quarta-feira, 19 de junho de 2019

Zero Hora e o Anti-Anticomunismo

Resultado de imagem para rabello

Leitor praticamente indefectível do extraordinário jornal Zero Hora, vi com o usual contentamento um elenco de informações que servem como contrapropaganda à vulgaridade e radicalismo das campanhas contra os governos populares brasileiros dos últimos anos. Trata-se agora das falsas acusações de que os governos do lulismo deram "dinheiro dado" para Cuba e para a Venezuela.

Então, e apenas pois então. Na página 9 do jornal de hoje, vemos a coluna +Economia, assinada por Marta Sfredo. Na quarta parte do lado direito da página, vemos uma entrevista da redatora com Paulo Rabello de Castro:

   Pioneiro da doutrina liberal no Brasil, [ele] foi presidente do BNDES no governo Michel Temer e é um duro crítico das gestões petistas. Em sua gestão, relata, fez devassa nos empréstimos para ter certeza de que não havia ameaça à instituição [...] Diante da insistência do governo Bolsonaro em 'abrir a caixa-preta do BNDES', focando em operações feitas em Cuba e na Venezuela, avisa que será 'uma busca inútil'.

Transcrevo apenas um dos quatro "drops" derrubados (usando o lugar comum achegado à jornalista...) por Marta:

CUBA E VENEZUELA
   '[...] Cuba não pode vir aqui pedir um empréstimo. A aprovação é para uma obra, para exportação de serviços em que empresas do Brasil com CNPJ brasileiro exportam produtos como guindastes e tratores, mais o serviço de engenharia. Todo e qualquer centavo que sai do BNDES é para notas fiscais desses produtos e desses serviços. Ou seja, 100% geração de emprego made in Brasil [sic] É irrelevante se você vende a cama para convento, hotel ou casa de tolerância. E a venda da cama é segurada, então o financiador recebe, mesmo quando o pagante atrasa. É um erro total dizer que o BNDES vai ter prejuízo, nem 1% dessas operações são descuradas.'

Ou seja, estou quotando a Marta quotando o Rabello. E o Rabello? Já foi presidente do IBGE na gestão Temer e depois emplacou o BNDES, possivelmente por ser acolherado com outro doutor chicaguense, o sr. Paulo Guedes, ministro da economia este nefando governo. E parece que ele andou colocando seu nome à disposição para o cargo de vice-presidente da república. Como sabemos, estaríamos em caravela muito menos sujeita a calmarias econômicas, como a que vemos sob a égide do divertido presidente Bolsonaro.

Quero dizer: se o comunismo foi uma baixaria, ainda mais baixaria é ser contra a baixaria e ainda assim dizer baixarias, inverdades conduzidas por uma ideologia que preza a burrice.

DdAB
P.S. Drops derrubados? Caravelas e calmarias? É meu lado lugar-comum...

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Dois Blim-blim-blins Extraordinários

Resultado de imagem para blim-blim-blim

Como todos sabem que vivo alardeando, além do título de Philosophy Doctor em filosofia, acalento a ambição de ser declarado um especialista em introdução à filosofia. Na tentativa de alcançar essa especialização, o mínimo que posso fazer é tentar ler todos os livros introdutórios sobre o tema.

E tem dois deles que me dizem lições há muito negligenciadas até os dias que correm. O primeiro lê-se em:

ALMEIDA, Aires e MURCHO, Desidério (2014) Janelas para a filosofia. Lisboa: Gradiva. (Coleção Filosofia Aberta, 26).

lá em sua página 247. Estamos na primeira página do capítulo intitulado "Pensamento fundamentado". E a seção é chamada de "Conceitos e definições". Quando o li, gelei, degelei e tornei a gelar, saltando, como o general saltou ante-ontem fora do governo, à leitura, pois sabia que me aguardavam estrondosos aprendizados. Direto no primeiro parágrafo li:

   Um conceito não é uma palavra; é o que as palavras exprimem. Há muitos casos em que uma palavra exprime diferentes conceitos: a palavra 'papel', por exemplo, tanto exprime o conceito de pasta fibrosa de origem vegetal com que fazemos livros, jornais, etc., como o conceito de um dos povos da Guiné-Bissau. Quando queremos definir um conceito [DdAB com o negrito], não é porque estamos interessados em palavras, mas antes porque estamos interessados no que as palavras exprimem.

