quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu, Pedro Fonseca e a Desindustrialização


Querido diário:

Como é sabido, o burro sempre vem na frente (da carroça e sua preciosa carga...). Então, pelo eco, o segundão é o prof. Pedro Cézar Dutra Fonseca, que só não foi meu professor, pois não aceitou dar-me aulas particulares, eis que o conheço desde 1979. E agora? Ainda falta falar em desindustrialização, outra tripulante da carroça que, com galhardia, propus-me a puxar.

É que ele, Pedro, tem um artigo sobre ela, a desindustrialização. Publicou-o em sua já tradicional e quinzenal coluna em Zero Hora. O trabalho de hoje ocupa o canto superior esquerdo da página 18. Intitulando-se "Indústria em Marcha a Ré", comenta o fato de que a indústria brasileira teve sua participação no PIB mergulhando de 32% para 10%. O autor lamenta que

[...] mudança estrutural de tal vulto seja negligenciada tanto pelos sucessivos governos quanto nos debates, inclusive por associações empresariais. Há quem considere o fato normal, pois no mundo inteiro se verificaria tal tendência. O chavão é que a economia do futuro é a dos serviços, como se estes não dependessem de bens industriais intensivos em alta tecnologia e pudessem ocorrer sem inovação e maior produtividade no setor industrial. 

Essa encrenca de tendência mundial não é bem assim: interessa-nos falar nos países ricos, pois ninguém aguenta pensar em Angola (e a extração de minerais, o petróleo), esses paisecos de baixíssimo desenvolvimento institucional. Aliás, chamar o que está ocorrendo no Brasil de "desindustrialização" (ignorando o termo "precoce", como aliás foi o caso da própria industrialização brasileira: precoce, pois a participação do setor no PIB não era compatível com igual fenômeno dos países originalmente industrializados com seu grau de renda per capita muito maior que o de cá). Pois bem, já contei na literatura que costumo compulsar mais de 250 milhões de conceitos de desindustrialização, eu mesmo sendo responsável por uns 1.000. Mas atenho-me, neste tipo de discussão, ao conceito de Bob Rowthorn e John Wells:

.a o PIB setorial cresce (o brasileiro o fez)
.b o emprego cai (o brasileiro caiu de forma super dramática)
.c a participação no comércio exterior aumenta (mas mas mas o brasileiro mergulhou no abismo, como vemos nas cifras citadas no artigo: de 2,6% do comércio mundial em 1980 para 1,4% "hoje").

Essa encrenca de chavão esdrúxulo não é bem assim: não é assim que o Brasil alcançará virtudes econômicas no futuro. Mas os serviços de fato reservam importante recompensa para quem neles aposta. Não, talvez, o que o prof. Pedro está mentalizando. Queremos educação, saúde e segurança, os dois primeiros classificados de bens semi-públicos (com incontestes méritos atribuídos a eles) e o segundo claramente um bem público puro (portanto, sem possibilidade de exclusão dos consumidores, uma vez prestado, não podendo ser racionado e, principalmente, não podendo excluir ninguém de seu consumo).

Indo aos detalhes: claro que os serviços de refrigeração doméstica de alimentos requer a prestação do serviço de uma frigidaire (no dizer gaúcho do refrigerador). Mas não se encontra no décimo primeiro mandamento das leis digitadas por Moisés que o refrigerador precisa ser made in Brazil. Ou que o computador, ou que o avião a jato, ou que a bomba atômica... E, cá entre nós, não se precisa de grandes tecnologias para produzir domesticamente um refrigerador. Aliás, nem para processar dejetos urbanos, na forma de lixo ou esgoto.

Ok, mas dei um salto quântico: agora estamos falando da indústria, especificamente, os serviços industriais de utilidade pública. Como falar em robótica ou indústria 4.0 quando o Brasil não dá conta nem de prover esgotos para toda sua população? Metade ainda não é servida pelo serviço. E o lixo urbano? O governo promoveu uma terceirização paralela, delegando a trabalhadores informais e precaríssimos a coleta de parte substantiva dele lixo.

Qual é o problema de irmos comprando essa ideia de que é melhor produzirmos refrigeradores em detrimento da produção de escolas e seu uso para prestar serviços educacionais? Gosto de meu chope gelado, bem admito, mas detesto ser servido por um serviçal semi-analfabeto. Gosto de ir ao banheiro depois das drummondianas 11 rodas de chope. E aí já me defronto novamente com o problema da falta de mão de obra: um banheiro que é uma banheira, com frequentes entupimentos e vazamentos. Cá entre nós: produzir bisturis atômicos quando não produzimos boas manilhas? Querer que nosso garçonzinho analfabeto torne-se programador de máquinas da indústria 4.0... Só bebendo...

Mas tem mais:

   Mais dramático é pensar que se está depreciando o esforço que foi feito por mais de uma geração, principalmente entre 1930 e 1980, inclusive o trabalho incessante de homens como Euvaldo Lodi, Roberto Simonsen, Rômulo de Almeida e Oziris Silva em prol do sonho de um país com alto patamar de industrialização e liderança tecnológica.

Aqui estamos quase no fim do artigo e de meu tema. E faço este parágrafo rimar com aquela citação lá de cima, quando o autor fala em "sucessivos governos". Cá entre nós, um governo que produz aviões a jato, como o brasileiro já o fez, mas não provê serviços de esgoto, educação, segurança, saúde, aquelas coisas dos bens públicos ou de mérito só pode ser considerado uma excrescência erguida à margem dos interesses da sociedade. Creio que a maior prova do erro estratosférico dos rapazes citados por Pedro Dutra Fonseca e por ele mesmo himself é que não entenderam que não adianta industrializar com enormes subsídios governamentais e deixar a negadinha ao deus-dará em matéria de educação, moradia, alimentação, uma série de bens e serviços que não caem do céu. E que surgirão ainda menos da terra, se os recursos terráqueos forem usados para atendimento de um enclave populacional. Quer uma economia de massas? Pois crie bens e serviços que atenderão às massas.

Quer uma sociedade igualitária? Tribute os ricos e dê o dinheiro para os pobres na forma de renda básica e de outros gastos governamentais que gerem capital humano!

DdAB
P.S. A imagem da foto lá de riba veio daqui. Neguinho, para tacar fogo no mato, não precisa de escola, não é mesmo? Só dá pra ver que é pós-cabralino por causa do boné, do cinto e da bermuda.
P.S.S. Que é indústria 4.0? É a que não é nem 1.0, nem 2.0, nem 3.0. Pois voltemos: a indústria que agora, por piada, estou chamando de 1.0 é a tradicional indústria forjadora da revolução industrial na Inglaterra e daí se generalizando, inclusive no subúrbio tipo Brasil. É a revolução da incorporação à fábrica, à indústria têxtil, da geração de energia por meio do vapor gerado a partir do carvão de pedra, tipo 1780. E a 2.0? É a do final do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, mas também fortemente na Europa, da geração de energia a partir do motor a explosão e do motor elétrico. Gerou-se o automóvel e o refrigerador. E a 3.0 é a chamada revolução da informática que alguns datam a 1973, por razões ainda a serem amplamente divulgadas e aceitas. E que é a quatro ponto zero? Diz-se hoje das novas tentativas de incorporação de mais e mais tecnologia informacional dentro da fábrica. Esta deve ser avaliada de acordo com o modelo alemão, que prevê a produção de automóveis e refrigeradores praticamente com zero trabalho, ergo, pronta para aniquilar o modelo chinês, que -cá entre nós- foi quem aniquilou o modelo do fordismo.
P.S.S.S. Quando se clama por mais organização, por inveja aos alemães que fizeram aquele 7x1 fraudulentamente, pois criaram dezenas de escolinhas de futebol em todo seu território, penso que deveríamos começar com escolas, enrustindo nelas e não o contrário, escolinhas de futebol.
P.S.S.S.S. Claro que minha visão do que faz a renda crescer é a população (lembrar aquele VAdic = f(População) da postagem de 18 de setembro (aqui)? Esta visão não chega a contrariar aquela que diz que o valor da produção (ou mesmo a oferta total) é função do uso dos fatores de produção, trabalho qualificado e não-qualificado, capital físico, capital humano e capital social, além das matérias primas). Mas minha visão daquele VAdic = f(População) tem a vantagem de mais facilmente substituir a variável explicativa População por, por exemplo, demanda efetiva, demanda agregada. Com isto, chegamos a Keynes e, o que dá na mesma coisa, a Marx e Engels. Keynes tem seu modelo popularizado com o dístico "quem manda é a demanda". Para Marx, o produto que não dá seu salto mortal, ou seja, o produto que não é vendido, não pode nem mesmo ser chamado de mercadoria. E, se nada viesse a ser vendido nunca, o que aconteceria seria o colapso da sociedade capitalista. Em outras palavras, se garantimos o salto mortal (absorção pela demanda final), então também estamos garantindo a geração e a apropriação do valor adicionado.
P.S.S.S.S.S. Pra não dizer que meu artigo teve custo zero:
fora o título.

