domingo, 4 de outubro de 2015

Mercados no "Martin Fierro"


Querido diário:

No Canto 14 de Martin Fierro, o clássico da literatura argentina, de autoria -como sabemos- de José Hernández, o segundo filho do protagonista do livro, de sua parte, protagoniza uma situação severa, mas com lições para o economista político. E até de boa aplicação no Brasil contemporâneo, local onde o vício tornou-se virtude, quero dizer, o roubo -além de consagrado pelos membros da família- deixa estupefatos mas inertes -por inermes- os demais vizinhos e demais cidadãos dos réprobos.

O segundo filho de Martin Fierro, que tomara o mundo para fugir de morte certa ou el na carcel ou nas mãos da polícia, deixara os filhos em situação de risco. Como a que hoje vivem milhões de brasileiros. Adotado por uma tia, o segundo filho passou a viver bons tempos até que a bondosa senhora morreu. Então o juiz local (haverá diferenças com a invejável competência do Brasil?) deu-o em adoção para um velho "que era medio cimarrón, muy renegao, muy ladrón", que amava os cães, como gente já nossa conhecida (aqui e aqui e que até hoje devo maiores comentários, pois mudei pilhas depois de lê-lo).

Então o homem de costumes abrasileirados de políticos diz:

Andaba rodiao de perros
que eran todo su placer,
jamás dejó de tener
menos de media docena,
mataba vacas ajenas
para darles de comer.

Carniábamos noche a noche
alguna res en el pago,
y dejando allí el rezago
alzaba en ancas el cuero,
que se lo vendía a un pulpero
por yerba, tabaco y trago.

Ou seja, como os políticos brasileiros, ele se apropriava da carne (como valor de uso) e do couro, pensando em tornar o último um valor de troca, ou seja, colocá-lo à venda e vê-lo virar mercadoria no momento da venda, no momento em que viraria valor, no momento em que daria seu salto mortal.

E que diabos de salto mortal era esse? Ele comprava erva, fumo e bebida produzidos por terceiros, uma relação perfeitamente mercantil, ainda que mais primitiva do que aquela que nossos patrícios entretêm com o setor financeiro suíço.

DdAB
A linda imagem é do lindo site aqui.

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