domingo, 14 de abril de 2019

Charade (em itálico) e o Mercado de Trabalbo

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Acabo de rever o filme "Charade", em itálico. Charada, em português. E acabo de ouvir falar em sugestões sobre a reforma da previdência para evitar a substituição do trabalho humano pelo de robôs na economia monetária em que vivemos. Decidi ligar pontos desses dois bordados (hehehe) e colocar aqui o resultado de algumas reflexões. Dou por pacífico que todos sabemos o que é um robô, que obedece integralmente aquela definição que Umberto Eco (Somewhere) deu para máquina: um macaco da natureza, que lhe imita a função, mas não retém a forma.

E que é uma charada? Tem várias interpretações, inclusive o problema da tradução. Vejamos:

dicio.com.br:
Substantivo feminino: enigma que consiste em compor uma palavra em tantas sílabas ou partes quantas possam ter uma significação determinada, dando-se a cada uma dessas partes a definição em termos mais ou menos vagos, e acrescentando uma alusão à significação da palavra inteira.[Figurado] Conversa ou discurso ininteligível.Matar uma charada, adivinhar a palavra sobre a qual ela é feita.

Wikipedia:
A charade is an informal composition wherein a word is broken into its component syllables and presented as a series of punning clues to the identity of each part and the whole. From the poor acting usually involved in its dramatic form charades, it has also come to mean any farce or poorly-executed deception.

Wikidictionary:
From French charade, charrade (“prattle, idle conversation; a kind of riddle”), probably from Occitan charrada (“conversation; chatter”), from charrar (“to chat; to chatter”) + -ada. As a round of the game, originally a clipping of acting charade but now usually understood and formed as a back-formation from charades.

Voltando a falar em macacos da natureza, naquela imagem lá de cima, vemos (e podemos ampliar clicando sobre a imagem) um moinho d'água, como seu operador, possivelmente, enviando mensagem de amor em seu celular. Mas também podemos ver um "ladrão", ou seja, a roda dentada parece não estar recebendo a água corrente, levando a crer que o operador do moinho desviou seu curso, a fim de completar sua mensagem... Olhando para a direita da roda vertical, observamos uma ponta de eixo. Presumo que, do outro lado desse eixo, aquela energia cinética que veio da água que move a roda é transformada em energia mecânica, fazendo algum movimento que culmina por moer o cereal, ou o que seja.

E aquele filetezinho d'água que já referimos ao vê-lo desviado, ele é eterno? Eterno, eterno mesmo, nem os prótons... Mas fico mais preocupado com o perigo de seca e ociosidade do moinho do que a decadência do universo. Só que a turma bolou a solução: transformar aquela fonte de energia dependente daquele curso d'água em uma fonte mais confiável. Digamos que inventaram a máquina a vapor, que recebe a energia da queima de um pedaço de madeira (ou hulha), ou o que seja, e o transforma na mesmíssima energia mecânica.

E será que houve "queima" de milhares de empregos, quando a máquina mais moderna substitui a mais antiga? Parece óbvio que houve. E isto foi bom? E, em tendo sido bom, cui bono? (quem se beneficiou?). E aí as opiniões se dividem. Tem gente até que considera ser melhor que a tecnologia do moinho d'água devia ter sido mantida, proibidas as máquinas a vapor e aquelas a explosão e as elétricas, para preservar os empregos. Eu, olimpicamente, acho que quanto mais trabalho vivo der lugar para o trabalho morto, melhor para a humanidade. Sideralmente, considero que o problema, o verdadeiro problema, do capitalismo é a eficiência distributiva, ou seja, a definição contemporânea daqueles que se beneficiam.

A social-democracia tem dado respostas interessantes ao problema distributivo, desde a cobrança de impostos maiores sobre bens de demérito, à criação do seguro desemprego e, mais recentemente, o pagamento da renda básica (incondicional) universal. Mas seria adequado que se cobrasse um imposto sobre cada robô incorporado à fábrica e que substitui um trabalhador? Se a encrenca apenas imita a função e não a forma da natureza, é difícil sabermos o que é um robô. Em minha definição, o primeiro deles foi um simples e genial termostato. E o programa que faz análise de crédito? E aquele outro que faz cirurgias, com cada vez menor controle do cirurgião formado pela faculdade de medicina?

