11 fevereiro, 2012

Em Favor do Aborto: basta de tanto imbecil!

querido diário:
meu ponto fundamental é que "aborto é assunto de comadres". em outras palavras, aborto é um assunto que não pode ser decidido por homens. quer fazer aborto? é homem? tem que calar a boca! quer fazer aborto? é mulher? bem, então que conversem entre si. na campanha eleitoral de 2011, em que sagrou-se vencedora, como previ, a chapa Serra-Dilma (com um programa de governo assemelhadíssimo, nas propostas), parece que a facção Serra andou acusando a facção Dilma de ser aborteira. claro que a própria Dilma negou, dizendo que aborto é assunto de saúde pública.

se é mesmo que são 3 milhões de casos por ano, não há dúvida de que estamos falando de endemia (ou, como parece que hoje os sanitaristas referem, pandemia). é uma vergonha que tanta gente faça aborto. gente mulher. é uma ofensa ao postulado da racionalidade. a menos que dê prazer, é de suspeitar que estas pessoas femininas estão cometendo um erro de avaliação sobre sua verdadeira função de utilidade. principalmente, se considerarmos que também se contam aos milhares as senhoras e senhoritas que morrem ao tentar fazer os abortos fornecidos pela indústria que trata do assunto. aborto, como falei, não é assunto de homem, enquanto problema do que a mulher deve fazer com seu próprio corpo. por contraste, o problema econômico do aborto é assunto do economista. o problema médico é assunto do médico, o problema religioso é assunto do religioso, e assim por diante.

tudo que falei acima tem a ver com o artigo de Cleber Benvegnú publicado na p.15 de Zero Hora de hoje. o Clóvis, minha gente, divergiria de minha sentença acima, pois -para ele- "[...] a assustadora comparação [feita pela nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres] do aborto com o HIV, o crack, as drogas, a dengue e todas as doenças infectocontagiosas [é] a mais fria redução do feto humano que já vi. Não querer reconhecê-lo como vida [...] é a postulação que já reúne muitos adeptos."

pensei: tem imbecil para tudo. inclusive um clube que não quer reconhecer o aborto como vida, claro. este não é o caso do articulista, nem de bilhões de mulheres que sabem que carregam no ventre "vida". o ponto, portanto, não é o da destruição de vida e sim de embrião. claro que destruir feto é o mesmo que destruir vida. mas destruir vida é feito por mim, neste preciso instante, ao inalar o ar que me circunda: bactérias, fungos, sei lá que mais. a diferença entre "embrião", "feto" e "bebê" tem tudo a vê, se rimo com mau verbo. obviamente, ninguém (exceto a macacada a favor da pena de mortes, que no final das contas se converteria -absoluta e relativamente- em pena de morte para pobres) é a favor da morte de bebês. nem de "fetos". mas a questão se coloca, neste aspecto, do aborto de "embriões".

bem, o artigo deste Benvegnú é um horror, pois recende a moralismo desde as primeiras letras. e diz que os/as aborteiros/as (a ministra, entre eles/elas). olha só o que disse o vivente: "Para além das palavras, [a mensagem da ministra] propõe uma assimilação do aborto como prática corriqueira. E ressoa no sentido de naturalizar o combate ao feto. Pobre e indefeso feto."

é de chorar de pena e ódio de um "advogado e jornalista" deste porte. confunde embrião com bebê? embrião e feto é certo que confunde. está por fora do assunto, tomando carona, fazendo eco ao deputado da bancada evangélica que tachou a mnistra de "aborteira". é de chorar. todo político é ladrão. mas tem muita gente de outras profissões que também descamba para o lado da imbecilidade.

de minha parte:
.a. aborto é tema interdisciplinar, podendo ser tratado até por burros
.b. decisão sobre fazer aborto é absolutamente indelegável da mulher que carrega, indesejadamente, um embrião e decide "tirar".
DdAB
esta imagem está aqui. e nada tem a ver com o incentivo do aborto para impedir o nascimento de imbecis, como é o caso dos políticos (incluindo os juízes que ganham seus R$ 400 mil mensais).

