domingo, 2 de novembro de 2014

Industrialização: pelo sim, pelo não...


Querido diário:

Quando apresentei meus seminários sobre a reprimarização da economia brasileira, também falei em minha intuição expressa retoricamente como "engenheiros criam tratores, tratores não criam engenheiros". Queria dizer que é necessário investir nas escolhas e não nas fábricas. Mesmo porque fábricas requerem engenheiros, claro, mas escolas, requerem muito mais coisa. E também falei esperar ter coragem para perseguir um pouco mais estas intuições que contrariam o conhecimento comum, inclusive o que me foi inculcado ao longo dos anos.

A ficha caiu quando passei a entender (há milhares de anos) que aquele "efeito tecnológico" que se obtém ao decompor a variação da produção entre "tecnologia" e "demanda final" no modelo de Leontief, o efeito tecnológico, repito, é bom quando negativo. Ou seja, no ano presente, requerem-se menos insumos para dar conta da produção do que os usados no ano passado. Quer dizer, modernização na indústria produtoras de insumos intermediários.

Outro impacto em meu conhecimento antigo foi dado pela constatação de que, mesmo que tratores produzam alunos, professores, engenheiros e tratores, o trator importado tem o mesmo efeito sobre uma barba de milho que qualquer trator nacional. Aliás, tratores no Brasil são majoritariamente multinacionais... Em outras palavras, na economia aberta é que a lei do preço mínimo, aquelas coisas, deve vigorar. Uma vez que os custos de transporte são cada vez menores e que mesmo há navios transformados em fábricas para não se perder nem o tempo de deslocamento do produto pronto, não há razão para que a economia nacional não se integre à economia mundial. Reparo: de modo sábio e não de modo vulgar.

E mais um: diatribes contra a industrialização (que lancei acima) são uma coisa. E diatribe contra a política econômica de governo que privilegia os tratores e não os alunos é outra bem diversa. Em que deram os já quase 100 anos de interferência governamental com suas "políticas industriais"? Se não 100, que tal começarmos a falar nos anos 1950?

Ali mais prá baixo, depois do P.S. reproduzo um texto retirado da internet que fala em cinco razões para que o governo promova a industrialização. Vou listá-los aqui, traduzidinhos. E fazer comentariozinhos.

PRIMEIRA
Superando o problema do subdesenvolvimento
A questão é de grau: quanto % do subdesenvolvimento pode ser superado pela industrialização? Primeiro, já não se deve contar a extração de minerais. Segundo, é óbvio que, se a política do governo for produzir escolas, haverá necessidade de uma indústria da construção, outra, da madeira, uma terceira do mobiliário, e assim por diante. Mas a questão é por que não começar do jeito que se pode com a educação e aí ver a roda da fortuna girar e requerer os insumos. E não o contrário. O contra-exemplo escandaloso é o Brasil, claro. Há milhares de anos que há "industrialização" e até hoje há milhões de crianças nas ruas. Quem usa esta ideia de que a industrialização conduz ao desenvolvimento deveria trazer os argumentos que dizem que, no Brasil, foi tudo um grande erro e, por falhas de sabe-se lá quem, o subdesenvolvimento permanece mesmo com industrialização e desindustrialização. Querer reindustrializar significa novamente deixar para um lado o engenheiro no trade-off dele com um trator.

SEGUNDA
Superando o problema do desemprego
Esta é outra falácia. Se a argumentação de muitos defensores da industrialização for a mesma do modelo de Lewis, diremos que estes defensores estão confundindo o que Lewis chama de atrasado com desindustrializado. Claro que o crescimento, na linha de Lewis, requer transferência da mão-de-obra excedente de um setor atrasado para um moderno. Mas não podemos pensar que, dado o nível de produtividade da economia atual, haverá substantivos ganhos atiçando a competitividade internacional. Falar na China neste contexto significa dizer que, desejando seguir o modelo chinês, deveremos aceitar o dumping social.

