terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Comentários: a hora da virada

querido diário:
hoje minhas reflexões voltam-se a comentários, desafios, feitos por dois amigos. aproveito e faço reflexões em esferas não diretamente ligadas ao tema e espero deixar como mensagem final finalíssima apenas a questão do cultivo da liberdade humana. entendo esta como o supremo ideal de todos os ideais, a estratégia dominante evolucionariamente estável precisamente por permitir a existência paralela de todas as demais estratégias. domina mas não dizima!

.a. Felipe:
o Felipe escreve pouco em seu blog e eu olho, volta e meia. ele sugeriu-me ontem que desse uma olhada na seguinte postagem:
http://fbvasconcellos.blogspot.com/2012/01/sugestao-aos-nossos-representantes.html
(é só clicar e viajar)
olhei e faço um resumo. ele segue o que informa ser uma sugestão de uma leitura que fez de um texto de autoria de Edmar Bacha. olha só agora. começa citando o Art. 170 da constituição do Brasil:

"A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios [...]", aos quais eles (Felipe/Bacha) acrescentariam a busca da estabilidade de preços.

claro que meu reino não é deste mundo... nasci no tempo em que vigorava a constituição de 1946, revogada pelos militares. em 1968, ingressei na faculdade de economia da UFRGS e assisti às aulas (descabidamente horrorosas) de "Instituições de Direito", onde aprendi, em algum canto daqueles, que "todos terão direito a um emprego que lhes possibilite existência digna". é parecido com esta, presumo, de 1988. claro que dei uma lida nela há anos, como acho que convém aos economistas de boa índole.

quando falam em justiça social, penso no conceito de John Rawls da sociedade justa, tantas vezes referido neste blog:
.a. maior liberdade compatível com a dos demais
.b. os cargos públicos serão abertos a todos e a desigualdade será gerida de modo a beneficiar os menos favorecidos

claro que preciso aduzir que, daqui a dois e meio milhões de anos, é improvável que se esteja falando em estabilidade ou não de preços. não haverá mais preços. tão certo quanto haverá vida humana ou de seus sucedâneos. se ainda houver vida dos sucedâneos do homem contemporâneo, é certo que a barreira da escassez terá sido vencida e, com ela, o uso de preços relativos (e absolutos) para avaliar valores econômicos. não haverá valores econômicos. haverá outro tipo de arranjo regulador da convivência social.

resumindo: claro que Bacha estará fazendo blague contra, possivelmente, a corrupção brasileira, a má qualidade dos políticos, dos partidos políticos, dos eleitores que elegem precisamente os políticos que hoje se encastelam em seus R$ 30 mil reais mensais (fora o que não contabilizei...). como não é de meu feitio querer crucificar a maioria (by the way, não me agradam crucificações), tenho a certeza de que o vilão não é o eleitor. ele é, na verdade a vítima. precisamos saber que, se ele é a causa, do encastelamento dos atuais políticos, qual é a causa da causa. esta é, parece-me, a carência educacional. como o manejo do orçamento público está nas mãos dos políticos, estamos mal-arranjados. ainda assim, estou certo de que haverá: a hora da virada virá. e o Felipe, é contra a inflação ou contra a corrupção?

.b. Daniel:
no comentário que me endereçou ontem, Daniel ingada minha opinião sobre a SOPA. eu nem conhecia a sigla e claro que não confundi com sopa. para refrescar a memória, puxei o que alguns designam por "enciclopédia paraguaya", em homenagem a milhares de instâncias que não me considero apto a julgar. talvez também haja gozação contra a pirataria e o conhecimento fácil de ser falsificado. a internet mostra o que lhe convém e nem sempre é o mesmo que convém ao usuário ou o proprietário (ver o texto após minha assiuatura nesta postagem). o link da Wikipedia está aqui: abcz.


se procurares e vires que se trata da Wikipedia de Portugal, poderás atribuir o fato ao fato de que eu não fui na minha Wikipedia preferida, ou seja, a redigida em inglês, com conteúdos assemelhados na maior parte das vezes (verbetes) em que consultei ambas. aí vi que se trata da lei anti-pirataria.

