quarta-feira, 1 de março de 2017

Carnaval e Política


Querido diário:

"Meu tempo é quando". Quando pratico literatices, falo em "marias e clarisses", Reginas e Corinas. E em Silviano Santiago e sua linda obra que está prometendo ser minha best reading de 2017. E em Corina Dick com o que colocou em seu mural ontem às 19h12min:

"Não lembro de um Carnaval assim, tão engajado. As pessoas foram para a rua e se manifestaram contra esta politicagem absurda. Se posicionaram contra os desmandos. Tudo de forma irônica e alegre. Foi perfeito! Amei o coro nacional de #ForaTemer"

E Silviano Santiago, e o carnaval, e a política?

SANTIAGO, Silviano (2016) Machado. São Paulo Companhia das Letras.

Como ele -Silviano- mesmo diria, "copio" suas páginas 92 e 93:

"O mês de março de 1904, quando se começa o trabalho das picaretas e das marretas regeneradoras sincronizadas pelo engenheiro Paulo de Frontin, tem na verdade seu início em pleno verão do ano de 1889. Quinze anos antes, mas o protagonista é o mesmo Frontin. O escaldante verão de 1889, que tira do sério o imperador pedro II às vésperas da Proclamação da República, é tim-tim por tim-tim semelhante à grande seca que vem de novembro de 1905 e entra por 1906 e é, ainda semelhante ao verão sem água que toma conta do Carnaval carioca de 1954. Nesta ocasião é que a marchinha 'Vaga-lume', de Vitor Simon e Fernando Martins, se torna uma das mais populares. Ao ar livre das avenidas e ruas cariocas e nos salões de baile e nos recintos adaptados dos teatros e dos cinemas, 'Vaga-lume' se destaca como a música de Carnaval que melhor exprime acrítica social. 'De dia falta água/ De noite falta luz'

"A aproximação das quatro datas (pela ordem cronológica: 1889, 1904, 1906 e 1954) não tem o fim de montar um quebra-cabeça para o leitor. Longe de mim. Tem finalidade objetiva e clara. Na mescla em nada sutil do modo como o império todo-poderoso e intratável da natureza acentua a falta de boa governança da cidade pelos políticos, mostra-se como se montam as grandes crises comunitárias nos trópicos e como essas crises pipocam por toda a história da antiga corte da capital federal republicana, e também desta às vésperas de ser transferida para Brasília

"Calor e chuva, o direito e o avesso incontestável e vitorioso do verão carioca.

"A aproximação das quatro datas se mostra ainda e principalmente o modo o modo como se abrem as portas de entrada do poder nacional, estadual ou municipal, para os engenheiros e médicos. Têm bom conhecimento técnico. Não têm experiência política. Rapidamente, eles ascendem ao poder executivo e, como o beneplácito dos militares no poder, administram autoritariamente a carência submissa da população. Para governar a cidade ou a região, exigem decretos draconianos do governo central imperial ou republicano

"Em contrapartida, manifestações artísticas populares e passageiras, como os espetáculos de caráter circense ou as marchinhas de Carnaval, caem no gosto do grande público e trazem nelas embutida a melhor e mais cáustica crítica às graves e despreparadas autoridades administrativas. Do lado de fora da estrutura binária do poder - técnicos e povo - os partidos políticos, como os houve e ainda os há, ficam destinados à inoperância, meras representações anódinas da população. Na época deMachado de Assis, os partidos estão nas mãos atrasadas dos fazendeiros, quese aristocratizam pelos títulos de nobreza e pelas viagens à Europa, e prosperam sob o jugo dos comerciantes importadores e exportadores, que controlam a sociedade pelo peso e pela força do dinheiro vivo."

Ok, ok, peço desculpas por não poder transcrever o resto do livro, mas recomendo que o leiamos e façamos grupos de discussão para saber exatamente o que nos leva e clamar "Fora Temer", neste e nos demais outros carnavais. Ele é vampiro de capa de gibi.

DdAB

P.S. Se não do carnaval de 1954, mas perto dele, lembro. Na página 91, Silviano Santiago mostra dois versos. Eu complemento com mais um (tirei da memória e não da gravação que coloquei no final, com Violeta Cavancanti:

Ele:
Rio de Janeiro
Cidade que nos seduz
De dia falta água
De noite falta luz.

Abro o chuveiro
Não cai nem um pingo
Desde segunda
Até domingo.

Eu:
Eu vou pro mato,
Oi, pro mato eu vou
Vou buscar um vaga-lume (!)
Pra dar luz pro meu chatô.

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