06 abril, 2018

Lula na Cadeia: justiça ou milagre


Querido blog:

Prá rir, rir, rir (da justiça, de nós mesmos, já que o Aécio e sua turma estão fazendo-o):

Ontem escrevi no Facebook e recoloquei aqui a seguinte consideração: "é bem escandaloso seis doutos pensarem diametralmente de modo oposto a cinco doutos; Thomas Kuhn diria que, neste caso, não são doutos". Estava referindo eu o "cinturão protetor" de que nos fala Kuhn sobre as teorias. Se elas dão problemas, ao invés de descartá-las, devemos ter um conjunto de regras que nos permitam mantê-las, considerando casos particulares.

Mas agora temos Karl Popper himself a inspirar-nos a fazer novas reflexões e considerações: jamais saberemos se a condenação de Lula, a negação de seu habeas corpus, se deve à sabedoria jurídica daqueles seis juízes milionários (e distração dos outros cinco) ou apenas a um milagre desencadeado pela famosa reza do promotor Dalanhol.

DdAB
Foto: casinha no Clube Cantegril de Viamão. Intenção: cantar a canção "Vamos Fugir". E lembrar os versos parece-me que de Wendy amiga do Peter Pan:
Uma casinha quero ter
Que menor não haja no mundo
Terreno bem limpo na frente
Jardim de mil flores no fundo.
P.S. Para referências futuras, vai aqui o nome da turma toda:
Karl Popper (*1902; +1994), Thomas Kuhn (*1922; +1996, Imre Lakatos (*1922; +1974) e Larry Laudan (*1941).

05 abril, 2018

Lula Lá, Lula na Cadeia, Lula no Nobel


Querido blog:

Escrevi no Facebook há instantes:

No ano de 1965, estudava eu no "Julinho", segundo ano do ensino médio, cursando uma disciplina de matemática em que o programa era de geometria (áreas e volumes) e algum outro conteúdo mais digerível. O professor se chamava Antonio Ribeiro, um velhinho sinistro de voz tonitruante, une vrai horreur. Pois o prof. Ribeiro era acolherado com os militares. E, no dia 31 de março de 1965, tomou o espaço de uma aula inteirinha para elogiar a "revolução". Nós todos, a maioria de nós, pelo menos, não compartilhava daqueles pontos de vista, mas era difícil contrariá-lo. Era sinistro e de voz tonitruante. E nós éramos adolescentes. E quem o contrariava tinha lá seus problemas. Por exemplo, um dia eu tentei argumentar que o socialismo era inevitável, como acabara de ler no jornal ser uma previsão do já falecido padre Pierre Teillard de Chardin, muito popular no Brasil à época. Não sei se foi minha única tentativa de trazer um modesto breve anti-dogmatismo àquele ambiente. O fato é que a figura sinistra de voz tonitruante rapidamente convenceu-me de minha insignificância e não garanto mas provavelmente andei tomando jeito e calando a boca.
Pois foi o velhinho de seus 50-60 anos que disse algo que o diferencia da direita mais desabotinada. Não lembro qual era o assunto, mas ele deixou claro que a lei (jurídica) não pode ser endereçada a um indivíduo, a lei tem que ser para todos. Por exemplo, alguma lei garantindo-me o título de imperador do Brasil (ou de uma escola de samba do Brasil), algo assim. Mas houve muitas vezes iniciativas muito piores, como as que grassam na política brasileira.
Pois então. Lula foi condenado por aqueles 6x5 de que falei várias vezes no blog (sugerindo demitir os cinco perdedores e, ao longo do tempo, tentar montar uma plêiade composta por pessoas decentes, apartidárias, e mais afinadas com alguma interpretação mais objetiva da lei, da constituição, das mesadas, do auxílio moradia, essas coisas cotidianas; falei isto como piada, mas é bem escandaloso seis doutos pensarem diametralmente de modo oposto a cinco doutos; Thomas Kuhn diria que, neste caso, não são doutos).
Parece óbvio que este tipo de argumentação dos doutos (ver Kuhn) estava endereçada precipuamente a prender Lula. Aliás, nem precisariam prendê-lo, pois ficou claro que aquele arranjo de prisão em primeira instância não precisaria ser obrigatório. E aí é que se coloca minha tristeza no dia de hoje: claro que Lula não precisaria ser preso até receber a condenação transitada em julgado, pois é um rapaz de boas maneiras. Se é que iria recebê-la, pois aquela bobajada de assim chamada justiça de Curitiba só serve para desmoralilzar a justiça.

DdAB
P. S. Tá claro meu ponto? Botar um ex-presidente da república na cadeia sem culpa formada é jogar-nos-manter/nos no mesmo clube de outras republiquetas que não trilham o caminho da decência. O fato é que a prisão resultante dessa condenação em segunda instância não é compulsória. Mas seria o juiz Moro (como lembramos, "juiz  Moro é oximoro"), cujo pai e um cachorro doberman são filiados ao PSDB, não terá contemplação.

P.S.S. Comentários lá no Facebook
Christiano Avanegra Sempre aprendendo, adorei o tonitruante. Fico a imaginar o terror de uma aula com um militarista... O dia de hoje eh muito triste para todos nós.
Raquel Dias Querido professor ! Para ir adiantando hoje já publiquei minha receita de bolo! Coragem
Duilio De Avila Berni Querida: por circunstâncias esdrúxulas, madruguei hoje e vi a publicação, mas -nesse mundo esdrúxulo que frequentei na madruga- não assinalei como curtindo. A verdade é que levei uns bons momentos para entender. De imediato, lembrei dos velhos tempos, tempos de jornalismo mais decente, com o jornal O Estado de São Paulo.
Duilio De Avila Berni Notate bene: escrevi o que lemos no cerne do mural "par coeur" e transcrevi ao blog. Não precisa ir pra lá... Mas lá coloquei um P.S. que acho que merece: P. S. Tá claro meu ponto? Botar um ex-presidente da república na cadeia sem culpa formada é jogar-nos-manter/nos no mesmo clube de outras republiquetas que não trilham o caminho da decência. O fato é que a prisão resultante dessa condenação em segunda instância não é compulsória. Mas seria o juiz Moro (como lembramos, "juiz Moro é oximoro"), cujo pai e um cachorro doberman são filiados ao PSDB, não terá contemplação.
(Link para o livro de mesoeconomia da Bookman)
Erminio Mauro Berni Meu caro, que assim seja a tua ideia de justiça, mas a pergunta que não quer calar é. Como ficam todos os outros que tb estão presos e que poderiam beneficiar-se com a não prisão em 2 instancia? Ou haveria o uma terceira, uma quarta ou talvez até uma quinta instancia, alias muito bem lembrada por José Neumane ontem na Cultura, então fica a pergunta a lei tb é para todos? Ou apenas a quem tem dinheiro para pagar poupudos valores a advogados? Que alias segundo o proprio Lula não tem dinheiro algum? Bem fica no aguardo de tua elucidativa resposta, entretanto se o socialismo é tão adorado e amado pq não morar na Russia por exemplo?
Duilio De Avila Berni Caro Parente, tem tanta observação em teu comentário que acho que terei que fazer uma postagem no blog específica sobre ele. Do acho, passo à promessa: assim que a fizer, vou avisar-te e poderemos prosseguir no diálogo. Garanto-te publicação ipsis litteris de toda tua argumentação. Aliás, recomendo-te uma leitura de postagens a serem guiadas por tua curiosidade e o motor de busca do próprio blog.
Antecipando-me à resposta que te darei oportunamente, aviso que vais encontrar por lá várias sugestões minhas sobre o fechamento do poder judiciário e substituição por uma empresa júnior de alguma universidade, digamos, norueguesa. Nesta linha é que critico, como viste por aqui, aqueles escores de 6x5.

