31 janeiro, 2010

Segundo Dedo Longo

querido blog:
aqui na margem mais ocidental do Mar Adriático fez um domingo às vezes ensolarado. agora chove, mas chove, chove e choverá em todos os lugares deste desabrigado e desabrido planeta. seja como for, parece que as pegadas que andamos plantando por aqui e por ali deixaram algum/s registro/s. no caso, eu queria comentar o significado astronômico e astrológico do segundo dedo do pé.

terei ouvido que a Sra. Nadir (de Tal) estaria fadada a mandar no marido, por ter nascido com dois dedos do pé (ambos), o adjacente e o que lhe é adjacente, mais compridos do que os demais, inclusive o próprio hálux. de minha parte, minha mulher manda em mim, mas faz-me algumas vontades (servidão voluntária?) que embasbacaria as feministas mais combativas e mesmo os homens basbaques. não mais de 20 ou 30 anos atrás, deu-se um diálogo que não posso manter inédito para as ondas mundiais. esparrafachava-me em uma cadeira de praia, com uma sede dos diabos, mais fácil Cristo sair da cruz do que eu levantar-me dali. pedi a minha bonecra:

-trar-me-ias uma estupidamente do congelador?

ao voltar com a geladésima, a Sra. Zenite, nossa convidada para aquele período praiano (no Hemisfério Sul), indagou-lhe:

-por que que tu busca estas coisa para o Negrone? (supondo que a personagem [realíssima] que agora descrevo assim se chamasse).

a boneca disse apenas:

-porque ele pediu.

mesmo sabendo ter colocado tudo a perder, a Sra. Zenith indagou-me:

-e tu, por que que tu pede?

não que eu seja malvado, mas não tive contemplação e respondi um tanto secamente para quem ingeria uma mofada de tão molhada:

-porque ela tráz.
DdAB

27 janeiro, 2010

Amar o Grêmio

bom dia, meu amado blog:
tudo bom? esta é uma carta pessoal. quero falar de amor. o marcador, claro, é "Vida Pessoal", mas poderia ser os demais, nomeadamente, "Escritos" e "Economia Política". trata-se de "Escritos" porque não são "Falados", item que não consta de minhas indexações. trata-se de "Economia Política", pois nada há de mais distante da "Política Econômica" do que o que seguirei a escrever.

mulheres gremistas? gremistas petistas que desfraldam bandeiras azuis? gremistas GLS que agitam bandeiras multicores? nunca esquecerei uma reportagem do um tanto obfuscado jornal Zero Hora sobre harmonia das "torcidas", em que um par de garotas, com camisas Gre-Nal, mostravam intensa felicidade em estarem juntas, em amarem clubes diversos, adversários, e se amarem fraternalmente. chamou-me a atenção cada detalhe da foto. o que destaco (e não é o mais importante, apenas é importante para o tema) é que a garota com a camiseta do Grêmio, puxou o tecido com o punho cerrado bem sobre seu coração. amor ao Grêmio, amor à amiga, amor, por que negar?, à idéia do jornal de vê-las harmonizadas.

hoje apenas os gaúchos mais primários, brutos ("um bruto", parece-me ter lido em Graciliano, já não lembro se o rapaz de "Caetés" ou o próprio Paulo Honório (de "S. Bernardo") ou um terceiro, que me fugiria com as preás, a Baleia. e Graça botaria esta última vírgula?), repito, brutos, pensam na rivalidade universal como única alternativa à convivência com o - chavão - coirmão. elas eram coirmãs. e são. e amam seus clubes, e tem lá seus outros amores. ninguém ama apenas um objeto. nem ninguém pensa no objeto amado o tempo inteiro. no outro dia, falei que Freud referia-se a seus - hoje sabemos - algozes como "meus amados charutos". quando li isto, engasguei.

pois bem, a literatura moderna divide-se em contos, fábulas e apólogos, não é isto? bem, talvez não seja tão moderna assim, pois terei aprendido isto lá por 1965... seja como for, o conto fala de gente, a fábula fala de bichos que falam e o apólogo fala de objetos que falam. "Uns braços" é um conto, "O Leão e o Burro" é uma fábula e "A aguia de Haia" é um apólogo (n.b. "aguia" pronuncia-se "agúia" e não "águia".). não é isto?

por isto, somos forçados a concluir que podemos amar coisas, como fez Freud com os charutos, seus milhares de objetos de uso, desde as obras de arte até as camisas e o terno que, se ainda lembro, dos anos magros, era único e ele preciava deitar-se até que a Frau o lavasse e passasse, pois nada mais tinha de roupa. estranho esse velhinho. eu disse "esse" e não "este".

