terça-feira, 13 de abril de 2021

Conceito de Custo de Oportunidade: o pedigree

 

(Imagem: fico no Brasil ou mudo pra Itália)

Um livro de história do pensamento econômico de bom pedigree é

EKERLUND, R. B. e HÉRBERT, R. F. A history of economic theory and method. 

O exemplar que consulto há anos, volta e meia, foi-me emprestado por meu colega de curso de mestrado (1975) e como professor da UFSC em 1980 e depois, em 1995-1998 novamente na UFSC, o herr professor doktor Lois Roberto Westphal. Um de meus mais grandiosos amigos. Pois talvez até já tenha devolvido o livro a seu proprietário, o fato é que, em meus guardados especialmente para consultar e limpar durante a pandemia encontrei uma nota em que anotei trechinho desse livro constante de sua página 108. Ali se  fala sobre o conceito de custo de oportunidade. Se bem entendo trata-se de uma noção intuitiva tão velha quanto a humanidade: passo a noite na boate ou estudo para a prova; como carne de vaca hoje ou sigo bebendo leite... Quero dizer, o conceito de custo de oportunidade é a base da teoria da decisão: afinal como a carne ou sigo bebendo o leite da vaquinha?

Uma vez que desejo que a turma do Planeta 23 reflita sobre este conceito e, talvez, minha inserção naquele mundo da economia política moderna, vou citar in totum a passagem que me pareceu relevante. Aqui no corpo da postagem, exibirei a tradução que o Google Tradutor fez especialmente para mim nesta noite (e que eu revisei...) e colocarei o original no rodapé.

Tradução Google (e eu) 

Ao incluir o lucro como um dos componentes necessários do preço, [Adam Smith] demonstrou uma compreensão do conceito de custo de oportunidade. Ele observou:

'Embora na linguagem comum o que é chamado de custo principal de qualquer mercadoria não compreenda o lucro da pessoa que vai vendê-la novamente, se ela vendê-la como um preço que não lhe permite a taxa normal de lucro em sua vizinhança , ele é evidentemente um perdedor com o comércio; pois, ao empregar seu estoque de alguma outra forma, ele poderia ter obtido aquele lucro (Riqueza das Nações, p. 55) '[sic, mas meus parênteses com o nome de Adam Smith].'

Observe o desenvolvimento natural das idéias nesses dois capítulos de A Riqueza das Nações. Muitos escritores anteriores tinham uma teoria do valor do custo da mão de obra, e muitos escritores posteriores atribuíram a mesma teoria a Smith. Mas sua explicação é realmente outra coisa. Uma coisa é cobrar que a verdadeira medida do valor, em termos reais, é o tempo de trabalho, e outra é admitir que a fonte do valor são os custos de produção necessários para cada mercadoria. Em suma, Smith sentia que as teorias do valor do trabalho eram válidas apenas para sociedades primitivas onde o trabalho representa o principal (senão o único) fator de produção.
CONVENÇÃO: autores do livro em marronzinho; Smith em laranjinha; autores novamente em azulzinho.

DdAB
P.S. Original das citações do texto da postagem de hoje:
By including profit as one of the necessary components of price, [Adam Smith] demostrated an understanding of the concept of opportunity cost. He observed:
'Though in common language what is called the prime cost of any commodity does not compreehend the profit of the person who is to sell it again, yet if he sells it as a price which does not allow him the ordinary rate of profit in his nehgbourhood, he is evidently a loser by the trade; since by employing his stock in some other way he might have made that profit (Wealth of Nations, p. 55)' [sic, mas meus parênteses].'
Notice the natural development of ideas in these two chapters of The Wealth of Nations. Many earlier writers had a labor-cost theory of value, and many later writers atributed the same theory to Smith. But his explanation is really something else. It is one thing to charge that the true measure of value, in real terms, is labor time, and another to avow that the source of value is the necessary costs of production for each commodity. In short, Smith felt that labor theories of value were valid only for primitive societies where labor represents the main (if not the only) factor of production. [sic]
CONVENÇÃO: autores em marronzinho; Smith em laranjinha; autores novamente em azulzinho.

P.S.S. Outro dia falarei sobre outros dois conceitos de custos muito importantes: custo marginal e custo social.

