19 fevereiro, 2023

Que Diria Amartya do Ruim Putin?

 


Muitos anos atrás, milhares, para ser sincero, li um sucesso literário que, ao mesmo tempo, era uma sutil resistência à ditadura militar no Brasil: 

CALADO, Antônio (1967) Quarup. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Pois agora dei uma olhada na Wikipedia para ter a imprenta. E vejo personagens principais, como o Padre Nando e Francisca. Mas tem uma Winifred, que não achei na Wiki e que também tem um papel ativo, ainda que transitório, na história. Em compensação, lentamente, estou devorando con gusto o livro:

SEN, Amartya (2022) Home in the World. New York: Liveright.

Uma biografia espantosamente erudita mostra que Sen conheceu as pessoas mais importantes de seu tempo e visitou os lugares mais entusiasmantes da parada. Amartya e Winifred. Graduando-se em economia e matemática (um B.A., na linguagem do livro), ele foi aceito para cursar pós-graduação na University of Cambridge. Ao chegar em Londres, ele encontrou Winifred Hunt, que veio a ser, no passado, namorada do pai dele, também graduado no Reino Unido.

A visita de Winifred foi uma maneira um tanto inesperada de passar minha primeira noite livre em Londres. Mas foi importante, tanto porque me deu a sensação de que Londres - e na verdade a Inglaterra - estava longe de ser um lugar estranho, quanto porque discutimos a inaceitabilidade da violência, mesmo por uma boa causa, que tinha sido uma questão tão polêmica na Índia na batalha contra o Raj. Aqui estava eu, no centro do império (embora fosse apenas Kilburn), discutindo a necessidade universal da não-violência, assim como aqueles que lutavam pela independência sob a liderança de Gandhi compartilhavam a mesma convicção. Eu não conhecia Kilburn, disse a mim mesmo, mas sabia por que alguém poderia ser um conshy.[Tradução da Wikipedia, com pequena revisão minha]

Que diria Vladimir Putin disso? Estou certo de que prenderia o livro, prenderia o Padre Nando, prenderia Francisca, prenderia Amartya, prenderia Winifred. E seguiria rindo da complacência da esquerda belicista brasileira que o apoia nessa tresloucada aventura, essa mania de invadir países que a ele não se alinham automaticamente.

DdAB

Original da página 252:

   Winifred's visit was a slightly unexpected way of spending my first free evening in London. But it was important, both because it gave me the sense that London - and in fact England - was far from an alien place, and because we discussed the unacceptability of violence, even in a good cause, which had been so divisive an issue in India in the battle against the Raj. Here I was, at the hub of the empire (even though it was only Kilburn), discussing the universal need for non-violence, just as those fighting for independence under Gandhi's leadership shared the same conviction. I did not know Kilburn, I told myself, but I did know why someone might be a conshy.

Aquele "conshy" que a Wikipedia deu na tradução isolada como "tímido", colocou em todo o texto como "tímido". Não contente, olhei na internet. Em um site, diz ser "Something that is rough and tough", que a própria Wiki traduz como "algo que é áspero e difícil". Como sabemos, quando tudo está perdido, busque o manual. No caso, busque o índice analítico do livro. Nele (p, 488) encontrei: 'Conshy (a derrogatory name for a 'consciencious objector') [.]. Parece que, no momento da leitura do trecho, o contexto me fez viajar em algo como "consciencious" + "shy", ou seja, alguém que lida cautelelosamente com ditames de sua consciência. Claro que, na Rússia do desabotinado Putin, qualquer pessoa que se oponha a seus desígnios deve sentir esse medo de expressar sua opinião. Ouvi mesmo dizer que o ditador soviético estaria mesmo propenso a prender a própria declaração dos direitos do homem e do cidadão que embasa a ONU.

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