Já ri muito, em pretérito em que eu primava pela arrogância, de um economista que falava em "definição de conceito". E agora rio de mim por ter rido dele. E talvez ele pudesse hoje rir de mim... A verità é que essa passagem ajudou-me a me situar na encrenca. Por um lado, tenho uma lista de termos que pedem definições (bactérias, algas, fungos, líquens, briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas, que não lembro mais o que significam) e, por outro lado, lembro de uma aula do prof. José Fraga Fachel em que ele disse: "termo é a expressão verbal de uma ideia".

Ligo essas intervenções como a análise do termo papel, por exemplo, no sentido que lemos no dicio.com: "[Economia] [sic] Título que representa dinheiro, como ação, letra de câmbio, apólice. [...]" Então a ideia encontra-se em nossa mente como um título que representa dinheiro, como ação, letra de câmbio ou uma apólice de um seguro contra fogo [a República de Curitiba, outro oximoro, by the way, na linha daquele 'Juiz Moro é oximoro', pois a "coisa pública" não pode ser regida como fizeram os rapazes a ela vinculados].

Então o impreciso conceito e a ideia papeleira nela contida de papel tem como definição útil ao estudo mesmo que introdutório ao mercado monetário (do M3 ao M5) aquela que o Dicio nos ofereceu.

Mais um exemplo. Além do vemos considerar uma observação que apus à margem daquela página filosófica: parece que entendi que o conceito é o significado de um significante. Por exemplo, os economistas sabem o que é renda. Digamos que seja: renda é uma das óticas de cálculo do valor adicionado que contempla a remuneração dos fatores de produção devidamente empregados. Pimba: exatamente isto é a definição do conceito de .

Pois então. O outro livro de introdução à filosofia tem uma chamada sobre a relação entre conceitos e definições, já devidamente incorporada e sendo aplicada. Estamos agora falando em

WARBURTON, Nigel (2018) Grandes livros de filosofia. Lisboa: Edições 70. 2ed. revista e atualizada. Tradução de Paulo Bernardo e associados.

Agora estamos no meio do capítulo "Ayer, linguagem, verdade e lógica". Como sabemos, não sei bem que é Ayer, mas a Wikipedia tá ali mesmo... E aí na página 278, Warburton fala em definição de conceito, ele também:

   Para Ayer, a filosofia desempenha uma função muito restrita. Não se trata de uma disciplina empírica, facto que a distingue das ciências [empíricas, DdAB]. Enquanto nestas está implicada a formulação de afirmações acerca da natureza do mundo, contribuindo, desta forma, com o conhecimento factual, o papel da filosofia é clarificar as consequências das definições de conceitos [negrito de DdAB] e, em particular, dos conceitos utilizados pelos cientistas. A filosofia está centrada na questão da linguagem não no mundo por esta descrito. Trata-se essencialmente de um ramo da lógica. [...]

Que dizer? Digo que não sei o que dizer. Nunca se deve dizer o que não dizer, exceto esta frase. Logo a filosofia da linguagem deve ser estudada quando bebemos...

DdAB
A imagem lá de cima colhi-a ao pedir ao Google Images o conceito "blim-blim-blim". Vieram várias fechaduras de porta, portão, etc. e selecionei aquela imagem, pois cria-nos mais problemas do que soluções. Então há três , não é mesmo? Mas como é que pode a primeira linha da figura ser quando apenas na segunda linha é que temos um dos princípios básicos da filosofia: blim = blim, ou seja, o todo é idêntico a si mesmo? Já teríamos, neste caso, um todo de três metades em que apenas duas são autenticamente metades, pois a primeira delas -como outros filósofos contemporâneos têm falado sobre as liquidações de estoques das modernas lojas antigas- é apenas a metade de seu dobro.