Erminio Mauro Berni Duilio De Avila Berni FICO EM TEU INTEIRO DISPOR, QTO AO FECHAMENTO DO JUDICIARIO, CREIO QUE DEVA SER UM EUFEMISMO OU NÃO?????

Vou responder a Erminio Mauro Berni nos próximos dias. 
Ao fazê-lo, não poderei esquecer de citar a movimentação da juíza Rosa Weber entre os cinco e entre os seis.
A imagem pode conter: 1 pessoa, meme, óculos e texto
Nem a informação que tenho de que a condenação brasileira em segunda instância é problemática, pois na primeira quem condena não é um colegiado, mas ocorre uma decisão monocrática. Os estudiosos de "sistemas jurídicos comparados" poderão se pronunciar sobre este ponto, para o qual não tenho preparo nem desejo de situar-me. O que sei é que Mino Carta afirma que, na itália (e talvez em outros países), as decisões desde a primeira instância são colegiadas. Nesta linha e no apontamento de tantos erros cometidos pelo juiz Sérgio Moro é que comecei a alardear que "juiz Moro é oximoro".
Amartya Sen e o livro "The Idea of Justice", o mais empolgante livro técnico que li na vida.
Ver: https://plato.stanford.edu/entries/justice/

e isto entrou no mural de Marcelo de Oliveira Passos:
Duilio De Avila Berni
Duilio De Avila Berni Vejamos, então, o que ele vai fazer agora, mesmo que usufruindo a condição de preso político, sendo afastado da presidência da república. Eu aposto que ele terá um papel maiúsculo na união das esquerdas.
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Marcelo De Oliveira Passos
Marcelo De Oliveira Passos É inegável, Duilio, que ele possui - aliás sempre possuiu em todas as eleições de que participou - cerca de 30% do eleitorado. Isso, não é nada, não é nada e é o maior capital político do país. E ele pode transferir, ao menos uma parte, para outro(a) candidato(a). Quanto a unir as esquerdas... bem, ele é o único capaz disso. Mas não sei se ele quer isso, pois o PT saiu muuuito chamuscado nesse imbroglio todo. Eu não sei se alguns partidos de esquerda gostariam de se coligar ao PT e pagar o preço de uma rejeição enorme (a não ser a nível regional, mas em uma eleição nacional acho difícil). Mas discordo da visão de que ele é um preso político. Nunca vi preso político ser condenado por 15 juízes, em um país democrático e com todos os rigores do due process of law. Ele cometeu crimes e está sendo julgado por isso. Se puder, veja a entrevista que o Miro Teixeira concedeu sobre a prisão do Lula. Ninguém resumiu melhor a questão do que ele, a meu ver. Abs.
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Duilio De Avila Berni
Duilio De Avila Berni Talvez ele não consiga unir a esquerda, é verdade. Mas talvez consiga. Vejamos os próximos meses, as movimentações, as diferentes definições de esquerda, os programas, muitos deles já circulando nos meios pertinentes.

Quanto aos 15 juízes, a verdade é que o poder judiciário não goza de grande prestígio nos dias que correm. O resto do que falas, é subjetivo: país democrático, rigores processuais, criminoso (pedalinhos, apartamento registrado em nome de terceiros). Desde o impeachment tenho visto divisões profundas entre os litigantes e argumentações perfeitamente coerentes para os olhos de gente de meu porte. Agora vemos precisamente a mesma divisão. Aqueles casos de decisões por renomados juristas vencendo de 6x5 renomados juristas dá uma ideia da subjetividade em todos os processos. Raramente, vemos um 11x0.


Vivemos um momento difícil em que a divisão esquerda-direita mostra-se com clareza. E eu gostaria de ver as contendas resolvidas por meio de eleições. Mas já houve eleição, a presidenta Dilma foi eleita e sua deposição foi daquelas que levou os juristas a jogaram aquele 6x5.


02 abril, 2018

A Economia de Compartilhamento e a Revolução Proletária


Querido blog:

Todo mundo sabe chamo de Capital dos Carta a revista que -otherwise- é designada pelos donos como Carta Capital. Não tenho coisa melhor para ler, pois não nego que ela possui alguma extração de esquerda, mas tem lugares comuns ("mídia nativa", "casa grande") que cansam, precisamente por não serem muito analíticos e, nesta linha, desviam o foco de substantivos para locuções adjetivas. Mas meu verdadeiro problema com a revista de que sou assinante há mais de uma década é que seu nacionalismo fere meu internacionalismo, seu projeto de estado nacional fere meu sonho de governo mundial, sua visão de reindustrialização fere minha proposta de reeducação. Ela, a Carta do Mino, dá informação, mas muita interpretação que me parece apontar para um projeto mais ou menos tradicional de conduzir a esquerda ao poder e de -em lá chegando- conduzir-se convencionalmente. Pois não fosse por tudo isso, eu teria lido com isenção a entrevista de Tom Slee (detalhes na nota 1) em que se baixa pau, pau e mais pau no serviço de transporte urbano de passageiros por meio do Uber e outras manifestações do mundo P2P e os serviços por eles viabilizados.

Cheguei a ela por meio de uma publicação feita por Sérgio Kapron no Facebook, de cuja maneira de ver estes aspectos divirjo transversalmente. Mas não vou falar nisto frontalmente. E espero que ele não pense que estou plagiando ou fugindo do debate. Para resumir, minha primeira proposição é que os trabalhadores do Uber são explorados tanto quanto os demais, especialmente se considerarmos que "exploração" não é fenômeno de natureza individual, mas de uma classe relativamente a outra.

Sobre exploração: Marx falava que os trabalhadores são livres em dois sentidos. O primeiro é serem livres para irem onde bem entendem e o segundo é serem livres de qualquer propriedade. Sendo trabalhadores livres, como falar em exploração, se -mantendo-me alinhado com Marx- a transação que levou o trabalhador a vender uma jornada de trabalho ao capitalista foi uma transação justa? Quer dizer, o trabalhador recebeu o valor acordado e o capitalista pagou o valor de mercado. Então tá tudo bem? Claro que não: não acabei de falar que, no capitalismo, sempre uma classe irá explorar a outra? Uma classe comprará uma mercadoria (a força de trabalho) e, ao utilizá-la, verá que esta gera um produto maior que seu próprio valor, a mais-valia.

A primeira questão a considerar quando avaliamos as consequências perversas do funcionamento do modo capitalista de produção sobre a vida em geral e, em particular, a classe trabalhadora (e podíamos, por exemplo, estar falando do meio-ambiente), é sabermos se nossa intenção é fazer reforma ou revolução. Possivelmente a reforma será bem comportada, na medida em que tentará reter o que se consideram virtudes do capitalismo, tentando também por via de políticas públicas, eliminar as principais mazelas. Um sistema não se destrói senão depois de plenamente desenvolvido. O capitalismo financeiro não é mais que uma etapa do modo capitalista de produção e mostra ainda enorme vitalidade, como o demonstra a infiltração das relações capitalistas nas próprias atividades de provisão governamental, como as prisões e os hospitais. Andrew Glyn referiu-se a isto em seu "Capitalism Unleashed". Minha preocupação com a conservação do "capitalismo tradicional anterior à terceira revolução industrial (a da informática) é a profunda crença em uma teleologia específica para o capitalismo. O futuro deste modo de produção é a financeirização, mas com possibilidades de crescimento ilimitado também em outras frentes, como é o caso dos transportes aero-espaciais (percorrendo distâncias interplanetárias) e os cuidados médicos (prolongando a vida).

