terça-feira, 19 de junho de 2018

A Copa do Mundo e a Vocação Estelar do Brasil


Querido blog:

Quando eu estava de saída de meu emprego no Programa de Pós-Graduação em Economia da PUCRS, estava entrando, migrando para o Rio Grande do Sul o professor Cadu Lobo. Passaram-se os anos e, em 24 de junho de 2017, ele escreveu esta bela crônica em seu mural no FaceBook. Há dois dias, vi este escrito. E o guardo aqui, para minha posteridade. Para as demais copas do mundo que me foram dadas a ver. Para eu reler quando abater-me aquele pessimismo que às vezes toca a todos os corações dos brasileiros que se declararão também responsáveis pela vitória, pelo hexacampeonato. Por sinal, sou campeão desde 1958, ouvindo o jogo -final, presumo- em pleno rádio, talvez a Rádio Bandeirantes ou uma repetidora local, em Campo Grande do Matto Grosso. Depois, voltei a ser campeão em 1962, e mais uma vez em 1966, outra em 1970, outra em 1974, mais uma em 1978 e outra em 1982. Depois venci novamente em 1986 e 1990, além de 1994. Veio o 1998, nova e retumbante vitória, seguindo-se de 2002: vitória. Aí rapidamente acumularam-se vitórias em 2006, 2010, 2014 e agora já vou-me declarando vitorioso.

A derrota de 7x1 para a Alemanha, em pleno Minerão, é vista pelos brasileiros como uma grande vergonha nacional. Não me parece ser o caso.
Qual o grande campeão da história? Não há dúvida em lugar nenhum do mundo: no futebol, o Brasil é o maior vitorioso do planeta. Os títulos provam a nossa superioridade. O Pelé também prova.
Mas não paramos por aí: o Brasil é o líder do futebol mundial nas vitórias e nas derrotas! Sim: ninguém perdeu de maneira tão espetacular quanto o Brasil. Arrisco a dizer que em todos – ou em quase todos – os grandes momentos da história do futebol, a seleção brasileira estava lá, vencendo ou perdendo de forma espetacular.
O futebol sem o Brasil se tornaria quase tão sem graça quanto o cricket.
O feito de perder de 7 a 1 diante de sua torcida em uma semifinal de Copa do Mundo só poderia ser do mesmo país que, contando com um escrete mágico, super favorito, tomou uma virada em pleno Maracanã em uma final de Copa inacreditável, que marcou o futebol e fez chorar uma geração inteira por décadas. O Maracanazo não ganhou um nome atoa. Talvez estejam ali os 45 minutos mais dramáticos da história do futebol.
Sofremos uma goleada arrebatadora em outra final de Copa, e que não veio sozinha, mas acompanhada de uma tragédia, um drama sem precedentes: o melhor jogador do mundo teria sofrido uma convulsão horas antes da peleja. Se drama pouco é bobagem, escalaram o craque convulsionado, e todos os nossos jogadores olhavam a bola e Ronaldo, que poderia cair a qualquer momento, tremendo e babando na grande área do adversário. Em plena final de Copa do Mundo.
Será que alguma seleção encantou tanto o planeta sem ter chegado a uma semifinal? A nossa de 82 caminhava em direção à glória eterna. Nossos jogadores encantavam e pareciam acreditar que gol feio não valia. Mas um único adversário, um único indivíduo mudou o destino de um elenco, uma filosofia, uma geração - fez três gols nos mágicos canarinhos. Enterrou a glória e criou o drama. O mundo, até hoje, venera o Brasil de 82. Mas venera também justamente pelo drama.
Sem dizer da luta incansável do Zico, quatro anos depois, para ajudar o Brasil, apesar do grave problema no joelho. Chegou à Copa como um herói do talento e da dedicação. Entrava durante as partidas - pela metade - e resolvia! Nosso craque, nosso ídolo, nossa esperança. Assim que entrou em campo, durante o difícil jogo contra a França, fez um lançamento primoroso para o Branco, que foi derrubado dentro da área. Em poucos minutos, Zico criou o caminho da vitória. O mesmo caminho que, minutos depois, marcaria dramaticamente a sua carreira.
Imaginem o futebol apenas com Argentina, Rússia e Nova Zelândia. Com todo respeito, imaginem as Copas com Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos.
Desculpem, mas a beleza das Copas se apoia no Brasil. Uma seleção que encanta, que vence como ninguém, com brilho e espetáculo. Que vence mais do que qualquer outra. E que, a cada derrota, enriquece a galeria dos grandes momentos do esporte, com drama e passionalidade.
Os 7 a 1 apenas confirmam o óbvio: sem o Brasil, o mundo estaria assistindo à NBA.
Rumo a mais um espetáculo em 2018!
Isso foi o que nos disse Cadu. Vejamos agora o que diremos, pois a bola de futebol está em nossas mãos. Eu alerto, de qualquer jeito, que "seleção brasileira" não é sinônimo de "República Federativa do Brasil, nem mesmo de Estados Unidos do Brazil".