E aqueles que quiserem brincar com variantes do poema " 'Juiz Moro' é oximoro" podem ler o que o Dicio me deu:

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Matemática no Governo Bolsonaro

Resultado de imagem para ciclo no pib real do brasil

Hoje vi no jornal que o "grupo olavista" derrotou a "ala militar". Nem preciso dizer de que governo estamos falando. No outro dia, vi o ministro da economia, mister Paulo Guedes, informar que aquela zoeira toda envolvendo a dupla Moro-Dalanhol foi montada para estrachinar o ambiente e "prejudicar" a aprovação da reforma da previdência.

Pensei cá comigo que minha saúde também está conspirando contra, na visão daquela macacada, o futuro do Brasil. Nem me refiro à hipótese de que sigo vivo, ganhando pensão paga pelo INSS, mas àquele gripão que me derrubou em 1991 (ano do rebaixamento do Grêmio) que aponta causas relevantes bem na linha do mister Guedes.

Achei que a matemática pode ajudar-nos a entender em que mato-sem-cachorro está metida a república instaurada por estas bandas lá em 1889. Tá na cara que o governo acredita que o investimento explica-se por uma função de proporção direta com as expectativas dos ricaços:

I = f(E).

Agora tem. De minha parte entendo que essa função f(E) é uma expectativa do governo, ou seja,

I = f(g(E))

que se explica pela expectativa que os parentes dos governantes têm sobre os rumos do patrimônio público, que -de sua parte- se explica pelas expectativas que os sabiás que cantam extemporaneamente nos dias que correm têm sobre os ditames da nutrição saudável a que deveriam ser submetidos que, por sua vez, dependem... you know...

Agora digamos que queremos testar econometricamente essas teorias que acabo de expressar. Primeiro de tudo, devemos convidar o professor Adalmir Marquetti para um café e pedir-lhe ajuda. Em segundo lugar, digamos que encontremos mesmo as esperadas correlações positivas daqui a dois anos. Ainda assim, permanecerá a dúvida se a retomada do investimento do Brasil deveu-se à expectativa da morte do filósofo Olavo de Carvalho, dos sucessos futebolísticos do Grêmio, da posição da economia brasileira em sua curva ajustada de ciclo de movimentos do PIB ou ainda de fatores que apenas as gerações futuras é que irão dominar.

DdAB
Fonte da imagem: Internet...

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Caso de Moro: ocaso de Moro?


Todos conhecem minhas opiniões sobre o jornal Zero Hora. Hoje devo elogiá-la. Talvez tudo tenha a ver com o dia dos namorados, ternura jorra sobre mim como os vazamentos seletivos da Operação Lava-a-Jato, capitaneada -não pelo Capitão- mas pelo então juiz Sérgio Moro (nunca esquecendo que "juiz Moro é oximoro").

Pois bem: o lado alegre é que li a coluna "Política +", em geral assinada pela jornalista de direita, sra. Rosane de Oliveira, mas hoje sendo redigida pela jornalista Débora Cademartori. Seu comentário principal diz: "Moro se veste de político e encara crise". Em seu tópico frasal, evoquei meus pais, meus avós, essa turma toda do tempo antigo (ao qual alguns já andam atribuindo meu próprio nascimento e até carreira profissional...): "Visivelmente incomodado, o presidente Jair Bolsonaro zarpou e entrevista coletiva ontem após ter sido questionado sobre a relação das conversas entre o então juiz Sérgio Moro [...]" Segui lendo, mas assinalei com minha canetinha de cor "zeroherra" aquele "zarpou". Vovó zarpou. Mamãe e papai também o fizeram, guardo-lhes a mais intensa ternura.

Disse ela:

[...] Disse [Moro] para os senadores que as conversas divulgadas pelo The Intercept foram coletadas de maneira 'ilegal' e que isso é 'criminoso'. Quando juiz, Moro autorizou indevidamente a divulgação de áudio interceptado em que a então presidente Dilma falava.