10 fevereiro, 2012

O Banco Central e os Assaltos

querido diário:
a inflação é um assalto ao cidadão. mas há outros milhares de tipos de assalto, não apenas o dos políticos que metem a mão no dinheiro público e fazem outros mal-feitos. o assalto que me prende a atenção está na capa de Zero Hora de hoje. três assaltantes retiveram 35 pessoas como reféns durante quatro horas. se cada um deles processasse o banco, cobrando R$ 1 milhão por danos aos nervos, teríamos uma cifra para o banco pensar que valeria a pena investir mais em segurança.

se o Banco Central tivesse um departamento de organização industrial, ele rapidamente iria começar a controlar essas chatices de filas e assaltos. aliás, acho que tudo tem a ver: a bagunça das filas só pode ser ambiente propício ao mal-feito. se o assalto de ontem valesse mesmo R$ 35 milhões, tá na cara que o banco ou sua seguradora daria um jeito ligeirinho. uma multa, digamos de R$ 200 mil por assalto, por modesta que seja, já ajudaria.
DdAB
imagem: abcz. parece que o chargista já percebeu que há necessidade de organização nesta bagunça institucional. sua criação do guichê de assaltos é uma sugestão de reduzir a violência contra o cidadão.

09 fevereiro, 2012

Nâo Falei Mal dos Juízes?

querido blog:
ontem esqueci de ler o jornal! imagina o que me andava nalma. mas não eram torvelinhos noite e dia, de autoria de J. J. Veiga, pois li-o (no sentido castelhano de lio) de noite. e decidi postar hoje o que mais me deixou estupefato. os vencimentos dos juízes! eu entrei no assunto há muitos anos por causa de uma brincadeira ("tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, me absorvendo, como disse Peninha).

queixa-me para meu amado prof. Haralambos Simionidis que o problema no Brasil era a datilografia (que nem existe mais e o Brasil segue com seus problemas). ele levou o assunto mais a sério do que eu gostaria e disse que o verdadeiro problema era o sistema judiciário. ele era, como sabemos, um homem muito, muito inteligente e preparado. mas não creio que ao ponto de ser um neo-institucionalista, quando esta escola ainda estava tomando corpo nos Estados Unidos e nem sei bem se Coase já publicara seu terceiro paper. claro que insisti na minha tese e ele, feito o ponto sério, associou-se à brincadeira.

a lição valeu. fiquei pensando naquilo. eu mesmo, também carente das luzes que me foram cedidas pela leitura atentíssima do livro de Samuel Bowles (mas na época, em Berlim, em 2006, eu já era autor do livrinho de teoria dos jogos), entendi que havia algo com as "instituições", o sistema judiciário, que vai muito além da remuneração dos juízes. eu falei aqui que o juíz ganha R$ 30 mil por mês. pois a Zero Hora diz que o jornal O Estado de São Paulo diz que eles ganham milhões anualmente, uns quatro ou cinco milhões. são 31 "ministros". vezes quatro milhões é dinheiro para corromper qualquer idealismo, cargos vitalícios, no wonder eles querem mudar a regra da aposentadoria do funcionário público e ficar mais cinco anos com a mamata. que se pode dizer de um estamento com este poder, com estes "salários"? como disse Monteiro Lobato que disse Carolina Michaelis, é só com "pau, pau e pau" que o assunto começa!
DdAB
p.s.: vídeo: não é o Wando acaetanando o Peninha? que viva para sempre!

08 fevereiro, 2012

Unidades de Mentira

querido blog:
o Adalbeto Neto disse que ganhou de natal um iPod com mil guigas de capacidade.

o Cesá Riô disse que ganhou de páscoa um iPod com mil terras de capacidade.

eu não pude conter-me e menti que ganhei de dia dos avós um iPod com um taura de capacidade.
DdAB
Glossário: guiga - 1.000.000 de gigas; terra - 1.000.000 de teras; taura: 1.000.000.000.000 de valentes iPods.
imagem: calorias não engordam!