E a dupla Acemoglu e Robinson e seu livro sobre as comunalidades entre as nações incapazes de acompanhar o progresso técnico das demais?

ACEMOGLU, Daron e ROBINSON, James (2012) Por que as nações fracassam; as origens do poder, da prosperidade e da riqueza. Rio de Janeiro: Elsevier Campus.

Como sabemos, esses dois professores falam das instituições inclusivas e das extrativistas e da presença de inovação na economia nacional. Claro que o Brasil é lotado por instituições extrativistas, que comportam um ideário anti-igualitarista e de baixa adesão aos padrões de honestidade e alta impunidade. País que não tem educação (e, antes dela, precisaria ter esgotos...) jamais poderá criticar as instituições existentes e, menos ainda, criar novas, mais afeitas ao progresso e à democracia. Sem estudo não há inovação. E sem inovação não existe progresso perene. O Brasil é uma prova de até onde a sociedade desigual pode levar: 30 ou 40 anos de crescimento rastejante.

Em muito enorme boa parte, eles têm razão. Uma das virtudes do capitalismo é mesmo a destruição criadora de que nos falou Joseph Alois Schumpeter, a criação e incorporação de progresso técnico voltado a criar novos produtos e novos processos. Os processos, inclusive organizacionais, são poupadores, via de regra, de mão-de-obra, ou seja, de trabalho vivo. Um programa que faz a contabilidade de uma sorveteria pode não estar tirando o emprego de um contador, mas certamente este poderá fazer, digamos, mais 10 empresas. E aí, sim, estaremos vendo um trabalhador destruir o emprego de outros nove. Sabe-se lá.

E Charade? Tem uma cena num metrô parisiense, parece-me que numa estação da linha Porte de Clignancourt. O que me chamou a atenção é que, naquele filme rodado, talvez, em 1962, havia uma boa meia-dúzia de funcionários na estação subterrânea, entre vendedores dos bilhetes, um ou outro guarda de plataforma, e por aí vai. E que, na última vez que vi Paris (isto também é título de filme velho), havia apenas máquinas, gente que era bom, apenas os pagantes/passageiros. Pensei: assim não vai dar. Não haverá demanda efetiva: para quem vender os bens produzidos? Parece que eles seguem inventando compradores. Mas, sabedores que o emprego é a expressão máxima da sociedade igualitária, que podemos esperar?

DdAB
P.S. A propósito, Acemoglu e Robinson sugerem que o crescimento da China é limitado, por se tratar de uma sociedade constituída por um expressivo número de instituições extrativistas, como -digo lá eu agora- é o caso do Partido Comunista itself e das guanxi (aqui).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Mundo 0 x -3 Zerro Herra




A encrenca é tão canina que, tendo o dia 5 de abril (sexta-feira) como o mais agitado de minha vida, não consegui postar o que quero, esses menos três gols na isenção jornalística, mas vou fazê-lo agora: antes tarde do que nunca. É o jornal Zero Hora, é minha tradicional Zerro Herra. É evidente que não dou pouca importância a Zerro Herra, pois a escolhi para ser minha pauta daquilo que a Art Filmes daqueles tempos chamava de "O Que Vai pelo Mundo". E já vi cada uma, até aquela do morto em Soledade, com três tiros, ou seja, duas facadas na barriga... E dessa Art Filmes nada vi no Youtube.

Em compensação, a página 2 tem aquele "Informe Especial" de autoria do jornalista Tulio Milman. Pois pior em compensação, ele tem a reflexão do dia -se assim posso chamar- intitulada "O que a palavra Tchucuca diz":

Muito se fala sobre a explosão do ministro da Economia, Paulo Guedes, que saiu dos trilhos na quarta-feira, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ao ser chamado de "tchutchuca" pelo deputado Zeca Dirceu (PT-RJ), filho do ex-presidiário José Dirceu. [...]