sábado, 14 de outubro de 2017

A Gilmar Agir Mal é Legal


Querido diário:

Que posso dizer daquele vexame dos juízes do supremo relativamente àquela encrenca do Eunício de Oliveira sobre proteção aos senadores processados por roubo? Primeiro que foi vergonhoso os senadores do PT defenderem a "autonomia do senado". Segundo que também vergonhoso foi aqueles juízes terem duas opiniões equivalentes, com aquele 6x5. Terceiro que tenho recomendado a extinção dos estados e, com ele, as assembleias legislativas e o senado. Quarto, também recomendo a extinção do poder judiciário, delegando a uma empresa júnior finlandesa a administração de todo sistema judiciário brasileiro, do guarda de rua ao rapaz que serve cafezinho aos doutos do latinório e, lógico, também estes.
Militar, não, muito obrigado. E o Gilmar? Não está citado no longo artigo que reproduzo no rodapé. Retirei-o de uma dica do mural de Ingrid Schneider e rastreado por Sérgio Saraiva.
DdAB
A imagem veio de De Tremura do próprio Facebook. E tem este demolidor artigo aqui retirado do TheIntercept em português, que me foi indicado por uma postagem de Ingrid Schneider e comentário de Sérgio Saraiva:

ESFERA DE INFLUÊNCIA: COMO OS LIBERTÁRIOS AMERICANOS ESTÃO REINVENTANDO A POLÍTICA LATINO-AMERICANA
Lee Fang
PARA ALEJANDRO CHAFUEN, a reunião desta primavera no Brick Hotel, em Buenos Aires, foi tanto uma volta para casa quanto uma volta olímpica. Chafuen, um esguio argentino-americano, passou a vida adulta se dedicando a combater os movimentos sociais e governos de esquerda das Américas do Sul e Central, substituindo-os por uma versão pró-empresariado do libertarianismo.

Ele lutou sozinho durante décadas, mas isso está mudando. Chafuen estava rodeado de amigos no Latin America Liberty Forum 2017. Essa reunião internacional de ativistas libertários foi patrocinada pela Atlas Economic Research Foundation, uma organização sem fins lucrativos conhecida como Atlas Network (Rede Atlas), que Chafuen dirige desde 1991. No Brick Hotel, ele festejou as vitórias recentes; seus anos de trabalho estavam começando a render frutos – graças às circunstâncias políticas e econômicas e à rede de ativistas que Chafuen se esforçou tanto para criar.

Nos últimos 10 anos, os governos de esquerda usaram “dinheiro para comprar votos, para redistribuir”, diz Chaufen, confortavelmente sentado no saguão do hotel. Mas a recente queda do preço das commodities, aliada a escândalos de corrupção, proporcionou uma oportunidade de ação para os grupos da Atlas Network. “Surgiu uma abertura – uma crise – e uma demanda por mudanças, e nós tínhamos pessoas treinadas para pressionar por certas políticas”, observa Chafuen, parafraseando o falecido Milton Friedman. “No nosso caso, preferimos soluções privadas aos problemas públicos”, acrescenta.

Chafuen cita diversos líderes ligados à Atlas que conseguiram ganhar notoriedade: ministros do governo conservador argentino, senadores bolivianos e líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudaram a derrubar a presidente Dilma Rousseff – um exemplo vivo dos frutos do trabalho da rede Atlas, que Chafuen testemunhou em primeira mão.

Estive nas manifestações no Brasil e pensei: ‘Nossa, aquele cara tinha uns 17 anos quando o conheci, e agora está ali no trio elétrico liderando o protesto. Incrível!’”, diz, empolgado. É a mesma animação de membros da Atlas quando o encontram em Buenos Aires; a tietagem é constante no saguão do hotel. Para muitos deles, Chafuen é uma mistura de mentor, patrocinador fiscal e verdadeiro símbolo da luta por um novo paradigma político em seus países.

Ousted Honduras' President Manuel Zelaya, left, looks down inside a car on his way to the airport where he will board a flight to Nicaragua on the outskirts of San Jose, Sunday, June 28, 2009. Soldiers seized Honduras' national palace and sent the President Zelaya into exile in Costa Rica on Sunday, hours before a disputed constitutional referendum. Zelaya, an ally of Venezuelan President Hugo Chavez, said he was victim of a coup. Honduras' Congress sworn in Sunday congressional leader Roberto Micheletti as the country's new President. (AP Photo/Kent Gilbert)
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, à esquerda, dentro de um carro em direção ao aeroporto, onde pegaria um voo para a Nicarágua nos arredores de San José. Domingo, 28 de junho de 2009.Foto: Kent Gilbert/AP

UMA GUINADA À DIREITA está em marcha na política latino-americana, destronando os governos socialistas que foram a marca do continente durante boa parte do século XXI – de Cristina Kirchner, na Argentina, ao defensor da reforma agrária e populista Manuel Zelaya, em Honduras –, que implementaram políticas a favor dos pobres, nacionalizaram empresas e desafiaram a hegemonia dos EUA no continente.
Essa alteração pode parecer apenas parte de um reequilíbrio regional causado pela conjuntura econômica, porém a Atlas Network parece estar sempre presente, tentando influenciar o curso das mudanças políticas.

A história da Atlas Network e seu profundo impacto na ideologia e no poder político nunca foi contada na íntegra. Mas os registros de suas atividades em três continentes, bem como as entrevistas com líderes libertários na América Latina, revelam o alcance de sua influência. A rede libertária, que conseguiu alterar o poder político em diversos países, também é uma extensão tácita da política externa dos EUA – os think tanks associados à Atlas são discretamente financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do soft power norte-americano.

Embora análises recentes tenham revelado o papel de poderosos bilionários conservadores – como os irmãos Koch – no desenvolvimento de uma versão pró-empresariado do libertarianismo, a Atlas Network – que também é financiada pelas fundações Koch – tem usado métodos criados no mundo desenvolvido, reproduzindo-os em países em desenvolvimento.
A rede é extensa, contando atualmente com parcerias com 450 think tanks em todo o mundo. A Atlas afirma ter gasto mais de US$ 5 milhões com seus parceiros apenas em 2016.

Ao longo dos anos, a Atlas e suas fundações caritativas associadas realizaram centenas de doações para think tanks conservadores e defensores do livre mercado na América Latina, inclusive a rede que apoiou o Movimento Brasil Livre (MBL) e organizações que participaram da ofensiva libertária na Argentina, como a Fundação Pensar, um think tank da Atlas que se incorporou ao partido criado por Mauricio Macri, um homem de negócios e atual presidente do país. Os líderes do MBL e o fundador da Fundação Eléutera – um think tank neoliberal extremamente influente no cenário pós-golpe hondurenho – receberam financiamento da Atlas e fazem parte da nova geração de atores políticos que já passaram pelos seus seminários de treinamento.

A Atlas Network conta com dezenas de think tanks na América Latina, inclusive grupos extremamente ativos no apoio às forças de oposição na Venezuela e ao candidato de centro-direita às eleições presidenciais chilenas, Sebastián Piñera.

EM NENHUM OUTRO LUGAR a estratégia da Atlas foi tão bem sintetizada quanto na recém-formada rede brasileira de think tanks de defesa do livre mercado. Os novos institutos trabalham juntos para fomentar o descontentamento com as políticas socialistas; alguns criam centros acadêmicos enquanto outros treinam ativistas e travam uma guerra constante contra as ideias de esquerda na mídia brasileira.

O esforço para direcionar a raiva da população contra a esquerda rendeu frutos para a direita brasileira no ano passado. Os jovens ativistas do MBL – muitos deles treinados em organização política nos EUA – lideraram um movimento de massa para canalizar a o descontentamento popular com um grande escândalo de corrupção para desestabilizar Dilma Rousseff, uma presidente de centro-esquerda. O escândalo, investigado por uma operação batizada de Lava-Jato, continua tendo desdobramentos, envolvendo líderes de todos os grandes partidos políticos brasileiros, inclusive à direita e centro-direita. Mas o MBL soube usar muito bem as redes sociais para direcionar a maior parte da revolta contra Dilma, exigindo o seu afastamento e o fim das políticas de bem-estar social implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

A revolta – que foi comparada ao movimento Tea Party devido ao apoio tácito dos conglomerados industriais locais e a uma nova rede de atores midiáticos de extrema-direita e tendências conspiratórias – conseguiu interromper 13 anos de dominação do PT ao afastar Dilma do cargo por meio de um impeachment em 2016.