07 fevereiro, 2012

Conluios: não apenas na economia

querido diário:
sabemos que a vida econômica societária se divide em três partes: comunidade, estado e mercado. talvez com seus "proto-ancestrais" surgidas precisamente nesta ordem. uma horda em que um macacão assume o comando pela força ou eleições e que começa a dividir alimentos com estranhos, incentivar a exogamia e, por fim, a troca de mercadorias. por fim? por fim, claro, o banco central!

agora, isto é história econômica. e o que é que isto tem a ver com a teoria econômica? primeiro, este recorte "mercado estado comunidade". não pode haver mercado sem comunidade, nem estado. nem estado sem mercado, nem mercado sem estado.

ante-ontem e especialmente aqui falei na importância do entendimento da ciência econômica para usarmos como lente que nos permite retirar alguma ordem do funcionamento aparentememte fragmentado do mundo real. o fato de se negar a lei da oferta e procura é uma baixaria. até esqueci de dizer em um dos comentários que fiz recentemente: claro que o mercado não resolve o problema de bens públicos, mas não era disto que se falava: sacos de supermercado e folhas de papel enrolando maconha esmurrugada.

pois bem, ontem Zero Hora, na mesma página 21 de que falarei em seguida, valeu-se do levantamento de preços dos postos de gasolina em Porto Alegre, deu-lhes a manchete de que poderia estar havendo um conluio. o fato é que 66 dos 90 postos pesquisados usam o preço de R$ 2,699. um preço milenar, uma casa além dos centavos, como passou a fazer parte da rotina da indústria dos distribuidores.

hoje a p.21 promete que as autoridades vão investigar os preços idênticos. é o jornal fazendo a agenda das autoridades ou parece que este caso é mais ameno? as autoridades falaram algo que Zero Hora achou que poderia dar manchete. e aí é que começou a reverberação. vejamos se amanhã ainda haverá ponto sem nó.

há 20 anos, a "teoria dos mercados contestáveis perfeitos" tomou minhas preferências e a de muitos outros (not to speak dos autores), mas depois caiu da moda. seja como for, mais velha do que ela é a tradicional divisão dos mercados microeconômicos em quatro:
.a. concorrência pura (o produtor tem que aceitar o preço de mercado)
.b. concorrência monopolístiva (o produtor é fraco como um concorrente puro e forte como um monopolista)
.c. oligopólio (das teorias tradicionais, a dos mercados contestáveis perfeitos é a mais bela, mas hoje dá-se mais atenção aos insights carreados pela teoria dos jogos)
.d. monopólio.

no caso, tenho quatro postos de gasolina que são meus xodós:
.a. posto 1 que tem frentistas com belos sorrisos
.b. posto 2 que se notabiliza por cobrar o menor preço do bairro
.c. posto 3 que cobra um pouquinho a mais do que o primeiro, mas dá lavagem grátis a quem abastece 20 litros
.d. posto que cobra um preço "não estou nem aí" e atende mal.

eles são, a sua maneira, monopolistas. mas também são concorrentes. concorrência monopolística. se estou com pressa, pelo o mais perto de casa. se estou para sorrisos, procuro as garotas, se é meu dia de briga, vou no dos rapazes que não estão nem aí e volta e meia pode-se trocar desaforos com eles.

e que o governo tem a ver com esta espécie de estratosférica coincidência de que todo mundo cobra o mesmo preço? não existe nada mais natural. a disciplina da indústria que tem um fator comum da maior importância: o próprio preço do insumo principal: os combustíveis. como tá tudo pertinho, dentro da cidade de Porto Alegre, por que haveria enormes diferenças de custos? claro que há outros custos, os aluguéis, os sorrisos das frentistas (ganham mais?), e por aí vai.

parece que vemos não é uma "manobra monopolística", mas a "força cega da oferta e procura", ou seja, um bem-serviço que está equiparado a bens ou serviços transacionados em mercados de concorrência pura. a homogeneidade do produto não permite grandes variações em torno dos sorrisos das frentistas.
DdAB
p.s. peguei uma amostra de três frentistas: abcz.

05 fevereiro, 2012

Segredo: a lei da oferta e procura segue em ação

querido blog:
nas frases da semana de meu jornal de domingo, vi uma que acabou por deixar-me de cabelo em pé (é isto?). o sr. Luis Henrique Lindenmayer, leitor, de acordo com o jornalista que as seleciona, disse: "Se eu ganhar a sacola do supermercado, ela polui, mas se eu pagar por ela, não polui."

seguindo cidades mais evoluídas, Porto Alegre está tentando reduzir o consumo de sacolas de plástico de supermercado. elas têm sido distribuídas gratuitamente e alguns querem cobrar. querem usar o mecanismo de preços para racionar o consumo. nada de errado com isto.