Pirei, despirei, tornei a pirar: fiquei pensando que, neste caso, também deveríamos dizer o nome da mãe do indigitado deputado... Vim a ler na Wikipedia tratar-se de Clara Becker. Mas e daí? E daí, e daí, e daí? Que teria a ascendência do deputado a ver com a insatisfação do estridente jornalista com os rumos que o humor do ministro da economia escalou naquela tarde/noite memorável? O cara é mau ministro, o cara é mau jornalista. No mesmo parágrafo que trunquei com [...], Túlio prometeu: "Pode-se analisar o episódio, no mínimo, sob duas óticas." Pois, aprendiz de epistemologia que me declaro, agucei o espírito para ver quais seriam essas duas óticas analíticas do jornalista.

Primeira decepção: não há aquelas afamadas entradas paralelas que tanto me ajudaram a galgar alguns degraus nas escadarias os porões do conhecimento, se me faço vulgar... Demonstração: ele começa falando na primeira dessas duas óticas. E, no parágrafo seguinte, terminada a -assim dizendo- análise da primeira, segue dizendo "Feita a ressalva, [...]", cabendo a seu sofrido leitor dar-se conta de que aquela ressalva era da primeira ótica, que tratou do "descontrole do ministro".

A segunda ótica teria, claro, que compensar aquele "descontrole do ministro", pois -em caso diverso- poderiam classificar Túlio no armário dos comunistas. E, para deixar mesmo no opróbio essa sua -digamos- análise, parece óbvio que, ou muito me engano, ou ressalvas não fazem parte a parte central da análise. Vou dar um exemplo. Quando dizemos: "vou analisar o efeito preço", estamos rumando para decompô-lo, analisá-lo. Aí defino o efeito preço: variação na quantidade demandada de uma mercadoria em resposta à variação de seu preço". A análise seguiria com a divisão desse efeito preço em efeito renda e efeito substituição. Neste caso, deveria ser proibido que eu, fazendo uma ressalva, chegasse aos efeitos renda e substituição. Na verdade, isto não é ressalva nenhuma, mas a própria análise. Além do mais, feita a ressalva analítica, mais da metade restante da reflexão sobre o substantivo feminino tchutchuca, transformando-a (à resssalva) em cavalo de batalha para lancetar a esquerda. Chega!

Em compensação, o quarto superior da página 8 diz: "Histeria da oposição ajuda o governo Bolsonaro". Fiquei encafifado. É? Era Rosane de Oliveira, a tradicional porta-voz do reacionarismo sul-riograndense, naquele carimbadíssimo jornal. Farei apenas uma ligeira "análise" (hahaha), citando o primeiro parágrafo da jaculatória da profissional:

Um dia depois do longo depoimento do ministro Paulo Guedes à Comissão de Constituição e Justiça, o que ficou daquela sessão de mais de seis horas? O assunto mais comentado é a falta de educação do deputado Zeca Dirceu (PT-PR), dizendo que o ministro é 'tigrão' com os pobres e 'tchutchuca' com os privilegiados. Um citação totalmente inadequada, que irritou Guedes mais do que todas as provações anteriores e levou ao encerramento da sessão. O ministro, que já estava pelas tabelas, desceu ao nível do Zeca Dirceu e disse que 'tchutchuca' eram a mãe e a avó dele.

Segue a lista de críticas à esquerda que já nos é familiar, e até mais violenta: histeria e catarse. E a defesa do status quo: "O ministro mostrou que tinha estudado os argumentos de quem acha que a reforma da Previdência é desnecessária e tentou desmontá-los, mas a gritaria impediu que as respostas fossem ouvidas e que mitos raciocínios fossem concluídos. [...]"

Em compensação, sempre tem o contraponto com episódicas concessões ao que pensam ser a opinião central da esquerda. Agora pulamos para a página 25. Carolina Bahia tem um quarto de página e começa com uma nota longa intitulada "Caiu a ficha de Bolsonaro", no caso, o presidente teria entendido que "precisa mergulhar em negociações", dizendo como prólogo:

[...] Zeca Dirceu (PT-PR) faltou com o respeito ao chamar o ministro [Paulo Guedes] de tigrão e tchuchuca. Foi baixo. Os governistas também erraram. [...]

