domingo, 25 de junho de 2017

Externalidades Ambíguas

Querido diário:

Quando fiz o mestrado em economia no atualmente chamado PPGE/UFRGS, em 1975, tive um extraordinário professor em duas ou três disciplinas. Meu querido Aaron Dehter ficou um tanto movido a nos dar algumas noções do que já naquele ano eram conceitos super incorporados ao cerne da teoria econômica, ainda que não tivessem chegado aos livros texto de microeconomia, o que fizeram, por exemplo, no livro de Robert S. Pindyck e Daniel L. Rubinfeld. A figura que nos encima dá uma bela ideia dos conceitos, permitindo-nos aprofundar intuições, que não quero entrar em definições formais por hoje, por ora, agora.

Ocorre que, no outro dia, senti um motivador cheiro de comida na casa do vizinho precisamente às 11h31min. Sendo motivador e um ótimo cheiro, ele nos conduz a sentir apetite, ativando nossa fome antes da hora habitual.

Moral da história: minha função de utilidade foi abalroada por eventos não capturados por ela, uma externalidade. No caso, trata-se do fenômeno ambíguo, pois gostei do cheiro, mas não gostei de mover-me a passar o dente em algo que não me era lícito deglutir.

DdAB
A imagem super eloquente veio daqui.

sábado, 24 de junho de 2017

O Craque, o Creque, o Crique, e por aí vai...


Querido diário:

Cara sra. Lya:
Como sempre, li com atenção seu artigo da Zero Hora de hoje. E decidi contar-lhe uma historinha, pois não me parece que a sra. considere relevantes dois pontos para o "tratamento" do problema das drogas ilegais:

.a o conceito de consumo recreativo
.b o contrafactual da legalização.

Prolegômenos: sou professor de economia aposentado e costumava dizer em sala de aula que "adoro drogas", querendo salientar que pessoas sensatas devem se dedicar -caso cheguem a tanto- ao consumo recreativo.

Nesta condição, criei um problema de economia matemática (elementar) que, com as tradicionais curvas de oferta e procura, o simples estabelecimento de um imposto sobre o consumo fazia a quantidade de drogas (talvez apenas maconha, já não lembro) recuar.

Lição: bem entendo que aquele exercício de sala de aula sobre a incidência de impostos indiretos não é capaz de resolver completamente o problema das drogas. Este, naturalmente, é multi-dimensional, mas -erroneamente- o lado médico é praticamente o único pensado para a solução. Costumo dizer que a lei da oferta e procura é mais imponente que a lei da gravidade. A segunda puxa os aviões para o solo, ao passo que a primeira é quem os mantém voando... O prêmio que os ofertantes absorvem precisamente devido ao risco envolvido num negócio ilegal dá-lhes incentivos irrestíveis a se manterem como negociantes.

Viajação: na linha daquele "adoro drogas", penso que uma solução para acabar com a oferta por parte de traficantes é sua distribuição gratuita: dado nível de criminalidade dos governantes brasileiros, convidaríamos uma sociedade benemerente suíça (norueguesa está na moda...) para administrar salas de consumo em que o diálogo viciado-traficante seria substituído pelo viciado-enfermeiro.

DdAB
E-mail endereçado à sra. Lya Luft (lya.luft@zerohora.com.br) por seu escrito "As cracolândias da vida", da página 3 de Zero Hora de hoje.
Aquela perturbadora imagem lá de cima veio daqui. Seja como for, ela deixa claro que minha intuição retórica sobre a imponência absoluta da lei da oferta e procura é poderosa. E o isqueirinho bic também deveria ser vendido livremente.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Bolsonaro e a 'Causa Causans'


Querido diário:

Zero Hora, sempre ela. Depois de ter lido muitos desatinos, cheguei a um ponto de vista sensato. Na página 25, num artigo da dra. Rosane Fürst, psicanalista, rosane@ffurst.com, intitulado " 'Toda nação tem o governo que merece' ", tratando-se claramente de uma citação, entre aspas, como podemos ver.

A autora fala algumas coisas e sentencia: "A corrupção não está somente num ou noutro partido político. Ela está no ser humano." Mas acho que, ao lado da corrupção presente na ação humana, há outras comunalidades, como o altruísmo, a proteção aos mais fracos e uma pilha de atributos invejáveis. O pobrema é que nenhum destes é universal, há exceções em todos. No caso da corrupção, é óbvio que o problema a que me refiro tem nos eleitores a responsabilidade de ungir um subconjunto de políticos ao poder. Como sabemos, o prof. Jorge Vianna Monteiro faz uma lista de boa meia dúzia de agentes da política, sendo -obviamente- os mais importantes precisamente o eleitor e o político, .

