14 maio, 2018

Os Intelectuais e a Prática

Querido blog:

Há tempos estou para fazer uma postagem sobre um número da revista Cult, o n.9 ano 21, edição especial de janeiro do ano corrente, especial, pois traz uma coletânea de textos publicados em vários números pretéritos na própria Cult sobre Hannah Arendt. Na página 48, fisguei um trechinho do artigo de Eduardo Jardim, intitulado Tensão entre a teoria e a prática.

[...]
A noção de que a teoria deve servir para uma intervenção transformadora na realidade marcou a compreensão que os cientistas sociais tiveram da sua vocação. Essa convicção se sustentava na aceitação de um dualismo de teoria e prática, presente ao longo da nossa tradição de pensamento, que, iniciada com os antigos, pretendeu impor à teoria a tarefa de produzir critérios para atuar na realidade - do que resultou uma compreensão instrumental da atividade intelectual. Hannah Arendt, por sua vez, propôs tratar da relação entre teoria e prática fora dos marcos tradicionais, o que a conduziu a tomar distância da solução 'ativista' adotada pela orientação dominante nas ciências sociais. Para ela, na atualidade, importa considerar o estatuto próprio da teoria, independentemente das tarefas que lhe são atribuídas, o pensamento sendo visto como a mais desinteressada das atividades espirituais.

E tenho sempre presente uma lição que aprendi há menos de um ano ao ver o filme argentino "Cidadão Ilustre". Essa personagem que enriqueceu na Espanha como escritor, ao visitar a cidade de nascença na Argentina, começou a ser requisitado a contribuir pecuniariamente para diversos e estrambóticos projetos. Um deles era um pai de um adolescente (?) excepcional pedindo que o escritor pagasse ao filho uma cadeira de rodas mais moderna do que a que se vê na tela. O escritor, negando-se a atender o pedido, disse apenas: "Não pense que não me preocupo com as questões sociais de meu tempo. Ocorre que escolhi outras frentes de combate e não esta da caridade cheek-to-cheek."

Não que isto seja um consolo para mim, que faço o que de melhor posso para mudar o mundo. Mas associo as duas passagens que me marcaram. Confronto-as com uma frase que aprendi com Jean Paul Sartre, na orelha daquele velho livro de sua própria autoria intitulado "Furacão sobre Cuba". Dizia-nos Sartre: "Quem não fizer tudo aquilo que pode, e mesmo mais do que pode, é como se não tivesse feito absolutamente nada". Quando li isto, fiquei pensando em como poderia eu fazer mais do que posso. Meu papel como intelectual e professor aposentado é fazer exatamente o que faço que posso chamar de "ligeiramente menos do que posso"... Afinal um heptagenário precisa aplicar-se em atividades individuais precisamente para manter essa condição e até ampliá-la para octogenário.

DdAB
P.S. Acabo de descobrir que o www.dicio.com.br não fala em heptagenário, mas em septuagenário.
P.S.S. Tá confirmado que o nome é septuagenário, como indica aquele rapaz de 70 anos que se dedica a atividades pouco edificantes, de acordo com a internet. Espero que seja fake-news.
P.S.S.S. Ali atrás declarei-me intelectual, pois:
.a uso óculos
.b tenho mais de 1.000 livros
.c tenho péssima caligrafia.

11 maio, 2018

Carbono versus Silício


Querido diário:

Todos sabemos que uma das minhas leituras literárias preferidas é a ficção científica. Não sei se meu primeiro tutor no assunto foi meu genial amigo Mauro Nogueira Oliveira, talvez tenha sido ele mesmo. O fato é que ele me emprestou alguns livros, entre eles a trilogia da Fundação, de Isaac Azimov que li precisamente no ano de 1979, outono. Eu era do hoje chamado PPGE/UFRGS e morava na Cidade Jardim, bairro Nonoai ou Teresópolis, quem sabe?

Mas o que passou a interessar-me desde meus anos de doutorado na aprazível cidade de Oxford foi a divulgação científica. Volta e meia faço estrambóticos elogios a Richard Dawkins e o livro "O Relojoeiro Cego". Depois li algumas outras obras de sua autoria, sempre com enlevo, até que ele tornou-se chato e repetitivo e até assustador em seu proselitismo contra a religião. Não que eu seja a favor da religião, ao contrário. Sou há anos da campanha "Ateus, saiam do armário", tema sobre o qual já publiquei alguma coisa neste very blog.

