17 maio, 2026

Graciliano, Yalom e a Morte


Alguns anos, felizmente, muitos anos atrás, fui submetido a uma cirurgia nas premissas (!) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Já transferido a meu apartamento, uma enfermeira indagou por que eu portava uma cara de bunda. Informei-a ter medo da morte, ao que ela me distinguiu com uma sugestão de leitura:

YALOM, Irvin D. (2008) De frente para o sol; como superar o terror da morte. Rio de Janeiro: Agir. 

asseverando que a morte não é tudo aquilo de que falam. Pois li o Yalom, a estas alturas, já algumas vezes. Na página 212, com certas ediçõezinhas de minha parte:

Se entendermos nossa finitude, iremos:

.a. saborear o simples prazer de existir (dar sentido à vida)
.b. intensificar nossa compaixão por nós mesmos e pelos outros.

Além da já famosa página 212, escrevi mais sobre o tema aqui. E do título desta postagem, já falei em Yalom e, desse modo, em morte. Falta-me falar em Graciliano Ramos, nas avaliações que faço hoje de minhas leituras literárias dos dias que correm, meu autor inegavelmente preferido, sucessor legítimo de Machado de Assis.

Pois em matéria de Graciliano, andei lendo montes de comentadores. Nesse afã, reli por não sei quantas vezes + uma Vidas secas. Ia também reler S. Bernardo, mas decidi mudar o foco. Mais comentadores, agora

MORAES, Dênis (2012) O velho Graça. São Paulo: Boitempo. [Esta edição declara-se "primeira rev e ampl.", embora possamos inferir (e ler dentro do livro) que houve a primeira menos um em 1992].

Talvez Graciliano desgostasse da literatura de auto-ajuda em geral e, particularmente, Yalom. Mas eles têm como denominador comum o materialismo, o mergulho no Grande Além enquanto finalidade da vida. Olha o velho Graça:

   "Quando as dores [causadas pelo câncer de pulmão] aliviavam, levantava-se da cama para rascunhar na escrivaninha. Em uma manhã, Heloísa, acostumada ao silêncio do marido escrevendo, ouviu um ruido estranho: a pena a caneta-tinteiro riscando o papel, impacientemente.
   "-O que é, Grace? Por que você está assim?
   "Graciliano, alisando a testa, desabafou:
   "Porque eu sei que depois desta porra de vida não tem mais nada mesmo.
   "Os dois se abraçaram demoradamente e Heloísa, sentindo que ele pusara para fora algo que lhe martelava a cabeça, tratou de reanimá-lo:
   "-Agora, vamos lá dentro almoçar, vamos aproveitar a vida."

E tem mais Heloísa reanimando-o (agora na página 289):

    "Graciliano e Heloísa evitaram até o fim falar a morte. "Não sei quem fingia mais, se ele ou eu", lembraria ela. No dia em que o marido deixou entrever que não queria morrer, ela ainda assim teve forças para tentar contornar:
   "-Ateu tem medo de morrer?
   "-Não tenho medo de morrer. Mas é que ainda tenho tanto amor para dar..."
Graciliano diria para mim: "Bem. Sou at eu graças a Deus. E tu?" Eu redarguiria com o que o próprio Yalom falou na página 112 do livro citado. Era uma velhinha em estágio terminal de um câncer: 

Decidi que há, apesar de tudo, uma coisa que ainda posso oferecer. Posso oferecer um exemplo de como morrer. Posso servir de exemplo para os meus filhos e amigos ao enfrentar a morte com coragem e dignidade.

Que pude fazer além de redarguir? Disfarçar e reclamar da exclusão do trema da língua portuguesa.

DdAB

Um comentário:

Laura disse...

Se o ateu tem medo da morte, o fanático religioso teria medo da vida? 🤔