quarta-feira, 28 de abril de 2021

Discursos Escalafobéticos

 

Um corrigendum que adoro é aquele de sucessivos erros que se tornou "onde digo digo digo desdigo". E disse-me que se eu dissesse que digo digo que diria o que direi. Frase complicada? Comparemo-la com os discursos do presidente Bolsonaro. Mas, falando nele, observem duas passagens tenebrosas para os usuários da cloroquina e seus heroicos defensores.

A primeira inicia em, digamos, 1985 e prosseguiu aqui. Para o leitor menos interessado lá, mas disposto a seguir a leitura cá, digo cá o que interessa de lá.

ALVES, Rubem (1981) Filosofia da ciência; introdução ao jogo e suas regras. São Paulo: de Rubem Alves, da Editora Brasiliense.

Há sete janelas dadas aos animais no domicílio da cabeça, através das quais o ar é admitido no tabernáculo do corpo, para aquecê-lo e nutri-lo.
Quais são estas partes do microcosmos? Duas narinas, dois olhos, dois ouvidos e uma boca. Da mesma forma, nos céus, como num macrocosmos, há duas estrelas favoráveis, duas desfavoráveis, dois luminares e Mercúrio, indeciso e indiferente. A partir destas e de muitas outras similaridades na natureza, tais como os sete metais, etc., que seria cansativo enumerar, concluímos que o número dos planetas é necessariamente sete.

Não parece direitinho um discurso de nosso (?) presidente da república? Falei "nosso" a contrapelo de objeção a um amigo que me disse ser Bolsonaro "meu" presidente. Que fiz? Redarguí que ele é presidente da república e não meu presidente, nem de perto. Em compensação, precisamente uma arenga similar, também ditada por ele, encontrei em

TABORI, Paul (c.2017) História Natural da Estupidez. Silveira, PT: BookBuilders (Letras Errantes). [Tradução da edição britânica de Fernando de Moraes].

Tabori, um intelectual húngaro migrado para a Grã-Bretanha, fugido ao nazismo, fala da estupidez observada no mundo inteiro. E cita um trecho de seus conterrâneos que achavam que umas certas parreiras (de uvas, ok?) davam suas bagas folheadas a ouro. E seguiu falando nesse estúpido culto ao ouro. Cito uma passagem longa, a fim de colher dois coelhos: o da estupidez humana e o do presidente, ou melhor, então trata-se apenas de um coelho, nas páginas 53-54:

   Jacob Horstius, professor e reitor da Universidade de Helmstädt, publicou em Leipzig, em 1595, uma obra com o tortuoso título de De aureo dente maxillari pueri silessii, primum, utrum cius genaratio naturalis fuerit, nec ne; deinde an digna eius interpretatio dari quaeat. [O dente de ouro maxillari criança silessii, em primeiro lugar, se é natural que os jovens genaratio não fazem; Depois disso, merece uma interpretação dessa proporção. DdAB Tradução da Wikipedia que não me atrevi a revisar, pois é puro latinório.] Não admira que provocasse uma autêntica guerra no mundo erudito.
   O livro inspira-se num rapaz silesiano de dez anos a quem tinha nascido um dente de ouro. Um genuíno molar de ouro no maxilar inferior. Esta posição possuía alto significado.
  Se, nesses tempos, um sábio viesse declarar que vira uma criança de cujos ouvidos jorrava mercúrio ou a quem nascera uma unha de cobre, tê-lo-iam internado, sem demora, num manicômio. Como, porém, o metal da história de Horstius era o ouro, o milagre foi encardo com grande sisudez, e a ciência utilizou todos os meios ao seu alcance para resolver o enigma.
O Professor Horstius apresentou uma teoria com mostras de brilhante lógica.
O rapaz nascera em 22 de Dezembro de 1585. O Sol estava na casa de Rama, em conjunção com Saturno. Em virtude das condições astrológicas favoráveis, as forças que alimentavam o corpo da criança agiram com tão extraordinário zelo, que produziram ouro em vez de osso.
Evidentemente que isso, por si só, explicava o milagre. Mas à influência das estrelas juntava-se um facto cujos efeitos eram bem conhecidos da ciência médica. Durante a gravidez, a mãe tinha visto objectos ou moedas de ouro, e, em seguida, tocara acidentalmente com a mão num dos dentes molares. Ora é do conhecimento geral que, quando uma mulher grávida deseja qualquer coisa e, ao mesmo tempo, sua mão toca na cara, nariz, pescoço ou qualquer outra parte do corpo, a criança aresentará um sinal cujo formato é idêntico ao objeto desejado. [...]

Transcrevi o longo texto tanto por ter ociosidade material e espiritual durante a pandemia quanto pela possibilidade de que algum frequentador do Planeta 23 também esteja, ainda que apenas por alguns minutos, gozando das delícias do dolce far niente. Não posso deixar de aditar, ao lado de minha estupefação, os elogios rasgados por médicos, outros cegos para os rudimentos mais simples do método científico e, naturalmente, o presidente da república à cloroquina e seus correlatos. Só faltava referirem as propriedades salvadoras dos chás de jasmim de cachorro, de que nos falava Monteiro Lobato a propósito da sabedoria dos aparentados com Jeca Tatu. 

DdAB

P.S. Talvez a mais escalafobética de todas as manifestações da estupidez do presidente da república e seus antecessores seja aquela menção à conjunção entre Rama e Saturno. Ou seja, um deus da Índia e seu parente romano.

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