por que o
fenômeno do rolezinho tornou-se o assunto mais falado no Brasil? Não tenho
dúvidas de que é por sua capacidade de aflorar, acirrar e dividir opiniões
sobre a questão de classes brasileiras somada à questão racial. Nos últimos
dias, temos assistido a uma parcela da população brasileira apoiando esses
jovens da periferia em seu exercício do direito de ir e vir. Mas também temos
visto o oposto: uma vasta massa de pessoas de todas as camadas sociais destilar
todo o seu preconceito de forma passional, nua e crua.
Tenho ocupado uma posição privilegiada para assistir a esses comentários. Escrevi um artigo chamado Etnografia do Rolezinho, que se tornou viral nos últimos dias nas redes sociais. No olho do furacão, tenho dedicado minha atenção para ler e entender essas expressões espontâneas que são fruto da facilidade da comunicação via redes sociais.
Um dos aspectos que eu levantaria nesse universo difuso de opiniões é o engajamento de pessoas da própria periferia, rejeitando os rolezinhos e manifestando seu descontentamento de forma bastante preconceituosa, uma vez que é possível que grupos que sofram discriminação possam reproduzir o preconceito sofrido como uma forma de negociar a sua condição no mundo, como um alívio para a dor – ao bater no outro, livra-se do fardo. Assim, há uma parte das camadas populares (especialmente composta por trabalhadores que possuem uma condição um pouco mais emergente) que diz: “vai trabalhar vagabundo” ou “que tal uma enxada?” (se fosse um rolezinho de mulheres, certamente a palavra seria substituída por “vassoura”). Todavia, isso é apenas uma porcentagem difícil de quantificar, mas é certo que os grupos das periferias urbanas tendem a cada vez mais apoiar o rolezinho. O grande descontentamento, na verdade, vem de camadas médias e altas, que veem a sua paz ameaçada. Entre esses setores, a verbalização se torna um pouco mais violenta: pede-se por maior policiamento e que esses jovens “tomem pau da polícia”. No entanto, essas posições não podem ser generalizadas para nenhum dos lados: há muito apoio e solidariedade vindos de todas as camadas sociais.
Não é exagero dizer que o rolezinho é tão bom para pensar o Brasil quanto os protestos de junho de 2013. Muitos jovens que ora estavam reclamando da ação policial, agora estão pedindo para que a polícia “dê porrada”. A sociedade está mais dividida hoje do que naquela ocasião. E essa polícia tende a agir para um lado dessa divisão, para manter uma ordem particular e relativa. Nunca me esqueço de um policial que entrevistei em 2005 na fronteira Brasil-Paraguai. Perguntei se ele não tinha, às vezes, pena de algum pequeno comerciante que tivesse a mercadoria apreendida. Ele me olhou fundo e disse: “A gente aprende a ter ódio, ódio generalizado, ódio a todos os vagabundos”.
O que tenho visto no Brasil nos últimos dias é ódio e medo. Medo de uma massa supostamente desordenada, incontrolável. Ódio dirigido a uma camada “vagabunda” que deveria estar trabalhando. É claro que, nessa percepção, o fato de esses jovens terem dificuldade de entrar no mercado de trabalho – por não terem adequada qualificação, por terem sido rodeados de nãos de todas as ordens – não é levado em consideração. O tema da violência estrutural é pouco debatido. Poucos querem tentar fazer o esforço de se colocar no lugar do outro: de imaginar o que é uma vida de recusa diária marcada pelo tráfico, pela falta de professores e pela falta por saúde. Poucos querem fazer o esforço de imaginar como um pobre negro é tratado em um hospital. Idealmente, a vida dos livros e do trabalho é muito louvável. Mas quantos de nós conseguimos entender o significado do que um jovem do Morro da Cruz disse a minha colega de pesquisa, dra. Lucia Scalco: “Eu não tenho dinheiro para comer. Mas gastei 500 reais em um boné”. Lucia perguntou por que, e ele respondeu: “Eu sinto que o boné é uma capa de super-herói que me protege e me empodera”.