DdAB

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Testes de Memória e Ênfase


Querido blog:

Existem duas posições muito bem estabelecidas sobre o que fazer com aqueles lapsos de memória que volta-e-meia ocorrem a todos. Estudos feitos informalmente por mim levam a crer que a correlação entre os lapsos e a idade é unitária. Sendo r = 1, elevando ao quadrado, temos r^2 = 1, o que nos permite explicar o comportamento dos lapsos pela idade. As variações na idade explicam 100% das variações nos lapsos. Ou seja, quanto mais velho, garantidamente, maior será o número  de lapsos de memória por unidade de tempo.

O primeiro grupo de agentes que recomenda determinada estratégia para combater lapsos de memória afirma que, quando um deles nos bombardeia, por exemplo, se agora não sei dizer se "à reviria" se escreve com crase, fiquemos pensando, de tudo que é jeito e posição na banquetinha do piano, sobre se a encrenca tem ou não tem crase, lembremos as regras da crase, busquemos na gramática mais próxima, telefonemos aos amigos, clamemos pela ajuda celeste, até que um lampejo de vitória surja em nossa mente e cheguemos ao conclusão correta: podia ter crase...

O segundo grupo. ao qual me filiei, assim que ouvi falar na dissidência dos doutos e burroutos do primeiro, diz que, quando pinta a dúvida -burroutos é com f ou g, por exemplo- esqueçamos a questão e não nos recriminemos por tê-la mandado ao olvido.

Mas aí começou novo drama, na verdade, aí é que iniciou o drama que resultou na presente postagem. Estava eu circulando por uma rua perto de minha moradia, quando vi um automóvel parado sobre a calçada e uma otoridade dirigindo-se ao motorista, mandando-o embora e falando: "É que aqui é só caminhão, aqui." Quer dizer, o advérbio de lugar "aqui" foi repetido apenas para enfatizar que não se pode estacionar naquele trecho da calçada.

E aí é que a memória foi acionada, creio que com zelo. Lembrei de uma canção, oh, memória, de Paulinho da Viola que tem um caquinho oslt dizendo "A gente tá fazendo um sambinha, ". E tornei-me filosófico, do jeito que costumo ser ao usar o marcador "Besteirol" na postagem: é uma ênfase colocada em algo: aqui é o lugar que não pode, é que é apenas um sambinha, sem cachaça ou mesmo sem mulher...

DdAB
Errata: Aqui tá cheio de erros propositais e outros despropositados.

P.S. Aquela encrenca de que 2 = 1 pode ser verdade que selecionei para nos ilustrar. Mas aqui postei uma viajação que mostra um caso em que ela é um sofisma: erro com aparência de verdade. Que é simétrico ao paradoxo: verdade com aparência de erro. Na postagem cujo link acabei de dar, cheguei à conclusão de que a = 2a. Então agora precisamos de mais uma operação antes de revelar um dos absurdos que pode ocorrer quando dividimos uma equação por zero: a/a = 2a/a ou seja 1 = 2.

