querido diário:
neste dia internacional da mulher, há muita coisa em discussão. não quero entrar nela, por achar que nada há de mais justo do que comemorar a "nova mulher" com um dia específico. eu até diria que este dia internacional deveria ser semanal. mas o dia anual, ao contrário do dia diário ou dia semanal, é de mais difícil olvido. por exemplo, eu declarei que todos os dias são os meus dias e, volta e meia, tenho-me esquecido de comemorar. hoje, por exemplo, faz um ano que comemorei o dia 8 de março como um de meus dias pela última vez.
e será doentia minha escolha de todos os dias do ano para, digamos, homenagear-me? também deixemos em suspenso esta palpitante questão, uma vez que o marcador da postagem não é "Vida Pessoal", se é que não me já alonguei nelas (you know isto de 'não me já', machadianos?).
pois tenho duas expressões em inglês para ajudar a pensar: craving e hankering. comecemos com o Webster/papel:
craving: vehement and prolongeg desire, a longing, as for food, drink, etc.
hankering: a keen appetite that causes uneasiness till it is gratified; vehement desire to possess or enjoy; hearning; craving.
primeiro: o hankering terminou evocando o craving, que não evocou o hankering. isto sempre me evoca que Lili (craving, no caso) deu o bolo em Joaquim, no caso. e casou com J. Pinto Fernandes (hankering), que não tinha entrado na história.
segundo: sabemos que nossos antepassados profissionais, os economistas dos anos 1940, criaram um trio que excluíam de suas preocupações, a fim de não complicar excessivamente a modelagem: as crianças, os criminosos e os loucos. sua (deles três grupos) autonomia decisória é apenas parcial. pensar no que motiva um louco, por exemplo, a jogar bingo compulsivamente ou a comer 35 totosinhos (cachorro quente das festinhas infantis porto-alegrenses contemporâneas) de vereda (como diz o gaúcho interiorano).
o problema da teoria da escolha racional é outro: como é que sei quando alguém não age racionalmente? por exemplo, juro que a criança que corta o dedo não está no modelo, mas também podemos explicar que o adulto que corta o lábio com canivete o faz apenas de modo acidental. exceto no filme "Pai Patrão", quando o soldadinho o fez deliberadamente, a fim de não ser eliminado do quartel, que era sua salvação da vida rude e severa das lides do campo.
DdAB
p.s.: tudo isto para não falar da violência do adulto contra a mulher e contra a criança. e para não falar tampouco da violência de adultos de ambos os gêneros contra adultos de ambos os sexos.
08 março, 2012
07 março, 2012
Popper e os Mistérios da Indução (... e mais um)
há cerca de um ano, estava eu a reler o livro "Busca Inacabada; autobiografia intelectual", Lisboa: Esfera do Caos, de Karl Popper ("Unended quest", em inglês). reler? sim, pois o li numa edição brasileira, mas amei o título em inglês, pois não parece haver nada mais popperiano do que buscas inconclusas. é um belo livro de autobiografia intelectual, escrito em 1969. portanto 1994-1969= 25 anos antes de seu passamento, aos 92 anos de idade (tudo com matemática rala).
a famosa nota 243, da p.212 desta edição lisboeta tem uma sentença interessante para a reflexão de véspera do Dia Internacional da Mulher, e que transcrevo verbatim:
O que afirmo é que uma teoria bem-corroborada (que foi criticamente discutida e comparada com as suas competidoras, e que "sobreviveu" até agora) é racionalmente preferível a uma teoria menos bem-corroborada; e que (na falta de propormos uma nova teoria competidora) nada se nos oferece de melhor do que aceitá-la e agir sobre ela, embora saibamos muito bem que nos pode deixar em maus lençóis em alguns casos futuros.
até aí está tudo ipsis litteris. o que não citei e que vem antes e me deixou atônito é que ele fala que "[...] o problema da indução de Hume é um dos dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento." claro que já fui indagando: e qual é o outro? e não pude responder. deixei por isto mesmo, pois li "Los Conceptos Elementales del Materialismo Histórico" e tampouco sei quais são.
