Querido Diário:
I. A Partida de Londres
Tudo começou sob o céu plúmbeo de Londres em novembro de 2006. Eu segurava o livro de Andrew Glyn, com os galgos que vemos na imagem da capa na figura que nos encima. E agora, ao sentir o peso da monotonia que vivo no momento da conclusão do "Igualitarismo", busco inspiração para novo livro. Foi naquelas paragens, entre o Tâmisa e a memória, que o Rio Paraguai renasceu em mim, eu que o visitara en la orilla da cidade paraguaia de Concepción em, digamos, 1955.
A capa do livro de Glyn e o Tâmisa levaram-me a imaginar que o abandono da vida monótona seria quebrado se eu decidisse descer um rio sul-americano discutindo cães e velocidade. Pensei em Somerset Maugham e Aldous Huxley, as sombras que projetaram o rastro de Érico Veríssimo sobre a história que eu inventaria com moldes de caminhos cruzados.
II. Os Lobos Manufaturados
Heráclito já decretou que o rio é um caminho que se move, mas minha mente fixou-se no caminho terrestre percorrido em velocidade de cruzeiro pelos galgos: hand-made wolves. Refiro-me aos lobos cinzentos que nós, humanos, esculpimos há 35 mil anos, para dar vazão ao fascínio que sempre tivemos por auxiliares de caçadas, seres muito mais velozes que nós próprios, nosso fascínio pela velocidade.
O processo de domesticação que levou ao galgo iniciou quando lobos mais dóceis e curiosos se aproximaram dos acampamentos humanos, atraídos que foram por restos de comida. Com o tempo, esses lobos passaram a conviver cada vez mais próximos dos humanos, e os que apresentavam comportamento menos agressivo e mais colaborativo foram sendo selecionados de modo natural e, depois, artificialmente. Ao longo de milênios, essa relação evoluiu e resultou na diversidade de raças de cães que conhecemos hoje, cada uma adaptada para exercer diferentes funções, como caça, pastoreio, guarda ou simples companhia. Como os antepassados do galgo ganharam a afeição humana, tomando o mundo? Até o momento, o galgo é o ápice dessa manufatura, desse delírio humano pela velocidade: um glabro (liso, sem pelos) feito para rasgar o vento. E para caçar lebres e veados.
A viagem descendo o rio Paraguai desde Corumbá, se viesse a ocorrer, seria um contraponto de peles e resistências. De um lado, os ciclistas modernos que raspam cada pelo do corpo em busca de um milésimo de segundo de aerodinâmica, os "glabros humanos". O homem que cria galgos se envolve com a emoção e a poeira das corridas. No centro, o rio. Heráclito dizia que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, mas eu me pergunto se poderíamos nos banhar duas vezes na mesma praia, na mesma banheira de águas encantadas en la orilla del Rio Paraguay.
III. A Logística do Impossível
A viagem que jamais farei, devo admitir, nasceu com um roteiro planejado. Começa no avião: Porto Alegre a Campo Grande. Depois, a poeira e o asfalto. Contrataria um guia, talvez um guarda-costas, eis que o mundo é brutal para quem carrega câmeras e computadores. Alguém que me levasse a Dourados, depois a Concepción. Imaginei amigos do Instagram e seus filhos abrindo os caminhos.
De Concepción, daríamos uma ré para as cabeceiras, na altura de Corumbá, alcançando o rio. O destino final? Mi Buenos Aires querida. Uma descida que é, na verdade, um mergulho em direção ao Sul, fugindo da monotonia londrina para encontrar a velocidade silenciosa dos galgos na beira do rio e passar o dente num asado no Grill Santa Generosa (de Castelar).
DdAB

Nenhum comentário:
Postar um comentário