sábado, 1 de dezembro de 2012

Má Notícia no Quarto

Querido diário:
Nâo sejamos maldosos: estou falando do quarto trimestre, quando vi divulgada em meu jornal a má notícia concernente ao terceiro trimestre de 2012. Tenho falado em crescimento rastejante da economia brasileira nos últimos 30 anos. Eu disse 30!

(Não confundir com o fatorial de 30, isto é, 30 x 29 x 28 x ... x 1, mas que parece uma eternidade, lá isto parece. Quem cresce a 7,12% ao ano dobra a cada 10 anos, o que nos faria ter oito vezes mais renda do que nossos antepassados de 1982. Na China, cresce-se (indeterminação das elites) a 10% ao ano, o que faz a economia dobrar a cada sete ou oito anos).

Pois bem. Estou falando sobre as notícias ontem divulgadas que dão o PIB do terceiro trimestre como tendo crescido apenas 0,6% relativamente ao trimestre correspondente de 2011. Na p.18 de ZH, há desdobramentos por setores, subsetores (lado do PIB) e por "origem dos gastos" (lado da despesa). Tudo rastejante, o que não seria tão desesperador na agricultura, que cresceu 2,5%, ou seja, quatro vezes mais que a média. Agricultura rima com sazonalidade, ainda que cada vez menos, dadas as incessantes inovações tecnológicas, subordinando-se à tentativa de regularizar a sazonalidade da produção de todo o agronegócio. O alisamento da produção é importante: se a vaquinha dá menos leite no inverso, os equipamentos de refrigeração do leite ficarão ociosos nesta estação. Se bolarem um jeito de alimentar as vacas com ração acumulada durante o verão, os equipamentos de refrigeração ficarão ocupados o ano inteiro. Se a receita marginal do leite de inverso "subornar" a ração de verão, estamos resolvidos!

Mas a indústria cresceu 1,1%. Quem é a indústria? Esta média rastejante foi metida para baixo pelos meros 0,3% do crescimento da construção civil. Aí começam os problemas. Um setor que responde por -diz-me a memória, há 10 anos- 70% do investimento deve ser usado para dinamizar a economia. O problema é o fetichismo industrializante que acha que "construção não é indústria" e que "indústria mesmo" é apenas a dupla química und metalmecânica.

Mas não é só. Os serviços cresceram precisamente zero por cento. Como disse o Chapeleiro Louco (era ele?) a Alice: você pode crescer mais, mas não menos do que zero. Tratava-se de uma xícara de chá. No caso, claro que a economia pode decrescer até 100%, como foi o caso da firma que meu primo abriu em desagradável experimento que consumiu todo o dinheiro de minha avó.

O primo poderia ter sido, em tempo hábil, submetido a tratamento psiquiátrico, gerando uma hora semanal de emprego contabilizado no setor serviços. Além disto, a educação. A educação! A educação, como a entendo, gera capital humano. E a entendo como requerendo empregos de assistente social, faxineiro, cozinheiro, professor, produtor de computadores, e por aí vai.

Claro que o Brasil não cresce em resposta a forças não 100% explicadas por quem quer que seja. O nó górdio rola naquela questão da causa da causa: como gastar em educação se este gasto iria implicar a eleição de políticos de corte mais decente?
DdAB
A imagem segue minha arte canina iniciada aqui. E não deve ser confundida com a efígie de algum menino de rua que se deseperou contra o desmazelo da política nacional, particularmente as boas práticas que conduzem ao crescimento econômico.

P.S.: hoje é sábado, fiquei brincando com umas cifras do IpeaData e cheguei ao seguinte gráfico que mostra a taxa de crescimento do PIB dos últimos 30 anos de um período iniciado em 1930. O auge está nos anos 1970s, quando houve a mais extraordinária mudança estrutural na economia brasileira. E que foi quando o velho Gini deu um salto grotesco. Lá vai:

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