P.S.S.S. A imagem veio daqui. E tem estes textos no site: O crédito não é obrigatório, mas a vinculação é muito apreciada e permite que os autores de imagem ganhem exposição. 
Você pode usar o seguinte texto: Imagem de Kookay por Pixabay

P.S.S.S.S. No Facebook, minha amiga Claudia Las Casas indagou:
Professor economia em strictu sensu é isso certo?! Fazer escolhas...saber fazer escolhas...corrija- me se eu estiver errada por gentileza.
E eu respondi:
A rigor, Claudia, existem duas ciências econômicas cuja convivência é apenas residual. Uma delas, chamada de "moderna teoria econômica" por Oskar Lange, preocupa-se com o que os economistas chamam de alocação de recursos. Neste caso parece bastante óbvio que o problema da escolha é o cerne da preocupação: vamos botar recursos na produção de vacinas ou na de, digamos, armas.
Além desta, o mesmo Lange fala na "economia marxista" que se preocupa em entender o nascimento e a evolução das economias capitalistas e os conflitos de poder que nelas emergem entre trabalhadores e capitalistas.
O que fica interessante nessa visão desse extraordinário economista húngaro é que a "economia marxista" pouca ou nenhuma valia tem para ajudar a planejar uma economia, ao passo que a "moderna teoria econômica", embora ajude a determinar até o preço dos bilhetes do metrô de Moscou (no tempo do socialismo na URSS), não é capaz de sinalizar para o caráter transitório do capitalismo na trajetória da humanidade.
Mas tem isto: eu estava fora de forma, fora da memória e errei. Olha a Wikipedia: 
The historical debate was cast between the Austrian School represented by Ludwig von Mises and Friedrich Hayek, who argued against the feasibility of socialism; and between neoclassical and Marxian economists, most notably Cläre Tisch (as a forerunner), Oskar R. Lange, Abba P. Lerner, Fred M. Taylor, Henry Douglas Dickinson and Maurice Dobb, who took the position that socialism was both feasible and superior to capitalism.

P.S.S.S.S.S. E o assunto continuou:

Claudia Las Casas: Muito obrigada por me ensinar estou encantada.

Rubens Salvador Bordini: Ainda que o exemplo tenha um viés curioso, vale a reflexão.

Duilio De Avila Berni: Oi, Rubens: preciso agora que me faças entender onde está meu viés curioso.

Rubens Salvador Bordini: Duilio De Avila Berni, entendi como uma Bolsonarizacao do exemplo heheh o capitalismo è bacana por que as escolhas são definidas pela capacidade de se obter resultados e, desta forma, uns preferem atender a demanda por defesa da saúde enquanto outros vislumbram a defesa do patrimônio... não são decisões excludentes... ja na economia marxista, com sua incapacidade de planejamento, a indústria bélica me parece a mais privilegiada...

Duilio de Avila Berni: Pois é, amigo [Rubens]. Tua observação suscita a necessidade de uma postagem inteirinha no blog. Eu teria que falar em bens públicos e, novamente. a teoria da escolha pública, com os principais agentes -eleitor e político- e a própria curva de demanda por esse tipo de bem, ou seja, o processo político.
Registro que a economia marxista não tem preocupação com planejamento, mas -como referi na resposta à sra. Claudia - "entender o nascimento e a evolução das economias capitalistas e os conflitos de poder que nelas emergem entre trabalhadores e capitalistas."
Sobre o planejamento como substituto do mecanismo de preços entendo que Oskar Lange (em outro ambiente) venceu o debate com Abba Lerner e Fred Taylor. Lange, se bem interpreto, disse algo óbvio: os níveis de estoques das diferentes mercadorias também sinalizam para a potência da demanda. Estoque baixo, demanda alta e 'al revés'.

Duilio De Avila Berni: P.S. à resposta ao Rubens. Eu ia fazer uma piadinha final, deixando um link e dizendo que iria imediatamente lê-lo. E o "enter" atravessou-se. [e dei o link da Wikipedia da citação que dela fiz: https://en.wikipedia.org/wiki/Socialist_calculation_debate

Rubens Salvador Bordini: Professor, tu és sempre cirúrgico nas tuas argumentações e mesmo conhecendo minhas monumentais limitações, não deixo de provoca-lo pq admiro tua paciência e teu conhecimento...

Duilio De Avila Berni: Em compensação, querido Rubens, votarei em ti nem que seja para o Conselho dos Economistas.

Rubens Salvador Bordini: A isto se chama Voto Qualificado... obrigado...

Jaqueline Gruber: Adorei teu blog!

Cecília Schmitt: Duilio de Avila Berni: Brilhante, como sempre, Meu amado mestre.

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