P.S.S. Fui ao Facebook e lá escrevi: O Face indagou-me no que eu tava pensando. E pensei que não me lembro. Mas lembrei que acabei de postar algo no blog sobre memória e esquecimento. Muito filosófico, tanto é que recebeu um dos marcadores como "Besteirol".

P.S.S.S. Aquela frase sobre o primeiro grupo é um teste de memória ela própria.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Quando a Justiça, que é Falha, Falha Estrondosamente


Querido blog:

Há anos, quando eu ainda achava que ouvir futebol no domingo era mais importante que vencer as cargas de leitura que me eram dadas durante o mestrado em economia da UFRGS (isto é, 1975), falava-se em "bandeirinhas patriotas", que eram auxiliares do árbitro da partida que, por serem torcedores animados de um dos clubes levados à disputa, interpretavam as situações obscuras de modo a proteger seu clube amadamente enrustido.

Hoje, a postagem de Rodrigo Ghiringhelli no Facebook levou-me a evocar aqueles tempos, pois tudo leva a crer que hoje no alto do poder judiciário nacional reside a mesma ideia de "juiz patriota", que julga tudo baseado em sua ideologia, em sua maneira de ver o que é melhor para a sociedade e não o que lhe manda a constituição no sentido de defendê-la, interpretá-la sem mudá-la.

Quantas vezes já citei meu amado (finado) prof. Haralambos Simionidis, que disse entender que o verdadeiro problema do Brasil é a incompetência do poder judiciário? E quantas vezes já sugeri que qualquer decisão dos juízes que vença por maioria de 6x5 deveria ser motivo para demitir os cinco perdedores e trazer sangue novo.

Tá aqui ela, e a própria ilustração que ele -Rodrigo- escolheu:



Justiça?
Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo
A posse de Lula como Ministro da Casa Civil de Dilma foi barrada pelo STF (leia-se Gilmar Mendes). Depois disso, o precedente foi esquecido, e políticos respondendo a processo na justiça foram nomeados ministros por Temer.
Lula começou a cumprir sua pena sem o trânsito em julgado do processo, mesmo que já haja uma maioria declarada no STF no sentido de que a execução antecipada da pena é inconstitucional. Aguardam um momento mais tranquilo para consolidar este entendimento, que nunca deveria ter mudado.
O processo contra Lula tramitou em tempo recorde no TRF4. Depois o ritmo dos julgamentos voltou ao padrão tradicional de morosidade judicial.
Lula, como outros acusados na Lava Jato, foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento, mesmo não tendo se negado a depor. Agora o STF decide acertadamente que a condução coercitiva é inconstitucional.
Não há como negar que Lula foi cobaia de tudo o que não pode ser feito em matéria processual penal. Antes e depois dele, o Supremo cumpre seu papel de guardião da Constituição.
Sem esquecer que o grupo de ministros ativistas em matéria penal se mantém impávido na lógica de que os fins justificam os meios, e as favas com a Constituição. Mas são minoria. Já Gilmar é sempre o fiel da balança. Sempre contra Lula, sempre pelas garantias constitucionais.
E siga la pelota!

DdAB
Ok, ok, não esqueci que Jessé Souza diz que a tolice da intelligentsia brasileira é não entender que o verdadeiro problema do Brasil é a desigualdade. Não acho que contradiga o velho Haralambos, pois o traço leniente e retardatário do sistema judiciário (do policial de rua ao ministro do chamado poder judiciário) não é outra coisa que atestado de desigualdade, tanto é que raramente um juiz daquela macacada recebe menos de 100 salários mínimos por mês.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Lições Regionais de Pedro Parente (pro velho Sartori)


Querido blog:

O sr. Pedro Parente já morou em Porto Alegre. Parece-me que uma dessas vezes foi uma espécie de interventor no jornal Zero Hora, a mando do Banco Safra, algo assim. Antes e depois exerceu cargos governamentais e do setor privado. Era um homem perfeito para a Petrobrás, ou salvá-la ou derrubá-la. E fez uma combinação entre essas duas opções extremas.