TERCEIRA
Modernização da Agricultura
A modernização da agricultura ocorre com insumos modernos e nada disse que estes insumos (NPK ou tratores) deva ser nacional. Ao contrário, meu argumento contra a predominância da política econômica voltada à industrialização vem a dizer que precisamente que um setor rural moderno e capitalizado fatalmente irá requerer -para contornar elevados custos de transportes- produção local, manutenção. Explorando economias de escala e escopo, a produção local direcionada pela agricultura poderá expandir-se a outros campos. Por exemplo, do trator ao automóvel e do adubo para outros ramos da química.

QUARTA
Autossuficiência
O argumento da autossuficiência é escandaloso. Sem falar que deseja a autarquização das economias locais, ele não consegue ver que é impossível ser autossuficiente em tudo. Ou seja, haverá em outros países vantagens comparativas tão mais acentuadas que na produção local que será ridículo pensarmos em fazê-la para sermos autossuficientes. Por contraste, deveríamos ser autossuficientes em educar nossos jovens.

QUINTA
Base para o Desenvolvimento Econômico
O argumento final é a indústria é a base do desenvolvimento econômico. E isto é tão verdadeiro quanto dizer que a agricultura é a base para o desenvolvimento econômico ou que os serviços são a base para o desenvolvimento econômico. Não sejamos e passemos a examinar cautelosamente o que quer mesmo dizer desenvolvimento econômico. O ônus da prova fica, certamente, para aqueles que dizem que a industrialização induzida pela política de governo fez isto em qualquer desses países da Nova Ásia (Korea, Indonésia, China, e por aí vai).

   Como podemos ler nas pp. 314-315 do impagável
MESOECONOMIA; lições de contabilidade social (aqui):
Quando nossa preocupação diz respeito às condições de vida de uma população, passamos a falar em desenvolvimento econômico, um processo de transformação da sociedade envolvendo nações, economias, alianças políticas, instituições, grupos e indivíduos. Este processo envolve transformações na família, na empresa rural ou urbana, iniciando na comunidade local e culminando com a transformação global planetária. Como tal, o desenvolvimento econômico difere substancialmente do simples crescimento, que pode ocorrer em segmentos específicos, como regiões
ou setores institucionais e econômicos. Assim, o crescimento, por um processo quantitativo, pode promover transformações que, ainda que modificando a estrutura econômica, criam obstáculos à emergência do desenvolvimento econômico, caso inviabilizem ou excluam transformações em uma ou mais das áreas recém‑citadas. Neste sentido, podemos definir o desenvolvimento econômico como o crescimento econômico, dado pelo aumento do PIB per capita, acompanhado pela melhoria do padrão de vida da população e por alterações fundamentais na estrutura econômica. Portanto, ele envolve, além do crescimento econômico, a melhoria dos indicadores sociais como a redução do analfabetismo, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, o aumento da disponibilidade dos serviços de saúde, a diminuição do déficit habitacional, o aumento da disponibilidade das redes de saneamento básico, etc.
   No que concerne à evolução demográfica, as mudanças quanto ao tamanho, crescimento, distribuição e qualificação da população exercem grande influência nas perspectivas de desenvolvimento e do próprio crescimento econômico. Por seu turno, as condições materiais de sobrevivência influenciam sobremaneira o ritmo de crescimento da população, o qual é determinado pelo nível e pelo padrão de nascimentos e óbitos, bem como por sua distribuição no território. Em outras palavras, a estrutura de desigualdades sociais e econômicas, que se modifica ao longo do tempo, tem relação direta com as alterações nas taxas de natalidade, mortalidade e migração da população de um dado país ou região. Para compreender estas ligações entre população e desenvolvimento, é necessário fazermos uma reflexão minuciosa sobre fatores inter‑relacionados, como a evolução demográfica, o mercado de trabalho e a distribuição da renda, bem como as próprias condições ambientais. Por conseguinte, as medidas destinadas a avaliar o desenvolvimento econômico não podem ser as mesmas com as quais mensuramos somente o crescimento econômico. Precisamos de indicadores que também considerem a dimensão social que aparece consubstanciada no tamanho, no crescimento e na distribuição da população em dado território.

