28 novembro, 2015

A Cult como Diálogo Dois


Querido diário:

No outro dia, postei aqui uma postagem sobre a matéria de capa da revista Cult, n. 206, ano 18, out/2015. Fiquei tão impactado que decidi ler e reler algumas vezes, refletindo praticamente sobre cada sílaba e seu correspondente fonema. Pois então. Passo batido pelo artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira, por já haver catalogado boa parte de minhas divergências com sua visão sobre o Brasil/2015, em especial, a "reindustrialização".

Pois então. Das páginas 42 à 44, lê-se o artigo "O Descompasso entre República e Democracia", de Maria Abreu. Vou citar trechos que, espero, não distorçam a intenção globalizante da autora.

[... o] governo liderado pelo PT agiu de forma limitada em duas frentes: (1) colocou como prioridade a democratização econômica por meio de uma renda básica e o acesso ao consumo, sem tocar em postos cruciais da desigualdade, como os benefícios obtidos pelo sistema financeiros e a tributação dos mais ricos, e (2) ampliou a participação social no interior do próprio Executivo, sem atuar em outros campos sociais de modo a transformar valores sociais e reduzir a cisão social entre ricos e pobres, privilegiados e desprivilegiados - de modo amplo - o que talvez viabilizasse inclusive uma representação legislativa diferente. [...] Com a crise econômica e o esgotamento de inclusão adotado, o quadro que se formou foi de repulsa ao governo pelos segmentos mais ricos, porque perderam alguns referenciais de sua distinção, e por parte dos segmentos mais pobres porque não foram, de fato, incluídos. Agora, com a ameaça de cortes financeiros inclusive nos programas sociais, o governo corre o risco de perder também a sua base social mais sólida. [...] O fracasso do PT no governo, no sentido da consolidação republicana do país, é necessariamente o de todos os governos que o antecederam.

Entendo o fracasso da política, pois parece-me que o sucesso econômico requereria precisamente força política especialmente para mudar o imposto de renda. Não se precisaria de mais de uma alíquota de 35% para o imposto de renda para, digamos, quem ganha mais de R$ 10 mil por mês. Ademais, já deixei bem claro que jamais perdoarei Lula e Dilma por não terem transformado a bolsa família em renda básica.

Pois então. Páginas 46 a 49 - artigo de Ruy Braga, intitulado "Contornos do Pós-Lulismo" e destaco uma passagem devastadora:

Além da absorção de milhares de sindicalistas às funções de assessoria parlamentar, cargos em ministérios e chefias de empresas estatais, parte da burocracia sindical ascendeu a posições estratégicas nos conselhos dos grandes fundos de pensão das estatais administradas como fundos de investimento, assumindo, em acréscimo, posições nos conselhos gestores do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Assim, o sindicalismo lulista trnasformou-se não apena em um ativo administrador do Estado burguês, mas em um ator-chave da arbitragem do próprio investimento capitalista no país. Por meio da ocupação de postos nos conselhos dos fundos de pensão e dos bancos públicos, a alta burocracia sindical 'financeirizou-se', isto é, fundiu seus interesses de camada social privilegiada ao ciclo de acumulação do capital financeiro. Desta forma, o petismo militante nas greves e nos movimentos sociais dos anos 1980 e parte dos anos 1990, afastou-se de suas origens, tornando-se um sócio menor do bloco do poder capitalista no Brasil. 
[...]
Vale destacar que, ano após ano, o número de acidentes e mortes no trabalho cresceu e a taxa de rotatividade do emprego aumentou, dois indicadores claros de deterioração da qualidade do trabalho criado durante o lulismo. E como seria diferentes se os principais motores do atual regime de acumulação [itálico original] pós-fordista e financeirizado são a indústria da construção pesada e civil, a agroindústria e o setor de serviços? 
[... o] governo Dilma Rousseff decidiu atualizar o regime de acumulação priorizando a estratégia da espoliação social. O país está vivendo uma transição na qual o velho ainda não morreu, mas o novo não tem força para nascer[grifo meu]. Os contornos desta era pós-lulista ainda não estão totalmente definidos. No entanto, algo parece claro: o momento atual anuncia o fim da relativa pacificação social eque marcou a última década na história brasileira. Em síntese, entramos em uma nova era de luta de classes na qual o centro da vida social deslocou-se para os extremos do espectro político. Tempos interessantes nos aguardam.