no outro dia, minha cunhada LP falou que fora ao jogo do Grêmio (acompanhada de sua irmã LP), este fora derrotado, em virtude de falhas gritantes do árbitro, do time adversário, da própria "torcida", de tudo e de todos, exceto a falhas do Grêmio itself. eu percebi o sofrimento e indaguei o que a fazia "apoiar" o Grêmio. ela, especialista no tema, disse ser amor. aqui em Pescara, às vésperas de receber CA, pensei em ZP (Zizzi Pozzi) e seu disco: "per amore". ligando Grêmio e charutos, obras completas de Machado e cadeiras de açoita-cavalo, canetinhas stábilo e tapete turco, vejo que amo pilhas de objetos materiais. e não sou materialista: materialista é quem ama a matéria intocada pela mão humana. quem ama um televisor é menos materialista do que quem ama uma cachoeira. quem ama um televisor e desconhece o segredo do fetichismo das mercadorias é porque não leu a seção 4 do capítulo 1 do volume 1 d'O Capital. não falei que tudo tem a ver com "escritos" e "economia política"?

DdAB
P.S. E o açoita-cavalo tem como nome científico Luehea Divaricata. Mas também achei na internet um chá Luehea Candicans e outro de Guazuma Ulmifolia.

26 janeiro, 2010

Vida de Campo

querido blog:
é brabo a vida de campo. é brabo nadar de poncho. é brabo nadar de poncho e mergulhar de guarda-chuva. água morro abaixo e fogo morro acima: forças inexoráveis. que podes fazer se te antepões a forças inexoráveis? deixa a água correr, deixa o fogo morrer. pode escrever errado para dizer que quem está dizendo são os outros, que diriam errado anyway?

por outro lado, diziam-me: "se eu não me queimo, se tu não te queimas, de onde surgirá a chama?" eu pensei em fazer minha parte, mas sobrevivi. pensei ter-me sentido culpado por ter tido amigos que se foram com a guerrilha. como, parece, ouvi de Zé Kéti, que era arrimo de família, um troço assim, que por estas ou outras sinuosas e pouco bélicas razões, não teria vindo fazer a Campanha da Itália, mas ficara "batendo perna no quartel", que devia ser bem situadinho no Rio de Janeiro.

por outro lado, entendi que os regionalismos são fascinantes e nem todos originam-se de nossos antepassados índios. será que todos sabemos o que é um poncho? e pubar? uma puba, do tupi, é algo fermentado. em particular a mandioca dada para animais atualmente ainda é deixada "a pubar" uns dias antes de ser-lhes servida. a internet Google Images deu-me a imagem acima.

por outro lado, entendi que um menino que circula elipsóidemente (então não circula, não é?) passou a odiar coraçãozinho de galinha servido no espeto, pois soube que o animal que o fazia pulsar já morrera. teve certa repugnância em ver-se envolvido com o cadáver de uma galinha. e lembrou-me -a história- de Albert Schweitzer, que disse ter-se tornado vegetariano, ao perceber que ser onívoro significava comer cadáveres.
DdAB

25 janeiro, 2010

Parcimonismo e e Perdularismo


querido blog:
seguem as reflexões sobre meiotas, isto que aqui em Pescara não tem cachaça, ainda que os supermercados estejam recheados de maionese, o que permite nela viajarmos.

mesmo que inventando alguma das palavras do título desta postagem, minhas reflexões sobre meiotas e teoria do meio copo cheio, poliana etc. adaptam-se, facilmente, do que segue. e que teria ouvido de dois meninos de rua, caso os houvesse por aqui. aqui há, já sabemos, trabalhadores precários, vendendo isqueiros, guarda-chuvas e similares.

disse o promeiro sobre o preço de um par de cobertores pura lã Aurora (não mais produzidos):
-499? (que era o preço da vitrine)
respondeu-lhe o outro:
-ah, 400 é um bom preço.
chocado com o critério de arredondamento usado pelo segundo menino de rua, o primeiro disse:
-500, né, meu?

eu disse que não diria nada aproveitável?
DdAB
p.s.: ainda assim, o otimista (cultivado ou natural) teria dito: "falar e rir para a sorte abrir". isto leva logicamente a pensarmos que o Senado Federal é que é um pândego. devia ser fechado.