mas, além do aprofundamento esotérico da sentença popperiana, temos pelo menos uma definição na linha do que sugeri em abcz. também temos -segundo aspecto- um elogio da escala ordinal de mensuração quando usadas para o grau de corroboração de teorias científicas. a teoria geocêntrica da natureza do universo é, por exemplo, melhor corroborada do que a teoria do crescimento do pão nos fogões a gás por osmose elíptica. esta última, que criei agora, precisa de muitas definições de termos antes de poder chegar a testes de corroboração. logo, a primeira é melhor, sob o ponto de vista, pois foi precisamente o que observei hoje: o sol nasceu ao lado esquerdo deste teclado, encontra-se agora sobre e ele, e passeia para um ocaso em seu lado direito. nota bene: não falei em teorias "rivais", como o faremos -Popper & myself- em seguida.
definição: corroborar uma teoria consiste em avaliá-la criticamente e compará-la com suas competidoras.
corolário: a teoria que sobrevive a esta avaliação crítica e comparação com as competidoras é preferível a outra que não alcançou estes dois estágios.
DdAB
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TER Equilíbrio
06 março, 2012
Tarso e seu Imbroglio com as Professorinhas
querido diário:
a palavra imbroglio não pôde ser colocada em itálico acima. estamos falando do governador do Rio Grande do Sul, o sr. Tarso Genro e das professorinhas da rede estadual de ensino. e da decisão de instâncias superiores a ambos de pagarem às garotas o piso salarial de R$ 1.451 mensais. em minha opinião, professorinha deveria ganhar mais e não menos do que esta cifra. mas fiquemos nela, para iniciar. tenho todas as razões do mundo para entender que a educação é o primeiro componente de uma sociedade digna. aliás, parece que todo mundo tem estas mesmas razões.
ocorre que, por questões de hipocrisia política, apenas a oposição é ágil o suficiente para garantir que esta prioridade se transformaria em dinheiro, caso fosse ela -oposição- e não o outro -situação- a empalmar o poder no dia do discurso. temos visto espantosas trocas de papel nestes 25 anos de redemocratização brasileira e a bola da vez é a situação negar o aumento e a oposição aplaudi-lo. aplaidir, claro, o aumento e não a situação. tenho argumentado que situação e oposição constituem as duas faces do mesmo governo, ou seja, ambos vivem do mesmo orçamento público.
e qual é mesmo o problema que hoje vem à p.33 do jornal Zero Hora? o governo, depois de muito esquentar a mufa, veio a entender o que o Planeta 23 já dissera há dias. fi-lo (filo?) no rodapé da postagem abcz. tornam-se agora mais explícitas as atitudes para acabar com a indexação, coisa que -obviamente- a oposição e os juízes serão contra. uns, por serem do contra e os demais, por serem a favor, né, sabidinhos?
que quererá Tarso? que é decente de ser feito, de mudar a lei? tá na cara que chegou a hora de acabar com a cascata salarial de professores ganhando múltiplos do piso. tá na cara que tem que acabar com a indexação do pagamento dos professores e principalmente com a indexação dos aposentados e de quem mais seja ao salário mínimo.
já andei anunciando que a sociedade ideal terá três remunerações básicas, em ordem decrescente de magnitude monetária:
.a. o salário mínimo,
.b. os proventos da aposentadoria e
.c. a renda básica.
DdAB
imagem: será uma professorinha ensinando o carteado a dois marmanjos? seja o que for, dentro de poucas horas, estarei vendo a exposição de Botero que acaba nos próximos dias na culta Porto Alegre.
a palavra imbroglio não pôde ser colocada em itálico acima. estamos falando do governador do Rio Grande do Sul, o sr. Tarso Genro e das professorinhas da rede estadual de ensino. e da decisão de instâncias superiores a ambos de pagarem às garotas o piso salarial de R$ 1.451 mensais. em minha opinião, professorinha deveria ganhar mais e não menos do que esta cifra. mas fiquemos nela, para iniciar. tenho todas as razões do mundo para entender que a educação é o primeiro componente de uma sociedade digna. aliás, parece que todo mundo tem estas mesmas razões.