Mas tenho outro ponto ainda mais fundamental para impedir-nos de ser contra o progresso. Este deriva-se de minha compreensão da natureza da matriz de contabilidade social (aqui). Ela nos ajuda a entender que "a luta de classes" (no sentido de Ricardo, Marx e Weber) aparece no bloco B21 (venda dos serviços dos fatores aos produtores), ao passo que, no mundo moderno, cada vez mais o que interessa é a luta entre instituições, no bloco B33, como é o caso da ação do governo com a cobrança do imposto de renda sobre as famílias ricas e a transferência, por exemplo, como renda básica da cidadania às famílias pobres.

Na fase atual do desenvolvimento do capitalismo, os ganhos de eficiência produtiva são óbvios, os de eficiência alocativa são meia-boca e os de eficiência distributiva são caóticos. Uma vez que estou no clube dos que preferem reforma a revolução, penso que é mais fácil reformar aqui e ali do que voltar a tentar alcançar o poder por meio de uma revolução. Penso (prefiro) um estilo de governo social-democrata que faça a justiça distributiva por meio das tradicionais políticas públicas, encarregando-se da provisão de bens públicos (justiça, coleta de lixo) e bens de mérito (educação, habitação). Ou seja, imposto progressivo (registrado no bloco B33 da matriz recém referida e redução da participação no bloco B32, deixando de interferir desnecessariamente (deve fazê-lo, claro, com cigarro ou cachaça) na formação dos preços relativos (ou seja, reduzindo ao máximo os impostos distorcivos). E com gasto regressivo, nas áreas que já referi -educação, habitação- e em outras como transportes, cultura, o que deve ser feito pela expansão da demanda de setores selecionados lá no bloco B13.

Veremos abaixo que a apresentadora do artigo publicado na Carta diz: "Slee explora como a bilionária plataforma de "caronas" evita o pagamento de impostos". Que posso dizer sobre este ponto que já não o tenha feito em milhares de oportunidades? Vou apenas repetir-me: quem disse que o setor de transportes individual deve pagar impostos indiretos? Quem o está considerando um bem de demérito? Que concepção de sistema tributário é essa que requer pagamento de impostos indiretos? Por que estes defensores da tributação indireta não mudam o foco e passam a defender a isenção de impostos de outras atividades ou produtos e não a inserção/ampliação de novas fontes.

Penso que todos concordamos com Marx quando ele diz que nenhum sistema econômico-social entra em decadência antes de desenvolver-se plenamente. Minha compreensão é que tal ainda não aconteceu (mas certamente vai acontecer) com o capitalismo, cujo mote central é transformar tudo em mercadoria, "inclusive a honra". Ao contrário, na etapa atual de financeirização crescente de todas as dimensões de nossas vidas, vislumbro (de acordo com certa literatura) ainda possibilidades ilimitadas para, por exemplo, os seguros generalizados ou ainda maior especulação com títulos. Também vejo possibilidades de expansão para a ação capitalista dentro do próprio estado, como é o caso da produção (com provisão governamental) de serviços de educação, saúde e até prisões. Mas também muitas outras, por exemplo, a fiscalização do recolhimento de impostos e mesmo de julgamento de certos processos. Notate bene que não estou revelando preferência, o que farei daqui a pouco.

Por outro lado, os serviços P2P (peer-to-peer, sharing economy ou economia de compartilhamento) surgiram, se bem lembro, do amigável e-mule (amigável? quais os algoritmos dele?) e viraram mercadoria, como é o caso do Uber e Airbnb citados pelo articulista resenhado no site da Carta Capital. E considero que a evasão de impostos indiretos é uma bênção, pois levará -a longo prazo- os governos dos países subdesenvolvidos a começarem a trocar sua matriz tributária, passando a enfatizar os impostos diretos.

O peer-to-peer é mais liberdade. O imposto indireto é distorcivo. Quanto menos emprego, melhor, pois isto significa maior produtividade do trabalho. O que é pior é aquela legenda de que "quem não trabalha não come", pois muito menos que discriminar os capitalistas auferidores de pro labore, ela toca em cheio no orçamento das famílias de gente desempregada. O que é o problema é que precisamos entender que o capitalismo não tem problemas nas esferas da geração ou da apropriação do valor adicionado, mas apenas em sua absorção. Com isto estou fazendo ligeira modificação na compreensão ricardiana de que a economia política é a ciência que estuda a distribuição da renda, passando a dizer que interessa-nos o consumo (absorção) e quem o determina é a receita da família e não a renda apropriada por ela. A receita pode bem contemplar valores suficientes da renda básica da cidadania de que nos fala a lei federal 10.835/2004, governo Lula (que não saiu do papel.

DdAB

APÊNDICE: Entrevista - Tom Slee
É possível resistir à "uberização"?
por Tory Oliveira — publicado 31/10/2017 00h30, última modificação 30/10/2017 15h19
Crítico da chamada economia do compartilhamento, autor britânico-canadense destrincha em livro o lado ruim de empresas como Uber e Airbnb
Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/e-possivel-resistir-a-uberizacao
Acesso em 1o. de novembro de 2017.
O livro que deu origem à entrevista de seu autor é:
SLEE, Tom (2017) Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. SLI: Elefante. [SLI é "sem local identificável].
Não li e não lerei. Mas li atentamente a entrevista. Seu pródromo, de autoria de Tory Oliveira, é:
Um dos maiores estudiosos (e críticos) dos problemas causados por empresas baseadas no Vale do Silício, o britânico-canadense Tom Slee tem dedicado especial atenção àquelas da chamada "economia do compartilhamento", como Uber e Airbnb. No Brasil, após protagonizarem diversos duelos jurídicos e retóricos contra taxistas, a atuação da Uber e da Cabify serão analisadas pelo Senado Federal, cujo objetivo é regulamentar os polêmicos aplicativos de transporte individual pago. Entre as mudanças propostas estão o estabelecimento de vistorias periódicas nos veículos e a adoção de uma licença específica para o veículo rodar. 
No Brasil, estima-se que existam 500 mil motoristas de Uber em atividade, dez vezes mais do que o número registrado em outubro do ano passado. Ao menos 17 milhões de brasileiros utilizam o app mensalmente.
No recém-publicado no Brasil Uberização: a nova onda do trabalho precarizado (Editora Elefante), Slee explora como a bilionária plataforma de "caronas" evita o pagamento de impostos e sua contraparte de aluguéis de temporada atua na gentrificação de algumas cidades, tornando mais rentável para os proprietários cederem casas e quartos para turistas do que para residentes, encarecendo o aluguel de forma geral. [...]


P.S. Aquela imagem lá de cima é uma "brown bag" com que o Uber entrega alimentos a domicílio na China.