Em compensação, hoje vou fazer uma transcrição de um trecho de um livro que li entre 5 e 21 de fevereiro de 1996. Eu era professor do PPGE/UFSC, quando estava iniciando-se o mestrado em economia industrial. Geralmente não leio um livro em tão pouco tempo, ao contrário. Leio vários ao mesmo tempo, como já listei aqui no próprio blog. Pois então:

ATKINS, Peter (1995) The periodic kingdom; a journey into the land of the chemical elements. London: Weidenfeld and Nicholson. (Science Masters)

E na página 17, naturalmente, seguimos falando na Tabela Periódica de Mendeleiev. Então, se bem entendo a encrenca lá do alto, temos o carbono na posição que chamarei de (2,14) e imediatamente abaixo dele, o (3,14), nosso objeto de estudo, o silício (silicon para tradutores apressados...). Então o carbono é um não-metal e o silício é um semi-metal. Então, dããã, praticamente tudo é metal... E aí vem o Atkins:

Immediately to the south of carbon lies silicon. As is so often the case with neigbors, it is an uneasily ambiguous adjacency. Like carbon, but to a lesser degree, silicon is capable of forming some of the long-chain molecules needed in any process as complex as life, but it has not achieved a life of its own. It may be a sleeper in this regard, however. Carbon's principal products, living organisms, have struggled over a few billion years to establish mechanisms for the accumulation and dispersal of information (an austere distillation and definition of what we mean by "life"), and silicon has lain in wait. The recent alliance of the two regions, in which carbon-based organisms have developed the use of silicon-based artifacts for information technology, has resulted in the enslavement of silicon. However, such is the precocity of carbon's organisms that they are steadily developing silicon's latent powers, and one day silicon may well overturn the suzerainty of its northern neighbor and assume the dominant role. It certainly has long-term potential, for its metabolism and replication need not be as messy as its metabolism and replicaton need not be as messy as carbon's. Here we may see one of the most subtle interplays of alliances anywere in the kingdom, for silicon will not realize its potencial without the burden of development being carried out by carbon.

Então olha só. Não é impossível que aquela negadinha chamada por alguns de neo-malthusiana que deseja parar o desenvolvimento científico e tecnológico, sob a alegação de que o Terceiro Planeta de Sol não aguenta migre para um planeta retrógrado (com trocadilho...) e lá fique eternamente fazendo sua quimicazinha metabólica na base do carbono. Nós, os da esquerda progressista, vamos acelerar o desenvolvimento do atual sistema econômico, bater a escassez e criar naves que nos levem adiante, adiante, adiante. Num desses momentos, começaremos a fazer implantes cada vez mais íntimos, cada vez mais na base do silício. E esses implantes começarão a gerar nossos sucessores siderais. Mas permanece um probleminha: que fazer se o universo durar mesmo apenas uns 14 bilhões de anos? A solução, como ensinou-me Isaac Azimov será domesticar buracos negros e neles navegar, pulando de um universo a outro que nem uma guariba. Talvez então sejamos seres carbono-silício ou apenas silício, ou uma cruza entre eles, e não mais nos chamaríamos de humanos, mas adotaríamos um nome que um dia destes divulgarei.

DdAB
P.S. Dado meu desabotinado grau de ignorância sobre as implicações de tudo isto, achei oportuno colocar aqui o link que originou a figura que nos encima.

P.S.S.: Tradução do Google Tradutor (com pequena ajuda minha):
Imediatamente ao sul do carbono está o silício. Como tantas vezes acontece com os vizinhos, é uma adjacência desconfortável e ambígua. Como o carbono, mas em menor grau, o silício é capaz de formar algumas das moléculas de cadeia longa necessárias em qualquer processo tão complexo quanto a vida, mas não alcançou vida própria. Pode ser um dorminhoco a este respeito, no entanto. Os principais produtos do carbono, os organismos vivos, lutaram por alguns bilhões de anos para estabelecer mecanismos para o acúmulo e a dispersão de informações (uma destilação austera e definição do que entendemos por "vida"), e o silício ficou à espreita. A recente aliança das duas regiões, na qual os organismos baseados em carbono desenvolveram o uso de artefatos baseados em silício para a tecnologia da informação, resultou na escravização do silício. Contudo, tal é a precocidade dos organismos de carbono que eles estão constantemente desenvolvendo os poderes latentes do silício, e um dia este pode muito bem derrubar a suserania de seu vizinho do norte e assumir o papel dominante. Certamente ele tem um potencial de longo prazo, pois seu metabolismo e replicação não precisam ser tão confusos quanto o carbono. Aqui podemos ver um dos mais sutis arranjos de alianças no reino, pois o silício não realizará seu potencial sem o ônus do desenvolvimento ser realizado pelo carbono.