Em outras palavras, esse tipo de atitude, agora sabidamente sabido, como aliás sempre se soube, foi o que ajudou Bolsonaro a vencer Haddad no segundo turno daquela eleição presidencial. Na verdade, falei em ajudar, pois não podemos negar os 57 milhões de cidadãos que nele votaram. E ajudou Moro a ser guindado à posição de reserva dos ministros do supremo tribunal (de salários invejáveis, sinecura das mais sofisticadas).


DdAB
P.S. Não esqueçamos que, durante suas férias, ele acionou a polícia federal, para dar um basta a um desembargador que andou pensando em acolher um habeas corpus pela libertação de Lula. Parece óbvio que temos aí algo ilegal e therefore, como diria o anglicismo o próprio Dalanhol, contra a lei e, therefore, criminoso. Como diria o próprio Sérgio Fernando Moro, sic transit gloria mundi.
P.S.S. Propagandeei os feitos de cá no Facebook de lá: Neste dia dos Namorados, enamorado evoquei que escrevi para minha, então, noiva: "caso caso no ocaso do caso case uma casa", poema em prosa desclassificado num concurso de frases de uma só palavra. Lembrei dele, pois escrevi no blog algo por ali inspirado:

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Desmonte que Vem de Fora

Resultado de imagem para desmonte

Dias atrás, li estupefato no jornal que o Ministério Público do Rio Grande do Sul estava solicitando à assembleia legislativa a criação de 41 cargos de confiança, os afamados CCs. E fiquei boquiaberto ao ler o jornal de hoje e saber que os próprios solicitantes, dada a reação que a iniciativa provocou na opinião pública, ou sei lá aonde, voltaram atrás e pediram para cancelarem a tramitação do pedido.

Logo eu, que considero que o emprego público é obrigação do estado, como já prescrevia a constituição da república que regeu meu nascimento, ou seja, eu, de 1947 e ela, de 1946: "todos terão direito a um emprego que lhes possibilite existência digna". E que vim a aprender, na minha longa convivência com a literatura igualitarista, que o "governo é o empregador de última instância".

Então, como é que vou conciliar querer menos cargos públicos? É que John Rawls diz que a sociedade justa terá seu governo gerido por empregos abertos a todos. "Todos" não quer dizer os parentes dos procuradores do ministério público, nem dos deputados, nem dos juízes, na troca de nomeações, já que a nomeação direta está proibida no país da impunidade...

Em compensação, parece que já falei que andei lendo a revista Época, número 1090, a da maconha. E nas páginas 78 e 79, temos um comentário, um balanço sobre o desmonte do estado norte-americano que deixa qualquer um de cabelo em pé:

   [...] o resultado [do desmonte, se bem resumo em uma palavra] é parecido [ao que ocorre na retirada de poder do Foreign Office, o da diplomacia]: diplomatas sentados nos bastidores, políticas sendo feitas em outros lugares.
   A queda livre do Foreign Office continuou através das eras Obama e Trump. Em 2012, 28% dos cargos do Foreign Office no exterior estavam vagos ou eram preenchidos por funcionários de nível inferior, trabalhando acima de sua experiência.
   Em 2014, a maioria dos funcionários tinha menos de dez anos de experiência, um declínio até mesmo em relação aos anos 90. Menos funcionários do que antes foram promovidos à liderança em 1975, mais da metade dos funcionários chegará a postos superiores: em 2013, apenas um quarto uma profissão [no Foreign Office] que, nas décadas anteriores, recrutara as mais brilhantes mentes das universidades americanas e do setor privado agora estava enferma, se não morrendo.

Se meu início foi falar nos 41 cargos em comissão, que sou contra, sigo para uma conclusão com matéria também do jornal. O ministro Paulo Guedes disse que não haverá concursos públicos nos próximos quatro anos. E pode ser que Bolsonaro seja reeleito. E pode ser que, mesmo saindo do poder pelo voto majoritário, essa turma deixe uma herança como a  que ficou de Temer, com aquela lei esdrúxula dos 20% de aumento no gasto, algo assim, que felizmente não lembro com exação.