Daniel comenta: "Até que ponto nossos espíritos libertários devem concordar com uso indiscriminado de conteúdos alheios [?]".


vamos lá. tenho acompanhado apenas por cima estas questões pela minha imprensa de papel e a internet itself. e claro que minha resposta é: parece-me óbvio que nossos espíritos libertários devem opor-se com a maior violência moral que puderem contra qualquer lei que reduza o uso do conhecimento humano, que tente privatizá-lo, que tente retirá-lo do esquema que pode facilitar a transição dos macacos da foto e de nós próprios ao ano 2.502.012. sou de opinião que o Departamento de Econometria deveria arbitrar preços sompras para as diferentes contribuições dos diferentes indivíduos humanos para o progresso da humanidade. eu, por exemplo, na condição de portador de um voto em qualquer eleição decente, deveria ser remunerado por isto (nada tem a ver com vender meu voto, mas de dar à sociedade a enorme alegria de poder contar com ele/comigo). sem mim, a sociedade não existiria. e é justo que eu seja recompensado por isto. [a este respeito, evoco a já conhecida de todos página 74 (Quadro 2.1) do livro de Mesoeconomia (such & such), em que se apresenta os oito itens de David Harvey. no primeiro, diz-se que todos devem receber o suficiente para terem existência digna. e no sétimo diz-se que quem gera mais resultado ganha mais do que quem gera menos. os carinhas da econometria poderiam fazer chover para cima com este tipo de princípio, respeitadas as regras da estimação paramétrica e, principalmente, da não-paramétrica.

há alguns anos, ouvi dizer que "os japoneses" se apropriaram do DNA, um troço destes, de plantas da Amazônia. parece-me que este tipo de pirataria é especialmente escabelado. e, claro, o erro é que se daria propriedade privada a algo que nada tem a ver com os construtos do intelecto humano. como o uso do plano inclinado. e suas leis. claro que as leis foram sendo entendidas por dezenas de gerações e formalizadas por um homem. e claro que ele não patenteou sua formuleta (era Galileu, BP?). é claro que ele não vivia sob o capitalismo.

no outro dia, cansei-me de ler (sem pensar a respeito, parece que era um dos túmulos de pensamentos que leio, no caso a Carta Capital) que os vilões pela crise atual são os banqueiros. falavam da crise europeia. aí me lembrei de coisas made in Brazil: Pedro Malan, Gustavo Franco, Francisco Lopes e outros milhares de economistas que deixaram de sê-lo, passaram a ser "assessores de políticos", até virarem políticos. e como tal, ao abandonarem a política, enturmaram no sistema financeiro.

tem um velho artigo de James O'Connor (que eu chamava de integrante do grupo dos 'marxistas econométricos') intitulado mais ou menos: "Who rules the corporations? The ruling class" e cujo rastreamento começa aqui. parece que políticos e banqueiros fazem parte da mesma tropa de choque em defesa dos interesses da classe dominante. a questão que hoje me deixa de orelha em pé é como é que foi que o povo europeu se deixou levar pela conversa de redução de seu estado de bem-estar social. claro que voltamos a precisar identificar a causa da causa. mas nesta linha de estupefação (longe de respostas que comecem por convencer-me), nunca esquecerei o entusiasmo com que a população argentina saudou a invasão das Ilhas Falklands pelos militares. e o entusiasmo com que a população argentina saudou, pouco tempo depois, a expulsão (era isto?) dos militares lá das Ilhas Malvinas e a derrocada do próprio governo militar.

a única coisa que meu pobre intelecto pôde emitir foi: os entusiastas de .a. e os entusiastas de .b. não eram a mesma macacada.
DdAB
imagem: veio de meu site mesmo! aqui. (e que tem um comentário do próprio Daniel). parece brincadeira. nunca penteei ou fotografei macacos. faz-me pensar na SOPA de que falou o Daniel. só que juro não ter penteado nem fotografado de má fé. ou seja, será que meu creditamento à fonte original (que olhei agora e me pareceu estranha) tirou-lhe os direitos? será que os que procuram "todos terão direito a um emprego que lhes possibilite existência digna" como guia para sua busca de imagens no Google Images encontrarão a pilha de macacos como sendo de origem de meu blog? e será imagem pública? será que houve macacos ou humanos lesados com meu uso dela por lá e por cá? será que nossos sucedâneos espaciais serão tão diferentes de nós quanto nós somos da linda dupla acima? agora vejamos, o interessante daquela postagem é a mensagem não explicitada: tem que acabar com o desemprego de um jeito diferente daquele garantido pela colocação do mercado, e particularmente, o mercado de trabalho no centro da distribuição do produto social entre os diferentes indivíduos. volta e meia falo que os países civilizados têm mais recursos redistribuídos relações inter-institucionais, ou seja, fora do próprio fluxo circular da renda. tão estranhas quanto as relações inter-industriais. no ano 2.502.012, não apenas toda a distribuição será feita entre relações interinstitucionais quanto o que hoje chamamos de "valor adicionado", ou "produto social", como acabo de referir, simplesmente nos será fornecido por máquinas, esses macacos da natureza, no dizer de Umberto Eco que reproduzem-lhe os movimentos apenas que com formas diferentes. quem viver verá.

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