ocorre que, por questões de hipocrisia política, apenas a oposição é ágil o suficiente para garantir que esta prioridade se transformaria em dinheiro, caso fosse ela -oposição- e não o outro -situação- a empalmar o poder no dia do discurso. temos visto espantosas trocas de papel nestes 25 anos de redemocratização brasileira e a bola da vez é a situação negar o aumento e a oposição aplaudi-lo. aplaidir, claro, o aumento e não a situação. tenho argumentado que situação e oposição constituem as duas faces do mesmo governo, ou seja, ambos vivem do mesmo orçamento público.
e qual é mesmo o problema que hoje vem à p.33 do jornal Zero Hora? o governo, depois de muito esquentar a mufa, veio a entender o que o Planeta 23 já dissera há dias. fi-lo (filo?) no rodapé da postagem abcz. tornam-se agora mais explícitas as atitudes para acabar com a indexação, coisa que -obviamente- a oposição e os juízes serão contra. uns, por serem do contra e os demais, por serem a favor, né, sabidinhos?
que quererá Tarso? que é decente de ser feito, de mudar a lei? tá na cara que chegou a hora de acabar com a cascata salarial de professores ganhando múltiplos do piso. tá na cara que tem que acabar com a indexação do pagamento dos professores e principalmente com a indexação dos aposentados e de quem mais seja ao salário mínimo.
já andei anunciando que a sociedade ideal terá três remunerações básicas, em ordem decrescente de magnitude monetária:
.a. o salário mínimo,
.b. os proventos da aposentadoria e
.c. a renda básica.
DdAB
imagem: será uma professorinha ensinando o carteado a dois marmanjos? seja o que for, dentro de poucas horas, estarei vendo a exposição de Botero que acaba nos próximos dias na culta Porto Alegre.
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Economia Política
05 março, 2012
Machado de Assis e o Café Tortoni
querido diário:
hoje não é domingo, mas esta postagem é do clube do lazer. tivesse eu todas as obras de Machado de Assis pdf-zadas, poderia procurar "Tortoni". talvez achasse comendadores e ritos carnavalescos. e tudo o mais. dizem-me que a obra completa em quatro volumes contempla todas as ideias jamais tidas ou a ter por escritores que usam como idioma básico aquele deixado por P. A. Cabral (e suas milhares de variantes, que se aceleraram desde o getulismo, mudando inclusive o nome do Brazil para Brasil. e eu apenas vim a descobrir este golpe no Brazil há uns 20-25 anos, at most.)
na p. 156 daquele mesmo v.2 de que falo desde ontem, estamos lendo o primeiro conto do livro "Histórias da Meia-Noite". o conto conta (epa!) com o título "A Parasita Azul", título que, a certa altura, revela o espaçonávico amor de Isabel por Camilo, que já a amava há algumas semanas, tudo espaçonávico, meteórico, asteroidífico. falei Tortoni? para benefício do -diria o próprio Machado em outras instâncias- leitor inquieto (diria?, se eu tivesse o pedefê, sabê-lo-ia, como ele faria com a mesóclise), transcrevo o parágrafo, que não fala de Isabel, mas deixa clara a natureza parisiense de tal café (que vou guardando na algibeira, diria ele, as razões destes escritos).
Mil singulares ideias atravessavam o cérebro de Camilo. Ora, almejava alar-se com cavalo e tudo, rasgar os ares e ir cair defronte do Palais-Royal, ou em outro qualquer ponto da capital do mundo. Logo depois fazia a si mesmo a descrição de um cataclismo tal que ele viesse a achar-se almoçando no café Tortoni, dois minutos depois de chegar ao altar o padre Maciel.
[n.b.: fiz duas correções: tirei o acento de 'idéia' e tirei a vírgula que presumo seja os editores destas Obras Completas que postaram entre 'tal' e 'que'; um dia comentarei frases começadas com 'Todavia' e usam vírgulas separando o advérbio do sujeito; e outras com 'e todavia', tudo machadianinho, ou melhor, tudo nestas obras completas. não me assusto, pois um soneto de Camões a LP&M em aquele errinho que o Word inseria em nossos textos há menos de 500 anos.]
a natureza bonairense versus natureza parisiense do Café Tortoni chamou-me a atenção na leitura do conto. e a Enciclopédia Britânica Paraguaya (Wikipedia em inglês) ajudou-me a sanar algumas lacunas, mas não apenas ela. em primeiro lugar, foi o Google que me levou a pensar que Machado teria lido sobre a existência deste tal Café Tortoni parisiense a (Henri-Marie Beyle) Stendhal. publicado em 1830, segundo vim a entender, "O Vermelho e o Negro" refere a vida mundana que muita gente levava no agora afamado café.