P.S.S. Lula presidente! E cadê o vice-presidente da chapa dele?

10 maio, 2018

Talo, Marcos e a Pegada do Processo Eleitoral


Querido diário:

Estou acompanhando cada vez com mais interesse as manifestações do Facebook sobre o futuro da candidatura Lula para a presidência da república. Selecionei dois textos que falam por si mesmos:

Talo Pereyra
7 de maio às 20:06 ·
Sou dos que acreditam que o PT está certo em defender Lula até as últimas consequências. Todavia, devo dizer que a tática petista, correta no essencial, não precisa de comentários emocionais em que se ataque o Ciro Gomes, como os proferidos por Gleisi Hoffmann "nem com reza brava" e reproduzidos à exaustão pelos setores mais despolitizados do PT (refiro-me aos da turma do "Lula ou nada"). Não deposito nenhuma confiança no judiciário. Mesmo que nos próximos dias Lula recupere a sua liberdade, posto que a sua prisão é uma das muitas arbitrariedades que temos visto no processo do famigerado triplex, desmascarado em ação ousada e brilhante pelo MTST de Boulos que mostrou que não havia "espaço gourmet" nem "elevador privativo" escancarando a farsa, haverá ainda que superar dificuldades enormes (quase que intransponíveis) para que o PT possa homologar a almejada candidatura do Lula. Isso posto, parece-me um profundo equívoco de Gleisi e outros dirigentes petistas isolar o PT das complexidades do atual processo eleitoral. Moro e a Globo não vão soltar facilmente sua "presa". Prenderam Lula para tirá-lo da disputa. E para eles não há "plano B" porque sabem que se Lula concorre vence. Levar ao Planalto um direitista, legitimado pelo voto (!) é o sonho da Globo! Querem um Macri. Se isso ocorrer, as consequências serão catastróficas. Vejam só o que está ocorrendo na Argentina... Não é momento para destruir pontes proferindo (ou reproduzindo) comentários irresponsáveis.


Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo citando Marcos Rolim (aqui)
10 de maio (tipo) às 18h

"O PT é, hoje, o principal obstáculo a uma política de Frente Ampla capaz de viabilizar uma candidatura competitiva de unidade entre os democratas, em um campo que vai do centro à esquerda (uma distância que, ao contrário do que imaginam os fiéis, é muito pequena no Brasil). A tática de insistir com o nome de Lula como candidato e de se dedicar efetivamente a derrotar a Lava Jato, dificulta a unidade possível e assinala um desses momentos históricos de falência da razão em que décadas inteiras tendem a se definir."

Já falei no outro dia: o mínimo que Lula já deveria ter feito, antes que as eleições comecem, isto é, antes que a TV comece a dar prioridade ao tema, ou melhor, antes que o horário político (criado pelos políticos para seu bem-estar e manutenção de seu encastelamento nos cargos eletivos), era ter negociado seu candidato a vice-presidente. E, antes dele, o programa que iria cimentar a coalizão de partidos de esquerda.

Candidato a vice-presidente é que não falta: Boulos, Manoela, Haddad, Olívio, e tanta gente mais. Ciro, why not?

Também indiquei uma backward induction para a modelagem estratégica do caso:
.a haverá ou não eleições
.b em havendo, Lula se elege
.c em havendo, Lula não se elege
.d em havendo, Lula não se elegeu pois os golpistas, os íncubos, os sei-lá-quê-mais impediram
.e em havendo, Lula influi nos rumos eleitorais
.f em havendo, Lula -que já havia indicado um vice-presidente em uma coalizão de esquerda- vê seu vice transformado em candidato a presidente e tendo como vice-presidente outra pessoa chave da coalizão
.g segue...

DdAB
A imagem é a dialética eleitoral: o impedimento da candidatura de Lula não é o fim. A terra seguirá dando suas voltas a cada 24 horas, o povo seguirá penando, se não houver uma frente de esquerda vencendo as eleições, inclusive compondo um congresso nacional decente.

08 maio, 2018

Talo, Ciro, Moisés, Lula e Myself...