Hoje, após a repercussão, os rolezinhos são um movimento difuso e amplo, de diversão e de política. Porém, todos eles mantêm o shopping como um lugar central. Independente da intenção, o rolezinho só faz sentido no templo do consumo, no coração da sociedade capitalista. Nada disso é novo: os grupos populares brasileiros, desde a abolição da escravatura, sempre ocuparam espaços da cidade como forma de diversão investida de política. Basta voltar às nossas produções acadêmicas clássicas, como a obra Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho, que, por exemplo, retrata a violência do Estado para com os capoeiras no Rio de Janeiro no início do século 20. Em Porto Alegre, na década de 1940 e 1950, a prestigiosa Revista do Globo trazia frequentes matérias sobre os grupos “marginais” que tiravam a paz da população urbana que queria viver o sonho de uma cidade europeia, como comenta a historiadora Sandra Pesavento. A marginalidade tem assumido múltiplas faces na história do Brasil, mas há algo de estrutural: ela é vista como algo fora do lugar, uma massa de vagabundos. Lembro ainda da antropóloga Eunice Durham e do sociólogo Chico de Oliveira, que nos mostraram que, em nossa história, criou-se a imagem de um Brasil moderno e desenvolvido, e de um outro, arcaico e subdesenvolvido. É possível ainda acrescentar: um, branco e de elite, outro, negro nas periferias. Esses “dois Brasis” não se tocam, mas, quando isso acontece, o primeiro lado usa de suas armas mais poderosas: a força policial que varre a tudo e a todos.
Não é minha intenção dizer que os capoeiras e o rolezinho são a mesma coisa na história. Seria uma comparação simplista, pois o século 21 nos apresenta um mundo mais globalizado e interconectado. Mas há uma estrutura que se repete ciclicamente. A novidade é que hoje temos a chance de discutir de forma mais aberta, rápida, cuspindo todo o processo de discriminação engasgado. Os jovens da periferia, se estavam interessados apenas em dar um rolê, agora estão se dando conta de sua força. E não têm se contentado em ser parte daquele Brasil arcaico, que se esconde longe dos olhos da população em sua cega zona de conforto. Esses jovens querem ser vistos com sua capa de super-herói. Eles não querem ser reconhecidos por meio da exotização e da romantização da cultura popular, mas por uma apropriação singular dos símbolos mais altos do poder (as marcas) e dos espaços (os shoppings). O rolezinho é um alívio temporário capaz de transmutar exclusão em inclusão – inclusão ainda longe de ser de fato e de direito. Termos a consciência desse debate – ou fazer emergir o discurso social camuflado – é certamente o primeiro passo.
Tenho ocupado uma posição privilegiada para assistir a esses comentários. Escrevi um artigo chamado Etnografia do Rolezinho, que se tornou viral nos últimos dias nas redes sociais. No olho do furacão, tenho dedicado minha atenção para ler e entender essas expressões espontâneas que são fruto da facilidade da comunicação via redes sociais.
Um dos aspectos que eu levantaria nesse universo difuso de opiniões é o engajamento de pessoas da própria periferia, rejeitando os rolezinhos e manifestando seu descontentamento de forma bastante preconceituosa, uma vez que é possível que grupos que sofram discriminação possam reproduzir o preconceito sofrido como uma forma de negociar a sua condição no mundo, como um alívio para a dor – ao bater no outro, livra-se do fardo. Assim, há uma parte das camadas populares (especialmente composta por trabalhadores que possuem uma condição um pouco mais emergente) que diz: “vai trabalhar vagabundo” ou “que tal uma enxada?” (se fosse um rolezinho de mulheres, certamente a palavra seria substituída por “vassoura”). Todavia, isso é apenas uma porcentagem difícil de quantificar, mas é certo que os grupos das periferias urbanas tendem a cada vez mais apoiar o rolezinho. O grande descontentamento, na verdade, vem de camadas médias e altas, que veem a sua paz ameaçada. Entre esses setores, a verbalização se torna um pouco mais violenta: pede-se por maior policiamento e que esses jovens “tomem pau da polícia”. No entanto, essas posições não podem ser generalizadas para nenhum dos lados: há muito apoio e solidariedade vindos de todas as camadas sociais.