24 janeiro, 2010

Polyana, Meio Copo Cheio e Otimismo Cultivado

querido blog:
neste domingo, em instantes, vou ver o filme Avatar. em três dimensões, não é teatro. de manhã, corri na Lungomare. vi milhares de gentes e lembrei de filmes fellinianos e, claro, das ramblas de Barcelona, que -se bem lembro- não são à beira-mar, mas nele chegam, no navio réplica da Santa Maria, da Pinta ou da Niña, não lembro.

neste domingo, procurei "otimismo cultivado" no Google Images e veio-me uma lembrança de Janis Joplin: "take another bit of my heart, baby". antes, eu enviara um e-mail a SM, sugerindo fazermos uma série de 3.146 papers, o que ela achou exagerado, pois o número pi poderia levar-nos ao infinito. mas talvez façamos um, o que quereria dizer simplesmente (pi)^0, capturou?

seja como for, decidi falar por aqui de
.a. teoria de poliana: tem que forçar a barra para instilar otimismo nos outros (se bem fizeres, viverás feliz contigo mesmo/a. lembrar que quem sorri é mais feliz do que quem não o faz!
.b. teoria do meio copo cheio: claro que todos podemos pensar metaforicamente que meio copo cheio é meio copo vazio. mas o bom mesmo é vê-lo cheio ou pelo menos pela metade.
.c. teoria do otimismo cultivado: podemos pensar que a vida é um mar de sargaços, mas o melhor mesmo é iludirmo-nos e passar a acreditar que ela é um mar de rosas.

o resumo destas teorias de felicidade auto-inflingível é um diálogo que não tive mas poderia ter tido:
DdAB: fui incapaz de convencê-lo.
AAM: ele foi incapaz de entender meu argumento.
ou seja, o melhor mesmo é "blame the victim" e "save one's own soul".
Não é isto?
DdAB

23 janeiro, 2010

Deus e a Matemática

querido blog:
não é que esta ilustração, obtida no Gogle Images, lembra-me de Deus e da Matemática? com alguns requebros que não vislumbro, tiro noves fora e chego ao desenho primevo de uma cabeça. evoluir é a finalidade da vida. deste modo, somos forçados a crer que a primeira cabeça, modelada por meio desta imagem, ou outra assemelhada, ainda que não intencional, foi mesmo de um blim-blim-blim trilhando o meio (meiota) do caminho entre o animal e o vegetal. não penso mostrar-se necessário dar maiores detalhes.

parece mesmo que evoluir é a finalidade da vida. primeiramente, porque existem as ciências lógicas, como a lógica e a matemática. elas fazem verdades lógicas, incontestáveis sob o ponto de vista lógico, lógico. por exemplo, sempre que alguém imaginar um triângulo retângulo, ele terá que provar que a soma dos ângulos internos ferve a 180graus, um troço assim. este "alguém" não precisa ser um terráqueo. mas, se pensar, terá que achar 180graus de ângulo (ou aquilo em que estava pensando não era um triângulo).

foi este tipo de raciocínio, bebericando um drink que inventei há dias, chamado de Duilino, em minha própria homenagem e em contraste a outro (muito assemelhado) chamado de Negrone, constituído o Duilino por 1/3 de Cointreau, 1/3 de Grand Marnier, 1/3 de Jack Daniels e 1/3 de quatro colheres de chá de suco de limão, e mais uma rodela de limão, o que também joga na roda (no Adriático?) nova versão da teoria das três metades, foi este tipo de raciocínio, rememoro que ouvi, expresso em forma verbal, há menos de 24 horas: a matemática não é uma opinião: é uma razão. gostei! de tudo, from scratch.

por outro lado, uma vez que evoluir é a finalidade da vida, permanece a questão etiológica: será que o Universo Amplo criou tudo e, ao fazê-lo, criou-se a si próprio ou, alternativamente, tudo sempre existiu? no primeiro caso, podemos falar em Deus, talvez até com "capitals" mesmo. mas, na linha da lógica de Guilherme de Occam, talvez o melhor seja pensarmos que este troço todo sempre existiu e que talvez nunca nenhuma mente (como entendemos o termo hoje, aqui no Adriático) tenha a capacidade de entender este troço da etiologia. talvez nem tampouco da teleologia.

somos "organismos", como terei ouvido de Sueli da Câmara (não é a Fada A), ou seja, seres minúsculos, comparados com os problemas que volta e meia criamos. esta visão leva-me a pensar novamente na teleologia e, especialmente, na axiologia: de onde vêm os valores que esposamos, se não for de uma forte formação religiosa? as ciências lógicas, e sua aplicação chamada de teoria dos jogos, talvez ajude a responder: sou bondoso porque meu pay-off eleva-se se meus amigos e adversários pensarmos que jogo tit-for-tat. como sabemos que sabemos ou não, pay-off é a recompensa que ganho ao envolver-me em algum tipo de interação com outro ser. como também sabemos, tit-for-tat é uma estratégia do estilo "olho por olho": ou seja se me furas um olho ou arrancas um dente, vingo-me furando-te apenas um olho ou arrancando-te apenas um dente. depois disto, eu estaria disposto a voltar a cooperar contigo. de modo análogo, eu e Marcel Mauss temos dito que a troca dos presentes é fundamental para o sucesso civilizatório: se me dás um presente, eu não te digo um desaforo. ao contrário, sentir-me-ei compelido a retribuir.