O cenário político do qual surgiu o MBL é uma novidade no Brasil. Havia no máximo três think tanks libertários em atividade no país dez anos atrás, segundo Hélio Beltrão, um ex-executivo de um fundo de investimentos de alto risco que agora dirige o Instituto Mises, uma organização sem fins lucrativos que recebeu o nome do filósofo libertário Ludwig von Mises. Ele diz que, com o apoio da Atlas, agora existem cerca de 30 institutos agindo e colaborando entre si no Brasil, como o Estudantes pela Liberdade e o MBL.

É como um time de futebol; a defesa é a academia, e os políticos são os atacantes. E já marcamos alguns gols”, diz Beltrão, referindo-se ao impeachment de Dilma. O meio de campo seria “o pessoal da cultura”, aqueles que formam a opinião pública.

Beltrão explica que a rede de think tanks está pressionando pela privatização dos Correios, que ele descreve como “uma fruta pronta para ser colhida” e que pode conduzir a uma onda de reformas mais abrangentes em favor do livre mercado. Muitos partidos conservadores brasileiros acolheram os ativistas libertários quando estes demonstraram que eram capazes de mobilizar centenas de milhares de pessoas nos protestos contra Dilma, mas ainda não adotaram as teorias da “economia do lado da oferta”.

Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium – outro think tank da Atlas no Brasil – tem uma outra abordagem. “O Brasil tem 17 mil sindicatos pagos com dinheiro público. Um dia de salário por ano vai para os sindicatos, que são completamente controlados pela esquerda”, diz. A única maneira de reverter a tendência socialista seria superá-la no jogo de manobras políticas. “Com a tecnologia, as pessoas poderiam participar diretamente, organizando – no WhatsApp, Facebook e YouTube – uma espécie de manifestação pública de baixo custo”, acrescenta, descrevendo a forma de mobilização de protestos dos libertários contra políticos de esquerda.

Os organizadores das manifestações anti-Dilma produziram uma torrente diária de vídeos no YouTube para ridicularizar o governo do PT e criaram um placar interativo para incentivar os cidadãos a pressionarem seus deputados por votos de apoio ao impeachment.

Schüler notou que, embora o MBL e seu próprio think tank fossem apoiados por associações industriais locais, o sucesso do movimento se devia parcialmente à sua não identificação com partidos políticos tradicionais, em sua maioria vistos com maus olhos pela população. Ele argumenta que a única forma de reformar radicalmente a sociedade e reverter o apoio popular ao Estado de bem-estar social é travar uma guerra cultural permanente para confrontar os intelectuais e a mídia de esquerda.

maxresdefault-1502212171 Fernando Schüler.Foto:captura de tela do YouTube
UM DOS FUNDADORES do Instituto Millenium, o blogueiro Rodrigo Constantino, polariza a política brasileira com uma retórica ultrassectária. Constantino, que já foi chamado de “o Breitbart brasileiro” devido a suas teorias conspiratórias e seus comentários de teor radicalmente direitistas, é presidente do conselho deliberativo de outro think tank da Atlas – o Instituto Liberal. Ele enxerga uma tentativa velada de minar a democracia em cada movimento da esquerda brasileira, do uso da cor vermelha na logomarca da Copa do Mundo ao Bolsa Família, um programa de transferência de renda.

Constantino é considerado o responsável pela popularização de uma narrativa segundo a qual os defensores do PT seriam uma “esquerda caviar”, ricos hipócritas que abraçam o socialismo para se sentirem moralmente superiores, mas que na realidade desprezam as classes trabalhadoras que afirmam representar.

A “breitbartização” do discurso é apenas uma das muitas formas sutis pelas quais a Atlas Network tem influenciado o debate político.

Temos um Estado muito paternalista. É incrível. Há muito controle estatal, e mudar isso é um desafio de longo prazo”, diz Schüler, acresentando que, apesar das vitórias recentes, os libertários ainda têm um longo caminho pela frente no Brasil. Ele gostaria de copiar o modelo de Margaret Thatcher, que se apoiava em uma rede de think tanks libertários para implementar reformas impopulares. “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”, diz Schüler, pondo-se a recitar toda a litania de mudanças que faria na sociedade, do corte do financiamento a sindicatos ao fim do voto obrigatório.

Mas a única maneira de tornar tudo isso possível, segundo ele, seria a formação de uma rede politicamente engajada de organizações sem fins lucrativos para defender os objetivos libertários. Para Schüler, o modelo atual – uma constelação de think tanks em Washington sustentada por vultosas doações – seria o único caminho para o Brasil.

E é exatamente isso que a Atlas tem se esforçado para fazer. Ela oferece subvenções a novos think tanks e cursos sobre gestão política e relações públicas, patrocina eventos de networking no mundo todo e, nos últimos anos, tem estimulado libertários a tentar influenciar a opinião pública por meio das redes sociais e vídeos online.

Uma competição anual incentiva os membros da Atlas a produzir vídeos que viralizem no YouTube promovendo o laissez-faire e ridicularizando os defensores do Estado de bem-estar social. James O’Keefe, provocador famoso por alfinetar o Partido Democrata americano com vídeos gravados em segredo, foi convidado pela Atlas para ensinar seus métodos. No estado americano do Wisconsin, um grupo de produtores que publicava vídeos na internet para denegrir protestos de professores contra o ataque do governador Scott Walker aos sindicatos do setor público também compartilharam sua experiência nos cursos da Atlas.

Caracas, Distrito Federal, Venezuela, South America
Manifestantes queimam um boneco do presidente Hugo Chávez na Plaza Altamira, em protesto contra o governo. Foto: Lonely Planet Images/Getty Images

EM UMA DE SUAS ÚLTIMAS REALIZAÇÕES, a Atlas influenciou uma das crises políticas e humanitárias mais graves da América Latina: a venezuelana. Documentos obtidos graças ao “Freedom of Information Act” (Lei da Livre Informação, em tradução livre) por simpatizantes do governo venezuelano – bem como certos telegramas do Departamento de Estado dos EUA vazados por Chelsea Manning – revelam uma complexo tentativa do governo americano de usar os think tanks da Atlas em uma campanha para desestabilizar o governo de Hugo Chávez.
Em 1998, a CEDICE Libertad – principal organização afiliada à Atlas em Caracas, capital da Venezuela – já recebia apoio financeiro do Center for International Private Enterprise (Centro para a Empresa Privada Internacional – CIPE). Em uma carta de financiamento do NED, os recursos são descritos como uma ajuda para “a mudança de governo”. O diretor da CEDICE foi um dos signatários do controverso “Decreto Carmona” em apoio ao malsucedido golpe militar contra Chávez em 2002.

Um telegrama de 2006 descrevia a estratégia do embaixador americano, William Brownfield, de financiar organizações politicamente engajadas na Venezuela: “1) Fortalecer instituições democráticas; 2) penetrar na base política de Chávez; 3) dividir o chavismo; 4) proteger negócios vitais para os EUA, e 5) isolar Chávez internacionalmente.”

Na atual crise venezuelana, a CEDICE tem promovido a recente avalanche de protestos contra o presidente Nicolás Maduro, o acossado sucessor de Chávez. A CEDICE está intimamente ligada à figura da oposicionista María Corina Machado, uma das líderes das manifestações em massa contra o governo dos últimos meses. Machado já agradeceu publicamente à Atlas pelo seu trabalho. Em um vídeo enviado ao grupo em 2014, ela diz: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”

Em 2014, a líder opositora María Corina Machado agradeceu à Atlas pelo seu trabalho: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”
NO LATIN AMERICA LIBERTY FORUM, organizado pela Atlas Network em Buenos Aires, jovens líderes compartilham ideias sobre como derrotar o socialismo em todos os lugares, dos debates em campi universitários a mobilizações nacionais a favor de um impeachment.