Pois então. Como evitar a espoliação social? Primeiro, a renda básica universal, segundo, o emprego no serviço municipal, atraindo aqueles que desejam trabalhar, com ganhos cumulativos sobre a renda básica. Terceiro: expandir a construção civil geradora de emprego de baixa qualificação (Minha Casa, Minha Vida). Quarto: acabar com a baixa qualificação via educação. E por aí vai a vida.

DdAB
Peguei a imagem do site oficial do conjunto Plebe Rude. E lembrei especialmente do último autor que citei, com a expressão do samba de Billy Blanco.

24 novembro, 2015

Valores Supremos: brigada ambiental mundial


Querido diário:

Coloquei isto no Facebook:

Olha só esta:
"[...] as massas muçulmanas [viraram] as costas para os governos laicos e se voltaram cada vez mais para as mesquitas em busca de assistência social e sentido da vida. [... Varrer o EI do mapa] não significará o fim do jihadismo se não houver uma mudança substancial nas atitudes do Ocidente. [...]"
A verità é que isto não foi feito lá na África ou Oriente Médio nem na própria Europa, desde sempre. Creio que nem na Alemanha a migração turca recebeu cuidados, embora haja milhares de descendentes de turcos ocupando posições de muito prestígio na vida cotidiana.
Parece óbvio que eu mesmo sei que exagero as virtudes da sociedade igualitária e, infelizmente, nossas ciências sociais ainda estão gatinhando em matéria de experimentos de laboratório (diriam alguns 'felizmente'), so that não podemos dizer que minhas loas trariam eficácia à sociedade igualitária. Mas imagina aqui comigo se:
.a. houvesse a renda básica universal
.b. houvesse aquele meu esquema da aba do blog de três horas de ginástica, três horas de aula e três horas de trabalho comunitário por dia, 
se com isto não estaríamos na maior paz da história humana.
De onde vieram os trechos entre aspas? Carta Capital. Página 28 do número 877, de 25/nov/2015, de autoria de Antonio Luiz M. C. Costa, com título e subtítulos registrados como "Cem anos de preparação. Estado Islâmico. As raízes do caos no Oriente Médio começaram a brotar em novembro de 1915."

DdAB 
P.S. postagem espelhada do Facebook.

23 novembro, 2015

Ambiguidades da Esquerda A


Querido diário:

Ser da Esquerda A implica:

.a. ser contra a destrambelhada campanha do colega (economista, hehehe) Aécio Neves pelo rompimento da ordem institucional pacífica (impeachment é golpe? suicídio, como o de Varges também?, renúncia como a de Jânio é uma droga? E o impeachment de Collor melhorou o Brasil?),

.b. ser contra também o jovem Obama (decepção generalizada) e o velho Lula (decepção generalizada, em especial aquele recorte de não mudar a herança maldita de FHC, que elevou a idade da aposentadoria por idade para 75 anos, que não converteu a bolsa-família em renda-básica).

DdAB
Esta imagem retirei-a daqui. E é minha homenagem:
.a. às eleições argentinas (e a todas as demais eleições)
.b. à profa. Geni de Sales Dornelles que problematizou este tópico aqui, às 1h59mon de 21/nov/2015.

20 novembro, 2015

O Barraqueiro que Ama



Querido diário:

Talvez eu deva declarar-me -in due time- também um especialista no livro "Rayuela", de Julio Cortázar, respondendo em português por "O Jogo da Amarelinha" (que os gaúchos deveríamos pronunciar 'O Jogo da Sapata', a 11a. acepção do termo no Aurelião) e, em Portugal por "O Jogo do Mundo". Já o faço com a primeira sentença de O Capital ("A riqueza das sociedades humanas em que rege o modo de produção capitalista...) e a de "Ulysses" ("Majestoso, o fornido Buck Mulligan achegou-se à gávea da escada...).

Agora começo os estudos da primeira sentença deste "Rayuela". Na edição Alfaguarra de fev/2008), lemos: "?Encontraría a la Maga?". Quem seria esta Maga? Não respondamos. E nunca li "O Jogo da Amarelinha", nem pretendo fazê-lo. Em compensação, estou lendo (que achei o original um tanto puladinho...) a tradução do português de Portugal da editora Cavalo de Ferro. A primeira sentença rola como: "Encontraria a Maga?" Bem simples, né?, pois, como sabemos, 'encontrar' é um verbo transitivo direto no contexto que nos prende.