Querido blog:

Tipo as 21h00 de 5 de maio corrente, Talo Pereyra escreveu um comentário a outro comentário sobre sua postagem elogiando a possibilidade eleitoral de Ciro Gomes para encaminhar a solução do imbroglio político-eleitoral em que vivemos. Eu acompanho o Facebook com mais zelo com que o faço com relação a Zerro Herra, por razões óbvias. E disse isto, pois não posso deixar de registrar haver opiniões contrárias, no próprio Facebook a este encaminhamento de Talo.

Ocorre-me em particular a posição de Moisés Mendes, que já se declarou capaz de ser candidato a deputado, caso o PT assim o sugira. E volta e meia insiste na ardente defesa de nosso presidente Lula, que ainda não abriu mão da crença na possibilidade de ser candidato a presidente, cabendo-lhe, neste caso, suceder o velho Michel (Fora) Temer. Moisés acha que encaminhar alternativas petistas à candidatura de Lula é ser conivente com o golpe que afastou do poder a presidenta Dilma e trancafiou Lula, com base em um julgamento pueril.

Pois eu sou mais a posição de Talo, com mediações. A justificativa de Talo é boa e, por isto, a reproduzo no que segue. De minha parte, não digo que já esteja decidido a votar em Ciro, que tem lá sua história de inteligências e burradas. Mas já revelei considerar que Lula tem, há muito tempo, perdido a oportunidade de mostrar-se útil para as esquerdas. Ele devia ter escolhido o candidato a vice-presidente em sua chapa e, com isto, se fosse impedido, já saberíamos qual seria o candidato ao cargo de presidente.

Pois então. Tá aqui o que diz Talo:

[...] Às vezes é preciso (um partido) dar um passo para o lado. O perigo da direita vencer é real. Penso que Ciro, se vencer, poderia pacificar um pouco as coisas. Haveria então 4 anos para reorganizar, depurar o corrompido e voltar em melhores condições. Companheiros do PT mais "de esquerda" declaram preferir Manuela ou Boulos. Assim ficam (de um ponto de vista ideológico) com suas consciências tranquilas. Mas creio que, na remota hipótese de uma vitória eleitoral de Boulos ou Manuela, o "baixo clero" os devoraria em dois toques. Não durariam seis meses. Mas o Ciro não seria moleza... Tem culhão e experiência para enfrentar essa patuleia. O fiel da balança (mesmo preso) continua sendo Lula, que deve estar refletindo profundamente. Gleice, Linderbergh, e outros, tem dado declarações emocionais. Mas na hora do "pega pra capar", a racionalidade irá prevalecer. E Lula sabe que se a direita vencer, as chances de um indulto ou absolvição são nulas. Sobre o assunto de que se houver uma brecha o exílio no Uruguay pode ser uma alternativa, concordo inteiramente. A nos cabe não permitir que chegue ao poder um oportunista ou aventureiro ou coisa pior. Não devemos errar, pois nesse caso nos entubam por 20 anos.

Minha posição segue sendo baseada numa pueril árvore de eventos do "jogo da eleição e Lula". Parece óbvio que um processo de indução para trás terá, já que não sabemos o final possível, algumas possibilidades de desfecho:
.a Lula foi eleito presidente da república
.b Lula não foi eleito presidente da república.
.c Lula teve aliados dando um golpe de estado e o empossando como presidente da república
.d não se realizaram eleições
.e etc.
Não é difícil pensar um pouco mais e exaurir todas as possibilidades. Olhando de volta para cada uma delas, vai ficando mais fácil entender o que deve ser feito hoje em dia. Por exemplo, se a hipótese "a" ocorreu, então saberemos o nome do candidato a vice-presidente eleito com ele. No caso de "b", abre-se novo ramo da árvore original, com candidato apoiado por Lula ou contra sua preferência. E assim por diante.

É fácil entender que no mínimo aquela ideia de Lula já ter, há muito tempo, indicado o candidato a vice-presidente em sua chapa já devia ter sido implantada há muito tempo...

DdAB
P.S. O que espero jamais ocorra é uma chapa Ciro-Requião. Já ouvi falar e tenho simpatia por outra Ciro-Haddad. Também têm pedigree as candidaturas de Boulos (entrou no partido errado) e Manuela (tá num partido estranho).