Em uma das atividades do fórum, “empreendedores” políticos de Peru, República Dominicana e Honduras competem em um formato parecido com o programa Shark Tank, um reality show americano em que novas empresas tentam conquistar ricos e impiedosos investidores. Mas, em vez de buscar financiamento junto a um painel de capitalistas de risco, esses diretores de think tanks tentam vender suas ideias de marketing político para conquistar um prêmio de US$ 5 mil. Em outro encontro, debatem-se estratégias para atrair o apoio do setor industrial às reformas econômicas. Em outra sala, ativistas políticos discutem possíveis argumentos que os “amantes da liberdade” podem usar para combater o crescimento do populismo e “canalizar o sentimento de injustiça de muitos” para atingir os objetivos do livre mercado.

Um jovem líder da Cadal, um think tank de Buenos Aires, deu a ideia de classificar as províncias argentinas de acordo com o que chamou de “índice de liberdade econômica” – levando em conta a carga tributária e regulatória como critérios principais –, o que segundo ela geraria um estímulo para a pressão popular por reformas de livre mercado. Tal ideia é claramente baseada em estratégias similares aplicadas nos EUA, como o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, que classifica os países de acordo com critérios como política tributária e barreiras regulatórias aos negócios.

Os think tanks são tradicionalmente vistos como institutos independentes que tentam desenvolver soluções não convencionais. Mas o modelo da Atlas se preocupa menos com a formulação de novas soluções e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, em um esforço para conquistar a adesão do público.

As ideias de livre mercado – redução de impostos sobre os mais ricos; enxugamento do setor público e privatizações; liberalização das regras de comércio e restrições aos sindicatos – sempre tiveram um problema de popularidade. Os defensores dessa corrente de pensamento perceberam que o eleitorado costuma ver essas ideias como uma maneira de favorecer as camadas mais ricas. E reposicionar o libertarianismo econômico como uma ideologia de interesse público exige complexas estratégias de persuasão em massa.

Mas o modelo da Atlas, que está se espalhando rapidamente pela América Latina, baseia-se em um método aperfeiçoado durante décadas de embates nos EUA e no Reino Unido, onde os libertários se esforçaram para conter o avanço do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

A base das ideias de Fisher vêm de Friedrich Hayek, um dos pais da defesa do Estado mínimo. Em 1946, depois de ler um resumo do livro seminal de Hayek, O Caminho da Servidão, Fisher quis se encontrar com o economista austríaco em Londres. Segundo seu colega John Blundell, Fisher sugeriu que Hayek entrasse para a política. Mas Hayek se recusou, dizendo que uma abordagem de baixo para cima tinha mais chances de alterar a opinião pública e reformar a sociedade.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, outro ideólogo do livre mercado, Leonard Read, chegava a conclusões parecidas depois de ter dirigido a Câmara de Comércio de Los Angeles, onde batera de frente com o sindicalismo. Para deter o crescimento do Estado de bem-estar social, seria necessária uma ação mais elaborada no sentido de influenciar o debate público sobre os destinos da sociedade, mas sem revelar a ligação de tal estratégia com os interesses do capital.

Fisher animou-se com uma visita à organização recém-fundada por Read, a Foundation for Economic Education (Fundação para a Educação Econômica – FEE), em Nova York, criada para patrocinar e promover as ideias liberais. Nesse encontro, o economista libertário F.A. Harper, que trabalhava na FEE à epoca, orientou Fisher sobre como abrir a sua própria organização sem fins lucrativos no Reino Unido.

Durante a viagem, Fisher e Harper foram à Cornell University para conhecer a última novidade da indústria animal: 15 mil galinhas armazenadas em uma única estrutura. Fisher decidiu levar o invento para o Reino Unido. Sua fábrica, a Buxted Chickens, logo prosperou e trouxe grande fortuna para Fisher. Uma parte dos lucros foi direcionada à realização de outro objetivo surgido durante a viagem a Nova York – em 1955, Fisher funda o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos – IEA).

O IEA ajudou a popularizar os até então obscuros economistas ligados às ideias de Hayek. O instituto era um baluarte de oposição ao crescente Estado de bem-estar social britânico, colocando jornalistas em contato com acadêmicos defensores do livre mercado e disseminando críticas constantes sob a forma de artigos de opinião, entrevistas de rádio e conferências.

A maior parte do financiamento do IEA vinha de empresas privadas, como os gigantes do setor bancário e industrial Barclays e British Petroleum, que contribuíam anualmente. No livro Making Thatcher’s Britain (A Construção da Grã-Bretanha de Thatcher, em tradução livre), dos historiadores Ben Jackson e Robert Saunders, um magnata dos transportes afirma que, assim como as universidades forneciam munição para os sindicatos, o IEA era uma importante fonte de poder de fogo para os empresários.

Quando a desaceleração econômica e o aumento da inflação dos anos 1970 abalou os fundamentos da sociedade britânica, políticos conservadores começaram a se aproximar do IEA como fonte de uma visão alternativa. O instituto aproveitou a oportunidade e passou a oferecer plataformas para que os políticos pudessem levar os conceitos do livre mercado para a opinião pública. A Atlas Network afirma orgulhosamente que o IEA “estabeleceu as bases intelectuais do que viria a ser a revolução de Thatcher nos anos 1980”. A equipe do instituto escrevia discursos para Margaret Thatcher; fornecia material de campanha na forma de artigos sobre temas como sindicalismo e controle de preços; e rebatia as críticas à Dama de Ferro na mídia inglesa. Em uma carta a Fisher depois de vencer as eleições de 1979, Thatcher afirmou que o IEA havia criado, na opinião pública, “o ambiente propício para a nossa vitória”.

Não há dúvidas de que tivemos um grande avanço na Grã-Bretanha. O IEA, fundado por Antony Fisher, fez toda a diferença”, disse Milton Friedman uma vez. “Ele possibilitou o governo de Margaret Thatcher – não a sua eleição como primeira-ministra, e sim as políticas postas em prática por ela. Da mesma forma, o desenvolvimento desse tipo de pensamento nos EUA possibilitou o a implementação das políticas de Ronald Reagan”, afirmou.

O IEA fechava um ciclo. Hayek havia criado um seleto grupo de economistas defensores do livre mercado chamado Sociedade Mont Pèlerin. Um de seus membros, Ed Feulner, ajudou o fundar o think tank conservador Heritage Foundation, em Washington, inspirando-se no trabalho de Fisher. Outro membro da Sociedade, Ed Crane, fundou o Cato Institute, o mais influente think tank libertário dos Estados Unidos.

EM 1981, Fisher, que havia se mudado para San Francisco, começou a desenvolver a Atlas Economic Research Foundation por sugestão de Hayek. Fisher havia aproveitado o sucesso do IEA para conseguir doações de empresas para seu projeto de criação de uma rede regional de think tanks em Nova York, Canadá, Califórnia e Texas, entre outros. Mas o novo empreendimento de Fisher viria a ter uma dimensão global: uma organização sem fins lucrativos dedicada a levar sua missão adiante por meio da criação de postos avançados do libertarianismo em todos os países do mundo. “Quanto mais institutos existirem no mundo, mais oportunidade teremos para resolver problemas que precisam de uma solução urgente”, declarou.

Fisher começou a levantar fundos junto a empresas com a ajuda de cartas de recomendação de Hayek, Thatcher e Friedman, instando os potenciais doadores a ajudarem a reproduzir o sucesso do IEA através da Atlas. Hayek escreveu que o modelo do IEA “deveria ser usado para criar institutos similares em todo o mundo”. E acrescentou: “Se conseguíssemos financiar essa iniciativa conjunta, seria um dinheiro muito bem gasto.”

A proposta foi enviada para uma lista de executivos importantes, e o dinheiro logo começou a fluir dos cofres das empresas e dos grandes financiadores do Partido Republicano, como Richard Mellon Scaife. Empresas como a Pfizer, Procter & Gamble e Shell ajudaram a financiar a Atlas. Mas a contribuição delas teria que ser secreta para que o projeto pudesse funcionar, acreditava Fisher. “Para influenciar a opinião pública, é necessário evitar qualquer indício de interesses corporativos ou tentativa de doutrinação”, escreveu Fisher na descrição do projeto, acrescentando que o sucesso do IEA estava baseado na percepção pública do caráter acadêmico e imparcial do instituto.

A Atlas cresceu rapidamente. Em 1985, a rede contava com 27 instituições em 17 países, inclusive organizações sem fins lucrativos na Itália, México, Austrália e Peru.

E o timing não podia ser melhor: a expansão internacional da Atlas coincidiu com a política externa agressiva de Ronald Reagan contra governos de esquerda mundo afora.