é óbvio que, sendo "Histórias da Meia-Noite" publicado em 1873, ou seja, 43 anos após a publicação d'"O Vermelho e o Negro", a obra steindhaliana poderia ter chegado há muito ao Rio de Janeiro. Machado a ter usado como prova incontestável de refinamento da parte de Camilo Seabra, que se formou em medicina em Paris, se não avanço a história, mesmo dedicando-se a esmerada vida de esbórnia e dissipação. mas também é óbvio que amigos comuns, brasileiros, franceses e de tantas outras raças pudessem ter frequentado ou escutado falar no afamado café e cantado a pedra a nosso literato maior. não conheço tanto de Machado de Assis (ainda lerei o Raymundo Magalhães a respeito), a ponto de afiançar que ele nunca saiu do Brasil e mal saiu da própria cidade do Rio de Janeiro. ele poderia ter ido com sua Carolina a Portugal, sei lá onde mais, todavia presumo que não o fez.
ok. Café Tortoni. inaugurado em Buenos Aires por um imigrante francês em 1858 que, claramente, homenageava o de Paris. como, por exemplo, há milhões de Cine Odéon, espalhados pelo Brasil.
DdABp.s.: esta foto é da Wikipedia original com a atual posição do Café Tortoni de Buenos Aires. uma casinha que bem poderia estar imitando um arrabalde parisiense. dizque a fachada foi refeita em certo momento. o que é après avant la lettre é a placa do café, que evoca já um Art Noveau de sua parte também reminescente dos letreiros de acesso a muitas estações de Paris.
04 março, 2012
Importante Concatenação Machadiana, ou quase
querido diário:
na p.186 do v.2 das Obras Completas de Machado de Assis, está rolando um conto intitulado "Ernesto de Tal". suas duas primeiras frases dizem literalmente:
Aquele moço que ali está parado na rua Nova do Conde esquina do campo da Aclamação, às dez horas da noite, não é nenhum ladrão, não é sequer um filósofo.
fiquei pensando: aparentemente, no mundo machadiano, inicia-se o processo com a condição de filósofo e, certo tempo depois, alcança-se a de ladrão. como sei isto? porque é óbvio que o "nem sequer" é mais do que "não", estabelecendo uma hierarquia. ou seja, quem não dá no couro inicia filósofo e por aí acaba seus dias, aposentando-se na condição, possivelmente, de professor ou mandalete.
de minha parte, eu já lera, ditado que fora para um menino de rua escrever no passeio público da Av. Ipíranga, o seguinte silogismo do tipo ZZZ:
M: todo político é ladrão
m: todo ladrão é político
C: todo político e todo ladrão são farinha do mesmo saco.
pois agora, aparentemente, podemos enunciar o silogismo ZZZ-bis que exibirá (em instantes veremos) o caráter de silogismo concatenado com o primeiro:
M: todo ladrão é filósofo
m: nem todo filósofo chega a ser ladrão
C: todo político é ladrão.
aparentemente este foi o melhor besteirol que pude produzir neste domingo. mas que fui inspirado or Machado de Assis lá isto fui.
DdAB
p.s.: sob o título "todo ladrão é filósofo", entre aspas, nada achei no Google Images.
p.s.s.: procurei: "todo menino de rua é filósofo". nada achei -talvez porque- parece que estamos em fase de baixo comparecimento dos primeiros às ruas e pontes da Av. Ipiranga.
p.s.s.s. já em desespero, procurei: "todo político é ladrão". e aí lavei-me: havia 4840 resultados. selecionei a imagem que acima vemos. é medonha!
p.s.s.s.s.: são 12h15min de 118/jun/2012. Por curiosidade, voltei ao Google, procurando "todo político é ladrão" e achei 2.110 resultados. Só pode ser falha do mecanismo de busca, pois -em plena época do sr. Charles Falls- deveria ter aumentado.