P.S.S. E tem o artigo intitulado "PT: construindo uma nova derrota?" de autoria de Aldo Fornazieri e publicado aqui.
abcz

07 maio, 2018

Marx: 200 + 2

Querido blog:

Sigo entusiasmado com várias matérias que tenho encontrado pelas remessas de amigos do Facebook.  Então hoje estou comemorando os 200 anos do nascimento de Karl Marx e mais dois dias. Agora vou falar de um artigo de intitulado "A atualidade de Marx" publicado no site "JornalistasLivres.org", de autoria de Slavoj Žižek (e que diz em caixa alta mesmo: ARTIGO ENVIADO PELO AUTOR DIRETAMENTE PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZ".

Ou melhor, não vou falar muito. Primeiramente, lemos um parágrafo assim em caixa alta e entre aspas:

“É UM PRECONCEITO MARXISTA – OU MELHOR, MODERNISTA – QUE O CAPITALISMO ENQUANTO ÉPOCA HISTÓRIA SOMENTE IRÁ SE ENCERRAR NO MOMENTO EM QUE UMA SOCIEDADE NOVA E MELHOR ESTIVER À VISTA, E EM QUE HOUVER UM SUJEITO REVOLUCIONÁRIO DISPOSTO PARA IMPLEMENTÁ-LA PARA FAZER AVANÇAR A HUMANIDADE. ISSO PRESSUPÕE UM GRAU DE CONTROLE POLÍTICO SOBRE NOSSO DESTINO COMUM COM O QUAL NÃO PODEMOS NEM SONHAR DEPOIS DA DESTRUIÇÃO DA AUTONOMIA COLETIVA (E INCLUSIVE DA ESPERANÇA POR ELA) REALIZADA NA REVOLUÇÃO NEOLIBERAL-GLOBALISTA."

Pois então: ontem mesmo aqui no blog mesmo escrevi algo contra esta ideia:

Destaco, especialmente, a questão sobre se devemos implantar o socialismo já, como a implantação da ditadura do proletariado, ou se isto é indesejável, pois nenhum modo de produção (o capitalismo, no caso) termina sem ter desenvolvido todas suas potencialidades. Depois de tudo o que viemos a saber do mundo soviético e do mundo maoísta, acho brabo forçar a barra.

Tentando amenizar a crítica à rapaziada que deseja a crise final -el derrumbre- procuro dizer que isto não é mais necessário, pois o capitalismo acabou há mais de 15 dias. Falando mais sério, entendo que a lei geral da acumulação capitalista encapsulada na consigna de "substituir trabalho vivo por trabalho morto" mostra-se agora em toda sua plenitude: a terceira revolução industrial tem potencial transformador maior até que o controle da energia atômica. E praticamente encontra-se em seus alvores. Nem podemos imaginar um mundo em que "o algoritmo" dará consultas médicas, psicológicas, aulas de dialética, aulas de equações diferenciais, sentenças judiciais, estratégias decisórias, o que mais imaginarei eu? Penso em Richard Rorty: devemos pensar o impensável! Em resumo: é ou não um preconceito marxista? Acho que é um preconceito do Zizek, sei lá.

Mas talvez meu principal argumento em favor da contenção dos "termocéfalos" que desejam acabar com o capitalismo pelo uso da força esteja associado a minha crença de que as instituições criadas pela humanidade, mesmo no norte da Europa, mesmo nos Estados Unidos ou Alemanha, em qualquer lugar, ainda não são capazes de sustentar um novo modo de produção. Nossas instituições -nem falemos no Brasil, Bolívia e Burundi- precisam evoluir num sentido que ainda somos incapazes de intuir e, menos ainda, apressar o surgimento.

DdAB
P.S. Cheguei ao artigo de Zizek por meio de uma postagem no mural de Rosemary Fritsch Brum.

06 maio, 2018

Marx: 200 + 1


Querido diário:

200 + 1 = 200 anos mais um dia!

Ontem o mundo inteiro -exceto o jornal Zerro Herra- comemorou o bicentenário do nascimento de Karl Marx. De minha parte, como vinha fazendo há cinco anos -completando-se o sexto ontem mesmo- fiz uma montagem com sucessivas postagens. Usei-a para ilustrar a publicação do dia e homenagear o filósofo e cientista social que marcou o desenvolvimento do conhecimento humano desde então. Aliás, a obra de Marx-Engels marcou também a política universal e até hoje há controvérsias sobre quem foi bom entendedor das mensagens deixadas por eles. Destaco, especialmente, a questão sobre se devemos implantar o socialismo já, como a implantação da ditadura do proletariado, ou se isto é indesejável, pois nenhum modo de produção (o capitalismo, no caso) termina sem ter desenvolvido todas suas potencialidades. Depois de tudo o que viemos a saber do mundo soviético e do mundo maoísta, acho brabo forçar a barra.