E uma grande derrota deflagrada por ele foi a política de preços de ajustes frequentes, acompanhando a cotação do dólar (mau, mau, contagiando os preços internos de um jeito irreversível) e o preço do barril de petróleo (mau, mau, contagiando os preços internos pela mais política de todas as comóditis já inventada pelos dinossauros.

Então essa política de preços de Parente, com reajustes quase instantâneos, não poderia deixar de infectar todos os preços da economia, numa indexação de dar inveja a Mário Henrique Simonsen, em suas loas à política salarial dos governos militares ("trocar a luta de classes por uma regrinha aritmética"). E isto lá é pouco?

Mas tem ainda mais: ele perorou sobre a importância de elevar os lucros da Petrobrás para dar uma satisfação aos acionistas da empresa. E aí reside a piadinha: o maior acionista é mesmo o Tesouro Nacional, ou seja, o governo brasileiro, ou  seja, o povo brasileiro. Mas o maior acionista viveria bem com uma política de preços que lhe desse mais segurança em seu dia-a-dia.

E o velho Sartori? Seu governo tem uma escancarada neurose de privatizar tudo o que pode de propriedade governamental no Rio Grande do Sul. E aí temos dois problemas:

.a o maior acionista das empresas governamentais é, noblesse oblige, o povo. Este provavelmente não está nem aí para as privatizações

.b segundo, o povo que não está nem aí para as privatizações, não tem a menor chance de trocar essa propriedade nominal por uma propriedade real.

Moraleja: num país em que os 10% mais ricos detêm mais da metade da renda nacional, qual é o sentido de "privatizar"? Não é privatizar, é elitizar, é passar a propriedade para os mais ricos, aqueles para quem o índice de Gini da desigualdade na distribuição da riqueza é possivelmente de 0,8.

Moral da moraleja: volta e meia sugiro a solução para reduzir o tamanho econômico do estado na produção de bens regulares ou de demérito: criar um fundo nacional de desenvolvimento (com a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Cia Nacional de Álcalis e outras que já se foram ou ainda virão ou irão) do qual cada brasileiro, ao nascer, será dotado, digamos, com 1000 ações das quais não poderá desfazer-se nem deixar de herança, mas poderá alugar.

Conclusão: parente é serpente. E o governo Sartori é um escárnio. Os intelectuais orgânicos do MDB gaúcho: Carlos Búrigo, Cleber Benvegnú, Márcio Biolchi, Fábio Branco.

DdAB

domingo, 3 de junho de 2018

Sina e Escolhas


Querido blog:

Num livro que li recentemente (1, rodapé), ganhei uma atualização nas minhas milenares leituras daquele clube da psicanálise, psicologia, psiquiatria, astrologia mental e algumas outras seitas estranhas. E tem um recorte que talvez não tenha entendido direito e que talvez mais talvez ainda nem estivesse por lá escrito. Mas sigo procurando tão afanosamente quanto procurei a paz de espírito depois do rebaixamento do Grêmio.

Pelo que li e pelo que não li e pelo que menti que li e pelo que imagino que li, cheguei àaspiRAdor de pó conclusão que uma forma de entender como a doença mental compromete as escolhas feitas pelo agente é fazermos uma analogia com uma doença como a enxaqueca ou mesmo, digamos, um defeito num braço. Mas a enxaqueca é mais "cerebral" e pode ajudar-nos a entender a questão. Como não é meu caso, não reconheço sofrer dessa condição, falo com base em, por assim dizer, experimentos mentais.

Talvez até baseado em minhas adaptações a essa realidade mental e planejamento da vida, imagino que todos vamos aprendendo com nosso próprio sofrimento - da enxaqueca, da mania de perseguição, da preguiça - e começamos a valorizar os pródromos dos ataques dessas incomodações. E também aprendemos a computar as perdas de capacidades verificadas quando a crise se instala. Penso, em resumo, que é uma sina terrível, seguindo no exemplo, ser acossado periodicamente por enxaqueca e que esta fatalidade contribui para reduzir nosso leque de escolhas.