na p.186 do v.2 das Obras Completas de Machado de Assis, está rolando um conto intitulado "Ernesto de Tal". suas duas primeiras frases dizem literalmente:
Aquele moço que ali está parado na rua Nova do Conde esquina do campo da Aclamação, às dez horas da noite, não é nenhum ladrão, não é sequer um filósofo.
fiquei pensando: aparentemente, no mundo machadiano, inicia-se o processo com a condição de filósofo e, certo tempo depois, alcança-se a de ladrão. como sei isto? porque é óbvio que o "nem sequer" é mais do que "não", estabelecendo uma hierarquia. ou seja, quem não dá no couro inicia filósofo e por aí acaba seus dias, aposentando-se na condição, possivelmente, de professor ou mandalete.
de minha parte, eu já lera, ditado que fora para um menino de rua escrever no passeio público da Av. Ipíranga, o seguinte silogismo do tipo ZZZ:
M: todo político é ladrão
m: todo ladrão é político
C: todo político e todo ladrão são farinha do mesmo saco.
pois agora, aparentemente, podemos enunciar o silogismo ZZZ-bis que exibirá (em instantes veremos) o caráter de silogismo concatenado com o primeiro:
M: todo ladrão é filósofo
m: nem todo filósofo chega a ser ladrão
C: todo político é ladrão.
aparentemente este foi o melhor besteirol que pude produzir neste domingo. mas que fui inspirado or Machado de Assis lá isto fui.
DdAB
p.s.: sob o título "todo ladrão é filósofo", entre aspas, nada achei no Google Images.
p.s.s.: procurei: "todo menino de rua é filósofo". nada achei -talvez porque- parece que estamos em fase de baixo comparecimento dos primeiros às ruas e pontes da Av. Ipiranga.
p.s.s.s. já em desespero, procurei: "todo político é ladrão". e aí lavei-me: havia 4840 resultados. selecionei a imagem que acima vemos. é medonha!
p.s.s.s.s.: são 12h15min de 118/jun/2012. Por curiosidade, voltei ao Google, procurando "todo político é ladrão" e achei 2.110 resultados. Só pode ser falha do mecanismo de busca, pois -em plena época do sr. Charles Falls- deveria ter aumentado.
02 março, 2012
Teoria dos Jogos e Críticas ao Postulado da Racionalidade
querido blog:
em 2008, foi lançado no Brasil o livro
MATTHEWS, Robert. 25 Grandes Ideias; como a ciência está transformando nosso mundo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
na época, "ideia" se escrevia "idéia", quando a odiosa mudança cosmética que nos obrigou a jogar fora todos os livros "velhos" ainda não tivera lugar. eu, claro, tive a grande ideia de não jogar fora este livro com outras 25 Grandes Idéias. e já o li há muito tempo, se é que muito tempo se passou desde 2008 (a academia brasileira de letras diria que passou-se tempo suficiente para mudar a grafia da língua novamente, pois 1973 já ia mais longe ainda).
então reli na p.234 a nota 2 ao capítulo 2 Teoria dos Jogos, este encontrando-se nas p.29-36 do livro. agora vou reproduzi-la, para fins de destreza digitatória e linká-la a um comentário (n.b.: agora que as letras k, w e y voltaram, os estrangeirismos como os deste link podem escrever-se com k, não é? lá vai:
da primeira vez que li esta nota, apenas assinalei que há uma crítica quanto ao postulado da racionalidade (ver minha postagem sobre este postulado no texto de Oskar Lange aqui). o resto passou-me batido, por se tratar de crítica pueril, baseada em incidente infeliz, talvez mentiroso, ou pelo menos que não deu toda a informação relevante. admitamos que um incidente com os principais contornos da nota 2 sejam mesmo verdadeiros. aliás, admitamos que esta é uma peça de ficção, como a luta entre duas naves espaciais extra-terráqueas, dois alces ou dois dinossauros na Disneylândia, sei lá.