Naturalmente declaro-me um arguto comentador, pois entendo que tem muita gente que não compreendeu sequer o significado e relevância da teoria do valor. Na verdade, digamos que tenha sido no ano de 1987, ministrei no curso de graduação em economia da UFRGS uma disciplina intitulada "Economia Marxista", quando André Contri foi meu aluno. Já estudante de doutorado, um dia falávamos no tema e ele disse-me uma verdade absoluta: "o problema da transformação dos valores em preços está resolvido precisamente no final da seção 3 do primeiro capítulo do primeiro volume d'"O Capital", quando o valor alcança a forma preço da mercadoria. E aí o valor virou preço e aí... acabou. No volume 3, Marx (ou eu deveria dizer Engels?) tem em vista outros propósitos que não tratar precipuamente da forma do valor, mas refere-se a fenômenos ocorridos no mundo industrial que estava emergindo e fazendo-o praticamente testemunha do nascimento e consolidação. Era outra coisa.

De minha parte, no dia de ontem, fiz alguma propaganda do bicentenário em comentários apostos a uma meia dúzia de postagens de amigas e amigos no Facebook. Numa delas, adicionei a imagem que nos encima. Podemos ler: "Workers of all lands, unite!", trabalhadores de todos os países, uni-vos!, na forma e tradução que me chegaram ao ouvido, digamos, em 1966.

Pois agora, ao rever tudinho que fiz ontem, achei estranha aquela tradução para o inglês, eu -myself- que visitei o túmulo de Marx no Cemitério de Highgate (tomando a Central Line, descer no metrô em Aldwich), pois a memória retinha apenas algo parecido: "Workers of all countries, unite!". Troquei "lands" para "countries". Logo eu que tenho presente a lição de Ana Barros que desgosta do nome da ONU, pois não queria ver falar em nações (e nem mesmo 'terras'), mas em Organização dos Povos Unidos.

Então fui para a internet/Google, buscando em inglês. Achei a cita do Manifesto aqui. E tem algumas notas finais muito interessantes para animar (ou acabar) a controvérsia:

The famous final phrase of the Manifesto, “Working Men of All Countries, Unite!”, in the original German is: “Proletarier aller Länder, vereinigt euch!” Thus, a more correct translation would be “Proletarians of all countries, Unite!”
“Workers of the World, Unite. You have nothing to lose but your chains!” is a popularisation of the last three sentences, and is not found in any official translation. Since this English translation was approved by Engels, we have kept the original intact.

Agora não tenho em mãos a edição brasileira do Manifesto. Há pouco tempo, em nova tentativa de reter essa pérola político-literária, adquiri a edição da BoiTempo (aquela editora que fez a barbaridade de escrever "mais-valor", ao invés de "mais-valia". Ou seja, nem lembro como a Boitempo traduziu, mas tenho na cabeça "Trabalhadores de todos os países: uni-vos!"

Para benefício da preguiça, pedi a tradução do Google Tradutor:

A famosa frase final do Manifesto “Trabalhadores de Todos os Países, Unam-se!”, No original alemão é: “Proletarier aller Länder, vereinigt euch!” Assim, uma tradução mais correta seria “Proletários de todos os países, unam-se! "
"Trabalhadores do mundo uni-vos. Você não tem nada a perder além de suas correntes! ”É uma popularização das três últimas frases, e não é encontrada em nenhuma tradução oficial. Desde que esta tradução inglesa foi aprovada por Engels, mantivemos o original intacto.