COMENTÁRIO:
Volta e meia digo, e aprendi com Debraj Ray (condições de vida da população, no texto recém citado), que o importante é a equalização do consumo per capita e não do produto per capita. E isto fechou, como uma luva, para minha comparação escabelada entre a importância de um supermercado ou uma fábrica de aviões a jato em Santana do Livramento. E que deve fazer o governo? Promover, prover (não necessariamente produzir) bens públicos e bens de mérito. Neste último caso, estão as escolas, as estradas de ferro e rodagem, os portos, as aquavias. Aeroportos, cadeias, ambulatórios médicos, bibliotecas públicas, centros comunitários, parques esportivos, conjuntos habitacionais. E por aí vai.

DdAB
P.S. Jamais esquecerei ter lido em Monteiro Lobato, ao discutir as más condições econômicas da Bahia, que lá a indústria é que deveria gerar o desenvolvimento da agricultura. Isto, naturalmente, foi antes de eu ter pensado que Santana do Livramento precisa mais de um supermercado que de uma fábrica de aviões. Mas bem poderia ter um centro de treinamento de pilotos...

Essay on the Necessity of Industrialisation in India 
(disponível aqui, e reproduzido no que segue, por garantia)

Industrialization refers to creation of industries, expansion of industries and use of modern technique of production in industries. During the time of independence, industrialization was not in motion because Britishers did not want to make India an industrialized country. After the decades of foreign rule, steps were taken for rapid industrialization.

The necessity of industrialization is given below:

Utilisation of Available Resources
Adequate environment is present in India for industrialization. Firstly, India is rich in different natural resources like iron-ore, manganese, bauxite, coal and mica etc. Secondly, raw materials like jute, cotton, oilseeds, sugarcane and tobacco leaves are plenty produced in India. Thirdly, forest resources are more which give us paper, matches and sports materials. Industrialization alone can be able to utilize large mineral resources, agricultural and forest resources.
   Modern industrialization also needs development of energy. We have large water resources and coal reserves for energy resources. It means there is no difficulty in the path of industrialization. It implies that the necessary conditions for industrialization are present in India.

Overcoming the Problem of Unemployment
The problem of unemployment is acute in India. Due to rapid growth of population, every year lakhs of people enter into the labour market. On the other hand, there is no scope for alternative employment opportunities in agricultural sector to employ the excess labour in agricultural sector and unemployed labourers rapid industrialization is necessary.

Modernization of Agriculture
Modernization of agriculture is necessary for increasing the productivity of land, tractor, pump set, chemicals, fertilizers, insecticides and other developed machineries are necessary to modernize agriculture. It- means modernization of agriculture is possible only with the help of the development of fertilizers and agricultural machineries industries.

Self-Sufficiency
It is not advisable for a country to depend upon foreign countries for industrial products. We have to pay in terms foreign currencies if we purchase industrial products from foreign countries and it also needs to sell the raw materials required by the industries at a lower rate and to purchase the industrial products produced with these raw materials at a higher rate which will hamper the economic development. It will lead to financial loss. There will be no import of goods if there is war or bitter relationship among the countries and people will find difficulties in getting these goods. It will also lead to lowering of status of country if we purchase war heads and materials from foreign countries.
   Due to all these reasons, self-sufficiency is an important aim of our planning. Self sufficiency depends upon the development of consumer goods industries, basic and heavy and heavy industries.

Basis for Economic Development
Industrialization expedites the process of economic development. Infrastructural facilities like energy, transport and communication are necessary for industrialization. So industrialization leads to development of infrastructural facilities and also for industrialization it provides machineries. It means industrialization strengthens infrastructural facilities.
   Industrialization improves standard of living of the people by developing industry, agriculture and other activities including infrastructure.
   All the above stated reasons also help to raise the per capita income and national income. Due to more income, people purchase more and standard of living rises. Due to more demand for goods, there is further expansion of industrial sector. It shows that the industrialization makes economic development and leads the country in the path of growth.


abcz
E a imagem veio daqui.

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