Em compensação, nesta edição Cavalo de Ferro, vi na página 173, uma discussão entre caña e grappa e que chegou a intrigar-me:
-O que é a caña? - perguntou Gregorovius. -É a mesma coisa que grappa?
-Não, é mais parecido com o barack. [...].

Gelei: Barack, um biritão? Obama, um obtuso que ama? Um barraqueiro que trama? Não era. Procurei um tanto na internet e cheguei na Wikipedia em inglês, e tudo se esclarece: uma bebida destilada de origem húngara, evocando o abricó. Degelei.

Aproveite o fim-de-semana. Se beber, faça brindes!

DdAB
Esta postagem veio do Facebook. Imagens de livraria e da Wikipedia. E busquei lá mesmo o substantivo caña e rolou tanta confusão que decidi traduzir para cachaça e ingerir uns goles de minha garrafa.

P.S. Não posso deixar de registrar meu protesto com a capa deste "O Jogo do Mundo", conforme a foto lá de cima. Dá-se o crédito ao prefaciador José Luis Peixoto, sem dar crédito (o que, claro, é feito dentro do livro) ao tradutor Alberto Simões. E que vemos no Prefácio de José Luis Peixoto? "Prefácio dispensável". Muito depois de ter trocado a mercadoria livro pela mercadoria dinheiro,escrevi: "Dispensável? Então por que:
.a. escreveu?
.b. não fez Posfácio?"
E hoje acrescento: mas isto não está nesta edição de julho de 2014. Acho que o José tinha alto "Quem Indica", não é mesmo?

19 novembro, 2015

A Cult como Diálogo


Querido diário:

Não é que vim a ler pela primeira vez a revista Cult apenas há menos de um mês? Adquiri-a por não ver nada melhor na banca (IstoÉ, Veja, aqueles horrores, não que minha Carta Capital seja melhor...). E de onde tirei o título desta postagem? Do editorial da Cult: "A Cultura como Diálogo Público". É que gostei tanto da revista e li-a com exação. Este número (tomara que todos os demais) tem um tema centralizador de vários artigos ("dossiê"), respondendo pelo título geral de "Estruturas da Crise Política". Vou falar bastante nela/s nos próximos tempos.

Do próprio editorial da página 4 já rola o que pensar:

[...] estamos em um momento muito específico da vida pública brasileira, aquilo que Gramsci identificou como um interregno da esquerda, quando o modelo velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu. Nessa visão, estar a favor ou contra o PT é irrelevante, pois o que importa é termos a humildade, a generosidade e a inteligência crítica de apostarmos na inovação política."

De minha parte, adorei aquele "o velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu". Pois é exatamente isto que entendo quanto a minha crença anterior de que o PT era o verdadeiro caminho para a social-democracia no Brasil. Não é mais, o PSDB nunca foi. Penso ter humildade e generosidade, mas falta-me -como penso com tristeza- ao coletivo brasileiro contemporâneo, a inteligência crítica capaz de gerar a inovação política.

Há tempos acolhi o apelo de Rosana Pinheiro-Machado para botarmos o pé no barro (refiro de passagem aqui e, pelo próprio título, torna-se claro que, quando agora digo ser contra o impeachment e contra a Dilma, estou no mesmo diapasão). Acho que esta é a única saída. Procurando aquele link, andei aqui e ali em meu blog e vi algo estarrecedor que agora concordo. Alguém afirmou algo como "a esquerda precisa convencer-se de que é minoria neste país". Parece óbvio que o novo não nasceu. Talvez nem seja um partido político. Talvez, mais provavelmente, seja isto mesmo.

Parece que já falei (a memória é curta...) que há dias li a biografia de Elis Regina escrita por Arthur de Faria. Um resumo resumidíssimo do que pensei é que fiquei imaginando (então eu já leva a Cult) que hoje em dia o país precisa de uma pessoa como ela, uma pessoa que ajudou substantivamente a revolucionar diversas dimensões da vida societária em que ela se inseriu. E "O Bêbado e a Equilibrista" parece ter mesmo ajudado a derrubar a ditadura!

Então, a Cult. Aquele dossiê começa na página 16, com uma introdução geral de João Alexandre Peschanski. Olha o terceiro parágrafo:

   Os sentidos estruturais da crise da política são ao mesmo tempo a crítica e a reinvenção da esquerda. A batalha da esquerda no ciclo do petismo está perdida - há tempos, dirão alguns. Isso não sugere que o governo Dilma ou o próprio PT tenham de ser perseguidos ou erradicados - a posição impeacheira (sic, sic, isto é, temos esta palavra em itálico) é uma afronta à democracia, pois justifica o fim do governo por conta de sua incompetência, o que constitucionalmente é inválido e nos lembra que, para as elites, a democracia é sempre vista como uma concessão que pode ser eliminada a bel-prazer. O PT como instrumento de inconformismo e avanços sociais tornou-se irrelevante ou, pior, contraproducente.