E por que considero que minha... análise faz parte de minha inserção naquele mundo da economia política moderna? Um jornalismo isento (que não se resume a, digamos, criticar uma posição errada da esquerda e imediatamente fazer uma concessão com crítica para a direita) jamais faria este tipo de abordagem, abordagem, abordagem, isto é, três jornalistas enviesados com uma notícia banal. Essa de falar apenas no pai do deputado e não referir a sra. Clara Becker é, digamos, machista...

DdAB
Editei uma foto cujo resumo coloquei lá em cima. É para deixar claro que houve sapatadas pra tudo que é lado, cabendo-nos inocentar o que parece um parzinho de sapatos for ladies.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Esquemas e Modelos na Economia Marxista

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Esquema para criação de modelos de vista no Revit. 


Duas frases que me fizeram sentir no topo do mundo. Ambas foram retiradas do artigo:

REUTEN, Geert (2002) Marxian Macroeconomics: an overview.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/242481432_Marxian_Macroeconomics_an_overview. Acesso em 29 de junho de 2018.

Primeira frase:
Central to the [Marxian] paradigm is that the capitalist system is a historically specific mode of production, allocation and distribution. Capitalism is not merely an allocating and distributing market economy; more than that, each historically specific economic system necessarily operates through a specific ‘social form’ as the dominant criterion and measure of production. For capitalism this is the monetary value-form; it not merely dominates market exchange but also the process of production. Hence techniques of production and technological trajectories are not ‘naturalistic’ phenomena; for capitalism, they are determined by the value-form (see Murray 2002 [referência no original]). [negrito e itálico são meus]

Topo do mundo por causa da primeira frase:
 Tem, claro, muita coisa, mas o que italicizei e negritei é que me interessa comentar. Volta e meia, em vários contextos, especialmente aquele tentando ajudar críticos severos do capitalismo a moderar suas posições, refiro precisamente essas -agora falo eu e não o Reuten- três principais dimensões da eficiência econômica: produtiva, alocativa e distributiva. Teremos eficiência produtiva quando a produção estiver no nível em que o custo médio é mínimo. Vim a entender que eficiência alocativa é inalcançável, exceto no esquema, epa, modelo..., de concorrência pura. E que é eficiência alocativa? é quando o preço é igual ao custo marginal: a sociedade paga pela unidade adicional de um bem ou serviço (preço) precisamente aqueles recursos indispensáveis para produzi-lo (custo marginal). Quanto à eficiência distributiva, que ocorre quando o preço é igual à custo médio, esta, então, tá na cara que jamais vai ocorrer, pois este não é um requisito fundamental para a sobrevivência do sistema capitalista.

Segunda frase:
The second main building block [of the Marxian paradigm] is a Reproduction Schema of the capitalist economy (Marx 1885, Part Three). In modern terms it would be called a dynamic two-sector macroeconomic model of production and realisation (Marx was the first economist to develop such a model; up to about 1950 the term ‘model’ was not used in economics; ‘schema’ was a name adopted from Marx, e.g. Tinbergen). [SIC]

Topo do mundo da segunda frase:
O comentário aqui é mais curto. Eu nunca lera que foi a partir dos anos 1950 que aquilo que, na economia marxista, se designava como "esquemas de reprodução" passou, talvez por não-marxistas, a ser chamado de modelo. Quer dizer, parece que eu já nasci sabendo o que é um modelo, mas foi depois de meu nascimento que se começou a usar o termo em sua aplicação econômica.

Ok, ok. Fiquemos com esta informação, aceitando-a provisoriamente, até obter mais evidência a favor ou contra o que diz nosso amigo Reuten.