Pois então. A gente vota no político e como a gente não é de nada, elege políticos que tampouco são de algo. Mas a gente vota em quem não é de nada porque os rapazes da nulidade não nos auxiliam a formar nossa consciência política e votar em políticos decentes. A causa é nóis, a causa da causa é eles.

Pois bem. Segue a dra. Rosane:

  Então não temos solução?
 Buscar a solução pode ser uma tarefa difícil. Talvez o fundamental nessa tarefa seja combater o mal, ou alguns males da nossa cultura, como por exemplo: a misoginia, a corrupção, o racismo, a homofobia, a cultura do estupro, a cultura do medo e muitas outras culturas opressoras.

Pois em primeiro eu gostaria de ter o restante da lista. Será que meus amigos do Facebook podem colocar lá seus acréscimos? Talvez a lista completa possa emergir do manifesto eleitoral a ser lançado pelo sr. Jair Bolsonaro para as eleições de 2018, no qual estou apostando que constará a lista da dra. Rosane. O Brasil, por não ter causa da causa decente, vai realmente dar super importância à candidatura desse senhor. Michael Moore disse, oito meses antes das eleições, que Donald Trump seria eleito. Eu juro que Bolsonaro não será eleito, mas ainda faltam 16 meses para o fechamento das urnas.

DdAB

domingo, 18 de junho de 2017

O Loteamento de um Cemitério


Querido diário:

Sabemos que um dos traços mais determinantes de nossa condição humana é o respeito aos restos mortais de nossos assemelhados. De fato, o cuidado com os mortos, com os cadáveres, com os restos de tudo é um dos "universals", classificado aqui como "funeral rites" ou ainda "mourning", ritos funerários e pranteamento.

Não é difícil que nos tornemos fúnebres neste momento em que o governo do estado, em sua gestão desabotinadamente neo-liberal, quebrou a pau uma comunidade que se alojara em um prédio público que se encontrava abandonado. Fatos de junho/2017, triste sina do mês do padroeiro do Rio Grande do Sul, o velho São Pedro.

Fiquei imaginando que, com centenas de imóveis de sua propriedade, o governo estadual deveria era usar esses recursos para acomodar populações sem-teto e não vendê-los para "o setor privado". O mínimo dos argumentos é dois: a necessidade de parte da população de rua e, além dele, considerar que, num país de desabotinada concentração da renda e da riqueza, vender próprios públicos significa precisamente discriminar a negadinha sem-teto, em benefício dos abonados de sempre. Incluem-se nesta rubrica os ladrões da geração presente e os herdeiros de rapina em gerações pretéritas.

Pois fiquei pensando que é inconcebível que a geração presente, por problemas de trânsito ou de loteamentos, desative seus cemitérios, mande os restos e lápides de sua ancestralidade para o fundo do mar ou para um buraco num canto ermo da região. Exemplo extremo, óbvio, mas ninguém sabe qual é o limite de um governo insensível às necessidades de uma população detentora de escandalosos níveis de desigualdade.

DdAB
Fúnebre como estou, não surpreende que "o algoritmo" tenha me oferecido, com a busca sobre o título da postagem, aquela turma de Verona, Romeu e Julieta, sem restos mortais...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A Greve e as Greves


Querido diário:

A revista Cult é minha mais nova conquista literária. Há outras de qualidade similar, como a Piauí, e outras que fogem agora. No início de junho, recebi o número de maio, com um artigo de Vladimir Safatle, que bem conheço das páginas da Carta Capital, minha número um que, por afetiva, cognominei de "Capital dos Carta", especialmente por ser mais nacionalista que eu gostaria. Pois Safatle fala no fim da democracia liberal, liquidada pelo neo-liberalismo que tomou corpo a partir do final dos anos 1970. E o ano de 1970, a meu ver, consagrou o fim da União Soviética, quando Nixon, a mando de Henry Kissinger, invadiu a China.