e que dizer de quem diz "quero sair miano"? ou "acredito nin Deus"? digo: bye now.
DdAB

22 janeiro, 2010

50 Anos Atrás

querido blog:
tudo isto deixa-me um tanto emocionado. o sucesso de minha festa de aniversário dos 62,5 foi algo que me fez pensar nos destinos da humanidade, além de meu próprio. mas tanto pensa em destino (output) que decidi pensar um pouco nas origens (inputs). o primeiro curso realmente sério que recebi sobre o tema foi na University of Sussex, Profa. Julia Hebden (que veio, anos após, a dar-me uma das decisivas cartas que viabilizou meu aceite em Oxford e, como tal, conhecer "o maior intelectual de esquerda" de minha vida. claro que há outros, como Samuel Bowles, mas este eu conheço apenas superficialmente. o Andrew J. Glyn é outra coisa: jamais o esquecerei.

"50 anos atrás" é o título de um livro espírita que li há mais de 50 anos. teria eu uns 12-13, em média (meiota), 12,5. jaguari. tinha Siomara. tinha um neguinho (diria a Ministra Dilma...) que suicidou-se bathing, ou seja, foi para a banheira, encheu-a (um escravo é que o teria feito?), cortou os pulsos, e ficou a olhar a água a colorir-se, colorar-se. no outro dia, evoquei que a primeira vez que ouvi falar em suicídio fora com o casal Leon-Natália. pois não fora. foi no romance. claro que, neste último, todo mundo reencarna, in due time, mas o bom mesmo é não dar cobro à vida. quem o faz pode ser declarado criança, criminoso ou louco.

por falar em "bathing" e "loo", que foi o que procurei no Google-Images, veio-me a figura acima, uma camiseta um tanto sargentepeperizada. mas não era a ela que eu estava buscando e sim a esta coisa de 50 anos. quanto dá 2010-1977? 43, quase 50, ou até 33. ou seja, há meio século, ocorreu-me algo muito curioso.
tipo dia 5 de agosto de 1977, parti de Porto Alegre, embalei-me por uns momentos no Rio de Janeiro e cruzei o Equador pela primeira vez em minha pacata vida. não tomei pileques, como -dizque- faziam os antigos navegantes portugueses. em sucessivas travessias, vi que eles deixaram milhares de descendentes, pois observei uma amostra muito expressiva de muito gambá.
como sabemos, Gatwick é o “segundo aeroporto de Londres”, sendo o primeiro chamado de Heathrow, perto de Reading, para onde eu fui, depois de dois dias de London-London. Caetano e Beatles. de Gatwick, como manda o figurino, fui à Victoria Station. lá, para minha estupefação, vi o primeiro sinal do que considerei sendo um arcaísmo do tempo em que não havia tempo: um aviso para que os usuários da estação cuidassem das carteiras, pois havia ladrões nas cercanias. pensei; “se não gostam de ladrões, por que não os prendem?”
seja como for, no próprio avião da British Caledonian, havia uma boa meia-dúzia de brasileiros e brasileiras. comemos pizza já em Londres, visitamos lojas de artigos “eróticos” na Chaucery Lane (?), Soho. antes do prândio, lembro de ter ido ao “hotel” (depois vim a saber que se tratava de halls universitários) de colegas para “gather together”, como eu aprenderia quase 50 anos depois...
tendo lá chegado, eu queria ir ao banheiro. Indaguei: “can I go to the bathrrrrroom?” achando-me petulante com o caprichadíssimo “r” americano, o Porter (que não era, presumo, o Michael) olhou-me de cima a baixo e fez sua história. não entendi patavina, odiei, mas agora mudei de opinião. ele estava dificultando minha comunicação consigo. dificultar a comunicação, no caso nada mais era do que uma manifestação do humor inglês.
milhares de anos anos depois, quando fui para Oxford (chegando por Heathrow, very practical), vim a entender que “loo” era o que eu deveria ter dito. agora que tudo passou, posso dizer que “loo” é nosso “banheiro”, o “gare de l’eau” dos franceses, que chegou aos ingleses como tal. são os tais. e eu estou na estrada, como sabemos, há mais de 62,5 anos. já cruzei o Equador mais de 20 vezes (entre idas e vindas; são tantas que perdi as contas...)
DdAB