Embora a Atlas declarasse publicamente que não recebia recursos públicos (Fisher caracterizava as ajudas internacionais como uma forma de “suborno” que distorcia as forças do mercado), há registros da tentativa silenciosa da rede de canalizar dinheiro público para sua lista cada vez maior de parceiros internacionais.

Em 1982, em uma carta da Agência de Comunicação Internacional dos EUA – um pequeno órgão federal destinado a promover os interesses americanos no exterior –, um funcionário do Escritório de Programas do Setor Privado escreveu a Fisher em resposta a um pedido de financiamento federal. O funcionário diz não poder dar dinheiro “diretamente a organizações estrangeiras”, mas que seria possível copatrocinar “conferências ou intercâmbios com organizações” de grupos como a Atlas, e sugere que Fisher envie um projeto. A carta, enviada um ano depois da fundação da Atlas, foi o primeiro indício de que a rede viria a ser uma parceira secreta da política externa norte-americana.

Memorandos e outros documentos de Fisher mostram que, em 1986, a Atlas já havia ajudado a organizar encontros com executivos para tentar direcionar fundos americanos para sua rede de think tanks. Em uma ocasião, um funcionário da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o principal braço de financiamento internacional do governo dos EUA, recomendou que o diretor da filial da Coca-Cola no Panamá colaborasse com a Atlas para a criação de um think tank nos moldes do IEA no país. A Atlas também recebeu fundos da Fundação Nacional para a Democracia (NED), uma organização sem fins lucrativos fundada em 1983 e patrocinada em grande parte pelo Departamento de Estado e a USAID cujo objetivo é fomentar a criação de instituições favoráveis aos EUA nos países em desenvolvimento.

FINANCIADA GENEROSAMENTE por empresas e pelo governo americano, a Atlas deu outro golpe de sorte em 1985 com a chegada de Alejandro Chafuen. Linda Whetstone, filha de Fisher, conta um episódio ocorrido naquele ano, quando um jovem Chafuen, que ainda vivia em Oakland, teria aparecido no escritório da Atlas em San Francisco “disposto a trabalhar de graça”.
Nascido em Buenos Aires, Chafuen vinha do que ele chamava “uma família anti-Peronista”. Embora tenha crescido em uma época de grande agitação na Argentina, Chafuen vivia uma vida relativamente privilegiada, tendo passado a adolescência jogando tênis e sonhando em se tornar atleta profissional.

Ele atribui suas escolhas ideológicas a seu apetite por textos libertários, de Ayn Rand a livretos publicados pela FEE, a organização de Leonard Read que havia inspirado Antony Fisher. Depois de estudar no Grove City College, uma escola de artes profundamente conservadora e cristã no estado americano da Pensilvânia, onde foi presidente do clube de estudantes libertários, Chafuen voltou ao país de nascença. Os militares haviam tomado o poder, alegando estar reagindo a uma suposta ameaça comunista. Milhares de estudantes e ativistas seriam torturados e mortos durante a repressão à oposição de esquerda no período que se seguiu ao golpe de Estado.

Chafuen recorda essa época de maneira mais positiva do que negativa. Ele viria a escrever que os militares haviam sido obrigados a agir para evitar que os comunistas “tomassem o poder no país”. Durante sua carreira como professor, Chafuen diz ter conhecido “totalitários de todo tipo” no mundo acadêmico. Segundo ele, depois do golpe militar seus professores “abrandaram-se”, apesar das diferenças ideológicas entre eles.

Em outros países latino-americanos, o libertarianismo também encontrara uma audiência receptiva nos governos militares. No Chile, depois da derrubada do governo democraticamente eleito de Salvador Allende, os economistas da Sociedade Mont Pèlerin acorreram ao país para preparar profundas reformas liberais, como a privatização de indústrias e da Previdência. Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.

Já o zelo ideológico de Chafuen começou a se manifestar em 1979, quando ele publicou um ensaio para a FEE intitulado “War Without End” (Guerra Sem Fim). Nele, Chafuen descreve horrores do terrorismo de esquerda “como a família Manson, ou, de forma organizada, os guerrilheiros do Oriente Médio, África e América do Sul”. Haveria uma necessidade, segundo ele, de uma reação das “forças da liberdade individual e da propriedade privada”.

Seu entusiasmo atraiu a atenção de muita gente. Em 1980, aos 26 anos, Chafuen foi convidado a se tornar o membro mais jovem da Sociedade Mont Pèlerin. Ele foi até Stanford, tendo a oportunidade de conhecer Read, Hayek e outros expoentes libertários. Cinco anos depois, Chafuen havia se casado com uma americana e estava morando em Oakland. E começou a fazer contato com membros da Mont Pèlerin na área da Baía de San Francisco – como Fisher.

Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.
De acordo com as atas das reuniões do conselho da Atlas, Fisher disse aos colegas que havia feito um pagamento ex gratia no valor de US$ 500 para Chafuen no Natal de 1985, declarando que gostaria de contratar o economista para trabalhar em tempo integral no desenvolvimento dos think tanks da rede na América Latina. No ano seguinte, Chafuen organizou a primeira cúpula de think tanks latino-americanos, na Jamaica.

CHAFUEN COMPREENDERA O MODELO DA ATLAS e trabalhava incansavelmente para expandir a rede, ajudando a criar think tanks na África e na Europa, embora seu foco continuasse sendo a América Latina. Em uma palestra sobre como atrair financiadores, Chafuen afirmou que os doadores não podiam financiar publicamente pesquisas, sob o risco de perda de credibilidade. “A Pfizer não patrocinaria uma pesquisa sobre questões de saúde, e a Exxon não financiaria uma enquete sobre questões ambientais”, observou. Mas os think tanks libertários – como os da Atlas Network –não só poderiam apresentar as mesmas pesquisas sob um manto de credibilidade como também poderiam atrair uma cobertura maior da mídia.

Os jornalistas gostam muito de tudo o que é novo e fácil de noticiar”, disse Chafuen. Segundo ele, a imprensa não tem interesse em citar o pensamento dos filósofos libertários, mas pesquisas produzidas por um think tank são mais facilmente reproduzidas. “E os financiadores veem isso”, acrescenta.

Em 1991, três anos depois da morte de Fisher, Chafuen assumiu a direção da Atlas – e pôs-se a falar sobre o trabalho da Atlas para potenciais doadores. E logo começou a conquistar novos financiadores. A Philip Morris deu repetidas contribuições à Atlas, inclusive uma doação de US$ 50 mil em 1994, revelada anos depois. Documentos mostram que a gigante do tabaco considerava a Atlas uma aliada em disputas jurídicas internacionais.

Mas alguns jornalistas chilenos descobriram que think tanks patrocinados pela Atlas haviam feito pressão por trás dos panos contra a legislação antitabagista sem revelar que estavam sendo financiadas por empresas de tabaco – uma estratégia praticada por think tanks em todo o mundo.

Grandes corporações como ExxonMobil e MasterCard já financiaram a Atlas. Mas o grupo também atrai grandes figuras do libertarianismo, como as fundações do investidor John Templeton e dos irmãos bilionários Charles e David Koch, que cobriam a Atlas e seus parceiros de generosas e frequentes doações.

A habilidade de Chafuen para levantar fundos resultou em um aumento do número de prósperas fundações conservadoras. Ele é membro-fundador do Donors Trust, um discreto fundo orientado ao financiamento de organizações sem fins lucrativos que já transferiu mais de US$ 400 milhões a entidades libertárias, incluindo membros da Atlas Network. Chafuen também é membro do conselho diretor da Chase Foundation of Virginia, outra entidade financiadora da Atlas, fundada por um membro da Sociedade Mont Pèlerin.

Outra grande fonte de dinheiro é o governo americano. A princípio, a Fundação Nacional para a Democracia encontrou dificuldades para criar entidades favoráveis aos interesses americanos no exterior. Gerardo Bongiovanni, presidente da Fundación Libertad, um think tank da Atlas em Rosario, na Argentina, afirmou durante uma palestra de Chafuen que a injeção de capital do Center for International Private Enterprise – parceiro do NED no ramo de subvenções – fora de apenas US$ 1 milhão entre 1985 e 1987. Os think tanks que receberam esse capital inicial logo fecharam as portas, alegando falta de treinamento em gestão, segundo Bongiovanni.

No entanto, a Atlas acabou conseguindo canalizar os fundos que vinham do NED e do CIPE, transformando o dinheiro do contribuinte americano em uma importante fonte de financiamento para uma rede cada vez maior. Os recursos ajudavam a manter think tanks na Europa do Leste, após a queda da União Soviética, e, mais tarde, para promover os interesses dos EUA no Oriente Médio. Entre os beneficiados com dinheiro do CIPE está a CEDICE Libertad, a entidade a que líder opositora venezuelana María Corina Machado fez questão de agradecer.