Ok, bye.
DdAB
P.S. Da mesma fonte que usei para conferir o finale do "Manifesto", com a frase famosa, capturei o sumário da parte relevante do "capítulo 1":
Section 3 - The Form of Value or Exchange-Value
A. Elementary or Accidental Form of Value
1. The Two Poles of the Expression of Value: Relative Form and Equivalent Form
2. The Relative Form of Value
a. The Nature and Import of this Form
b. Quantitative Determination of Relative Value
3. The Equivalent Form of Value
4. The Elementary Form of Value Considered as a Whole
B. Total or Expanded Form of Value
1. The Expanded Relative Form of Value
2. The Particular Equivalent Form
3. Defects of the Total or Expanded Form of Value
C. The General Form of Value
1. The Altered Character of the Form of Value
2. The Interdependent Development of the Relative Form of Value, and of the Equivalent Form
3. Transition from the General Form of Value to the Money-Form
D. The Money-Form
abcz
P.S.S. E já que estamos metidos com os britânicos (ainda bem que não metidos em tumbas de Highgate...) e traduções, que tal elogiar aquela de "Grã-Bretanha". Eu, distraído, traduziria a Great Britain por Grande Britânia, claro que a maior das ilhas do arquipélago das Ilhas Britânicas.

05 maio, 2018

Marx 200: trabalhadores do mundo: uni-vos!


Querido diário:

Há tempos dei-me conta de que é fácil gravar a data de nascimento de Karl Heinrich Marx. É maio, é cinco: 05.05. E é século 19, ou seja, 1800 e mais: 18. Então seria, para facilitar, o ano 18 do século. Ou seja, 1818. Ou melhor: 05.05.1818.

E hoje completam-se 200 anos desse dia. O nascimento de um dos cérebros mais privilegiados que a humanidade já produziu. Digo-o não tanto por conhecer todos os demais cérebros, mas por entender que a simples ação de transcrever em manuscrito ou digitando suas obras completas de 56 volumes em parceria com Friedrich Engels já dá mais tempo de que posso dispor a partir de hoje.

E há uns cinco ou seis anos resgatei aquela foto que tiramos em Berlim. E cheguei hoje ao final do experimento. A menos que isto tenha-se transformado em um TOC e nunca mais possa livrar-me.

DdAB
P.S. Todos sabemos o fervor com que leio o jornal porto-alegrense Zero Hora que me apronta tantas e boas que cognomino-o de Zerro Herra. Pois hoje, pelo que li até agora, na página 2 -Túlio Millmann- temos uma aproximação como homenagem a Marx: fala-se no Instituto Max Plank. Não é coisa da Zerro Herra, trocar Plank por Karl e omitir o "r" no Max?
Max, digo, mas não é só isso. Na página 58, onde se o Almanaque Gaúcho, temos a seção
DIA 5 NA HISTÓRIA
\ Em 1818, nasce o filósofo Karl Marx, fundador da doutrina comunista moderna.
\ Preso e exilado, Napoleão Bonaparte morre na ilha de Santa Helena, em 1821.
\ Nasce, em 1946, a cantora e compositora Beth Carvalho.
E acrescento: também nasceu neste dia, meu querido ex-aluno Cássio Silva Moreira.

P.S.S. 2013: Domingo, 05 de maio: aqui.


P.S.S.S. 2014 : Segunda-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S. 2015: Terça-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S. 2016: Quinta-feira, 05 de maio: aqui. (Pulou um dia da semana, por ser ano bissexto).

P.S.S.S.S.S. 2017: Sexta-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S.S.S. 2018: Hoje: aqui mesmo.

P.S.S.S.S.S.S.S. E coloquei isto no Facebook:
Hoje completam-se 200 anos do nascimento de Karl Marx. Venho brincando com o momento deste bicentenário há vários anos. Quem sabe terá sido mesmo desde que fomos a Berlim pela primeira vez, o que conta-se como maio de 1990, quando o comunismo da Alemanha Democrática havia caído mas nem todos tinham-se dado conta. Há poucos anos comecei a viajação em meu blog:

P.S.S.S.S.S.S.S.S. Uma postagem de Jorge Ussan (sempre ele...) no Facebook suscitou estas reflexões de minha parte:

Acredito que um erro de Lula foi não implementar a Lei 10,835/2004 que instituiu a renda básica da cidadania (ergo sancionada por ele). E se meu segmento da esquerda assumir o poder em janeiro/2019, vou recomendar a implantação gradativa:
.a concessão da RBC a todas as mulheres que detêm a bolsa família
.b concessão às demais mulheres pobres nordestinas
.c concessão às demais mulheres do país
.d concessão aos pobres nordestinos
.e concessão aos demais pobres
.f concessão aos ricos.
Que faz um rico ao empalmar os ganhos da RBC? Por exemplo, desconta do imposto de renda. Ou até, com muita cautela, pode doar a um pobre de sua confiança (quero dizer, pobre deve ser impedido de doar a traficantes, malfeitores, políticos).