DdAB
A imagem que selecionei veio do Google Images, quando pedi, por engano, "esqyiena e modelo".

domingo, 7 de abril de 2019

Altruísmo na Política da Venezuela


Estou longe de poder generalizar o que falarei em seguida, pois não sou familiarizado no assunto. E estou trabalhando com uma amostra de tamanho 3 e sei que a primeira observação seria: aumentar o tamanho da amostra. Tudo começou quando comprei um livro de filosofia que já mencionei e cujo nome agora me foge. Pois, ao olhar mais vagarosamente tal livro, dei-me conta de que ele é uma droga, ou talvez apenas droguinha. Ao mesmo tempo, fiquei tão furioso comigo por cometer o que a turma da economia industrial chamava de "erro de compra" que decidi lê-lo de cabo-a-rabo (ou, como sinônimo, de fio a pavio). E o fiz há tão bons tempos que apenas se voltar a cheirá-lo é que lembrarei a autoria, por enquanto só posso falar numa capa com um desenho esverdeado...

Pois repeti o dito erro ao comprar o livro

HART, Michael H. (2002) As 100 maiores personalidades da história. Rio de Janeiro: DIFEL. Tradução de Antonio Canavarro Pereira, com original possivelmente de 1982.

Parênteses: ao escrever aquele "as 100 maiores", lembrei, evoquei, que possivelmente aquele livro que li por retaliação poderia chamar-se "Os 100 maiores filósofos..." Tal é minha estupefação por ter praticado o mesmo erro duas vezes que evoquei ninguém mais ninguém menos que Julio Iglesias, com a canção "Con la misma piedra":

Tropecé de nuevo y con la misma piedra
en cuestión de amores nunca aprenderé
yo que había jurado no jugar con ella
tropecé de nuevo y con el mismo pie.

Resumo, dei dois tropicões (talvez mais...), talvez havendo segredos em minhas anotações no primeiro. Há várias no livro de Hart, mas desejo destacar uma que diz respeito ao mais elevado altruísmo sentido/praticado por políticos. Vou citar dois nomes antes de chegar à Venezuela. O primeiro é Amador Bueno, um paulista que não quis ser rei do Brasil. Quis seguir com sua vidinha talvez intuindo que o egoísmo predador, a ladroagem seriam um saco sem fundo na sociedade brasileira. Segundo nome: João Goulart que, tenho razões para crer, por ler, que decidiu entregar o poder aos militares em 1964 a correr o risco de ver deflagrada uma guerra civil nestas plagas. Admiro os dois.

E desprezo mais dois: Hugo Chavez e Nicolás Maduro. Esses dois senhores não se deram conta de que aquela cantilena sobre a influência contra-revolucionária dos Estados Unidos, da Colômbia, sei lá mais de quem, é que foi a responsável por tanta gente ser "contra", do contra. Eles não estudaram introdução à filosofia, quando aprenderiam o princípio da navalha de Occam: as explicações mais simples devem substituir as mais sofisticadas, quando os modelos têm o mesmo poder preditivo. Previsão possível: enormes dificuldades de fazer um governo de esquerda, honesto sem muita cautela para não fazer com que os comandos de defesa da revolução começassem a ditar até qual a marca do cachorro que deveria tomar conta da casa. Pode ser mentira, mas ouvi dizer que um cidadão que morara na capital dos Estados Unidos batizou seu cão como Washington D. C. E a tal brigada do bairro achou que aquilo era apologia a George Washington acrescida de um "Derrubemos Chavez".

Para concluir e mostrar que meu desprezo relativamente aos dois chefes venezuelanos, cito mais um compatriota: Simón Bolívar. Então: o Hart inseriu Bolívar entre os 100 maiores personagens da história. E, lá pelas tantas, lá na página 295 (por pirraça ainda vou ler até a página 610), diz-nos:

[...] em lugar de outras nações se juntarem à Grande Colômbia (criada e presidida por Simón Bolívar), a própria república começou a se desintegrar. Estourou a guerra civil, e, em 1828, houve uma tentativa de assassinar Bolívar. Em 1830, a Venezuela e o Equador já se haviam separado, e Bolívar, percebendo que ele próprio era um obstáculo para a paz, renunciou em abril desse ano. [...]