Moraleja: parece que naquela linha de que a educação nos oferece as condições de estabelecermos nossos objetivos na vida e a energia para lutar por eles, agora estamos vendo que uma mente aberta -pela educação, claro- terá mais chance de alcançar mais compreensão pessoal, mais liberdade para fazer escolhas a partir de seu legado de sinas e, assim, mais felicidade.

DdAB
(1) BURNS, Tom (2014) Our necessary shadow; the nature and meaning of psychiatry. London: Penguin.
Psiquiatria. Psicologia. Psicanálise.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Parentes na Moda


Querido blog:

No dia 5 de abril passado, fiz uma postagem aqui. Eu reclamava da prisão de Lula naquela farsa de julgamento em que surgiu uma acusação esdrúxula baseada em delações e testemunhas de ocasião. Mas não era apenas isto. Tratei também do casuísmo criado há poucos anos precisamente para os juízes poderem enquadrar os políticos de esquerda envolvidos nas delações das empresas líderes do setor de construção no Brasil.

Meu ponto de vista é simples:

. um ex-presidente da república deve ter regalias, deferências precisamente pelo simbolismo representado pelo cargo: o homem presidiu a república!

. um tribunal colegiado de 11 juízes que toma decisões por escores de 6x5 prova que não se está falando de conhecimento objetivo (no sentido de Karl Popper). Se os juízes de cortes elevadas não podem garantir sua objetividade, que dizer de um juiz de primeira instância, emulando sentenças que ouvi serem chamadas de monocrátivas? [Mono - um juíz e cratos, o poder].

. Lula poderia perfeitamente estar em liberdade até alcançar o reconhecimento de sua inocência ainda em duas ou até mais instâncias de poder. A discricionaridade do juiz Sérgio Moro é flagrante. Este tipo de prisão sem culpa formada reconhecida é mais punição do que penalização. Ele quis humilhar nosso presidente. E tem gente que gosta disto.

Penso que um dos que considera razoável esta -para mim- perseguição a Lula. Pois olha aqui o que meu amigo de Facebook, que também leva meu sobrenome, sr. Ermínio Mauro Berni disse em resposta a argumentos similares que exerci naquelas bandas:

Como ficam todos os outros que tb estão presos e que poderiam beneficiar-se com a não prisão em 2 instancia? Ou haveria o uma terceira, uma quarta ou talvez até uma quinta instancia, alias muito bem lembrada por José Neumane ontem na Cultura, então fica a pergunta a lei tb é para todos? Ou apenas a quem tem dinheiro para pagar poupudos valores a advogados? Que alias segundo o proprio Lula não tem dinheiro algum? Bem fica no aguardo de tua elucidativa resposta, entretanto se o socialismo é tão adorado e amado pq não morar na Russia por exemplo?

Pelo que argumentei anteriormente, a primeira pergunta de Ermínio tem resposta fácil: não estamos falando de todos, apelas de Lula. Lula, ex-presidente da república não é qualquer um. Ele não está acima da lei, claro, mas não é disto que estamos falando. O juiz Moro tem a prerrogativa de manter a prisão, como também tem a de manter Lula em liberdade, enquanto o processo segue seu curso.

A pergunta número 2 de Ermínio, claro, é de brincadeira. Mas, para falar sério, entendo que essas quatro instâncias da justiça (justiça?) brasileira são excessivas. Não há razão para que não se reduzam a duas. Se assim fosse, é possível que não houvesse 100 milhões de processos encalhados nas mangas do judiciário. Então: duas instâncias, caro Ermínio, mas em ambas as decisões devem ser tomadas por colegiados de juízes e não por um único e enviesado juiz.