Então: Paulo Guedes segue no projeto de secar o estado dos melhores cérebros, da perspectiva da carreira do funcionalismo público (da qual outro câncer, by the way, é mesmo a nomeação indiscriminada de pessoas em cargos em comissão). A macacada terá menos de 10 anos de experiência. A macacada não terá mais promoções a cargos de liderança nem a postos superiores. A macacada não vai originar-se das universidades, pois estas estarão acabadas, a macacada não terá nem mesmo empregos no setor de mercado, pois este também fenecerá e aparentemente os chineses vão preferir trabalhadores chineses: se exportarem 210 milhões de pessoas não vai faltar chinês naquelas bandas.

DdAB
Foto de um desmonte lá no início.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Maconha e o Osmar Terra

Resultado de imagem para maconha revista época

Em meus tempos de professor de microeconomia (a rigor, até em Introdução à Economia), eu chegava a certo ponto do estudo das curvas de oferta e demanda e suas condições de equilíbrio e não resistia a jogar na parada um problema de tributação. A moral da história microeconômica é que, se o governo cobra um imposto por unidade vendida (e não, por exemplo, por cabeça), a carga se distribui entre o comprador e o vendedor. A curva de oferta é que se desloca "para cima" e a de demanda vai "para a direita" (pois tem uma pilha de gente que tinha medo de meter um baseado e, com a legalização, decide-se a testar o bagulho.

Parece que, desde sempre, sou a favor da legalização do comércio de drogas e, naquele contexto, ajustei parâmetros das curvas de oferta e demanda e a função tributação (que é pT = pP x (1 + t), isto é o preço depois do tributo é igual ao preço puro vezes a alíquota do imposto, esta variando de 0,01 até infinito. Os problemas que eu dava a este respeito sempre levavam a resultado moralista: maior preço induzia menor quantidade de equilíbrio.

Hoje, mais radical com relação ao besteirol político nacional, sou favorável à destruição do mercado de drogas por meio de um artifício pueril (solução trivial, diriam os matemáticos bem-humorados): o governo começa a distribuir tudo o que é tipo de droga que possamos imaginar "de grátis". Quer cocaína? Vai no centro de consumo? Quer crack? Vai na enfermaria? Quer maconha? Vai na farmácia (como no Uruguay). Queria só ver a cara do doutor Osmar Terra, um rapaz que jamais ouviu falar em teoria da escolha pública, nem seus CCs o fizeram, um rapaz que não consegue entender que "o problema das drogas é caso de medicina e não de polícia". E mais: é um caso de recompensas extraordinárias para empresários empreendedores destrutivos (ver William Baumol e Fernandinho Beira-Mar): não se pode segurar água correndo morro abaixo, não é mesmo? Com tais incentivos precisamente originários da política de repressão do governo, é impossível pessoas de moral baixa e aversão ao risco rastejante resistam a essas recompensas.

E tenham destruído o Brasil. Dá para reconstruir, mas que está destruído, lá isto está mesmo. Em outras palavras, por essas e por outras é que nutro por Osmar Terra e mais um magote de celenterados um desprezo de fazer explodir a urna em que faria recall de seu mandato...

Osmar Terra? Isto é bicho da terra? Mais me parece um nefelibata, intrinsecamente reacionário e com um grau de confiança em si que já passou do limiar da patologia, paranoia, em particular. Ou muito me engano.

Osmar Terra? Talvez algum dos CCs de sua confiança tenham lido o número 1090 da revista Época, de 29 de maio de 2019, o editorial concernente à matéria de capa:

A MACONHA É TÃO INOFENSIVA ASSIM?
O que dizem os últimos e polêmicos estudos sobre o tema
por Danilo Thomaz e Carolina Brígido.