obviamente os economistas sabiam que não sabiam o tipo de jogador com que estavam-se defrontando. por exemplo, ele poderia ser um tipo brigão (falcão, na linguagem de um afamado jogo). ou ele poderia ser um tipo calmo, mas irracional. ou ainda haveria algumas dezenas de hipóteses para descrever o tipo do jogador "motorista". na hipótese de que o motorista era perfeitamente racional e gastou duas vezes o preço da corrida para "vingar-se" do jogador "economistas", como salvar a teoria da escolha racional? simples: basta dizermos que ele não queria maximizar lucros, seu objetivo, por exemplo, era o de tumultuar o máximo a vida dos economistas egípcios, ou fazer barbeiragens acompanhado de passageiros na frente da Loja McDonalds onde trabalha sua namorada palestina, sei lá. se ele -jogador motorista- age irracionalmente, o jogador economistas sabia que também deveria agir irracionalmente. não sabemos, aliás, se eles não o fizeram. pode ser que, antes de serem "jogados na rua", eles teriam quebrado a cara do motorista, que os teria levado novamente, com toda a cautela, ao hotel. [n.b.: não estou fazendo apologia da violência para se tratar com indivíduos que agem irracionalmente, por exemplo, as crianças e os loucos. sou Da Paz!].
passemos ao caso "falcão". o proverbial, como disse, jogo falcão x pombo sugere que a melhor estratégia para um falcão quando encontra pombo é arrombar. o falcão ganha a recompensa e o pombo recolhe-se humilhado, ou seja, sem o milho que estava em disputa. se o falcão se defronta com outro falcão, ele entra em pugilato e fere e sai ferido, reduzindo seu nível de bem-estar. se um pombo encontra outro pombo, divide-se o farnel 50%-50% (ou barganha-se). se o pombo encontra o falcão, o pombo entrega os ponbos, digo, os pontos, nada ganha, o falcão tudo ganha, mas o pombo sai feliz, em busca de outro pacote de pipoca (era milho?).
parece que a nota não foi capaz de motivar-me a fazer justiça à anedota. torno-me suscetível, quando posto com o marcador TER Equilíbrio, a ataques pueris ao postulado da racionalidade. creio que o principal ponto a ser discutido diz respeito ao aparato institucional que define as regras que regem o negócio de táxis em Jerusalém. então eles não usam taximetro? ou os economistas queriam burlar a cifra determinada pelo motorista? ou o motorista, no afã de destruir qualquer prosélito da teoria da escolha racional, criminosamente, recusou-se a ligar o taximetro?
se não fores olhar o Lange que sugeri acima, olha aqui a parte mais relevante:
em 2008, foi lançado no Brasil o livro
MATTHEWS, Robert. 25 Grandes Ideias; como a ciência está transformando nosso mundo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
na época, "ideia" se escrevia "idéia", quando a odiosa mudança cosmética que nos obrigou a jogar fora todos os livros "velhos" ainda não tivera lugar. eu, claro, tive a grande ideia de não jogar fora este livro com outras 25 Grandes Idéias. e já o li há muito tempo, se é que muito tempo se passou desde 2008 (a academia brasileira de letras diria que passou-se tempo suficiente para mudar a grafia da língua novamente, pois 1973 já ia mais longe ainda).
então reli na p.234 a nota 2 ao capítulo 2 Teoria dos Jogos, este encontrando-se nas p.29-36 do livro. agora vou reproduzi-la, para fins de destreza digitatória e linká-la a um comentário (n.b.: agora que as letras k, w e y voltaram, os estrangeirismos como os deste link podem escrever-se com k, não é? lá vai:
Nota 2. A crítica à teoria dos jogos muitas vezes se concentra na suposição de que os jogadores sempre atuam de maneira racional. Nigel Howard ilustrou os perigos da suposição de racionalidade com a história real de dois economistas que pegaram um táxi para ir para [o] hotel em [que] estavam hospedados em Jerusalém. Preocupados em não serem extorquidos, decidiram não discutir o preço até chegarem ao hotel, quando sua posição de barganha seria mais forte. Mas a estragégia deles, inteiramente racional, não funcionou. Entendendo que havia sido acuado em um canto por dois caras espertos, o motorista do táxi trancou as portas, levou-os de volta para onde haviam começado - e os jogou na rua.
da primeira vez que li esta nota, apenas assinalei que há uma crítica quanto ao postulado da racionalidade (ver minha postagem sobre este postulado no texto de Oskar Lange aqui). o resto passou-me batido, por se tratar de crítica pueril, baseada em incidente infeliz, talvez mentiroso, ou pelo menos que não deu toda a informação relevante. admitamos que um incidente com os principais contornos da nota 2 sejam mesmo verdadeiros. aliás, admitamos que esta é uma peça de ficção, como a luta entre duas naves espaciais extra-terráqueas, dois alces ou dois dinossauros na Disneylândia, sei lá.