Na terceira pergunta de Ermínio, fica evidente que os polpudos valores pagos por Lula ou por terceiros mostram apenas que a justiça deste país é um caso de polícia... Na verdade não dá para deixar nem nas mãos da polícia, pois todo o sistema judiciário, do guarda de rua ao mais empolado juiz de Brasília incidem no mais desastroso grau de incompetência. Precisamos de uma reforma radical em todo o sistema judiciário, o que já irá contribuir para o surgimento da sociedade igualitária.

A última pergunta de Ermínio me parece de uma enorme má vontade com relação a mim e a outros esquerdistas. Por que não morar na Rússia? Talvez Ermínio não saiba que este exemplo da Rússia caiu da moda, pois este país não tem nada de esquerdista e nem de leve pode-se referir a ele como socialista. De minha parte -surprise, Ermínio- sou o primeiro a considerar que "não queremos socialismo, mas reformas democráticas que conduzam a ele", como me ensinou Gerônimo Machado e vivo repetindo. E agora vem a parte mais refinada de meu argumento: a humanidade em seu presente estágio evolucionário não está preparada para o socialismo. As instituições humanas que regem a superestrutura e a ideologia ainda não criaram mecanismos que tornem o homem amigo do homem a ponto de todos se unirem para construir uma formação econômico-social que supere o capitalismo.

Pois bem, eu prometera voltar ao tema e responder ao amigo do Facebook. Vou para lá propagandear o que coloquei por cá e avisá-lo para o caso de ele desejar replicar. E garanto que postarei sua resposta por aqui mesmo.

DdAB
A propósito, devemos encampar novamente o uso das cores do Brasil, eliminando os maus brasileiros que pedem a ditadura, os militares, o extermínio de minorias e tantas outras tropelias que nem vale a pena listá-las.
Do Facebook: Até agora, andei meio afastado daqui e nada pude falar sobre a greve dos caminhoneiros. E claro que sou a favor dela. Como disse um eminente filósifo: na alma de uma greve sempre estará guardada a mais potente fagulha da revolução! Seja como for, enfim dou uma resposta lá no blog a umas críticas um tanto primárias de meu parente -ou o que seja- Ermínio Mauro Berni (pois não estou achando forma de ver o algoritmo chamá-lo. Vou fazê-lo no inbox. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Narcisismo e Escolha Pública


Querido blog:

Não faz muito tempo que falei em categorias classificatórias de debilidade mental, pois andei me defrontando com comportamentos compatíveis no Facebook (no blog aqui). Pensando no ocorrido, pude observar espantoso aumento da amostra que eu estava estudando (hehehe) e cheguei à conclusão que precisava também falar no narcisismo, uma possível explicação para o uso tão corrente do 38o. estratagema delineado por Arthur Schopenhauer para "vencer um debate mesmo sem ter razão". Reproduzo-o para facilidade do leitor:

Nº 38. Parta para o ataque pessoal, insultando grosseiramente, tão logo perceba que seu oponente está com a vantagem. Partindo para o ataque pessoal você abandona o assunto por completo, passando a concentrar o seu ataque na pessoa, fazendo uso de observações ofensivas e malevolentes. Esta é uma técnica muito popular, porque requer pouca habilidade para ser colocada em prática.

Comoveu-me especificamente aquela parte do "fazendo observações ofensivas e malevolentes". De onde se originam as observações ofensivas e malevolentes? Não tenho dúvida de que um dos tipos mais perniciosos para a modelagem da escolha social é o comportamento narcisístico. E não tenho dúvida de que a mudança tecnológica e comportamental que levou à criação do smartphone potencializou esse comportamento. Uma vez que nem todos podem ou querem defender-se ou polemizar sobre maus termos, ofensas e malevolências, fiquei pensando na natureza psicológica daqueles que apelam para ridicularizar postagens ou comentários de pessoas portadoras de visões de mundo diversas das suas.