O assessor da Casa Branca Sebastian Gorka participa de uma entrevista do lado de fora da Ala Oeste da Casa Branca em 9 de junho de 2017 – Washington, EUA. Foto: Chip Somodevilla/Getty Images
NO BRICK HOTEL, em Buenos Aires, Chafuen reflete sobre as três últimas décadas. “Fisher ficaria satisfeito; ele não acreditaria em quanto nossa rede cresceu”, afirma, observando que talvez o fundador da Atlas ficasse surpreso com o atual grau de envolvimento político do grupo.

Chafuen se animou com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Ele é só elogios para a equipe do presidente. O que não é nenhuma surpresa, pois o governo Trump está cheio de amigos e membros de grupos ligados à Atlas. Sebastian Gorka, o islamofóbico assessor de contraterrorismo de Trump, dirigiu um think tank patrocinado pela Atlas na Hungria. O vice-presidente Mike Pence compareceu a um encontro da Atlas e teceu elogios ao grupo. A secretária de Educação Betsy DeVos trabalhou com Chafuen no Acton Institute, um think tank de Michigan que usa argumentos religiosos a favor das políticas libertárias – e que agora tem uma entidade subsidiária no Brasil, o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista.
Mas talvez a figura mais admirada por Chafuen no governo dos EUA seja Judy Shelton, uma economista e velha companheira da Atlas Network. Depois da vitória de Trump, Shelton foi nomeada presidente da NED. Ela havia sido assessora de Trump durante a campanha e o período de transição. Chafuen fica radiante ao falar sobre o assunto: “E agora tem gente da Atlas na presidência da Fundação Nacional para a Democracia (NED)”, comemora.

Antes de encerrar a entrevista, Chafuen sugere que ainda vem mais por aí: mais think tanks, mais tentativas de derrubar governos de esquerda, e mais pessoas ligadas à Atlas nos cargos mais altos de governos ao redor do mundo. “É um trabalho contínuo”, diz.

Mais tarde, Chafuen compareceu ao jantar de gala do Latin America Liberty Forum. Ao lado de um painel de especialistas da Atlas, ele discutiu a necessidade de reforçar os movimentos de oposição libertária no Equador e na Venezuela.

Danielle Mackey contribuiu na pesquisa para essa matéria.

Tradução: Bernardo Tonasse

Auroria do original em inglês (que não li):
Lee Fang is a journalist with a longstanding interest in how public policy is influenced by organized interest groups and money. He was the first to uncover and detail the role of the billionaire Koch brothers in financing the Tea Party movement. His interviews and research on the Koch brothers have been featured on HBO’s “The Newsroom,” the documentaries “Merchants of Doubt” and “Citizen Koch,” as well as in multiple media outlets. He was an investigative blogger for ThinkProgress(2009-2011) and then a fellow at the Investigative Fund of the Nation Institute and contributing writer for The Nation.

In 2012, he co-founded RepublicReport.org, a blog to cover political corruption that syndicates content with TheNation.com, Salon, National Memo, BillMoyers.com, TruthOut, and other media outlets. His work has been published by VICE, The Baffler, The Boston Globe, the San Francisco Chronicle, The Progressive, NPR, In These Times, and The Huffington Post. His first book, “The Machine: A Field Guide to the Resurgent Right,” published by The New Press, explores how the conservative right rebuilt the Republican Party and its political clout in the aftermath of President Obama’s 2008 election victory. He is based in San Francisco.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Filosofia Snoopiana



Querido diário:

Filosofia snoopiana da mais alta qualidade e mais elevado teor de otimismo:

Charlie Brown: Algum dia, todos nós iremos morrer, Snoopy!
Snoopy: Verdade, Charlie, mas todos os outros dias, não.

DdAB

A União das Esquerdas: chegando ao consenso...


Querido diário:

Às 12h26min de 8.out.2017, a profa. Glaucia Campregher fez uma linda postagem em seu mural do Facebook conclamando a todos a dar sua contribuição para a união das esquerdas. E eu entrei de gaiato, suscitando meia dúzia de comentários. E faço outros comentários por aqui mesmo. Já sei o que quero falar, mas antes de fazê-lo decidi buscar uma ilustração para a postagem do blog. Pedi ao Google a expressão "união das esquerdas" e ele ofereceu-me "166.000 resultado". Não sei se isto é bom... O primeiro é um "grupo público" União das Esquerdas aqui mesmo no Facebook. Então procurei no motor de buscas esta expressão e houve poucos resultados. Depois voltarei a eles e verei o que fazer. Provavelmente nada...

Gostaria de destacar as propostas que ela fez, registrando a preocupação e pensando que talvez haja comunalidades entre o pensamento dela e o de meus leitores. Depois colocarei meu breviariozinho e farei alguns comentários adicionais talvez tentando racionalizar a milenar divisão.

Agenda montada pela profa. Gláucia:

Por que então estas forças todas não poderiam começar já uma discussão fraterna de como fazer isso? Como fazer para que a autonomia da PGR não sirva para o que tem servido? Como nos unirmos em torno da viabilização das propostas de fiscalização popular do judiciário? Como fortalecer a PF sem extrapolarmos o papel de seus delegados? Como fazer uma reforma política sabendo que não teremos ainda um congresso que a realize no sentido que queremos? Como parar a judicialização da política? Que as forças acima continuem com suas divisões que fazem sentido inclusive, a leitura de país não é a mesma, as propostas para a economia, não são, etc. Mas que se unam AGORA, e não num primeiro ou num segundo turno de uma eleição que sequer saberemos se haverá. Uma vez sentados à mesma mesa, talvez outros pontos comuns surjam.

Meu breviariozinho: andei dizendo e repetindo que minha proposta de agenda política é:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.

Sobre a agenda econômica, vivo repetindo: 

.a política fiscal (impostos progressivos e despesas regressivas)
.b política monetária (crédito, crédito e ainda ais crédito para pequenos produtores)
.c implantação da renda básica da cidadania.

Pois tudo depende de definição de esquerda. Tenho argumentado que um ponto comum para nós, que desejamos um mundo diferente do atual, que nosso traço de união associa-se à construção de uma sociedade igualitária. Pois nem assim. Por razões de uso de mecanismos de defesa do ego, venho negando o que uma das legendas da esquerda, o velho aliado mr. John Kenneth Galbraith, obviamente um pensador crítico qualificado dos atropelos capitalistas, discursou contra a sociedade igualitária. Em seu livro 

GALBRAITH, John Kenneth (1996) A sociedade justa; uma perspectiva humana. 7ed. Rio de Janeiro: Campus,

que li apenas em 2009, ele não associa, isto é, distancia, sua concepção de sociedade justa daquelas de John Rawls ou de David Harvey (ver minhas postagens com estes nomes no motor de busca deste próprio blog). Quer dizer, não preza o igualitarismo. Na página 67, lemos bem no iniciozinho do capítulo 8, intitulado "A distribuição da renda e o poder":

A sociedade justa não almeja a igualdade na distribuição da renda. A igualdade não é compatível quer com a natureza humana ou com o caráter e a motivação do sistema econômico moderno. Como todos sabem, as pessoas diferem radicalmente no empenho em ganhar dinheiro, bem como na competência em fazê-lo. Além disso, parte da energia da iniciativa de que depende a economia moderna provém não apenas do desejo pelo dineiro, mas também do impulso por se esmerar em sua aquisição. Esse esmero é um teste da excelência social, uma grande fonte de prestígio público.

Não sei se Galbraith pensa que igualdade é sinônimo de identidade. E, com esta "cacetada nos cornos" (como se diz em Floripa) que levei do Galbraith, fiquei com a mente inquieta, a coluna indiscreta e o coração a arguí-lo...

DdAB

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sérgio Moro: um bicho muito louco


Querido diário:

No outro dia, falei muito enrustidamente em minha recente viagem a Londres. E brinquei que a aventura foi "expensive". E obrigo-me a registrar a piada do brasileiro que viu a loja Marks and Spencer e leu "marcas expensives", e nunca lá entrou. Pois eu entrei, almocei, comprei roupa, essas coisas. Em compensação, em outro local, adquiri o livro:

BURNS, Tom (2014) Our necessary shadow; the nature and meaning of phychiatry. London: Penguin.