Vai lá, editorialista, que vou citar apenas o primeiro parágrafo, dedicando-o à plêiade de sinecuristas encabeçadas pelo dr. Osmar Terra e seus funcionários em cargos em comissão:

UMA QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA
   Um terço dos 700 mil brasileiros presos cumpre pena por tráfico de drogas. É um contingente que cresce em ritmo exponencial. A causa disso não está no aperfeiçoamento da competência policial e jurídica do país. Encontra-se, maus uma vez, na capacidade estrutural da sociedade brasileira de maximizar desigualdades.
   Em tese, a legislação estabelece, desde 2006, que o usuário de drogas não deve ser punido com a cadeia - apenas com sanções alternativas, como a prestação de serviços à comunidade ou a participação em cursos educativos. Na prática, por falta de critérios objetivos na distinção entre usuário e traficante, que fica a cargo de policiais, promotores e juízes, grande parcela da população carcerária brasileira enquadrada como traficante é, na realidade, formada por consumidores de drogas ou microtraficantes, geralmente pobres.
   O Brasil precisa reconhecer o fracasso da política de 'guerra às drogas' - como batizada pelo presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan na década de 80 -, com foco na repressão e prisão. em 40 anos, apesar dos bilhões gastos no combate ao tráfico de drogas, o consumo só aumenta.
   Parte considerável do mundo já o fez. em 30 dos 50 estados americanos, por meio de suas leis locais, o porte de drogas para uso recreativo ou medicinal foi descriminalizado. Portugal mudou sua política em 2001. Legalizou todas as drogas para consumo próprio, adotou parâmetros claros para distribuir usuário de traficante e deu ênfase ao tratamento de saúde dos dependentes. de lá para cá, obteve redução do número de mortes por uso de drogas. Em 2018, o Canadá seguiu o mesmo caminho. O Uruguay adotou a política mais radical do mundo. Legalizou não só o consumo, mas também o cultivo caseiro da maconha, e permitiu o comércio em redes de farmácias.
[...]

Mas que fique bem claro: minha posição não se atém ao caso da "saúde pública". Penso precisamente que é preciso um ataque radical à guerra que, de acordo com James Tobin, foi perdida mesmo pelos Estados Unidos: aceitar o conceito de consumo recreativo de drogas leves e controlar e tratar o uso de drogas pesadas. Os resultados apareceriam num just like that de deitar por terra... o Osmar Terra!

DdAB
P.S. Por que começo a ler a revista Época? Pois os incompetentes da Carta Capital, mais enfronhados com a esquerda, só que com a esquerda do século XX (antes de 9.nov.1989), não conseguem fazer um entrega regular da revista ao assinante. Claro que eu podia comprar na banca, da mesma forma que comprei a Época. Mas não o faço por pirraça. E achei esse editorial que me parece um tanto esquerdista.
P.S.S. E houve anedotas por causa meu arrojo. Um dia eu indaguei (pois não sabia) o preço de um baseado. Um futuro economista confrontou-me: "Quanto o senhor tem pago?" À época (sem trocadilho com a revista que ainda não existia) talvez eu não tenha dado a melhor resposta que vim a ler nas páginas amarelas da revista Veja, que entrevistava um professor de medicina oslt do MIT oslt especialista precisamente em adição a drogas. E aí indagaram-lhe: "Já cheirou?" E ele respondeu apenas: "Isto é irrelevante".
P.S.S.S. É preciso ter o focinho escarafunchando na terra para pensar que sou apologista do uso de drogas. Meu problema diz tudo: um imposto indireto calculado com exação, e apenas ele, poderia dar mais combate ao consumo de drogas do que todas as leis que o velho Terra tem encaminhado.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ontem, Hoje e Amanhã: o voto, a filosofia e o Bolsonaro


Talvez seja a idade (isto que nem fiz aniversário...) que, se não me dá mais sabedoria, brinda-me com mais tolerância. Na verdade, de repente, vim a entender que há duas maneiras irreconciliáveis de pensar a macroeconomia: com estado regulador ou com estado mínimo. Da mesma forma, haverá duas maneiras de classificar as pessoas em termos de sua adesão (consciente ou não) a diferentes filosofias políticas. Neste caso, entendo que estamos falando dos igualitaristas, por oposição aos neo-liberais.