Pois não é que, ao ler este trecho, garrei de pensar: se um gigante do porte de Simón Bolívar entendeu ter-se convertido em um para a paz, que poderíamos esperar de pigmeus políticos da contemporaneidade e do porte de Hugo Chávez e Nicolás Maduro? Obviamente que se agarrassem ao poder, jogando seu país num longo prazo de maus bofes.

DdAB
Imagem da Wikipedia. E que acharam daquela tirada tirada do "gigante Bolívar e dos pigmeus Chávez e Maduro"? O original é "gigante como Aristóteles e pigmeu como -não lembro bem- digamos Jeremy Benthan", de autoria de Karl Henrich Marx...

terça-feira, 2 de abril de 2019

Diálogo não divulgado


O da camisa verde escura prestando continência: cumé que é, achas que eu devo retornar ao Brasil?

O da camisa verde clarinha coçando a mufa em gesto desesperado: cumé que a pessoa ainda não pediu asilo para Israel?

DdAB
P.S. É a Crefisa, minha gente. É um jogador. É o Capitão e Político Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.

sábado, 30 de março de 2019

Eu e Marx sobre o "Plusvalor" (e Brody e até Walras)

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Saberei eu dizer como é que vim parar neste artigo aqui?

La “Nueva Solución” al problema de la transformación: Una crítica solidaria * Fred Moseley ** Traducido por A. Sebastián Hdez. Solorza. [E disponível aqui]

Pois Moseley diz:

Marx le escribió a Engels en 1868 (es decir, después de la publicación del Volumen 1 en 1867 y después de escribir el borrador del Volumen 3 en 1864-65), que consideró su análisis de la cantidad total de plusvalor previo a su división en partes individuales uno de los tres aspectos 'fundamentalmente nuevos' de El Capital: 

   'En contraste con toda la economía política previa, que desde los mismos inicios trata los diferentes fragmentos del plusvalor con sus formas fijas de renta, ganancia e interés como previamente dados, yo primero trato con la forma general del plusvalor en la que todos estos fragmentos aun están indiferenciados – como solución por decirlo de alguna manera.' (Marx y Engels 1975: 186, énfasis añadido, ver también 180 y Marx, 1963: 40 y 92). [e eu coloquei o itálico de acordo com meu PDF]

Sorprendentemente en contraste a esto, la interpretación Sraffiana de la teoría de Marx asume esencialmente el orden de determinación opuesto entre magnitudes agregadas y magnitudes individuales. En lugar de la determinación previa de las magnitudes agregadas, la interpretación Sraffiana asume la determinación previa de magnitudes individuales. En la interpretación Sraffiana, así como en la teoría de producción lineal en
general, las magnitudes agregadas, en general no tienen un rol esencial. Las variables que se determinan en la teoría son los precios de las mercancías individuales y la tasa de ganancia. La tasa de ganancia no se determina por el cociente entre plusvalor total y capital total invertido, sino al contrario se determina simultáneamente con los precios como solución a un sistema de ecuaciones simultáneas. Si uno quisiera definir y determinar las
variables agregadas, tales como el precio total y el plusvalor total (o ganancia) con base en esta teoría, entonces uno podría hacerlo multiplicando tantas veces el precio por la cantidad producida como industrias hubiera y después sumando estos totales por industria. En otras palabras, los agregados totales estarían determinados por la suma de sus partes individuales, que es lo opuesto al método de Marx con la determinación previa de las
magnitudes agregadas.

Primeiro e mais breve: aprendi na faculdade e passei a vida ensinando e até publicando haver quatro fatores de produção (na realidade, publiquei haver quatro locatários de fatores de produção) e que recebem remunerações chamadas de salários, aluguéis, lucros e juros (pra citar na mesma ordem da obra prima de 1867, antecipando-a pelos salários). Ou seja, uma coisa é dizer que, digamos, o lucro é determinado antes dos, digamos, juros, o que não faço. E outra bem diferente é dizer que não podemos aproveitar alguma coisa aprendida na faculdade, especialmente aquela por mim ensinada (e publicada). Como sabemos, minha formulação mais radical é que o valor adicionado (seria lá o capital variável mais plusvalor lá dele, deles, nossas quatro remunerações) é uma função da população. Ok, não nego que sem trabalho não há nem produção nem valor, mas é que fiz uma correlação entre a renda per capita dos diferentes países como função da população e achei r^2 = 0,63, ou seja, as variações na população em meu cross section de 181 países explicam as variações em suas rendas per capita (aqui). Claro que Marx ficaria entusiasmado com as implicações políticas para a sociedade igualitária destes achados.