01 abril, 2018

Fake News: uma abordagem aplicada

Querido Blog:

Site do jornal Zerro Herra:
A maldade dos capitalistas e das garras do sistema financeiro internacional dá novas e inequívocas evidências de sua ação fétida e sensaborona no mercado australiano de bananas. Uma constatação aparentemente casual levou à utilização de sofisticados meios de produção de ciência e tecnologia. O businessman Roscoe S. Babbitt, acordando no domingo de páscoa de com péssimo humor, pois não recebera os presentes que esperava, descascou uma banana, que iria adicionar a seu tradicional sucrilho de ingesta em jejum (fast) contido em pacote de papel produzido pela Cia. Suzano de São Paulo - Brazil - e contendo milho transgênico chines, constatando que praticamente havia mais casca do que polpa. 

Mal-humorado que estava, ainda assim, evocou o desperdício que sempre denunciou na produção de melancias, cujo peso da cascka verde (green) e do envoltório branco da polpa vermelha e das sementes, o conjunto inteiro contendo mais de 90% de água, cujo gasto em transporte mostra-se redundante. Desde que concluiu seus estudos de primeiro grau, o sr. Babbit pensava que, quando se graduasse em engenharia química, iria fazer melancias de pacote, como o leite em pó e as alpargatas, desidratando apenas a parte vermelha da polpa e depois dissolvendo o conteúdo do citado pacote em uma vasilha com quantidades compatíveis d'água.

Mutates mutandes, pensou que talvez a banana que estava ingerindo poderia ter um segredo para elevar a rentabilidade dos produtores que seria inefavelmente transferida para os comerciantes e , deles para os bancos, caso o custo de produção de engordar a casca fosse inferior ao de elevar o conteúdo de polpa por unidade de casca. Com a ajuda de deputados e juízes de seu país, usou créditos governamentais a fundo perdido, conveniando-se com a Universidade da Islândia (de PIB per capita de US$ 60 mil e índice de Gini de meros 0,24 - em contraste com o PIB per capita brasileiro de R$ 10 mil e Gini de escabelados 0,5) para desenvolver protótipos de banana de estufa do Jardim Botânico de Reiquijavique com enorme conteúdo de casca, minimizando a polpa e economizando 50% do custo de produção.

Uma das moralejas desta postagem do primeiro de abril, simultâneo com o coelhinho da páscoa é que devemos ter cautela com tudo aquilo em que passamos os olhos. A paralaxe tá aí mesmo, as fake news também, os hoaxes, da mesma forma. E até o Caetano Velloso: a verdade é que o coelhinho - sendo uma entidade de ficção -, no primeiro de abril, aparece como verdade verídica, que nos dá o avesso da verdade. O avesso do avesso é que a fake news é que o coelhinho é falso. Vai saber.

E ainda temos a transcrição de um trecho espetacular selecionado por Soraya Cortes no capítulo que escreveu especialmente para o livro

BERNI,Duilio de Avila; FERNANDEZ, Brena Paula Magno orgs. (2012) Métodos e Técnicas de Pesquisa - Modelando As Ciências Empresariais. São Paulo: Saraiva. (Cód: 4086684)

A autora cita uma série de lugares comuns em que todos acreditamos sem pensar muito, como, por exemplo, que os soldados brancos americanos na II Guerra Mundial sempre se mostraram mais corajosos que os soldados negros. E ainda várias outras asserções igualmente "óbvias". E qual era a realidade? Era o contrário: negros eram mais corajosos, e por aí vai Vega.

DdAB
P.S. às 15h32min de 10 de abril de 2018, tive um insight que pode salvar a humanidade. Precisamos ter cuidado em repassar notícias fake, pois nossa credibilidade vai-se junto com as mentiras, inverdades e dubiedades que, deste modo, são repassadas. Acabo de perceber que minha credibilidade nas postagens de um amigo está minguando como 2 e 2 são quatro duplas.

30 março, 2018

Um Dicionário Mnemônico e Internacionalista


Querido blog:

Tenho um monte de coisas divididas em três partes. Não são muitos os meus amigos que gostam do jornal Zero Hora - que eu leio regularmente. Mas há um subconjunto de bípedes pensantes que não gosta de quem lê Zero Hora, o que dá assunto para uma postagem inteira, o que -after all- não farei (E alguns odeiam meus anglicismos).

Eu sou um leitor voraz (ver glossário na terceira parte), preparando-me para uma postagem listando as dezenas de livros que estou lendo simultaneamente. Já fiz tal balanço aqui e aqui. Quando nada tenho para ler -por sugestão da profa. Iracema de Alencar em 1965- leio até bulas de remédio: dimetil-fenilamina-dimetil-pirasolona.

Circunstâncias aziagas (ver glossário) de minha vida familiar distanciaram-me de minha estante real. E, onde me encontro, encontrei-me com

HAILEY, Arthur (c.1962) O primeiro ministro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Título original: In high places, mesma segunda parte do livro de Jeremy Paxman's Friends in high places.[Estante Virtual aqui],

que ficou provado que agora apenas o "reli" e não foi "li". E falo nele por causa da observação da segunda parte. Mas, pela ordem alfabética, primeiro vem em primeiro, segundo vem em segundo e apenas em terceiro é que encontramos terceiro. Então vamos ao primeiro.

PRIMEIRO
A prova que reli o que já lera está na seguinte passagem, presente em minha memória, diferentemente das demais páginas do livro. Na p. 133, lemos:

-O senhor apanhou uma gripe feia- disse Alan.
-Atchim! É o país de vocês... úmido e frio. Na minha pátria, na Suécia, faz frio também, mas o ar é afiado como uma faca. [...]

Tá provado: sempre pensei no Canadá como um país frio e úmido e na Suécia como frio e seco.

SEGUNDO
E na página 248 tem um "não obstante" internacionalista:

-Não obstante - observou o Presidente, - o curso da história será mudado, quer o dirijamos ou não. As fronteiras não são imutáveis, Arthur, nunca foram na história da humanidade. Tôda fronteira que conhecemos mudará ou desaparecerá com o tempo, tanto a do Canadá como a nossa própria, quer aprecemos o processo ou não. As nações podem durar um século ou dois e até mais; mas no fim deixarão de existir para sempre.

Não obstante tá cheio de gente que não consegue entender isto nem 50 anos depois da redação do livro. Quando eu digo que a esquerda deve começar sua declaração de princípios com a "luta pela implantação do governo mundial" redarguem que não sou patriota, o que, obviamente, é verdade. Nem reacionário!

TERCEIRO
Tenho o glossário retirado do dicio.com.br. A maior parte das palavras não era nem é de meu domínio, mas se origina do livro, como é o caso de "abeto". Um número menor originou-se de ideias sobre palavras que me foram ocorrendo à medida que a leitura ia avançando, como é o caso de premonitório, já que o livro fala na até então desconhecida admonitório. Por fim, enxertei algumas outras que sempre me intrigaram, como é o caso de gelosia. Onde me encontro não tenho disponível meu Webster de cinco quilos, que me faz falta, pois nossas palavras de origem latina em bom número encontram-se na língua inglesa (meio alemão, meio francês e meio latim), e o Webster dá o radical latino e até o ano de ingresso na língua de William Shakespeare e James Meade. E como vim parar neste trabalhão para fazer esta postagem? É que, desde os tempos antigos de 1942, circula no Brasil a revista "Seleções do Reader's Digest", que me parecia um tanto direitosa e que não leio há 30 anos. Nos tempos em que li e que Aurélio Buarque de Hollanda estava vivo, ele produzia uma seção chamada de "Enriqueça seu Vocabulário". Re-a-der di-ges-te era a pronúncia infantil e menos ainda sabíamos que era o digestivo (resumo) do digestivo, pois deveria existir um Reader's Digest e suas seleções seriam a crème de la crème.