Aí o Peschanski fala em cada item do dossiê. Inicia falando em Bresser-Pereira. Se eu não tiver uma síncope antes, prometo comentar a parte dele em uma postagem específica. Tome cachaça!!! Segue Peschanski:

O sociólogo Daniel Bin identifica a continuidade da financeirização neoliberal nos governos Lula e Dilma e aponta perspectivas do pós-neoliberalismo, enfatizando a possibilidade de formação de frentes sociais amplas. A cientista política Maria Abreu revela um dilema fundamental na trajetória do petismo: a aceitação eleitoral das regras do jogo da democracia formal deu-se à custa do abandono de um compromisso republicano basilar e aponta para o risco de um retrocesso considerável na garantia de direitos sociais e possibilidades de participação social no Estado. O sociólogo Ruy Braga confronta a evolução da política partidária da esquerda a partir do prisma da luta de classes, analisando a estrutura social da reviravolta pós-lulista; ele  acredita que se encerra um consenso pacificador construído no governo Lula e, com isso, o Brasil deve viver um acirramento das disputas entre elite e espoliados (negrito meu). [...]

Peschanski cita Przeworski:

[...] as regras do jogo eleitoral determinam a estratégia de compromissos espúrios e expurgos dos radicais internos que partidos outrora revolucionários precisam atravessar para tentar ganhar as eleições. O debate sobre as perspectivas de reformas numa estratégia social-democrática está profundamente associado à tradição marxista. De certo modo, iniciou-se com discussões que envolveram os próprios Marx e Engels sobre se partidos socialistas deveriam ou não participar de eleições no capitalismo e gerou rupturas irreconciliáveis na esquerda. O espectro dessas rupturas ronda os instrumentos políticos da esquerda desde os primórdios e, de certo modo, os grupos que mais se fortaleceram no campo progressista foram aqueles que justamente surgiram em um contexto onde não existia a possibilidade real ou remota de participar de eleições, como na Rússia czarista, no contexto da Revolução Russa. Fora desses casos extraordinários, o enredo mais comum é o de uma encruzilhada para a esquerda. Talvez na realidade a trajetória forjada pela competição eleitoral seja de fato inexorável, o que não resolve o cerne da questão: o que fazer uma vez que se ganhou.
   Os dilemas que surgem para os social-democratas na condução de uma estratégia eleitoral que pretende alcançar o governo são de tipo diferente da decisão à qual se confrontam uma vez que ganharam. Na lógica de Przeworski, a escolha crucial para a esquerda que chega ao poder é: transição para o socialismo ou aperfeiçoamento do capitalismo. E, mesmo s existir uma alternativa melhor ao capitalismo, essa alternativa é racionalmente inacessível. A transição para  o socialismo envolve uma comparação entre aquilo que existe e o que poderia existir e os custos para passar de um modelo a outro. Assim, por mais que seja melhor estar no socialismo do que no capitalismo, sem as condições apropriadas para uma transição de baixo custo é racional preferir 'melhorar' o capitalismo a 'criar' o socialismo. Em geral, passar de um modelo a outro eleva níveis de incerteza e desorganiza o funcionamento institucional estável. Os grupos poderosos no modelo dominante podem aumentar ainda mais esses custos, pois controlam pelo menos em determinado momento as bases da produção presente e futura e, com isto, a população, mesmo a que tem o maior incentivo a viver em outro modelo, tem por um tempo acesso às condições de sua sobrevivência inferior ao que tinha no contexto do modelo dominante. O horizonte de que, no futuro, a situação vai efetivamente melhorar - a promessa do socialismo - não é necessariamente um alívio, quando, no presente, se tem dificuldade de garantir a sobrevivência. Políticas efetivamente radicais, no sentido de uma transição para o socialismo eram pouco possíveis em 2003 e nos anos seguintes, mas, independentemente dos compromssos feitos na campanha eleitoral, o PT teve o poder de contribuir para uma eventual possibilidade histórica futura e dela abdicou.