Segundo: indo mais diretamente ao espírito do texto do Moseley e da citação que ele recolheu d'O Capital, especificamente no que diz respeito à forma de acordo com a qual surge a mais valia: se primeiro surge o total e depois é distribuído ou, ao contrário, se primeiro surge, digamos, o salário (na luta entre trabalhadores e capitalistas) e depois o lucro (na luta entre capitalistas), e assim por diante... Para mim é óbvio que primeiro surge tudo, pois, sem população, não tem valor adicionado nenhum, não tem exploração, não tem bíblias nem garrafas de cachaça (para brincar com uma irreverência do capítulo 1). E, depois de ver os preços relativos determinados pela concorrência (Walras), trata-se de sua distribuição de acordo com os afamados preços de produção (que, na linguagem de András Bródy, nada mais são do que as proporções que dão título a seu livro).

Confesso não ser lá tão versado na economia sraffiana e, assim, nada vou falar além desses meus dois pontos.

DdAB
E a imagem veio daqui. By the way, eu nunca disse, pelo menos não recentemente, ser marxista. A rigor sou um baita dum eclético. Costumo dizer que, para mim é tão difícil aprender o que quer que seja que, quando o faço, nunca mais esqueço e procuro integrar no resto do que já, com esforços sobre-humanos, aprendi.

P.S. E olha que o Moseley fala em micro e macro: "tanto en el análisis macro del plusvalor en el Volumen 1 como en el análisis micro de precios de producción del Volumen 3".

P.S.S. E ainda tem soberania monetária no conceito de Wassili Leontief de quantidades monetárias, que nada mais são do que valores a preços correntes das mercadorias.

domingo, 24 de março de 2019

Pão e Rosas: a desigualdade não para de aumentar



Tem muita intermediação para eu chegar onde pretendo: mais lições sobre a falta de racionalidade que envolve as sociedades em que impera a desigualdade econômica e social.

Primeiro: pão e rosas é o slogan de inúmeros movimentos anti-establishment dos EUA.

Segundo: "no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra". Não duvido, mas parece que meu poder de chocar-me não é suficiente para me ajudar a dar sugestões concretas para acabar com a desigualdade. No caso, os dois frascos que já contiveram água ou refrigerante viraram a base de construção de uma "sandália havaiana". Ao lado esquerdo a foto recente que colhi do mural do Facebook do prof. Jorge Ussan. É incrível que aquele chinelo do lado direito da montagem que fiz virou mercadoria, de alguma forma chegou às mãos daquele menino e serve para simular possivelmente um telefone celular setado para imortalizar um selfie do grupo.

Terceiro: depois de muito sofrer tentando entender o drama daqueles jovenzinhos que todos, todinhos, parecem muito felizes com a brincadeira inventada. Lembrei de brinquedos imitando telefones celulares de verdade e da alegria que provocam em crianças de certa idade.

Quarto: não consigo entender como é que neo-liberais e mesmo muitos libertarianos acham possível dar um jeito no planeta sem políticas igualitárias, sem o emprego público, sem fake-jobs, sem o gasto público em educação e saúde, segurança e cuidados ambientais, e mais outros bens de mérito e públicos. Em outras palavras, imagino que todos desejemos ver um mundo melhor em que essas duas fotos que colhi daqui e dali sejam apenas cena de filme ou caricatura de uns tempos sombrios, já superados.

DdAB
P.S. Eles dizem: "bread for all, and roses too".

A imagem pode conter: 5 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé e atividades ao ar livre