Abeto - Árvores coníferas da família das pináceas, de folhagem sempre verde. # Esse negócio de pinácea só pode ter a ver com pinheiro. Até escrever esta frase, não olhara no Dicio. Olha agora: 
Admonitório - Admoestação. # não sabia e evoquei premonitório, que diz o Dicio ser Sensação ou sonho daquilo que ainda pode acontecer; suposta visão do que pode ocorrer; palpite ou pressentimento.
Algaravia - Modo de falar dos árabes da Península Ibérica.Confusão de vozes.Qualquer coisa dita ou escrita confusamente. # sempre soube que algaravia era isto mesmo, mas agora, ao lê-la, pensei que um número expressivo de palavras de nossa língua começado com "al" tem origem no árabe. É o caso de almanaque.
Anete - O arganéu da âncora, onde se fixam as amarras, viradores etc. # Araganéu? É "argola ou anel da âncora, onde se amarra o cabo; argola em que se prendem as cordas da artilharia." Pois então: artilharia: "Uma das armas principais dos exércitos de terra e mar, encarregada da manipulação dos projéteis e de seus meios de lançamento."
Apodo - s.m. Alcunha; comparação ridícula. Zombaria, mofa. # Tem também "apôdo" com o mesmo significado. E "ápodo" que, digo eu, na linguagem de hoje é "zoar".
Avuncular - adjetivo Que se pode referir tanto à tia quanto ao tio; que possui qualquer tipo de relação com o tio ou tia: poder avuncular. # Parece que eu já conhecia esta palavra, mas não lembrava do significado. Parece que a encontrei há poucos dias, ao ler o iniciozinho do "Solo de Clarineta". Não sei por que lembrou-me de "nepote" em italiano, que é sobrinho e neto, tudo junto... No Dicio, lemos: "Sobrinho do papa. Valido, favorito, protegido de alguém." No Brasil, claro que "nepotismo" tem tudo a ver com a ladroagem pregada como virtude pelos políticos e juízes.
Aziago - adjetivo Que anuncia ou faz recear calamidade, azar. De mau agouro, infausto. # Esta palavra eu sempre a soube, só que agora fui ao Dicio...
Baldaquino - s.m. O mesmo que baldaquim. Espécie de pálio ou dossel.Obra de arquitetura ou de marcenaria, que serve de coroa a um trono, a um altar. # Pois faltaram pálio e dossel. Pálio: "s.m. Capa; veste colocada sobre a roupa; manto grande. Religião. Tipo de faixa, branca de lã, bordada com cruzes negras,..." e Dossel: "substantivo masculino Construção e armação saliente, forrada, franjada, que se coloca como enfeite sobre altares, tronos, camas etc.; sobrecéu, baldaquim.Lençol suspenso, preso à parede ou sustentado pelos pés da cama.Qualquer cobertura ornamental constituída de verdura, flores etc.[Figurado] Cobertura que se forma pelo encontro das copas das árvores.[Arquitetura] Proteção de estátuas colocada no interior de igrejas ou para salvaguardar o púlpito.Parte traseira de uma cadeira, um banco ou de uma cama; espaldar." B * A = Bah!
Caixilho - substantivo masculino. Moldura, geralmente de madeira, para vidros: os caixilhos de uma janela.A moldura de um quadro. #Lá adiante, creio agora que inspirado por esta moldura (hehehe), pensei em gelosia, que transcrevi no que segue. Depois que li, pareceu óbvio que já conhecia.
Cavilha - substantivo feminino Espécie de pino, de madeira ou metal, que serve para tapar orifícios ou prender chapas ou peças de madeira. Zoologia Apêndice ósseo de cada lado dos temporais dos animais cavicórneos, no qual se inserem os cornos. # e dá como sinônimo de "tarraxa", de meu conhecimento, atarraxar, que nunca tinha pensado ser com "x" ou "ch".E lá no Dicio tem "cavilar":
"verbo intransitivo Fazer uso de subterfúgio; utilizar sofismas etc.: o prefeito vive a cavilar.Atribuir uma falsa significação às palavras, deturpando-as de modo malicioso.verbo transitivo indireto. Zombar (de algo ou alguém) através do uso de sofismas: sempre preferiu cavilar das regras morais." Este sentido de cavilar como maldade eu já conhecia.
Contumélia - substantivo feminino Injúria, afronta, insulto. Fam. Mesura afetada, exagerada; salamaleque, ademanes. # Ademanes eu já conhecia, sinônimo de mesura afetada (hehehe). Mesura, bem sabemos, é fazer uma reverência. Salamaleque sei que vem do árabe e é parente do salamalan. Diz o dicio -e eu sabia e não lembrava- que quer dizer "a paz esteja contigo". Então este salamalan que não está nem no dicionário interno do blog (está sublinhado em vermelho) nem no Dicio juro ser "e contigo também".
Cordite - substantivo feminino Uma das primeiras pólvoras sem fumaça usadas para a propulsão de projéteis de artilharia. O nome origina-se da forma em cordel como é apresentada. Compõe-se de 30% de nitroglicerina, 65% de niatrocelulose e 5% de geléia de petróleo. O governo britânico adotou a fórmula original da cordite em 1887; ardia tão intensamente que o calor danificava os canos das armas. # Pensei que cordite fosse inflação das cordas, mas não errei  tão feio, pois fala-se em cordel...
Cornija - substantivo feminino [Arquitetura] Moldura que remata o entablamento de uma coluna. Ornatos salientes na parte superior de parede, porta, pedestal. # Preciso dizer mais? Só que me lembrei de "coluna salomônica", que ilustra a postagem de hoje e que tem a ver com um enigmático (para mim) galpão...
Gaiúta - substantivo feminino Náut. Cúpula, que cobre uma escotilha redonda. Cf.substantivo masculino De Aguiar, Diccion. de Marinha. Ext. Parte externa e accessória dos edifícios modernos, com a qual se resguardam as latrinas ou urinoes. # Eu jurara, antes de ler no Dicio, ser um termo náutico. Afinal, o romance de Arthur Hailey conta a história de um passageiro clandestino num navio. O livro é de cerca de 1962 ou mais, mas super antes das duas mudanças ortográficas que testemunhei em minha triste vida de residente num país de baixo zelo pelas instituições. Como já andei afirmando: o que me impede de ler Camões não é a grafia arrevesada daqueles poetas de antanho, mas a semântica.
Gelosia - substantivo feminino Rótula de fasquias de madeira com que se tapa o vão de uma janela; rótula, janela de rótula. # Só o Chico Buarque (aqui) para falar em "janela sem gelosia" na canção "Flor da idade". E tem até rótula e as fasquias. Vejamos. Rótula: "s.f. Grade de madeira de certas janelas e portas que deixa entrar luz e ar pelo intervalo das ripas entrecruzadas de que é feita;..." Fasquia - fasquias. f. Tira de madeira, estreita e comprida; ripa. Lasca fina e alongada tirada de um tronco. fasquías. f. Tira de madeira, estreita e comprida; ripa. Lasca fina e alongada tirada de um tronco. fasquiar v.t.d. Colocar tiras de madeiras em; aplicar fasquias em; ripar. Edificar ou construir com fasquias (tiras de madeira). Serrar... fasquio sm (der regressiva de fasquiar) 1 Porção de fasquias. 2 Madeira serrada em fasquias. # Acho que nunca vi, só "ripa".
