terça-feira, 13 de setembro de 2016

Eduardo Cunha e a Lei de Gresham

Querido diário:
Como sabemos, Eduardo Cunha foi cassado ontem "por mentir" em uma comissão parlamentar. Como não sabíamos, foi uma votação acachapante (450 de 470 presentes). Como disse a deputada Jandira Feghalli, havia 35 inscritos para defender a cassação (dos quais - felizmente - digo eu, apenas uns quatro ou cinco falaram), por contraste a apenas dois que defenderam o mandato de Cunha.
Todos sabemos que Eduardo Cunha é formado em economia? E será que ele estudou (acho que sim, aqueles velhos currículos que liam economia monetária com o livro de Eugênio Gudin) a chamada "lei de Gresham"?
Esta lei vale para sistemas monetários que têm duas moedas circulação simultaneamente. É coisa do tempo antigo, em certa medida, pelo menos na visão -antiga- original. Imaginemos um sistema que usa moedas metálicas, sendo uma delas o ouro e outra uma liga de metal barata. Então imagina que, tendo algum estoque de moedas baratas, recebes por alguma razão umas moedas de ouro do mesmo valor. Parece-me humano que retenhamos as moedas de ouro, tentando gastar as do metal barato. A lei captura este comportamento tão humano e é formulada como "a moeda má expulsa a moeda boa do mercado".
Aqueles sistemas monetários antigos, ainda do tempo das moedas conversíveis em ouro ou prata, feneceram ainda no século XIX, os bancos e o crédito passaram a sepultar essa conversibilidade, emanando a chamada moeda fiduciário, ou seja, uns xerox coloridos que apenas são aceitos pois todo mundo aceita. Ou seja, a formulação original da Lei de Gresham tornou-se caduca. Mas a ideia geral, não. Em condições de inflação elevada, todo mundo faz o mesmo: tenta livrar-se das cédulas de xerox e ficar com bens, como apartamentos, estoques de mercadorias, o velho ouro, moedas menos ameaçadas de industrialização de outros países.
Em outras palavras, a Lei de Gresham, em transcrição moderna segue valendo. E que dizer da política? Também aqui, há alguns anos (digamos, menos de 50, não estou bem seguro), surgiu uma interpretação de que "o mau político expulsa o bom político do mercado político".
E parece óbvio que isto aconteceu nestes já longos tempos de eleições indiscriminadas de jogadores de futebol, comunicadores de rádio e tv, pastores, pessoas de reconhecido trabalho social e por aí vai. E qual é o problema? Um problema reside apenas nos casos em que os compromissos de alguns desses agentes são muito tênues. E outro, mais disseminado, é a renitência em estudar a teoria da escolha pública, especialmente o capítulo das falhas de governo.
Aliás, a carência de noções desta teoria entre economistas, especialmente os assessores de governos e também de políticos, é que ajuda o aprofundamento da corrupção desenfreada e, portanto, a emergência de políticos da linhagem de Eduardo Cunha. E se, em geral, a moeda má expulsa a moeda boa do mercado, parece até que ontem, na câmara dos deputados, o que vimos foi um enorme conjunto de maus políticos expulsar um péssimo político do exercício de suas vilanias.
DdAB
A imagem veio da wikipedia inglesa, quando pedi 'Gresham' e é a biblioteca da cidade de Gresham, Oregon/USA (aqui).

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