domingo, 11 de dezembro de 2016

Utopias x Distopias




Querido diário:

Ante-ontem o Facebook ofereceu-me um filminho com uma "retrospectiva de minhas ações lá com eles". Tinha fotos minhas, foto de Temer e Meireles e outras aparições que me surpreenderam ou assustaram. O Facebook (que lá referi como 'algoritmo'), presumo, usou sua inteligência artificial, ou seja, agiu como se humano fosse para mostrar algumas de minhas vivências nas horas que despendi fazendo meu ativismo de sofá e em outras tantas em que me diverti profundamente.

O algoritmo ofereceu-me a possibilidade de editar a encrenca, o que não fiz, e de publicar em minha linha do tempo, o que fiz. Sem fugir do assunto, ao contrário, informo seguir filosofando sobre a matemática do (0, 1)... Quero dizer, sigo refletindo sobre aquela retrospectiva que o Facebook fez de minha participação em seu ambiente durante o ano que ainda está longe de terminar, pois -como sabemos- pouca tragédia, no Brasil, é festa... E qual a reflexão do momento? É que estou achando que não é mais possível rever a retrospectiva, que entrou em minha vida como um vendaval e saiu, como dizem por aqui, como um cohete. Será que alguém que vê agora meu texto de ontem ainda encontra sob ele o link para a tal retrospectiva?

Se não encontra, não perdeu nada, hehehe. Mas aproveito para acrescentar algumas reflexões que me foram inspiradas pelos comentários feitos por amigos. Quero falar sobre utopia e distopia, ou talvez -já que tenho a mania de dizer-me especialista em introdução à filosofia- o bem e o mal.

Pois bem, jamais direi "pois mal". Ou melhor, sempre entendi ser um pessimista no curto prazo e otimista ao perscrutar o futuro longínquo. Neste início de século XXI, parece evidente que o mundo está rumando para a catástrofe econômica, sócio-demográfica e ambiental (ou seja, as três dimensões que a contabilidade social trata de avaliar, notando que não falamos aqui na dimensão política, a qual -com a maior probabilidade- é determinante das três/quatro que referi).

Tenho razões de sobra para ser pessimista no curto prazo. Primeiro, há uma estrondosa diferença de perspectiva para a vida nos países capitalistas avançados e no restante do planeta. A diferença entre Finlândia e Bolívia ocorre em tão variadas escalas que fica em comum apenas alguma generalidade do tipo "são todos humanos", ou todos bebem água. Mas falei mal, pois a água anuncia-se como um problema seríssimo, levando-me a prever que os países e as frações pobres de sua população devem enfrentar enorme escassez de água num futuro não muito distante.

Minha segunda razão para ser pessimista no curto prazo é que tanto nos países ricos quanto nos pobres a diferença de padrão de vida entre indivíduos pobres e outros ricos é estratosférica. E tende a agravar-se, pois a saída envolve dois nomes representando ameaças: China e migração (isto para não falar em migrações chinesas e nem indianas). O dumping social praticado pela China, a meu ver, acabou com a economia europeia, mas não ao ponto de parar de atrair migrantes desesperados evadidos das guerras da África e Oriente Médio.

E minhas razões para ser otimista no longo prazo são exuberantes. Claro que há probleminhas a resolver, destacando a guerra (nuclear e outras) e o terrorismo (e futuras ameaças nucleares), a explosão demográfica e o meio-ambiente. Estas duas últimas parecem-me umbilicalmente coladas: já havia gente demais quando Renato e seus Blue Caps cantavam e agora nem se fala. A última vez que contei a população, alcancei a cifra de 7 bilhões. Hoje ainda ouvi falar em 9 bilhões. Sou a favor da renda básica universal precisamente para que ela dê maior autonomia às mulheres e, com isto, elas passem a ter o comportamento das mulheres "liberadas", um, dois ou três filhos. Conter a explosão demográfica não é tarefa para um dia, a menos que as ações sejam de cunho autoritário, o que já me põe contra.

Da mesma forma, o meio-ambiente é uma ameaça severa para a sobrevivência da civilização multicultural com que sonho e vejo tênues aparições nos dias que correm. Não faço parte das correntes chamadas de neomaltusianas, que sustentam que a população cresce a taxas mais elevadas que seus meios de subsistência.

Ambas, renda básica e cuidados ambientais, só poderão ser efetivamente implementados se a perspectiva multicultural assumir caráter imperativo, com a consagração do governo mundial. Aliás, o governo mundial também se faz necessário para combater a lavagem de dinheiro, o mercado de armas e o de drogas ilegais.

E que me impede de ser neo-malthusiano? Basicamente uma crença iluminista, no sentido de que o progresso será expandido pelo uso racional da ciência e da tecnologia, que os conflitos chegarão a solução pacífica por meio da negociação e da barganha e que a humanidade irá evadir-se do planeta (ou levá-lo por diante...) quando o sol começar a expandir-se, em sua mudança de fase, vindo a tornar-se uma anã branca. Iremos fugir? Quem é que pode saber isso, se nem os escritores de ficção científica são capazes de ter consenso. Mas destes aprendi a expressão "povos astronautas", o que me levou imediatamente a inserir no catálogo os seres humanos. Naturalmente aqui estamos falando das mais lindas utopias que a humanidade já foi capaz de produzir. E imagino o reencontro pacífico de descendentes dos atuais homens e mulheres, digamos, daqui a 250 milhões de anos.

As leis econômicas que hoje consideramos perenes poderão desaparecer, sendo-me difícil imaginar como pode ser uma sociedade sem o uso dos mercados de bens e de trabalho para a alocação dos recursos para consumo e investimento. Mas isto não é tão importante no presente momento, pois o que importa destacar é que, desde o surgimento do capitalismo, a lei geral consiste na alocação dos recursos no mercado visando à transformação do trabalho vivo (o que dá suor na cara) em trabalho morto (aquele feito pelas máquinas ou ferramentas). Isto aumenta a produtividade do trabalho, isto leva os preços das mercadorias a caírem, isto leva a minha alegoria de que, nos dias que correm, podemos alardear que o capitalismo acabou há mais de 15 dias...

Obviamente, tudo pode dar errado, mas até agora parece que o final distópico do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço é ofuscado pelos finais daqueles filmes do Exterminador do Futuro, de Blade Runner e de milhares de outros. Os atores sofrem e suam, mas chegam invariavelmente a vitórias sobre o mal, a distopia, o fundo do poço. Em particular, o Exterminador do Futuro tem a alegoria de uma grande empresa que a tudo controla (e já vou evocando a utopia de Rollerball), mas que tem recebido sucessivas derrotas de quem? Da macaca Sally ou seus descendentes (uma história diferente está aqui) que fazem história há 700 mil anos. Em mais 700 anos muitos de nós estarão longe, muitos de nossos descendentes, quero dizer...

DdABP.S. Matemática do (0, 1) é a base da programação de computadores que lança mão de uma linguagem chamada assembler ou assembly, que reúne sequências de instruções aos "chips" de silício. Pelo que li num livro, o zero quer dizer "desligado" e o um quer dizer "ligado". Ligando e desligando sucessivas (um número estratosférico) vezes, as operações vão-se acumulando tanto e tanto que a tela do computador ou telefone ou microondas da gente vão-se colorindo.]
P.S.S. a foto lá de cima é da primeira astronauta (mulher, claro) da história da humanidade, nossa Sally número 2. E veio da Wikipedia.

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