Certamente uma tradução singular foi a do “Capital”, de Karl Marx, do alemão ao francês e publicada entre 1872 e 1875, revisada por ele e que influenciou até a segunda edição alemã. Pouco ou nada mais sei sobre as odisséias das traduções do “Capital” para o resto do mundo. A primeira sentença do Volume 1, na tradução brasileira e Reginalo Santana, é:
A riqueza das sociedades humanas em que rege o modo de produção capitalista é dada por uma imensa acumulação de mercadorais. Nelas, portanto, começa nosso estudo.
E tem outra tradução, esta da Editora Boitempo, que contém aquele desatino de traduzir o que todos os estudiosos brasileiros chamam de mais-valia por mais-valor, um dissabor, une vraie horreur.
Mas o que me interessa falar neste dia de Páscoa é sobre o “Ulysse”, tradução francesa do famoso “Ulysses” de James Joyce. Para melhor aproveitar la langue française, vou citando de memória a tradução de Antônio Houaiss:
Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan aproxegou-se ao alto da escada portando um vaso de barbear em que se entrecruzavam um espelho e uma navalha.
Vejamos agora literalmente a página 45 do “Ulisse” en français:
JOYCE, James (2013) Ulysse. Paris: Gallimar. (Tradução de Jacques Aubert [?])
Vai lá, James:
En magesté, dodu, Buck Mulligan émergea de l’escalier, porteur d’un bol de mousse à raser sur lequel un mirroir e un rasoir reposaient em croix.
Como de hábito, criado e acompanhado na leitura de quase já posso dizer dezenas de traduções, quatro das quais na língua portuguesa (Brasil, 3 e Portugal, 1), incorporei este exemplar a minha já admirável coleção, doado que me foi por Paula de Paris, uma prestimosa personal trainer que, com ingentes esforços, fez minha idade reduzir-se em 31,419% em dez anos e treinamento.
DdAB
P. S.
E tem um saboroso trava-língua em francês que me ocorreu ao mergulhar
nos mares tempestuosos percorridos por Odisseu, ao voltar para sua amada
Penélope:
O Diálogo Completo que me foi passado pelo chatbot DeepSeek:
Primeira voz (o de boas intenções ou anfitrião):
"Que manger à votre dîner ?"
("O que comer em seu jantar?")
Segunda voz (o modesto ou o convidado):
"Du pain sec et du fromage, c'est tout ce
qu'il me faut pour mon dîner."
("Pão seco e queijo, é tudo de que preciso para meu jantar.")
Primeira voz (espantado ou tentador):
"Comment ? Rien que ça ?"
("Como? Só isso?")
Terceira voz (o narrador ou o guloso, emendando com o trava-línguas):
"Car Didon dîna, dit-on, du dos d'un dodu
dindon !"
("Pois Dido jantou, diz-se, do lombo de um peru rechonchudo!")
Voz do autor do blog:
Esse último verso soa, em francês, como algo parecido com:
Car Didô diná, diton, du do dan dodu dandon.
P.S.S. Até hoje, 2.600 postagens no blog!
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