obviamente os economistas sabiam que não sabiam o tipo de jogador com que estavam-se defrontando. por exemplo, ele poderia ser um tipo brigão (falcão, na linguagem de um afamado jogo). ou ele poderia ser um tipo calmo, mas irracional. ou ainda haveria algumas dezenas de hipóteses para descrever o tipo do jogador "motorista". na hipótese de que o motorista era perfeitamente racional e gastou duas vezes o preço da corrida para "vingar-se" do jogador "economistas", como salvar a teoria da escolha racional? simples: basta dizermos que ele não queria maximizar lucros, seu objetivo, por exemplo, era o de tumultuar o máximo a vida dos economistas egípcios, ou fazer barbeiragens acompanhado de passageiros na frente da Loja McDonalds onde trabalha sua namorada palestina, sei lá. se ele -jogador motorista- age irracionalmente, o jogador economistas sabia que também deveria agir irracionalmente. não sabemos, aliás, se eles não o fizeram. pode ser que, antes de serem "jogados na rua", eles teriam quebrado a cara do motorista, que os teria levado novamente, com toda a cautela, ao hotel. [n.b.: não estou fazendo apologia da violência para se tratar com indivíduos que agem irracionalmente, por exemplo, as crianças e os loucos. sou Da Paz!].
passemos ao caso "falcão". o proverbial, como disse, jogo falcão x pombo sugere que a melhor estratégia para um falcão quando encontra pombo é arrombar. o falcão ganha a recompensa e o pombo recolhe-se humilhado, ou seja, sem o milho que estava em disputa. se o falcão se defronta com outro falcão, ele entra em pugilato e fere e sai ferido, reduzindo seu nível de bem-estar. se um pombo encontra outro pombo, divide-se o farnel 50%-50% (ou barganha-se). se o pombo encontra o falcão, o pombo entrega os ponbos, digo, os pontos, nada ganha, o falcão tudo ganha, mas o pombo sai feliz, em busca de outro pacote de pipoca (era milho?).
parece que a nota não foi capaz de motivar-me a fazer justiça à anedota. torno-me suscetível, quando posto com o marcador TER Equilíbrio, a ataques pueris ao postulado da racionalidade. creio que o principal ponto a ser discutido diz respeito ao aparato institucional que define as regras que regem o negócio de táxis em Jerusalém. então eles não usam taximetro? ou os economistas queriam burlar a cifra determinada pelo motorista? ou o motorista, no afã de destruir qualquer prosélito da teoria da escolha racional, criminosamente, recusou-se a ligar o taximetro?
se não fores olhar o Lange que sugeri acima, olha aqui a parte mais relevante:
"Embora sendo um atalho destinado a economizar investigação empírica
elaborada, o postulado da racionalidade é, apesar de tudo, apenas uma
suposição empírica. É uma hipótese que, em cada caso, deve ser
verificada confrontando-se as deduções lógicas do postulado com as
observações da experiência. [...] Isso precisa ser enfatizado porque alguns economistas acreditam que o
postulado da racionalidade pode ser usado como princípio 'a priori', não
sujeito à observação empírica. Em tal caso, contudo, as conclusões
derivadas do postulado não poderiam ter, também, nenhuma relevância
empírica. [...]".
DdAB
imagem: alces sabidos.
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TER Equilíbrio
01 março, 2012
Como Calcular se um Ano é Bissexto
querids bloguers:
ontem acabou-se o fevereiro mais longo da história. quero dizer, tão mais longo quantos outros 503 fevereiros longos presumidos para a era cristã, ainda que apenas após o calendário gregoriano é que os pudéssemos reconhecer como tal. foram 29 dias de glória, como não se via há... quatro anos.
então, pensei que é fácil calcular qual ano é bissexto. por exemplo, se 2010 é bissexto, 2010-2006=4, então 2006 também é bissexto. obviamente, como sabemos, por evidente, o ano de 2010 não foi um ano bissexto, pois nele rolou uma Copa do Mundo, evento sabidamente de regularidade 4. como sabemos, os eventos de regularidade 4 ocorrem a cada quatro anos, como o ano bissexto. sem sobressaltos, também esses múltiplos de quatro protagonizam eleições para presidente da república. por contraste, mas mantendo a excusa aos sobressaltos, o 2012, o 2016, o 2020, assim como o 2008 e o 2004 serão e foram anos de eleições municipais.
