31 julho, 2013

O Futebol e os Truísmos

Querido diário:
Ontem li que Paul Dirac falou (sem citar, o que não me parece particularmente comprometedor) que "a religião é o ópio do povo". Quem sou eu para dizer que o inventor desta frase foi Karl Marx? E seu que já houve milhares de comentaristas da cena brasileira que disseram que "o futebol é o ópio do povo". Multidões.

Por falar em futebol e multidões, ouvi dizer que no próximo jogo do Grêmio enfrentando o Internacional, as torcidas não poderão ser misturadas. Se tal fosse permitido, é certo que daria briga da grossa... Por falar em multidões, segue-se que agora as torcidas não podem mais ser misturadas, o que me permite voltar a falar nas manifestações e os "vândalos". Vi na TV uma recente em São Paulo, em que essa turma depredava uma revenda de automóveis, essas coisas. Não que me arrependa da opinião anterior, dizendo que eles fazem parte das manifestações, como todos os demais, num sentido um pouco mais refinado do que o simples truísmo.

Por falar em truísmos, há dois que adoro:
.a. Gre-Nal é Gre-Nal
.b. em futebol se ganha, se perde ou se empata.

E que posso dizer contra esses vandalismos continuados que corrompem tanto as manifestações quanto o futebol? Só posso incriminar o governo: sua polícia leva jeito de ser menos organizadas do que os tais vândalos de passeatas. Não era o caso de, uma vez que os vândalos têm grupinhos infiltrados, a polícia fizesse o mesmo?

DdAB
Imagem: aqui.

29 julho, 2013

... então eu sou um intelectual

Querido diário:
No outro dia, disseram-me que um intelectual nunca está satisfeito com o que ocorre em seus tempos, sempre criticando os costumes, especialmente dos governantes e mesmo da plebe rude. Pensei no teor geral de minhas postagens, especialmente as que obedecem ao marcador de Economia Política. Em outra linha de raciocínio, intelectual é quem usa óculos. Por fim, intelectual cita outros quando se trata de afirmar suas ideias: "Cético quanto ao tempo presente, como a maioria dos intelectuais, [...]" (que se lê em Isaac Azimov e seu Colapso do Universo).

Então concluí que, neste caso, ou sou mesmo um intelectual...

DdAB
Nossos comerciais: aqui.
P.S.: esta postagem teve a atual quarta sentença acrescentada às 8h09min de 30/jul/2013.
P.S.S: e ainda tem aquela do "hago un esfuerzo" para ser intelectual ou o que seja! (às 11h57min).

P.S.S.S.: aos 5/jan/2015: este "hago un esfuerzo", vim a relembrar, origina-se de uma história que pensei ter contado aqui. Uma professora de espanhol conversava com um espanhol e chega um professor brasileiro e, vendo a conversação entretida na língua de Sancho Pança, inclusive o espanhol falando a língua de Quijote, indagou-lhe: "ustê fala espanhol?", ao que ele respondeu: "hago un esfuerzo", não foi isto?

23 julho, 2013

Tomate: livre e enlatado

Querido diário:
Nestes tempos de visita de mais um papa ao Brasil, a origem italiana lembra-me molho de tomate. Como, naqueles dias da crise do molho, eu andava preocupado com outros ingredientes, fui deixando minhas reflexões filosóficas sobre o tema. A primeira está no título: o mundo dos tomates se divide em:

.a. mundo livre
.b. mundo enlatado.

No mundo livre, a transformação de trabalho vivo em trabalho morto é menos intensa do que no mundo em que o produto do trabalho humano (e máquinas, etc.) é cristalizado na forma de tecnologias, rotinas e receitas que permitem armazenar o tomate por longos períodos.

No Brasil contemporâneo, o agronegócio é que tem feito a festa, bem modesta, por sinal, pois a indústria não tem enfrentado bons momentos e a incúria governamental impede que se leve a sério o crescimento baseado no setor serviços (escolas, hospitais, prisões, estradas, túneis, centros comunitários, tudo parece construção civil, mas acaba mesmo é prestando serviços).

Os chamados horti-fruti são menos mecanizáveis do que os hard crops, como a soja, o arroz e mesmo algumas outras lavouras.

Se houvesse rotinas, o trabalho seria enlatado, o tomate com ele, podendo ser conservado e transitar de uma safra a outra, com estoques de latas, ao invés de estoques in natura. Se a produtividade fosse alta, o preço do tomate enlatado botaria o do tomate livre prá baixo.

DdAB
Imagem daqui.

22 julho, 2013

Até o Estadão...

Querido diário:
 Costumo afirmar que sou um economista de esquerda. E costumo diferenciar-me de colegas de esquerda que não aprenderam a teoria da escolha pública, que seguem endeusando a estatização (produção e não apenas provisão de bens públicos e meritórios), que não desejam o governo mundial, e pilhas de outros recortes, diferentes visões da mesmíssima realidade. Ser de esquerda, bem entendo, não é algo passível de "prova analítica". Aliás, nem sustentar que a sociedade igualitária é melhor do que qualquer alternativa desigualitária.

Neste último aspecto, parece-me que a evidência empírica trazida por Wilkinson e Pickett (que acabo de ver já contar com um site na Wikipedia bem aqui) tem uma abordagem avassaladoramente indicando para as virtudes da sociedade igualitária. Mas quem confia 100% nos dados? Mesmo porque os dados, mesmo que capturados com precisão absoluta, não expressam todo o passado nem todo o futuro. Então por que igualdade? Pois estamos no mundo das ideias, bramindo com valores e crenças. E de ondes eles e elas vêm? Ideologia: praticamente já nasce com a gente!