Aqui faz-se obrigatório fazer uma parada e dizer umas coisas:
.a. Gerônimo Machado já me disse e canso de repetir aqui que o blim-blim-blim não é fazer o socialismo, mas contentar-nos com reformas democráticas que conduzam a ele,
.b. pode ser que o sentido na existência de empresas públicas seja levar relações de trabalho decentes para o mundo da produção, conforme disse-me há muitos anos o prof. Stuart Coupe,
.c. tem aquele socialismo de que nos fala Andrew Glyn (juro que li em exemplar de minha propriedade, juro que não o encontro e nem encontro referências na internet, nem no verbete dele na Wikipedia): se o governo desapropriar as 100 maiores empresas do país, ele controla uma fração tão expressiva do PIB que já dá para chamar de socialismo.
.d. eu não quero os items b. e c., claro. Tenho-me declarado da Esquerda A, por contraste à Esquerda Um. Mas, mais consentaneamente com uma classificação que coloca na esquerda muito nacionalismo, prefiro declarar-me fundador de uma esquerda que defende a existência do estado mínimo.

Sigo citando Peschansky:

   A estratégia mais plausível de aperfeiçoar o capitalismo, no sentido de dar-lhe um viés redistributivo real, não está em oposição direta a estabelecer os fundamentos para uma virada radical. Os ingredientes para a contribuição para um socialismo futuro são conhecidos e devem nortear a atividade no governo social-democrata desde o primeiro dia: teoria da transformação de base social. A ideia de que, uma vez no governo, os políticos da esquerda serão capazes de transformar sem dificuldades as instituições é implausível, entre outros motivos porque, mesmo se o quisessem, tenderiam a confiar nas formas conhecidas de organização e assim reproduziriam o sistema dominante. Aliás, os socialistas adotam geralmente uma postura ingenuamente voluntarista sobre a alternativa que almejam: científicos em relação a sua crítica ao capitalismo, normalmente desconsideram a necessidade de elaborar a teoria das instituições novas a serem implementadas. A ampliação e o aprofundamento realista de possibilidades institucionais futuras formam uma teoria da transformação - e estar no governo pode ser um privilégio para esse esforço de planejamento de alternativas. 

Neste ponto, devo compartilhar com meu leitor a crítica que fiz (anos depois, infelizmente) à Administração Popular da cidade de Porto Alegre e que chegou ao poder bem quando eu dela saía rumo ao doutorado em Oxford (orientado pelo já citado mr. Andrew Glyn). O que hoje espero de administrações populares, ergo, de esquerda, é que se democratize a administração pública, os cargos públicos de dirigentes devem ser resultado de eleições nas repartições cabíveis.

Sem falar na frase "substituir o governo dos homens pela administração das coisas." Nesta linha, penso que aquela discussão da base teórica da transformação institucional deve ser feita na sociedade e não no governo.

Segue Peschanski:

As políticas implantadas num governo social-democrata devem ser capazes de construir a base social para torná-las estáveis e contínuas, mesmo se e quando surgirem condições circunstanciais pouco favoráveis. Isso é especialmente importante para políticas sociais, geralmente em risco em momentos de recessão .Essa base social torna-se garantia e motor do aprofundamento democrático e eventualmente do empoderamento social. Há indicações de que as políticas mais efetivas para a construção dessa base social de apoio são as universais, que não reforçam fraturas sociais e estabelecem laços de solidariedade. O ciclo lulopetista [DdAB: prefiro falar, como André Singer, em lulismo. E até andei falando em III, VI, V e VI governo FHC...] encerra-se sem contribuição real e a crise político-econômica encontra uma esquerda desestruturada.

E eu? Digo que sou contra o governo Dilma, como também sou contra o que se passou no governo Lula, por várias razões práticas:
.a. não regrediu a regra criada por FHC de elevar a idade para a aposentadoria do trabalhador para 75 anos,
.b. deu solução vergonhosa para o dinheiro aplicado no FGTS,
.c. não transformou a bolsa família em renda básica.

E como conclui Peschanski?

No contexto da crise, as revoltas sociais ocorrem - e devem alastrar-se - e, nesse sentido, é preciso reinventar a conexão entre luta social e política de esquerda. Em nossa conjuntura, a esquerda tal qual a conhecemos anda a reboque , pois o esforço de significação da luta política depende de abandonar o clico de esquerda moribundo -  rompendo com o corporativismo confortável em relação aos instrumentos políticos que conhecemos e reproduzem o modelo dominante - e entender e constriur uma fase de luta política, que necessariamente surgirá das estruturas do ciclo que se esgota. Entender as estruturas da crise brasileira e as possibilidades de reinvenção é o objetivo principal deste dossiê.