Guano - substantivo masculino Adubo rico em fosfato e nitrogênio, proveniente de excrementos de aves, morcegos, ou fabricado com resíduos de peixes. Constitui um valioso fertilizante por ser rico em nitratos e fosfatos. Grandes colônias de aves como pelicanos, pinguins, procelárias, corvos-marinhos e alcatrazes deixam enormes depósitos desse material. # E eu que tenho uma amiga chamada Procelina. Então vejamos Procelária: Dicio: substantivo feminino Zoologia Gênero de aves palmípedes que, em bandos, prenunciam tempestade." E os palmípedes? Dicio: "adjetivo Que tem os dedos dos pés ligados por uma membrana." E tem Procélico no Dicio: "adjetivo[Zoologia] Diz-se da vértebra cujo corpo é côncavo adiante e convexo atrás."
Láscara - Lascara vem do verbo lascar. O mesmo que: falhara, quebrara, rachara, rascara.
Significado de lascar. Quebrar em lascas; tirar lascas de.[Brasil] Pop. Dar, aplicar: lascar uma bofetada. Fender-se. # Vemos que o Dicio não registra como proparoxítona.
Mnemômico - adjetivo Que se refere à memória; mnêmico.Que está em concordância ou de acordo com os princípios da mnemônica: trabalho mnemônico.Que pode ser utilizado para aumentar ou ampliar a memória; que facilita a memorização; diz-se dos mecanismos utilizados para desenvolver a memória (exercícios).Fácil de ser memorizado: sequência mnemônica. # Quando aprendi o significado desta palavra, dei urras, e urros, pois pensei que eu é que inventara  o método. Não lembro de tentativas da tenra infância, mas no terno primeiro semestre da faculdade, aprendi que os quatro fatores da produção listam-se como: salários, lucros, juros e aluguéis. Então pensei em JASL, meu cunhado José Antonio de Souza Leão. Depois tinha aquele OPP (que parece que era a sigla de "organização para-partidária", e o CCC (indigitado comando de caça aos comunistas), que traduzi como os seis itens de Henri Fayol: prever, planejar, organizar, comandar, coordenar e controlar. Tá faltando Fayol no Brasil. Também pudera, se a lei do orçamento fosse cumprida, acabariam os roubos praticados pelos políticos e juízes.
Oca - # Não tá no Dicio, mas no Wikcionário: "cabana rústica construída por índios (brasileiros)". Eu sempre soube disto, mas não acreditava...
Padroado - substantivo masculino Direito de servir de protetor, adquirido por quem funda ou dota uma igreja. Direito de conferir benefícios eclesiásticos.Território onde se exercia esse direito.
Prímula - substantivo feminino Gênero de plantas herbáceas, da família das primuláceas, também denominada primavera. # Primavera? Aqui na Wiktionary temos a primula (paroxítona) vulgaris, uma belezinha.
Rabugento - adjetivo Que possui rabugem (sarna).[Figurado] Que demonstra mau humor; que não tem tolerância; que vive implicando ou se queixando de tudo; que é irritado ou ranzinza. # Rabugem = sarna? Olha Sarna no Dicio: "... sinônimo de: acariase, rabugem, gafa, morrinha, gafeira, pira, guloso, comilão, comichão,coceira, prurido, pereba, jereré, escabiose, curuba, coruba, ronha. Pira? Olha o que escrevi sobre "piroso" aqui. Ali eu falei em "azia", que até que é um tanto melhor que "sarna", não é? E agora, com esta de "gafa". Em espanhol é um sinônimo de "ante-ojos", óculos. No Dicio aqui, nada a ver. Claro que todo mundo achava que "rabugento" tinha a ver com quem tem rabo...
Rafeiro - adjetivo Diz-se de uma casta de cães próprios para a guarda de gado.substantivo masculino Esse cão. adjetivo Diz-se do indivíduo que acompanha sempre outro, vigiando-o e defendendo-o; capanga, guarda-costa. substantivo masculino Fam e pej Diz-se do que sempre acompanha outro, como o cão segue o dono.adjetivo e substantivo masculino Bajulador. # Eu pensava ser simplesmente sinônimo de cão. Cão, como sabemos, é a raça dos políticos e juízes.
Rancho - substantivo masculino Grupo de pessoas reunidas para determinado fim, especialmente em jornada: rancho de peregrinos.Grupo de soldados ou marinheiros que comem em comum. [Por Extensão] A alimentação que lhes é distribuída. Porção da comida de cada um. Abrigo à beira da estrada. Habitação pobre. Grupo de pessoas em festa. Conjunto carnavalesco, ou folclórico. Fazenda no Oeste americano. # As primeiras acepções eu as desconhecia, mas desconfiei pelo contexto do parágrafo que a mencionava no livro.
Rebuço - substantivo masculino Parte da capa destinada a cobrir o rosto. Parte do casaco, lapela.[Figurado] Falta de sinceridade, dissimulação, disfarce. Sem rebuço, sem rodeios, francamente. # Ao ler isto no Dicio, não estranhei.
Ruma - substantivo feminino Pilha, montão, rima. # E esta que "rima" é sinônimo de "pilha"... Pensei que pilha rimasse com filha... Fui lá de novo e vi que tem a ver com "arrimar", aquele negócio de muro de arrimo, muro de rima, então.
Saburro - s.f. Crosta esbranquiçada que recobre a parte superior da língua, como sintoma de certas doenças.
Sanefa - substantivo feminino Tira larga de tecido que se estende sobre a parte superior de uma cortina. # Acho que eu sempre soube isto de sanefa, só que quis hoje conferir.
Sienito - substantivo masculino Mineralogia Rocha eruptiva, de textura granular, formada de feldspatos alcalinos e anfibólios, com nenhuma ou pequena quantidade de quartzo.
Socapa - substantivo feminino Disfarce. Dissimulação. locução adverbial À socapa, disfarçadamente, dissimuladamente. # Também tenho na cabeça, mas não tem no Dicio a palavra "sucapa", neste mesmo sentido.
Supedâneo - substantivo masculino Banco pequeno utilizado para apoiar os pés; escabelo. Tipo de estrutura plana (de madeira) sobre a qual o padre fica de pé ao rezar missa. [Por Extensão] Que pode ser utilizado como suporte; pedestal. [Popular] Tipo de medicamento natural colocado sobre a sola do pé.
Tarimba - substantivo feminino Estrado de madeira em que dormem os soldados nos quartéis. [Por Extensão] Qualquer cama dura, inconfortável. [Figurado] Vida dos quartéis. [Brasil: Sul] Ter tarimba, ter muita experiência. #Estou com o Brasil: Sul: era o sentido de tarimba que eu conhecia e usava.
Voraz - adjetivo Que é capaz de devorar apressadamente e mastigando mal para engolir a maior quantidade possível; que não se sacia com facilidade; devorador: animal voraz. [Por Extensão] Que come de modo exagerado; comilão. [Figurado] Que acaba por arruinar ou destruir; destruidor: temporal voraz; doença voraz. [Figurado] Que demonstra muita ambição; ambicioso: o comportamento voraz do prefeito prejudica o município.substantivo masculino Uso Regional. Designação comum da abelha preta (Trigona clavipes) cujo corpo possui desenhos em amarelo, chegando a possuir até 6mm de comprimento; vorá. # Gostei de ver que "devorar" tem a ver com voraz, como é o que penso dos políticos e juízes.
Vuvuzela, vuvuleza - # Não tá no Dicio. Botei esta agora, pesaroso de estar terminando esta postagem. Aquelas terríveis cornetas usadas durante a copa do mundo da África do Sul. E que tem certa manha em minha cabeça: eu lia "vuvulêsa", até que ouvi "vuvuzéla" e, ao ler certo, a pronúncia de abrir o "e" tornou-se óbvio. Esta requer explicação do prof. Conrado de Abreu Chagas.
Zovidos - como é que será que eram todas essas coisas, se ouvidas no original em inglês do livro de 1961?