ao contrário, tem uma turma que pensa que a lei da oferta e procura não é algo sério, como o é a lei da gravidade. costumo dizer que a primeira permite a existência da indústira de transportes aéreos, enquanto que a segunda não consegue fazer mais do que jogar água morro abaixo. obviamente, colocar um preço na sacola do supermercado vai reduzir-lhe o consumo! mesmo que seja um preço simbólico. na verdade, eu diria que a função demanda por sacolas é algo do tipo: a quantidade demandada é função do preço, da renda dos consumidores, de seus hábitos, gostos e preferências e mais um vetor conveniente capturando tudo o mais que podemos manter constantes, enquanto pensamos nestas questões (preço próprio, preço relativo, rendas e hábitos). se o preço da sacola é baixo, haverá mais consumo de sacolas. e, claro, uma campanha publicidade pode deslocar para a esquerda a curva de demanda por sacolas, mesmo com o preço nulo ou baixo...

do mesmo local, minha frase da semana retirada do mesmo local (p.20) foi: "Meu dragão reagiu. Vomitei fogo.". Rita Lee, cantora, ao explicar por que criticou policiais que revistavam participantes de um show em Aracaju, onde foi presa por desacato. eu vira na televisão: era batida contra os portadores de baseados. e voltei a pensar na turba que deseja revogar a lei da oferta e procura. enquanto não houver pensamento econômico contribuindo para a discussão do consumo de drogas, este apenas fará aumentar.
DdAB
imagem: daqui. "avião antigo de combate a incêndios". ainda bem que não é combate a humanos. mas a guerra também tem muito a ver com a lei da gravidade e com a lei da oferta e procura.

04 fevereiro, 2012

Racionalidade da Política

querido blog:
eu, que -mais do que qualquer outro marcador- uso o "economia política", hoje escolho secundá-lo com o "Besteirol", o que daria, a rigor, na mesma coisa, com talvez diferenças maiúsculas. que digo? contradições no primeiro parágrafo? é brincadeira, é besteirol.

o que não é besteirol foi a entrevista que li ontem do sr. Milton Cypel, diretor do DAER (órgão das estradas de rodagem gaúchas). dias atrás, descobriram umas fraudes praticadas num posto de pedágio e a atribuíram a um engenheiro seu subordinado, que seria o responsável pela praça. o funcionário foi reciclado dos pedágios a outra posição importante, ganhando uma função gratificada. lá vai:

Zero Hora - O senhor acha correto alçar um servidor que responde por improbidade administrativa a um cargo de superintendente na sua diretoria no DAER?
Milton Cypel - Está havendo um linchamento de vários técnicos do DAER. Posso dizer que ele é competente e honesto. O problema é que ele comeu mosca. Não viu. Ou viu e ficou com medo de denunciar.

tem mais coisa, mais divertida, alusão ao roubo do dinheiro portado em cuecas e o olhar distante de Lula. e que se começarem a justiçar (no sentido mais trivial) algumas pessoas, terão que fazer o mesmo com todas. evocou-me o popular: "Se alguém gritar 'pega ladrão!', não fica um meu irmão". mas eu deixo por isto mesmo. a racionalidade do sr. Milton Cypel é um elogio à retórica e nâo à lógica.

caso se tratasse de lógica, deveríamos concluir que um indivíduo que é "competente e honesto" não come mosca. terá escolhido, por longos processos de seleção natural, alimentação menos nauseabunda. por seu turno, preservada a imagem retórica, quem come mosca num assunto de R$ 400 mil reais não pode ser declarado competente. ainda mais: se viu a trampa e tomou-se de medo para fazer a denúncia, não pode -honestamente- ser tachado de honesto.

em outras palavras, quem deveria estar em primeiro lugar na fila da porta das demissões seria o sr. Milton Cypel. aqui tem uma encrenca. não estamos falando de CCs, pacotes monetários destinados aos amigos e parentes dos políticos. mas de pacotes idem destinados a funcionários de carreira.

em ambos os casos, ambos os casos devem ser tratados racionalmente. explico-me: casos de falta de competência ou de honestidade devem ser saudados pelos CCs com demissão e remessa a novos treiramentos e cursos de ética. no caso dos funcionários públicos concursados, esse que deveriam ser a gema e o esteio da competência e honestidade, a primeira atiitude deve ser-lhe cortar-lhes a mão, ou melhor, cortar a familiaridade que a mão tem com a burra.
DdAB
imagem: aqui.