Então o que vou dizer foi pensado antes de eu começar a sofrer com essa nova concepção de que vivemos um tempo de golpe mortal para a democracia. Mas, ainda assim, penso existir uma brecha para a democracia: precisamente o aprofundamento da social-democracia, em novos moldes, sem aqueles ranços nacionalistas que me incomodam na Carta Capital e até sem o pessimismo do Safatle, que aciona apenas muito de leve com o governo mundial ou com o nacional-desenvolvimentismo, as empresas estatais, aquele pesadelo todo que o Brasil vive até hoje.

Então o que quero falar sobre greve/s poderia parecer apenas um arroubo de erudição, pois vou falar nela, greve, em três línguas. A primeira, o português, que incorporou esta palavra, se bem lembro, no século XIX. E a incorporou do francês: grève. E que quer dizer greve no Dicionário Google? Diz:
 substantivo
Rivage.
La grève est couverte de coquillages .
Cessation collective du travail pour la défense d’intérêts communs.
Une grève tournante, une grève générale .
verbo
Faire supporter de lourdes charges financières à.
Des dépenses qui grèvent un budget .
Eu já lera que, em Paris, às margens do Rio Sena, existe uma praia das greves, que é a praia daquelas pedrinhas que os europeus compraram para substituir a areia de nossas próprias praias, as que têm a cobertura correta. Então os trabalhadores desempregados pelas máquinas ou o que seja costumavam reunir-se nesse ambiente inóspito para reclamar da vida e, quem sabe, sair a quebrar máquinas, jogando seus tamancos no meio das engrenagens, transformando-se em saboteurs.

Ou seja, quem tá pra greve não tá pra conversa. E em inglês? Temos strike, dado pelo Dicionário Google como:
substantivo
a refusal to work organized by a body of employees as a form of protest, typically in an attempt to gain a concession or concessions from their employer.
dockers voted for an all-out strike
sinônimos: industrial actionwalkoutjob actionstoppage
a sudden attack, typically a military one.
the threat of nuclear strikes
sinônimos: (air) attackassaultbombingraid
verbo
hit forcibly and deliberately with one's hand or a weapon or other implement.
he raised his hand, as if to strike me
sinônimos: bangbeathitbashwallop
Ou seja, quando a gente strikes o capital é quando fazemos algo que lhe faz mal. O modelo japonês já deixou claro que a cooperação entre o trabalho e o capital pode gerar frutos dourados. Mas os frutos, infelizmente, mesmo douradinhos, apodreceram e hoje o ambiente de relações industriais no império do sol nascente estão mais pra urubu. No livro "Gato Preto em Campo de Neve", Érico Veríssimo falou alguma coisa sobre as greves nos USA: a turma da loja/fábrica se reunia na frente do prédio e pedia à macacada para não entrar, pois os patrões maltratavam os trabalhadores. Ok, ok, Érico é mais sofisticado que eu para contar histórias.

Então, depois de ter estudado a teoria dos jogos (que se expressa também por meio de uma revista chamada "Journal of Conflict Resolution) e, em particular, a teoria da barganha, comecei a pensar que Greve com G maiúsculo é a greve geral e que greve com g minúsculo são as demais greves. Ou seja, Greve, grève e strike. A greve geral é soberana, é a forma central e fundamental com que a classe trabalhadora pode trancar os mal-feitos da classe capitalista e até do governo. Quem entra na greve geral tem consciência de classe e quem não entra pode ter falsa consciência ou mesmo ter problemas psicológicos de tal magnitude que nem a mãe ubérrima poderia conter.

Então que deve ser feito para substituir as greves particulares? O momento não é bom para falar, como sugeri pelo diagnóstico lá de cima de autoria de Vladimir Safatle. Depois que ele, momento, passar, poderei sugerir que se crie uma corte arbitral e uma barganha assistida para cada vez que os trabalhadores de determinada empresa ou setor (mas não de todos, o que deflagraria greve geral) mais explorados que o razoável, peçam a deflagração do processo, que culminará com redistribuição dos ganhos daquela/s unidade/s produtiva/s.

Se houver renda básica universal (rendimento incondicional) e emprego no serviço municipal (rendimento em contraprestação a serviços comunitários), os benefícios para a classe trabalhadora são de tal magnitude que as greves locais tornam-se perfeitamente substituíveis por barganhas arbitradas por agentes reconhecidos por ambas as partes.

Há razões teóricas e empíricas para entender que todos sairão ganhando com essa prática, mesmo sem me elegerem presidente da república em 2018.

DdAB
Não foi por outra razão que não se associasse à salvação da humanidade que a profa. Brena e eu fizemos o livro que nos encima.