DdAB
P.S. Lição de Davi Chiaradia Freitas (do Facebook) para mim e para o resto do universo U* (o conjunto de todos os universos), com pequenas edições minhas baseadas na internet:
Uso de por que, por quê, porque e porquê (são apenas quatro formas: tudo junto: porque e porquê; separado: por que e por quê)
Porque (junto e sem acento) é utilizado em respostas.
Por que (separado e sem acento) se utiliza no início e meio das perguntas.
Exemplo: Por que você fez isso? Porque eu quis.
Por quê (separado e com acento) é utilizado apenas final da oração (pergunta).
Porquê (junto e com acento) é um substantivo masculino, sinônimo de motivo, razão, causa.
Exemplo: Você não está indo embora hoje por quê? Dê-me um porquê para eu me ir embora agora.

Olhei aqui:
VILARINHO, Sabrina. "Por que / Por quê / Porque ou Porquê?"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/gramatica/por-que.htm>. Acesso em 30 de marco de 2018.
Existem várias formas de diferenciar a maneira exata de utilizar os porquês. Entenda em quais situações utilizar cada uma.
Por que, por quê, porque ou porquê: qual utilizar?
O uso dos porquês é um assunto muito discutido e traz muitas dúvidas. Com a análise a seguir, pretendemos esclarecer o emprego dos porquês para que não haja mais imprecisão a respeito desse assunto.
Por que
O por que tem dois empregos diferenciados:
Quando for a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que, possuirá o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:
Exemplos: Por que você não vai ao cinema? (por qual razão)
Não sei por que não quero ir. (por qual motivo)
Quando for a junção da preposição por + pronome relativo que, possuirá o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.
Exemplo: Os lugares por que passamos eram encantadores. (pelos quais)
Por quê
Quando vier antes de um ponto (final, interrogativo, exclamação), o por quê deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.
Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro.
Porque
É conjunção causal ou explicativa, com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”, “para que”.
Exemplos: Não fui ao cinema porque tenho que estudar para a prova. (pois)
Não vá fazer intrigas porque prejudicará você mesmo. (uma vez que)
Porquê
É substantivo e tem significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral.
Exemplos: O porquê de não estar conversando é porque quero estar concentrada. (motivo)
Diga-me um porquê para não fazer o que devo. (uma razão).
E também aqui:https://revisaoparaque.com/blog/uso-dos-porques/
São quatro os porquês e podemos, para lembrar, organizá-los em duas duplas.
Uma dupla de "separados": por que e por quê.
Uma dupla de "grudados": porque e o porquê.
Memorizados quais são os porquês, vamos entender qual é o uso de cada um deles. Comecemos do mais difícil, que nem é tão difícil. Os outros são moleza.
POR QUE
1) O "separado e sem acento": por que. Ele tem três usos:
Para iniciar frase interrogativa. Sempre que estiver iniciando uma pergunta, faça com o "por que".
Por que ele veio?
Quando puder ser substituído por "por qual razão/ por qual motivo".
Não sei por que ele veio.
Quando puder ser substituído por "pelo qual" ou suas flexões (pela qual, pelos quais, pelas quais).
Ele não me disse os motivos por que (pelos quais) ele não veio.
POR QUÊ
2) O separado e com acento: por quê. Esse é barbadinha. Esse vem no final da frase, antes de ponto. É o porquê que todas as mães usam quando estão bravas.
Alfredo Alberto da Silva Júnior, o senhor ainda não foi para o banho por quÊÊÊÊÊ? Por quÊÊÊ?
PORQUE
3) O "grudado e sem acento": porque. Esse é explicativo, é o que mais usamos. É o porquê das frases para as namoradas (tadinhos dos meninos ^^). Sempre que pudermos substituir por "pois" ou por "uma vez que", por exemplo, é ele. Substitui, aí, para testar, na frase a seguir:
Eu ainda não havia ligado porque estava sem bateria.
PORQUÊ
4) O "grudado e com acento" vai vir sempre com o artigo. O porquê, um porquê. Ele funciona como substantivo:
Não entendo o porquê de ela ter jogado a gramática nele.
Eu também não sei, ela não me deu um porquê.
abcz

29 março, 2018

Igualitarismo e Consumo per Capita


Querido diário:

Quais são as evidências de que grandes diferenças no consumo per capita são perniciosas à vida comunitária? Em termos específicos, o consumo de whisky, cachaça, saúde, previdência, educação, polenta e outras iguarias da cozinha universal devem ser vistas com suspeição, pois podem gerar pinguços, doentes, carentes, analfabetos, peso excessivo. Sob o ponto de vista agregado, torna-se mais claro que Joan Robinson estava a toda corda quando falou que uma das questões centrais da filosofia econômica consiste em indagar o que permite que determinadas famílias vivam em luxuriante ostentação, ao passo que milhares de outras enfrentam o inferno para colocar comida na mesa três vezes por dia.

Claro que estes casos de desigualdade são uma presença inevitável em qualquer sistema econômico monetário, pois há divõrcio estrondoso entre geração, apropriação e absorção do valor adicionado. Nem sempre quem absorve está próximo a quem produz. E os desníveis no consumo per capita estão a atestar a pobreza moral do planeta neste início de século. E por que se fala em renda e não em consumo? Primeiro, porque é mais fácil mensurar a renda do que o consumo. Segundo, outra aproximação de renda é que esta é uma proxy da renda pessoal, esta sim determinante do consumo pessoal.

Então falemos mais sobre as diferenças de renda, eis que elas oferecem diferentes graus de poder não apenas sobre o quê e quanto produzir, mas sobretudo sobre a terceira questão: como distribuir. Significa que os que têm mais poder ficaram com uma parte substantiva, talvez em virtude da pleonéxia (Característica de uma pessoa que pensa erroneamente estar credenciada a uma parte maior do excedente econômico de uma comunidade do que aquela que legitimamente lhe cabe). Ou seja, há pessoas, bem as conhecemos, que sempre estão insatisfeitas com o que ganham, comparam-se a outras e aí mesmo é que reclamam, até que se apropriam daquela fração do excedente que, por mecanismos moralmente elevados, caberiam a terceiros. Neste clube encontram-se os avarentos, que nunca se consideram saciados em termos de poupança e patrimônio.

Que outros problemas perenes há na desigualdade exacerbada, como a que vigora entre os 1% mais ricos do Brasil (pelo que ouço, ela é maior que a média da população)? Ora, sabemos que a renda determina o consumo e este é um dos fatores determinantes do grau de felicidade sentida pelo indivíduo. Em outras palavras, sociedades que têm enormes desníveis do consumo per capita também deverão enfrentar enormes desníveis no grau de felicidade!