Mesmo autodefinindo-me como esquerdista-igualitarista, há 50 anos, eu lia afanosamente os jornais da "grande imprensa", dois desaparecidos e dois ainda sobrevivendo, respectivamente, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. E nenhum deles expressava minha opinião, o que -lá da parte deles- era bastante sensato, pois enquanto tal, minha opinião estava em formação, dados os contornos ideológicos que me cercavam naquela época. Os dois primeiros pareciam-m um tanto mais à esquerda do que os dois paulistas. Mas esquerda mesmo eram os "nanicos" Movimento e Opinião, talvez já uma década adiante.

E o Estadão? Era o cognome dado ao jornal O Estado de São Paulo, em resposta ao alentado volume especialmente de seus cadernos de anúncios classificados. Pois ontem adquiri um exemplar alentado, mas não se compara com o que minha memória atribui-lhe naquele passado remoto. No primeiro caderno há um artigo intitulado "Da Rua Pra Web Pra Lei". Foi o mais interessante que vi até o momento. O autor do artigo é Herton Escobar, mas ele relata a visão de Douglas Theodoro (nada vi de muito conclusivo no Google) sobre "a web e as ruas". Diz o artigo:

A única maneira de acalmar as ruas, dizem, é digitalizar a democracia. Para isso, propõem a criação de uma 'praça pública' digital - Fórum do Cidadão-, na qual a população poderia debater e votar assuntos de interesse nacional [...]. [...] com validade política e jurídica, de modo que os debates e votações realizadas ali tivessem influência na formulação de políticas públicas.
Na prática, seria uma plataforma online para realização de plebiscitos e referendos, com computadores e smartphones no lugar das urnas eletrônicas.

Há anos, eu -ao lado de milhares de outros- falava (página 81 d'A Cura da Época Futura):

O mundo se movimenta ao ritmo de princípios, julgamentos de valor, de modo que a solução para esses impasses é uma sequência de plebiscitos, tão longa quanto seja necessário.

Mas, para concluir, não tenho dúvida de que a civilização passa por esta substituição da representação política por meio de instrumentos originários da internet. Por outro lado, não tenho dúvida de que a humanidade seguirá expressando-se "na rua" por muito tempo, talvez sempre. É claro que manifestações contra a corrupção e algumas coisas deste tipo podem ser realmente sepultadas, mas haverá outras que não consigo visualizar no presente e que certamente vão furar os "canais constituídos", mesmo que estes sejam muito mais democráticos do que os hoje disponíveis. 

DdAB
P.S.: a imagem é do próprio jornal. De minha parte, nas eleições, eu falava na chapa Serra-Dilma, por não ver maiores diferenças entre um e outra no que diz respeito às profundas reformas de que o Brasil precisava. Claro que hoje podemos dizer que, com Serra, tudo teria sido diferente e que, destes dois anos e meio da gestão da presidenta, ele teria encaminhado soluções que nem teriam suscitados os descontentamentos que culminaram nas manifestações. Mas nem tudo está perdido, pois ouço dizer que o PPS está convidando Serra para integrá-lo e como tal concorrer à presidência da república.

P.S.S. (aposto às 11h20min de 23/jul/2013: será que as afirmações que faço acima resultam do que eu já lera em passado remoto, retivera em minha mente e apenas agora olhei novamente? "[...] Kant's view that human racionality lacks the power to answer metaphysical queestions, since our knowledge is limited by our specific and narrowly-circumscribed capacities for organizing our field of sensation."

18 julho, 2013

5% do PIB (novamente)

Querido diário:
Volta e meia sou lembrado que o pagamento de juros por parte do governo federal mantém-se em 5% do PIB. E volta e meia renovo meu cálculo aproximado:

.a. PIB  = R$ 4,5 trilhões de reais (em 2013 com preços de 2012, IPEA e eu)

.b. População declarada detentora de empregos precários = 20 milhões (minha estimativa)

Então os 5% de juros têm o custo de oportunidade de quase R$ 1.000 por mês para cada um deles.

DdAB
Imagem daqui.

17 julho, 2013

Limpeza Involuntária

Querido diário:
O lado alegre das proposições escalafobéticas é que, de acordo com a epistemologia popperiana, elas não podem ser aceitas, mas refutadas. Mas refutá-las, este é o lado alegre, requer pesquisa e meditação. No outro dia (aqui), falei que o desenvolvimento econômico depende crucialmente da limpeza. Será que um/a assistente social consegue que um velhinho morador de rua tome três banhos (mínimo) por semana, além de fazer três refeições por dia, essas coisas?

E fiscalizar se as roupas dele (velhinho) estão sendo lavadas, os lençóis, as toalhas? Tem que chegar o dia em que a lavagem de roupa se torna um bem de mérito, com provisão universal. Ou seja, todo mundo ou tem lavanderia em casa ou pode lavar sua dirty linen na lavanderia popular. Sendo ILH o índice da limpeza humana, estou sugerindo que o valor adicionado Y é dado por

Y = f(ILH, V)

em que V é um vetor de outras coisas. Mas também é óbvio que

ILH = g(Y),

bastando ver o modelo japonês que referi naquela postagem.

DdAB
Imagem: os banhos romanos de Bath aqui.

16 julho, 2013

Tiro da Justiça: no coração

Querido diário:
Na linha das medidas para salvar o Brasil, entre os problemas localizadíssimos do poder judiciário que precisam ser resolvidos, localizo o desrespeito dos juízes à ordem estabelecida nas filas dos transplantes. Com efeito, os furos nas filas por meio de mandatos judiciais, burlando os critérios de "first come, first served" são absolutamente vergonhosos. Mudança já! Por um judiciário decente!
DdAB
Imagem vem daqui.
P.S.: em 600 deputados, um podia fazer uma lei retirando dos juízes o poder de quebrar as filas dos transplantes!