26 setembro, 2021

Pescando com Machado



Nada impede que me declare um especialista em Machado de Assis. Primeiro, durante a pandemia, decidi reler o trio Memórias Póstumas, Quincas Borba e Dom Casmurro:

MACHADO DE ASSIS ([1880], 2014) Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

_____ ([1891, 2012). Quincas BorbaSão Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

_____ ([1899], 2016) Dom Casmurro. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras. Introdução de Luis Augusto Fischer.

Como podemos ver, as três obras vêm na capa da Companhia das Letras. Todo o trio foi publicado entre 2012 e 2016. A pandemia não acaba nunca (sendo certamente mais comprida que aquilo que nos resta do governo Bolsonaro, que não se aguenta mais) e li o tal trio de cabo a rabo. Este Dom Casmurro tem uma erudita, inteligente, ilustrada e bem-humorada introdução de Luis Augusto Fischer, convidando-me a pescar com ele... E assim o fiz, aqui e ali, mas ainda mais aqui falo de uma passagem dele Fischer e outra dele Machado de Assis.

A questão, se não ofendo a aritmética e a gramática, são duas. Primeiro, na ficção, Bento Santiago manda reconstruir a casa em que viveu pelo menos a infância e a adolescência, vizinha de portão da casa em que veio a residir Capitu. Em segundo lugar, aquela paternidade que legou a cor parda a Machado de Assis não era apenas de um pintor de paredes, como fui levado a crer até este momento. 

Olha a página 81 desta edição de Dom Casmurro:

[...] Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. [...]

E olha o que diz na página 14 da introdução Luis Augusto Fischer da genealogia de Machado de Assis:

[...] Pelo lado paterno, [Machado de Assis] descendia de africanos escravizados: seu avós eram escravos alforriados, e seu pai, homem livrem desde sempre, era pintor, ofício humilde mas não totalmente desprovido de certo virtuosismo, já que pintores, naquele tempo não apenas cobriam paredes com tinta, mas também faziam alguma decoração, algum traço, alguma ilustração. [...]

Quem sabe, num paradoxo do tempo literário, se não foi o próprio pai que pintou afrescos e o teto da casa de Matacavalos? E, se não foi na casa de dona Glória, teria feito este tipo de trabalho em outros locais. Em qualquer caso, é patente que Bentinho é que está falando pela boca de Machado de Assis, experiências de vida de ambos, agente e testemunha.

Eu já lera Dom Casmurro umas duas ou três vezes ao longo de minha longa vida, inserindo-o na mediana do pentateuco machadiano (os dois citados, a mediana de Dom Casmurro e o duo final Esaú e Jacó e Memorial de Aires). Além, ou aquém, dos cinco romances do pentateuco machadiano, Luis Augusto Fischer, na página 16 da introdução, acrescenta "[... outro romance inteiro apenas em folhetim, que veio a conhecer a forma do livro (o intrigante Casa Velha) só bem depois de sua morte, pela mão de Lúcia Miguel Pereira." Para mim, um texto com no máximo 44 páginas deve ser declarado conto ou novela. Aliás O Alienista é declarado conto para lá e, para cá, tacho-o de novela.

DdAB

P.S. Muito estranha é aquela indústria da "fixação de texto", que fala em "cálix, cousa e dous". Até parece tratar-se dos louquinhos da Editora Boitempo que, ao invés de falarem em "mais-valia", como todo mundo, escrevem "mais-valor".

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