sábado, 30 de maio de 2015

Ulysses: buscar mensagens psicológicas


Querido diário:

No mundo mundano em que muitos de nós vivem e, certamente, aquela turma da ponte do Rio Liffey viveu, muita água rola diariamente. Parte da água que, deste modo, é rolante, uso-a para fazer a barba, em geral, de manhã. Nunca usei navalha, já usei gilete e agora uso as mais várias variantes dos aparelhos G2, G3 e até mais Gs. Precisamente por isto é que decidi tornar-me especialista na primeira sentença do Ulysses, a obra mais festejada como a primeira entre as dez melhores e mais marcantes do século XX.

O que levaria um blogueiro de meu porte a especializar-me apenas na primeira sentença de um livro de um milhar de páginas? Certamente foi o fato de que tentei lê-lo dezenas de vezes e nunca consegui paciência ou concentração para ir adiante dela. E isto ocorreu no tempo em que havia em português apenas a tradução de Antônio Houaiss do livro de capa dourada da Editora Civilização Brasileira.

Cito de memória:

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan acercou-se do patamar do alto da escada carregando um vaso de espuma de barbear em que entrecruzavam-se um espelho e uma navalha.

Cito em inglês:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.

No outro dia, caiu-me como uma "cacetada nos cornos" (como se dizia em meus tempos de Floripa) uma nova hipótese para a tradução, o que me permitiu misturar as pilhas de traduções ao português e ao espanhol:

Majestoso, o parrudo Buck Mulligan veio do alto da escada, carregando um vaso de espuma de barba no qual uma navalha jazia estirada sobre um espelho.

Não contente com os resultados que alcancei com esta nova tradução, fiz-lhe uma variante, na tentativa desesperada de provar que não li apenas a primeira sentença, pois é apenas mais para o meio do capítulo que ficamos sabendo da história do espelhinho quebrado de propriedade da empregada:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan vinha do alto da escada carregando um vaso de barba em que uma navalha estendia-se sobre um espelhinho rachadinho.

A encrenca toda reside naquela parte do "a mirror and a razor lay crossed", naturalmente. A novidade trazida pelo verbo "estender-se" permite-nos ver que o Planeta 23 acertou ao dizer que uma navalha se estendia sobre o espelho. Aquela encrenca (ainda maior) de dizer que espelhos se entrecruzam com navalhas não pode ser tridimensional, o único que poderíamos conceber nestas linhas geométricas seria que a navalha estivesse fazendo um xis com a rachadura do espelho da empregada da tia de Buck.

Neste clima, pensei em traduzir meu sábado em palavras e cheguei à conclusão que o único que poderia fazer sentido é "eita sabadão bem bem bão", dado o curto espaço que tenho para concluir esta postagem.

DdAB
Imagem daqui. Tive que apelar para a praia da Canoa Quebrada, pois o Google Images nada de útil me ofereceu quando pedi "espelhinho quebrado". E coloquei aquela escada pois duvido que, em todos esses tempos, ninguém tenha quebrado o salto do sapato naquelas escadas.

P.S. O verdadeiro original houaissiano é:
Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha.

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