Adendo: fica faltando, para salvarmos o mundo, providenciar emprego público para todos os interessados no Serviço Municipal. E, principalmente, ceder a administração das coisas -inclusive as coisas da política- às mulheres. Todas as sociedades matriarcais de que tenho notícia são muito mais pacíficas que as regidas por homens.

Por falar em adendo: disseram-me que alguns cálculos insuspeitos confirmam que apenas 1% de corrupção é algo tolerável e até sensato. E fiquei pensando o que quer dizer "sensato" para um negão do porte do aécio, temer, prisco, gedel, essa macacada toda. Mas dei-me conta de que é bem sabido que a sociedade não se dispõe a pagar o custo que incidiria para chegar naquela tolerância zero, ou seja, nada de corrupção. E que custo seria este? O custo da privacidade quebrada em níveis além do tolerável. Por exemplo, obrigaram-me a exigir a nota fiscal ao comprar meu baseado, sei lá.

domingo, 11 de junho de 2017

Cachorreiros e Cachorreiras


Querido diário:
Um dia, na aula de inglês, no Colégio Júlio de Caudilhos, a professora Umbelina estava ensinando algumas coisas, quando passou pela profissão de empregada [não é que procurei esta profissão na Classificação Brasileira de Ocupações e o sistema não devolveu nada? Por pirraça, procurei "economista" e tem alguma coisa. Só bebendo]. Pois, nos países de fala inglesa tem e é "maid-servant". Então meu colega Gilberto aproveitou o ensejo e indagou: "Professora Neblina: como é o certo, empregadosa ou empregadiana?"
Não lembro se a professora Neblina respondeu, mas é certo que enviou-o a ter uma conversa com o prof. Lovato, assistente da direção para o turno da tarde na modelar escola.
Em compensação, parece que hoje tem maratona em Porto Alegre. E a negadinha passa aos magotes pela Rua Botafogo, perto de chez moi, como dizem. E ainda em mais compensação, os automóveis ficaram trancados na Rua Múcio Teixeira, em fila para cruzar precisamente a Fogão do Menino Deus... E em terceira compensação tinha um velho, cachorreiro, acompanhado devidamente de seu cachorro que queria passar na faixa de segurança, 80% já ocupada por um dos automóveis que, ordenadamente [eu disse 'ordenadamente', só porque ele não atropelou o cachorreiro?], esperava que os carros a sua frente seguissem suas trajetórias dominicais.
Em compensação, fiquei pensando
-Se maid-servant é empregada doméstica e se existem cachorreiros e cachorreiras passeando seus cachorros e cachorras, por que é que eles não fazem uma associação para lutar pelo respeito às faixas de segurança?

DdAB
Conversa retirada do Facebook, ao que acrescentei:
E quero saber o que todos os meus amigos que passeiam cães e gatos pensam de se organizarem e principalmente forçarem os motoristas profissionais (taxistas, ubelinistas, bus drivers, lorry drivers, motoboys, etc.) a passarem a respeitar as faixas de segurança, especialmente aquelas que têm javalis ou cachorros e cachorras passando [para começar, depois podemos pensar em outra campanha para outros bichos e, por fim, o bicho homem e a bicha mulher, além de bixos do primeiro ano da faculdade [[que poderiam ser convidados a ingressar na campanha]].]. Convoco, em particular, Claudio Medaglia e um amigo meu que sei que passeia seu gato aqui mesmo no bairro.

sábado, 10 de junho de 2017

Sabores: Jiu-Jistu, Judô e Karatê


Querido diário:

Pensei que poderia lutar jiu-jitsu, judô ou karatê, circulando, as it were, entre as faixas:

Jiu-Jitsu
Branca, Azul, Roxa, Marron e Preta

Faixas do Judô
Branca, Cinza, Azul, Amarela, Laranja, Verde, Roxa, Marrom e Preta

Faixas do Karatê
Branca, Azul, Amarela, Laranja, Verde, Roxa, Marrom e Preta.

Cansei-me e nada fiz. A não ser evocar os sabores fundamentais, de que falo aqui volta e meia, e que, para minha surpresa nesta era de modernidades mutantes radicais e cosméticas. No caso, é cosmética, ainda que cheiro seja outra categoria:

SABORES
Bitter (caffeine)
Sweet (sucrose)
Salty (sodium chloride)
Sour (citric acid.

Cansei e nada provei.

DdAB