Depois de entender essas divisões perenes no tempo e que também se fazem presentes nos diferentes espaços de nossas vidas profissionais, sociais e familiares, vim a entender -entender, entendeu?- que não sou tão tolerante assim. A verità é que considero que o governo deve implementar políticas econômicas voltadas à promoção do bem comum (empregador de última instância, imposto sobre o cigarro, subsídio à educação, etc.), ou seja, sou um adepto do estado regulador. Da mesma forma, tenho posição clara em favor da sociedade igualitária, considerando ser vital para o futuro da humanidade (obviamente passando pela gestão do meio-ambiente) o rompimento com as posições que defendem o estado mínimo. E vejo dissidências importantes entre colegas de trabalho, nossos vizinhos de rua e nossos familiares.

Nos dias que correm, temo que a posição dominante no Brasil, no Menino Deus e no mundo seja mais favorável àquilo que uns falam em liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes. Dada a intolerância a que o que expus anteriormente me lançou, só posso dizer que condeno veementemente essas pessoas, as pessoas que esposam este tipo de posição John Rawls e eu (!) consideramos que o mais importante valor humano é a liberdade ("Todos têm igual direito à mais ampla liberdade compatível com a dos demais indivíduos."). Chego mesmo a esposar a ojeriza ao totalitarismo anunciada por Karl Popper (ver aqui): não podemos transigir com os intolerantes que usam a democracia precisamente para acabar com ela.

Tá na cara que estou falando em geral e especialmente no Brasil contemporâneo e seu bolsonarismo. Ilustro o absurdo da situação com duas referências ao jornal Zero Hora:

No exemplar de ontem, 16 de maio de 2019, li uma carta de leitor na página 4:

VERBAS PARA INSTITUIÇÕES
   Concordo com o corte de verbas para as universidades (ZH, 7/5) [sic], pois as instituições, ao contrário do que afirmam, estão mais preocupadas com suas agendas corporativas do que com a sociedade.
Luiz Serpa
Aposentado - Novo Hamburgo

Gelei, degelei e tornei a gelar. Então o senhor Luiz Serpa pensa mesmo isso? E fiquei imaginando o que ocorrerá se os cortes de verbas forem confirmados. Talvez ele espere mesmo que as preocupações corporativas venham a se desvanecer, em resposta à futura penúria. Por simetria, poderíamos pensar que, se as verbas forem aumentadas, acaba-se a agenda corporativa. Naturalmente, esta visão ácida que confiro à filosofia política (talvez praticada apenas no nível inconsciente) não é nada coerente com minha tolerância com relação à opinião de outrem. Gelei...

Pois a própria capa da Zero Hora de hoje, 16 de maio de 2019, não precisou de mais de 12 palavras para fazer-me degelar e, rapidamente, gelar de novo:

'São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra.'
JAIR BOLSONARO
Presidente, sobre a manifestação

Pero que si, pero que no. As manifestações de ontem foram, claramente contra o governo, "tudo isso que aí está" com atropelos de vários naipes e, lamento dizer, com o apoio de gente do feitio do sr. Luiz Serpa. E, eu que sou lá daquele grupo de filosofia política e economia política, fiquei feliz em ver que a sociedade tem um segmento, o mais promissor, o mais interessado num futuro luzidio, que diz "não", "Ele não!". E que fazer com um cara que venceu as eleições com o voto de 57 milhões de brasileiros? Sou contra o impeachment, esculacho da ordem institucional de que o Brasil é tão carente. E se há esperança de criação de instituições inclusivas mais afeitas à modernidade, esta reside apenas e exclusivamente na educação do povo.

E até lembrei de minha biografia antiga: andei sendo chamado de inocente útil, o que hoje representa um elogio, comparado com a condição de idiota útil, que me parece precisamente o caso do presidente da república: que pensarão as elites pensantes dos países amigos quando essa figura medíocre e mal-assessorada expressa tal opinião sobre a geração futura que hoje está em formação?

Gelei, degelei, tornei a gelar!

DdAB
Peguei a imagem que nos encima do corpo de uma postagem que fiz aqui.