Em compensação suas páginas 256 e 259 evocaram nosso estripador, o afamado juiz Sérgio Moro:

Um problema específico neste processo é que os profissionais militantes acreditam que a repetida negação do trauma pelo próprio paciente é evidência confirmatória de repressão. Na intensificada busca por provas, eles involuntariamente colocaram ideias nas cabeças dos pacientes. Vários "anéis pedófilos" fictícios foram sugeridos por questionamentos prolongados de crianças durante as quais lhes foram impingidas falsas lembranças. Apesar das terríveis consequências desses erros, nunca houve dúvida de que os profissionais envolvidos foram induzidos pelas mais puras intenções; muitos anos depois, alguns profissionais ainda acreditam que ter adotado tais ações no melhor interesse das crianças.

Sérgio Moro e seus procuradores trazem-me evocações dos afamados julgamentos de Moscou lá do stalinismo. Mas aqui, todo este tonzinho de um otimismo um tanto irresponsável e incompatível com os dias que correm origina-se de minha experiência de vida, que já vivi outros maus tempos do Brasil, merecendo destaque

.a a turbulência que cercou os últimos tempos do governo João Goulart, culminando com o golpe militar de 1964,
.b a turbulência que cercou o governo Collor e sua deposição
.c a atual turbulência que começou com as manifestações de 2013, e levaram à deposição da presidenta Dilma, mas sem solução, dado o encaminhamento dado pelas lideranças políticas de decretar-lhe o impeachment.

Tenho dito que "Juiz Moro é oximoro", pois as ações desse cara não parecem cobertas de sensatez para um observador de meu porte. Tenho dito, ademais, que atropelos institucionais não se resolvem com atropelos institucionais.

DdAB
Original:
[...] A particular problem in this process is that convinced practioners believe that repeated denial of the trauma by the patient is itself confirmatory evidence of repression. In their intensified search for proof they unwittingly put ideas into the patients' heads. Several fictitious 'paedophile rings' were implicated by prolonged questioning of children during which false memories were induced. Despite de awful consequences of these mistakes there was never any doubt that the professionals involved were driven by the purest of intentions; many years later some still retain their belief that they acted entirely in the children's best interest.
A tradução lá de cima é uma edição minha sobre o original que me deu o Google Tradução! Disse certa vez o Bill Gates que um software para gerar boas traduções levaria 100 anos. Acho que se enganou. Esta que agora o Google fez leva minha nota 7 ou 8. E olha agora botar essa frase anterior em inglês: This one that Google did now takes my grade 7 or 8. Nem eu escreveria assim...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Piketty, Marx e o Trabalho Morto


Querido diário:

Tudo começou quando, hoje de manhã, olhei o mural de Gláucia Campregher no Facebook. Não fui ver a conferência de Thomas Piketty num seminário aqui em Porto Alegre, mas escrevi alguma coisa sobre seu anúncio aqui. Nem precisava ir, pois o resumo feito por Hermógenes Saviani que reproduzirei lá no P.S.S., fala melhor do que o próprio autor da conferência.

Piketty tem no título de seu livro, O Capital no Século XXI, uma alusão ao título da obra prima de Karl Marx e Friedrich Engels, claro. E andei me entusiasmando e cheguei a pensar em escrever um livro a intitular-se O Capital no Século XXII, pois parece que mesmo o século XXI já está totalmente perdido. O estrago feito pelo neoliberalismo foi tanto que não vai dar para consertar tão cedo. Mas tem conserto. E ele começa com o combate à desigualdade. E Piketty e Hermógenes dão dicas seguras sobre como acabar com ela, abjurando o estado promotor do neoliberalismo, como é o caso do brasileiro contemporâneo. E não falo apenas do desastrado governo desse senhor Michel (Fora) Temer.

Volta e meia, procuro enaltecer as virtudes da sociedade igualitária, sociedade capitalista igualitária, se comparada com outros sistemas econômicos já realizados ou prometidos. Meu principal argumento é aquele círculo virtuoso encapsulado pelo emprego: o médico que me retira um apêndice inflamado, com seu dinheirinho, manda o filho estudar inglês, o filho do professor de inglês estuda clarinete. O professor de clarinete pode pagar seu dentista cujo filho tem aulas de caratê, e por aí vai.

Mas hoje quero fazer outras reflexões sobre as virtudes do capitalismo, o capitalismo igualitário. Primeiro, quero dizer claramente que o problema não é o capitalismo, mas algumas instituições que nossos amigos Acemoglu e Robinson chamam de instituições destrutivas. Parece que foi o Douglas North que falou que boas instituições são mais escassas que os demais recursos produtivos da sociedade. Se tem neste preciso instante alguém seviciando um mendigo, algum mendigo seviciando um animal, algum animal (rotevailer) seviciando um guri, e assim por diante, devemos divisar formas de acabar com isto. A que me ocorre é criar empregos decentes para todos, o governo assumindo o papel de empregador de última instância, aproveitando para agilizar seu sistema judiciário, de sorte a botar o algoz do mendigo na cadeia, o mendigo na escola, o cavalo nas pradarias abastecidas do melhor capim, o rotevailer em treinamento para socorrer velhinhas na rua, o efebo na aula de clarinete, e por aí vai. A renda básica universal, por exemplo, é um mecanismo extra-mercado que pode incumbir-se de corrigir as distorções no mercado de trabalho e sua eterna escassez de demanda por trabalho. No capitalismo igualitário, posso garantir com base em alguma estimativas que andei realizando, a fonte da juventude será criada em menos de 1.000 anos a partir de agora, garantindo a todos eterna jovialidade.

E por que faço tão escabelados elogios ao capitalismo igualitário, ou seja, adjetivo igualitário, substantivo capitalismo? Estou pensando em Piketty, na conferência da quinta-feira que passou, na alusão ao Capital de Marx e Engels que lhe inspirou o título e nos elogios que ele faz à sociedade igualitária, ou por outra via, à mazelas que resultam da enorme e crescente desigualdade que se observa no mundo inteiro, especialmente, naquele que já foi chamado de Brasil dos Estados Unidos.

De minha parte, fico abraçado com a primeira parte da interpretação e das previsões feitas pelo be-a-bá da economia marxista. Em particular, a proposição de que o valor das mercadorias decorrer da comunalidade entre todas elas, a saber, serem todas fruto do trabalho humano, ou tê-lo em alguma instância de sua vida mercantil (por exemplo, um lote de terra tem preço mas não tem valor, pois não foram trabalhadores que o produziram, embora possam cercá-lo). Dela decorre que, quanto mais trabalho, mais valor. E aí é que vem o aspecto interessante que não é compartilhado em nenhuma medida por uma economia socialista. Ao mesmo tempo, quanto maior a produtividade do trabalho, mais o preço cobrado pela empresa típica ficará acima do valor por ela criado, dando-lhe vantagens na geração de fundos pecuniários para expandir-se.

Vemos o que me parece a maior explicação derivada da economia marxista: as empresas têm vantagens ao economizar trabalho, ou seja, em elevar sua produtividade do trabalho. Mas com isto elas favorecem seus consumidores, pois a concorrência leva-as a reduzir preços de insumos ou produtos que vendem. O progresso tecnológico torna-se um imperativo do desenvolvimento capitalista, levando o empresário a querer incorporá-lo de modo a ter custos menores que a média (ou criar valor num montante abaixo da média, com preço superior à concorrência). Elevando a produtividade do trabalho, caímos naquele escaninho da redução do preço.

Mas o que pode acontecer com os ganhos sucessivos e seculares da produtividade do trabalho? Seus frutos podem ser retidos monopolisticamente pelos capitalistas ou pelos trabalhadores, e aí começam os problemas, com a redução do emprego. Quer dizer, o próprio capitalismo, com seu jeito de se reproduzir e ampliar sua escala de reprodução, gera preços mais baixos mas também desemprego mais alto. Episodicamente há escassez de oferta de trabalho, mas a regra absoluta em todas as latitudes e cronologias é o desemprego.

Mas, ao falarmos de desemprego, talvez estejamos falando apenas em "economia". Por contraste, ao falarmos em fome e miséria, estamos falando nas instituições deficientes que cercam a maioria dos países capitalistas mundiais, que não são capazes de garantir um bom nível de vida a todos os cidadãos. Por isto é que tomou papel secundário, mas naquela formulação da língua inglesa que fala no "last but not the least", ou seja, o aspecto econômico é secundário para minha condenação do socialismo. O principal é a objeção política da centralização excessiva resultando no poder do estado (o governo dos homens).