DdAB
Imagem: achei-a pois achei-a muito pertinente. Um país em estado estancado de progresso e com dívidas do porte da brasileira para a provisão de bens públicos e de mérito é de infelicitar.

28 março, 2018

Altruísmo, Egoísmo, Autoritarismo

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Querido diário:

No outro dia, filosofava eu em pleno Facebook, quando vi-me anunciando que iria fazer um comentário sobre uma das polaridades que considero mais interessantes na busca de explicações para o comportamento humano: os indivíduos agem motivados pelo auto-interesse ou pelo interesse nos destinos da comunidade que o envolve: egoísmo ou altruísmo. A teoria da escolha racional diz que os indivíduos escolhem cestas de bens e serviços que lhes garantam a maior satisfação possível com seu consumo. Numa visão muito simplificada, alguns economistas entendem que "maior satisfação possível" implica que o agente é egoísta, ou seja, coloca seus interesses absolutamente em primeiro lugar e tentará alcançar esse objetivo mesmo que à custa de reduzir o bem-estar de seus pares.

Há muito tempo vim a entender que, naquela estrada da microeconomia que percorri durante tantos anos de minha vida profissional (professoral...), que uma visão estritamente convencional diz que o bem-estar (a utilidade) de um indivíduo depende de Q, a cesta de bens e serviços que ele consegue consumir. Na matemática, U = f(Q). Eu disse "ele consegue". Mas nada impede que mudemos essa função U e a escrevamos como U = g(Q, R), onde Q é a mesmíssima cesta de bens e serviços da função f(.) e a novidade é que R é a cesta de bens e serviços absorvida por seus pares, seus parentes, seus co-cidadãos, seus parceiros do snooker, do futebol ou do cineminha.

Quero dizer que não existe nenhuma dificuldade em entendermos que a ação altruística do indivíduo pode elevar-lhe o nível de bem-estar. E a ação egoística? Claro que ela pode existir, mas ainda assim deveremos diferenciar um egoísta predador de um egoísta racional. O primeiro já vai logo matando a vaca e churrasqueando-a, ao passo que o homem que pensa em si, mas age racionalmente, alimenta sua vaquinha e regularmente retira o leitinho que transformará em queijinho, cria seus bezerrinhos, e assim por diante.

Que podemos dizer do egoísta predador? Que devemos ter muito cuidado com ele, pois o encontramos em inúmeras situações de nosso cotidiano. Parece que este tipo de gente é a que fura filas, que dá cambas no imposto de renda, que faz a coleta de dinheiro de empresas inescrupulosas, como é o caso das construtoras e das indústrias de alimentos brasileiras, e o transfere às mãos sujas dos políticos de mãos sujas, sujíssimas. De nossa parte, temos solidariedade relativamente aos menos favorecidos, aos menos aquinhoados, aos mais fracos. A maior parte da turma também tem. Os egoístas predadores, os psicopatas e os narcisistas, são minorias dentro de qualquer comunidade.

Por isso é que Joan Robinson em seu livro "Filosofia Econômica" disse que a desonestidade compensa apenas em terras de gente honesta. Muitos anos depois é que vim a entender que ela estava baseando-se em Thomas Hobbes: "E a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Leviatã (1651), Parte I, capítulo 13. " www.oocities.org/athens/4539/hobbes.html

Claro que, ante esse prospecto de poder ser morto por um daqueles dá-lá-aquela-palha, diz-se que o homem ingressou numa troca voluntária: cede espaço em sua liberdade pessoal, mas tem a garantia de não ser morto por seus assemelhados. No mundo moderno, em que desejamos ver o convencimento valendo mais que a força, podemos mudar comportamentos de terceiros usando diferentes ardis não agressivos. Um que muito me chamou a atenção li-o num livro de psicologia: o lápis na boca faz as pessoas acharem a piada mais engraçada do que aqueles que não o portavam.

Outro experimento, referido por Peter Ordershook, sobre o grau de altruísmo falava em dilema do voluntariado: oferece-se uma recompensa, digamos, lanche pago durante toda a duração do curso de microeconomia. Mas a cláusula é que eu só pagaria se apenas 10% dos alunos a escolhessem (e com isto se credenciariam ao prêmio). Se mais de 10% o fizessem, ninguém ganharia nada. Nessa escala microscópica, pode-se constatar que dois terços são altruístas e apenas um terço é egoísta.

Entendo que a ação altruísta, a exemplo da solução do paradoxo eleitoral, é muito comum, pois ela aumenta o pay-off de seu autor. Quer ser visto votando, quer ser visto fazendo o bem. As pessoas que me sabem do bem sentem-se à vontade em desenvolver parcerias comigo. Só que tem o lado das pessoas que desejam identificar as benfazejas, com o intuito de explorá-las. Não é por outra razão que vim a entender que a sociedade deve-se precaver contra a ação de caroneiros, mesmo que estes não se manifestem: a ocasião faz o ladrão, como sabemos.

Mas temos o lado perverso da vida em sociedade, uma sociedade afeita à violência. Um exemplo é o filme "One flew over the cucko's nest", em que Jack Nickolson é um cara tão fora da curva que a turma do hospital psiquiátrico tira-o de cena, aplicando-lhe uma lobotomia. E cena parecida encontra-se no filme "Clockwork Orange", onde o ator Malcom McDowell é submetido a um tratamento que, ao lado de reduzir-lhe os impulsos agressivos, torna-o fácil presa de outros predadores lá de seu estilo prévio ao tratamento.

Moral da história:
.a o altruísta ajuda os outros: quanto mais felizes os demais forem, maior será o bem-estar do próprio altruísta
.b o egoísta predador é um estropício que só presta para ajudar a sociedade a se proteger de predadores em geral e dele em particular
.c o egoísta racional usa a máxima "ajuda que os céus te ajudarão", tirando o pronome... Neste caso, ele ajuda sabendo que, se este comportamento se generalizar, ele também será ajudado.
.d autoritarismo: é a ação que obriga os outros a adotarem comportamentos que convêm ao impositor e não ao praticante. Difere do modelo de punição-recompensa especialmente porque este baseia-se no voluntariado: ninguém é obrigado a aceitar o lápis na boca para ver filmes divertidos.

Imoral da história:
Naturalmente os políticos e os juízes.

DdAB
Volta e meia retorno a estes temas. Tenho pelo menos duas referências a postagens anteriores. Numa vemos -avant la lettre- coisas sobre o que vim a escutar chamarem de paradoxo de Abilene (aqui). Quero dizer este avant la lettre, pois é um trecho das "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos em que em plena cadeia, vê-se o paradoxo em ação durante uma votação para greve de fome.
Em outra postagem, falo mais alongadamente sobre o dilema dos prisioneiros (aqui), onde também falo do tal paradoxo bíblico.
A imagem homenageia as sinucas de bico que vive a humanidade há milhares de anos ao enfrentar problemas de escolha coletiva.

Propagandeei no Facebook: Tinha um filme de bang-bang com um personagem chamado de "Bob Maldade". O filme foi muito apreciado e o personagem fez escola no Brasil, especialmente entre políticos e juízes. Mas também entre gente inculta de todos os coturnos. Acredito que, quanto mais culto, mais humanizado (quase tautologia). Olha minhas reflexões aqui sobre a sinuca bico em que se convertem muitos (mas não todos) os processos de escolha social.