Pensando neste tipo de manifestação, que vejo às mancheias no Facebook e até em outras mídias, achei oportuno associar este tipo de tentativa de modelagem do "mundo lá fora", em que pessoas de diferentes níveis culturais, educacionais ou sociais emitem opiniões mais ou menos fundamentadas sobre os diversos temas que lhes tangencia a individualidade. E fiquei imaginando que algumas dessas pessoas -de acentuado grau de narcisismo, ou seja, donas da verdade, amantes de suas próprias crenças e opiniões- poderiam estar propensas a invalidar votos nas eleições de quem não consideram qualificados para se pronunciar em sentido contrário à visão de mundo do, a seu ver, cretino, estúpido, idiota, imbecil e oligofrênico.

Então evoquei o trabalho de Paulo Trigo Pereira (baixa direto o PDF clicando aqui), que volta e meia cito e recomendo a leitura para quem deseja ter uma visão interessante num texto curtinho, digamos, de 25 páginas, se a memória ajuda. Estamos no mundo da escolha pública em que se está aplicando o teorema do eleitor mediano adaptado a um de dimensões de escolha maior que um. Trigo, na verdade, fala em duas dimensões. Mas, claro, uma eleição real, com eleitores reais, uns narcisistas e outros, não, há múltiplas dimensões a serem consideradas. No exemplo do autor, fala-se em duas, convenientes sob o ponto de vista da pedagogia voltada a transmitir a beleza do modelo.

Pois o que é o teorema do eleitor mediano? Trata-se de um teorema tomado de empréstimo pela ciência política à ciência econômica. Harold Hotteling, tentando modelar a formação de preços num oligopólio, imaginou a situação, digamos, de um sorveteiro atendendo numa praia gaúcha (ou seja, praias traçadas com régua não-rombuda, quer dizer, linhas retas perfeitas). E sua demanda é bastante boa, de sorte que ele fica pensando em abrir nova carrocinha. A realidade mostra-se ao sorveteiro com um concorrente situado a, digamos 1km de distância de outro. Parece intuitivo que cada um deles, sob certas condições de contorno, vão tentar colocar a nova carrocinha bem na metade da distância que os separa. Na política, ocorrerá a mesma solução, expandindo-se para a captura de todos os eleitores de certo ponto de vista, chegando no eleitor mediano e mais um voto. Quem o fizer estará eleito.

Então temos a representação deste modelo ao longo de uma linha (a praia, algo assim). Mas o Paulo Trigo Pereira tratou de duas dimensões, facilmente capturáveis em um gráfico cartesiano: no eixo horizontal, coloca-se a questão de mais ou menos estado e no vertical mais ou menos federalismo (o modelo foi feito pensando na União Europeia). Então pode-se ser, digamos, a favor de maior interferência do estado na economia e nada de federalismo. Ou muito estado e total federalismo, e por aí vai o voto. Claro que, se -além destas duas questões- houver dezenas de outras, renda básica, voto facultativo, reforma tributária distribucionista, gasto público em educação e saúde, apenas o narcisista estará em condição de dizer o que deve ser feito.

Moraleja: se impedirmos o eleitor mediano de explicitar suas posições sobre todas as dimensões de uma disputa eleitoral, exigindo diplomas específicos para cada uma delas, os astrólogos, os barbeiros, os cachaceiros, os diáfanos, e assim por diante, até os zeugmatizadores, poucos sobrarão com direito ao voto, cabendo ao narcisista a responsabilidade de decidir quem vencerá a eleição, a contenda, o debate, o exame, etc. Em resumo, narcismo é um inimigo não apenas dos escolares americanos, mas principalmente da democracia!

DdAB
Lá a nos ilustrar temos um trechinho do artigo de Harold Hotelling que li nos tempos em que lecionava economia industrial no PPGE/UFRGS (e até microeconomia na graduação, que eu dava um monte de modelos prévios à teoria dos jogos, especialmente Cournot e Bertrand, para o estudo da formação do preço nos oligopólios). Claro que minha cópia já dançou, com a aposentadoria. Mas a fonte do que publico hoje é um interessante artigo alcançável ao se clicar aqui. E com uma referência fácil de campear.