Parece-me que a solução, pelo menos por alguns séculos, a melhor solução para a solução do problema da desigualdade não é implantar o socialismo, mas criar instituições mais intensamente promotoras do aumento da produtividade do trabalho e ao mesmo tempo promotoras de distribuições de renda mais igualitárias. Os mecanismos são conhecidos: política fiscal (gasto regressivo, impostos progressivos) e política monetária (crédito fácil).

A frase isolada de Marx que mais cito, especialmente neste Brasil de políticos ladrões do início do século XXI, é que "no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra". Mas a frase que considero derivada de sua intuição mais aguda sobre o funcionamento do capitalismo é que este sistema tem por tendência intrínseca a seu modo de funcionamento a transformação do trabalho vivo (trabalhadores empregando sua força-de-trabalho) em trabalho morto (as máquinas, equipamentos, instalações, ou seja, meios de produção produzidos). Quanto mais trabalho morto por unidade de produto, maior tenderá a ser a produtividade do trabalho, menor o emprego, maior o lazer, etc., se a sociedade criar instituições que promovam as redistribuições que o sistema sozinho não é capaz de engendrar. No socialismo, ganha-se talvez, e eu disse talvez, mais facilidade distributiva, mas perde-se a centralidade da busca de progresso técnico que é a marca registrada do capitalismo e que foi magistralmente capturada por Marx e Engels.

Piketty, Marx e eu temos mais pontos em comum do que parece.

DdAB
P.S. a imagem é uma besta desenhada por Leonardo Da Vinci e retirada da Wikipedia.

P.S.S: Tá assim lá no mural de Gláucia Campregher:
Pikety pra quem não foi ontem, bem resumido pelo Hermógenes Saviani.
"Piketty em noite de Ali!
O economista francês Thomás Piketty, autor do clássico e best-seller 'O Capital no Século XXI' teve sua noite de Mohamed Ali, nesta quinta-feira, no Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre. Inspirado e sem pisar em casca de banana como na primeira vez que esteve por estas plagas quando, ao fim de uma palestra, alegou não saber que teria que se encontrar com homens de negócios. Referia-se a André Lara Resende e a Paulo Guedes após debater com ambos, quando do lançamento no país pela sua editora em 2014.
Ontem, ele fez uma palestra clara e objetiva. Mostrou o crescimento da desigualdade que o mundo vem apresentando desde os anos 1980. A desigualdade cresce não apenas pela globalização, justificada por diversos autores estadunidenses, mas por causa de uma combinação de outros fatores. Dito isto começou a disparar seus jabs, cruzados e diretos. A desigualdade cresce, por exemplo, nos Estados Unidos desde que Ronald Reagan assumiu o poder em 1980 e passou a desregulamentar a economia e a reduzir os impostos dos mais ricos.
O mundo apresentou redução da desigualdade no século passado após crises econômicas, como a de 1929, e guerras. Segundo o economista seria possível reduzir a desigualdade de forma muito mais racional ao taxar a renda e riqueza do 1% e, principalmente, do 0,1% mais rico da sociedade. Além de impor um pesado imposto sobre a herança.
Ao apresentar um gráfico que denominou como 'O Conto de Cinderela da Meritocracia' mostrou que um dos motivos do aumento da desigualdade nos EUA também ocorreu porque houve uma redução no acesso à educação e que os filhos dos 50% das famílias mais pobres têm apenas 20% de chance de entrar na universidade; enquanto os que se encontram entre o 1% mais rico tem 95% de oportunidade de estar dentro de uma faculdade. Além disso, os filhos destas famílias mais ricas estudam nas melhores universidades, enquanto os mais pobres ficam com as piores.
Na última parte falou sobre os recentes estudos em relação ao Brasil. Mostrou que temos a pior desigualdade de renda do mundo, apenas estamos à frente dos países do Oriente Médio e da África do Sul, fazendo ressalvas a estes, o que nos levaria a uma condição inferior, e que acha um absurdo taxarmos as heranças em apenas 3% ou 4% enquanto que em países como EUA, França, Alemanha e Japão os valores variam entre 35% e 55% e houve época em que foi de de 90%. Afirmou que a melhora da redistribuição da renda no Brasil foi menor que a divulgada, pois houve um aumento da concentração com o 1% mais rico e, ainda mais no 0,1%, aumentando sua fatia no bolo. Ressaltou, entretanto, que os 50% mais pobres apesar de apresentarem uma melhora de apenas 1% na renda foi melhor do que se nada tivesse ocorrido, mas ela se deu em detrimento das camadas intermediárias. Acrescentou que os imposto aqui são indiretos onerando mais os mais pobres e, em sequência, a classe média. Ou seja, as classes pobres, que muitas blasfemam afirmando que são beneficiados e não pagam impostos é um mito; a classe dominante é que praticamente não paga imposto e é subsidiada pelas demais.
Na parte final, o mediador, que é secretário da fazenda do RS, retomou o tema acima e, mais uma vez, Piketty foi incisivo. Arrancou aplausos em diversos momentos da plateia, que chegou a puxar um Fora Temer. A ironia foi que num evento que consta com diversos patrocinadores que defendem o liberalismo exacerbado, com um governo estadual trágico, fosse demolido pelo entrevistado que defendia uma Reforma Tributária de caráter progressivo, onde ao fundo estava o logotipo de um grupo midiático que é acusado de sonegação s subúrbio no CARF, que criticou pesadamente a ideia de meritocracia, defendeu a taxação das grandes fortunas e ainda elogiou programas como o Bolsa Família. Finalizou afirmando que ao longo da história a elite dominante sempre procura arrumar formas para justificar a concentração da renda e de evitar ser taxada.
Foi uma daquelas noites memoráveis de quando eu era apenas uma criança de sete anos e torcia para Mohammed Ali massacrar, com sua classe habitual, seus adversários. Piketty me fez voltar a uma dessas noites mágicas com um nocaute demolidor na hipocrisia de uma sociedade, em pouco menos de duas horas."

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Graciliano e o Messianismo


Querido diário:

Tem gente que já nasce sendo chamado de velho. No caso, parece que não foi o caso na infância, mas é certo que muita gente se referia a Graciliano Ramos como o velho Graça. E eu, que não me considero tão lá em fim-de-carreira, tenho o hábito -certamente com laivos de TOC- de ler alguns livros incansavelmente ao longo de meu curso de vida. Tal é o caso de algumas obras selecionadas de Érico Veríssimo e de Graciliano Ramos. Só falar que já me dá vontade de reler "O Sr. Embaixador" e "Memórias do Cárcere".

O fato da concretude insofismável da realidade tangível é que, no dia 21.jan.2007, há mais de 10 anos, portanto, em pleno pós-doutorado na Freie Universität Berlin, em pleno inverno, terminei pela primeira vez a leitura de "Caetés". Pois o tempo andou para frente e, em 17.dez.2012, sinalizei na página 219 da edição de 1998 da Editora Record, haver terminado mais uma leitura. E, seguindo esse andar do tempo, há poucas semanas, precisamente, em 14.ago.2017 (de volta de uma aprazível e "expensive" viagem a Londres) terminei o que assim podemos chamar de terceira leitura. Tão cedo não volto, pois cada vez mais cresce minha invocação com aquele João Valério. Cabra sem-vergonha, sô.

Então decidi, naqueles idos de agosto, escrever algumas reflexões que fiz e, felizmente, anotei no verso de uma caixa de fósforos, centradas na página 146:

Caminhamos em silêncio até o lugar onde existiu o cruzeiro verde, um cajueiro com dois galhos em forma de cruz, que a gente dos sítios próximos vinha adorar. Falei da multidão que ali encontrei uma tarde - mendigos, mulheres cm filhos pendurados aos peitos, curiosos, espertalhões que se arvoravam em sacerdotes.

Quando li esta passagem, este parágrafo, fiquei pensando se não haveria ali no meio uma garota que, sob o pretexto de adorar o cajueiro, conseguia permissão para sair de casa e encontrar-se com algum namoradinho sertanejo. Mas também pensei naquela consigna hoje super-comum no cotidiano da turma. Ao despedir-se já vai logo derramando um "fica com Deus",  e aí fico eu com meus pensamentos cogitando da melhor resposta: "et cum spirito tuo"? "Fica em paz"? Uma indesejável promoção daquele latinório é falar em RIP - "requiescet in pacem," que dá direitinho em inglês o "rest in peace". Gosto deste "fica em paz", pois -além de fugir do messianismo- evoca meu finado amigo Jesiel de Marco Gomes, que assim se despedia quando lhe endereçavam aquele "fica com Deus".

DdAB