Não é exagero dizer que o rolezinho é tão bom para pensar o Brasil quanto os protestos de junho de 2013. Muitos jovens que ora estavam reclamando da ação policial, agora estão pedindo para que a polícia “dê porrada”. A sociedade está mais dividida hoje do que naquela ocasião. E essa polícia tende a agir para um lado dessa divisão, para manter uma ordem particular e relativa. Nunca me esqueço de um policial que entrevistei em 2005 na fronteira Brasil-Paraguai. Perguntei se ele não tinha, às vezes, pena de algum pequeno comerciante que tivesse a mercadoria apreendida. Ele me olhou fundo e disse: “A gente aprende a ter ódio, ódio generalizado, ódio a todos os vagabundos”.
O que tenho visto no Brasil nos últimos dias é ódio e medo. Medo de uma massa supostamente desordenada, incontrolável. Ódio dirigido a uma camada “vagabunda” que deveria estar trabalhando. É claro que, nessa percepção, o fato de esses jovens terem dificuldade de entrar no mercado de trabalho – por não terem adequada qualificação, por terem sido rodeados de nãos de todas as ordens – não é levado em consideração. O tema da violência estrutural é pouco debatido. Poucos querem tentar fazer o esforço de se colocar no lugar do outro: de imaginar o que é uma vida de recusa diária marcada pelo tráfico, pela falta de professores e pela falta por saúde. Poucos querem fazer o esforço de imaginar como um pobre negro é tratado em um hospital. Idealmente, a vida dos livros e do trabalho é muito louvável. Mas quantos de nós conseguimos entender o significado do que um jovem do Morro da Cruz disse a minha colega de pesquisa, dra. Lucia Scalco: “Eu não tenho dinheiro para comer. Mas gastei 500 reais em um boné”. Lucia perguntou por que, e ele respondeu: “Eu sinto que o boné é uma capa de super-herói que me protege e me empodera”.
Hoje, após a repercussão, os rolezinhos são um movimento difuso e amplo, de diversão e de política. Porém, todos eles mantêm o shopping como um lugar central. Independente da intenção, o rolezinho só faz sentido no templo do consumo, no coração da sociedade capitalista. Nada disso é novo: os grupos populares brasileiros, desde a abolição da escravatura, sempre ocuparam espaços da cidade como forma de diversão investida de política. Basta voltar às nossas produções acadêmicas clássicas, como a obra Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho, que, por exemplo, retrata a violência do Estado para com os capoeiras no Rio de Janeiro no início do século 20. Em Porto Alegre, na década de 1940 e 1950, a prestigiosa Revista do Globo trazia frequentes matérias sobre os grupos “marginais” que tiravam a paz da população urbana que queria viver o sonho de uma cidade europeia, como comenta a historiadora Sandra Pesavento. A marginalidade tem assumido múltiplas faces na história do Brasil, mas há algo de estrutural: ela é vista como algo fora do lugar, uma massa de vagabundos. Lembro ainda da antropóloga Eunice Durham e do sociólogo Chico de Oliveira, que nos mostraram que, em nossa história, criou-se a imagem de um Brasil moderno e desenvolvido, e de um outro, arcaico e subdesenvolvido. É possível ainda acrescentar: um, branco e de elite, outro, negro nas periferias. Esses “dois Brasis” não se tocam, mas, quando isso acontece, o primeiro lado usa de suas armas mais poderosas: a força policial que varre a tudo e a todos.
Não é minha intenção dizer que os capoeiras e o rolezinho são a mesma coisa na história. Seria uma comparação simplista, pois o século 21 nos apresenta um mundo mais globalizado e interconectado. Mas há uma estrutura que se repete ciclicamente. A novidade é que hoje temos a chance de discutir de forma mais aberta, rápida, cuspindo todo o processo de discriminação engasgado. Os jovens da periferia, se estavam interessados apenas em dar um rolê, agora estão se dando conta de sua força. E não têm se contentado em ser parte daquele Brasil arcaico, que se esconde longe dos olhos da população em sua cega zona de conforto. Esses jovens querem ser vistos com sua capa de super-herói. Eles não querem ser reconhecidos por meio da exotização e da romantização da cultura popular, mas por uma apropriação singular dos símbolos mais altos do poder (as marcas) e dos espaços (os shoppings). O rolezinho é um alívio temporário capaz de transmutar exclusão em inclusão – inclusão ainda longe de ser de fato e de direito. Termos a consciência desse debate – ou fazer emergir o discurso social camuflado – é certamente o primeiro passo.