Que digo? Santo dossiê.

DdAB

18 novembro, 2015

Easy Life


Querido diário:
Por que tanta americanização até no título desta postagem? Não tenho medo de ser tachado de lacaio do imperialismo, afinal. Ontem, tive longa e agradável conversa com dois amigos legais. Encontrei-os no Shopping Moinhos de Vento, sabidamente localizado em um bairro da cidade que abriga gente de classe média alta, alta e altíssima. E muita gente da classe alta média alta, média-média, média-baixa e baixa prestando serviços, desde papeleiros até psicanalistas, para ficar na letra 'p'.

E por que esta imagem do 99Taxi? Primeiro, porque meu telefone desregulou e não consigo mais chamar o EasyTaxi, pioneiro em minhas conquistas eletrônicas. Segundo porque não sei se o "sistema" ou o próprio sr. Ricardo, driver, tomaram a iniciativa de enviar-me o recibo da corrida.

E que rolou da conversa? Novas tentativas de minha parte de convencer meus interlocutores de que sou um homem de esquerda.

Agora tenho batido no argumento (o mais consentâneo deles é o igualitarismo) do governo mundial. Não considero da Esquerda A (conjunto complementar da Esquerda Um, a dos atropelos) os nacionalistas, estes são... nacionalistas. Não considero da Esquerda A os que hoje ainda relutam em condenar a desigualdade em boa medida responsável pelo arcaísmo institucional da -como têm chamado- "cultura muçulmana", expressão aliás que me desagrada (pode-se chamar uma religião de 'cultura'?).

Quem fez este "99Taxi"? Quem fez o EasyTaxi"? Será que aquela turma nacionalista que quer a "reindustrialização" do Brasil não entende que a política industrial deveria dar lugar à política de "reeducação", pois aí o Brasil poderia inventar uma rede mundial de cafeterias, outra de biju de mandioca, outra de aplicativos para celulares. E deixaríamos de ser menos colonizados por essa turma. (Meu argumento não é nacionalista, mas igualitarista, não está claro?).

DdAB

12 novembro, 2015

Cansei de Estrabismo


Querido diário:

Título provocativo. Evoco, a partir dele, o artigo assinado de hoje da página 39 de Zero Hora. Seu autor é Wesley C. Cardia. Não que discorde em mais de 10% de todo  o texto, mas há uma passagem que me deixa de cabelo em pé e denuncia o estrabismo conceitual e empírico do autor.

Vamos à passagem glosada. Antes dela, há uma pergunta retórica da qual compartilho completamente: "Que raio de sociedade é essa que não se dá conta de que o Estado não tem dinheiro?"

Mas prossegue, com estrabismo conceitual e empírico:

Governo não produz riqueza. Consome. E quase sempre atrapalha quem quer produzir. Nós, trabalhadores e empresários, é que pagamos a conta desse descalabro.

Parece que o descalabro (com o qual concordo) é que o ladrão de carros Dieguinho, figurinha carimbada do bairro Moinhos de Vento, atua livremente por aquela zona. Mas parece que a miopia surge em sua cabeça precisamente por não entender que ele queixa-se precisamente de uma omissão da ação do governo, a falta de segurança pública (aliás, compartilhada por praticamente o mundo inteiro).

Primeiro, depende de como conceituamos riqueza. Claro que governo produz riqueza pela contabilidade da renda nacional, por exemplo, ao gastar na promoção da justiça ou da diplomacia. Segundo, aí temos problemas, pois estamos falando do conceito de bem público, algo que não pode ser provido pelo mercado. Justiça atrapalha quem que produzir? Terceiro, claro que não, ao contrário, a insegurança jurídica é uma das causas do baixo desenvolvimento econômico de montes de países.

O que parece uma confusão comezinha é pensar que o lado alegre do governo é a provisão de bens públicos e meritórios (no Brasil, até centenas de bens de demérito, como é o caso indubitável do automóvel de passeio) e que para fazê-lo não é necessário arrecadar impostos. Já não estou centrando minha crítica em Wesley C. Cardia, claro. É que tem gente que pensa que "estado minimo" é "estado nulo". E eu, que nem concordo com estado mínimo, ou melhor, penso que é papel das sociedades civilizadas proverem uma fração crescente dos bens meritórios (pra não falar nos bens públicos) da estrutura de consumo da população.

DdAB
A imagem é daqui.