então aquele critério de subtrair um ano do outro e chegar ao bissexto é mais furado do que manifesto eleitoral de partidos políticos brasileiros. quer um contraexemplo estupidamente convidadivo? usemos a fórmula para 2011. então 2001-2007 = 4, o que faria do ano que passou há dois meses também um ano bissexto!
aí um menino de rua deu-me a xave (ele não era bom em português): o primeiro ano bissexto do calendário corrigido foi o 4 d.C. e o segundo foi o 8 e o terceiro foi o 12, e assim por diante. então o primeiro pode ser calculado como B4 = 4 x 1, o segundo como B8 = 4 x 2, o terceiro, B12 = 4 x 3, e assim por diante, de sorte que, B2012 = 4 x 503. concluiu ele, triunfante, ontem vivemos o 503-ésimo dia bissexto da era cristão.
DdAB
p.s.: tirei esta intrigante imagem já das Getty Images de abcz.
p.s.s.: tá na moda a discussão sobre a recusa do governador Tarso Genro (PT-RS, como dizem) de pagar o piso salarial dos professores. ele alega que a correção monetária estabelecida na lei que ele mesmo ajudou a assinar é ilegal. enfim vejo algo, se não for 100% hipócrita, como positivo emergindo de um político: propostas explícitas de acabar com a indexação. como eu até já andei publicando, indexação é fria, pois "valores reais são imaginários". só existe valor a preços correntes, o resto é ficção deflacionativa.
ontem acabou-se o fevereiro mais longo da história. quero dizer, tão mais longo quantos outros 503 fevereiros longos presumidos para a era cristã, ainda que apenas após o calendário gregoriano é que os pudéssemos reconhecer como tal. foram 29 dias de glória, como não se via há... quatro anos.
então, pensei que é fácil calcular qual ano é bissexto. por exemplo, se 2010 é bissexto, 2010-2006=4, então 2006 também é bissexto. obviamente, como sabemos, por evidente, o ano de 2010 não foi um ano bissexto, pois nele rolou uma Copa do Mundo, evento sabidamente de regularidade 4. como sabemos, os eventos de regularidade 4 ocorrem a cada quatro anos, como o ano bissexto. sem sobressaltos, também esses múltiplos de quatro protagonizam eleições para presidente da república. por contraste, mas mantendo a excusa aos sobressaltos, o 2012, o 2016, o 2020, assim como o 2008 e o 2004 serão e foram anos de eleições municipais.
então aquele critério de subtrair um ano do outro e chegar ao bissexto é mais furado do que manifesto eleitoral de partidos políticos brasileiros. quer um contraexemplo estupidamente convidadivo? usemos a fórmula para 2011. então 2001-2007 = 4, o que faria do ano que passou há dois meses também um ano bissexto!
aí um menino de rua deu-me a xave (ele não era bom em português): o primeiro ano bissexto do calendário corrigido foi o 4 d.C. e o segundo foi o 8 e o terceiro foi o 12, e assim por diante. então o primeiro pode ser calculado como B4 = 4 x 1, o segundo como B8 = 4 x 2, o terceiro, B12 = 4 x 3, e assim por diante, de sorte que, B2012 = 4 x 503. concluiu ele, triunfante, ontem vivemos o 503-ésimo dia bissexto da era cristão.
DdAB
p.s.: tirei esta intrigante imagem já das Getty Images de abcz.
p.s.s.: tá na moda a discussão sobre a recusa do governador Tarso Genro (PT-RS, como dizem) de pagar o piso salarial dos professores. ele alega que a correção monetária estabelecida na lei que ele mesmo ajudou a assinar é ilegal. enfim vejo algo, se não for 100% hipócrita, como positivo emergindo de um político: propostas explícitas de acabar com a indexação. como eu até já andei publicando, indexação é fria, pois "valores reais são imaginários". só existe valor a preços correntes, o resto é ficção deflacionativa.
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