E aqui as três estrelas:
Do
meu Facebook:
Em
2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno
dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e
íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens
da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas.
Eles contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas
as possibilidades em nossos papers). Havia uma agência (no sentido de prazer de
Appadurai) impressionante nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam
assustar, porque nem imaginavam que discriminação fosse tão grande que eles
pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de
usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping. Uma vez um
menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser
visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da
visibilidade de sua existência. Mas noutro canto, os donos da loja se
assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse
à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não
adianta eles se vestirem com marca e vierem pagar com dinheiro. pobre só usa
dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no
entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das
lojas. Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos
envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses
marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer
propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando eu mostrei
o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando
a gente vê a figura toda montada marca estampada, já vê que é negão favelado”.
Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse
mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão,
“pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos
Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina
desafiava o seu destino: “kiido papai noel: eu me comportei, eu passei
de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da
Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio
de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de
marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir
material escolar e bicicleta!
Eu
tenho ficado quieta nesse caso do rolezinho porque este talvez seja o assunto
que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é
justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas
interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão
novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este
tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não
há uma grande diferença do rolezinho organizado e ritualizado das idas aos
shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares
nunca tenha sido um ato ordinário), eu vejo uma continuidade que culmina num
fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é
um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços
que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas
medias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há
certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas
muito mais profundas por trás disso.
Eu
estou acompanhando os rolezinhos e sinto certo prazer em ver aquela
apropriação. Mas entre apropriação e resistência há uma abismo significativo.
Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia
de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo
não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque
descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em
desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem
venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das
dependências será eterna: a ideológica. Por isso, para entender a relação que
as periferias globais tem com as marcas e os shoppings, é preciso voltar para
os estudos colonialistas e pós-colonialistas. A apropriação de espaços símbolos
hegemônicos, desde Mitchell até Newell, passando por Bhabha, Rouch e Ferguson,
nos mostra uma permanente tensão na apropriação que tenta resolver a brutal
violência que esta por trás desse ato. O meu lado otimista, não nega o que
esses jovens nos disseram: do prazer que sentem em se vestir bem e circular
pelo shopping para SER VISTO. Meu lado pessimista, tende a concordar com
Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para
pertencer à ordem global. É preciso entender o rolezinho dentro de uma
perceptiva do Global South de séculos de violência praticada na tentativa de
produzir corpos padronizados, desejáveis e disciplinados.
O
pobre no shopping repete a mimeses de Bhabha. A classe media disciplinada vê os
jovens vestindo as marcas do mercado hegemônico para qual ela serve. A classe
media vê os sujeitos vestindo as mesmas marcas que ela veste (ou ainda mais
caras), mas não se reconhece nos jovens cujos corpos parecem precisar ser
domados. A classe media não se reconhece no Outro e sente um distúrbio profundo
e perturbador por isso. Não adianta não gostar de ver a periferia no shopping.
Se há poesia da política do rolezinho é que ela é um ato fruto da violência
estrutural (aquela que é fruto da negação dos direitos humanos e fundamentais):
ela bate e volta. Toda essa violência cotidiana produzida em deboches e recusa
do Outro e, claro também por meio de cacetes da polícia, voltará a assombrar
quando menos se esperar.
2 comentários:
Só o conhecimento salva. A libertação se dá através do conhecimento.
O erro da esquerda é querer focar em luta de classes, querer equalizar as diferenças à base de benesses.
Lutar pelo ensino de qualidade tem que ser o foco. Nada além disso importa.
Certíssimo, Anônimo, sem educação, não há solução! Eu acrescentaria a teu diagnóstico sobre a esquerda que falas da "esquerda tradicional", enquanto que aquela esquerda libertária, herdeira do Março/1968 francês e outras manifestações humanistas jamais perderá a responsabilidade por transformar o mundo.
DdAB
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