quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Indústria: antigas notas de aula

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Querido diário:

Por razões que nem eu mesmo entendo bem, decidi publicar notas que fiz para uma aula que dei ainda em meus tempos na UFSC, para o Pós-Graduação em Economia em 17 de abril de 1997. Se bem lembro, era uma disciplina que deveria ter sido dada por Edvaldo Alves Santana, meu ex-aluno e primeiro lugar no concurso para professor titular em que me classifiquei em segundo. Por razões que agora não lembro, a fim de não prejudicar os alunos, assumi o papel de "regente", organizando aulas dadas por diferentes professores, cada um tratando de um tema relevante e compatível com o título da disciplina que agora também me foge. E tenho anotado: aqui falta atualizar dados e também expandir as seções E e F. Então lá vai, sem essas correções, como no original:

INTRODUÇÃO
Grande prazer poder discutir algumas ideias [naquele tempo, se escrevia 'idéias'...] concernentes à reestruturação produtiva mundial. A distância entre microeconomia e macroeconomia, tão clara nos livros-texto, ficou obscurecida nas aulas do prof. Jesiel [de Marco Gomes, meu finado e inesquecível amigo desde 1971, falecido em 2015]. A grande pergunta dessas aulas foi: Convergência do País do Sol-Nascente é o Ocaso dos Estados Unidos?

Penso que manterei a junção micro-macro nestes dois encontros [ou seja, foram duas aulas minhas]
.a convergência da produtividade global e setorial
... os ciclos sistêmicos
... macroeconomia do crescimento
... indústrias específicas
.b comércio intra-indústria: a microeconomia das relações econômicas internacionais.

Roteiro das duas aulas:
A. Quatro ciclos sistêmicos
B. O longo século XX
C. Lema: o conceito de produtividade
D. As leis de Kaldor e a desindustrialização
E. Convergência internacional
F. Convergência setorial
G. Traços da literatura sobre desindustrialização

A. QUATRO CICLOS SISTÊMICOS (Giovanni Arrighi, minha melhor leitura de 1996)
.a ciclo genovês: 1450-1650 - lógica territorialista (Troca T, mercadoria M fazem T-M-T')
.b ciclo holandês: 1550-1800 - lógica capitalista: (Dinheiro D, mercadoria M fazem D-M-D')
.c ciclo britânico: 1750-1920: T-M-T' e D-M-D'
.d ciclo americano: 1920-... - empresa multinacional
Cada um deles começa com a expansão comercial e territorial e culmina na hegemonia financeira.

E o Japão?
Não há dúvida de que existe um milagre econômico na Ásia. Este parece estar associado à expansão capitalista (troca - T) a todas as esferas da vida social: a sub-contratação é espantosa.
. devemos registrar a relação [um tanto polêmica na época da aula, mas hoje aparentemente de conhecimento comum] entre dinamismo e igualitarismo.

B. O LONGO SÉCULO XX
. do início até 1920, hegemonia britânica
. herança com a Grande Depressão de 1873 a 1896
. segunda Grande Depressão: 1929 a 1936 (aproximadamente)
. ameaça de colapso que não se realizou: 1987 [depois veio a crise de 1997 e ainda a de 2008]
. três fases do século XX:
... expansão financeira de fins do século XIX e início do século XX, ocorrendo a transição do regime britânico ao americano
... expansão do Pós-Segunda Guerra Mundial: comércio e produção, hegemonia americana até 1973
... atual expansão financeira com a crise de 1987, sendo filha da Conferência de Bretton Woods e da de 1973, com seus petrodólares

C. LEMA: O CONCEITO DE PRODUTIVIDADE
. questão da eficiência no uso dos recursos
... produzir mais com os mesmos os recursos
... produzir o mesmo com menos recursos
. eficiência leva à produção de excedente e, como tal, à troca
... a troca nos últimos cinco mil anos, civilização como a conhecemos, capitalismo, crescimento econômico
. basicamente, o conceito de produtividade do trabalho deriva-se do fato mais importante do capitalismo, nomeadamente, a realização das vendas da produção. Esta expressão esconde por trás dela o conceito de valor adicionado e suas três óticas de cálculo: produto, renda e despesa (demanda final). Afirmo que o valor adicionado é determinado socialmente, o que deixa minhas simpatias pelo monetarismo às claras. Associando a primeira dessas óticas, o produto ou PIB, com o emprego temos precisamente o conceito de produtividade do trabalho.
. neste contexto de discussão do conceito de produtividade do trabalho, precisamos apelar para a heterodoxia, de sorte a compreender amplamente o que está ocorrendo. Por que conhecer os níveis e crescimento da produtividade do trabalho? Qual o sentido de tal decisão das firmas que intentam aumentá-la, considerando que a concorrência fará com que a queda nos preços se reflita em custos menores e preços mais baixos para o consumidor das mercadorias efetivamente vendidas?
. Minha visão é que elas precisam incorporar progresso técnico poupador de trabalho vivo (por contraste às máquinas e equipamentos, o trabalho morto), a fim de sobreviver (Maurice Scott, New theory, p. 125). Em boa medida podemos lembrar o que Richard Dawkins diz sobre a "corrida armamentista" entre a gazela e e a leoa: a gazela precisa correr mais, a fim de, pelo menos, manter a distância que a separa da leoa.
. conceito de produtividade:
... partimos de uma função de produção simplificada:
Q = f(K, L),
para não falar em terra, água, meio ambiente, etc.
Essa "teoria" permite montarmos um tradicional modelo empírico com a equação de Cobb-Douglas:
Q = A * K^a * L^b,
cuja anamorfose logarítmica permite escrevermos:
ln Q = ln A + a * ln K + b * ln L.
Com os valores de Q, K e L para diferentes países ou vários anos de um ou mais países, obtemos estimativas de A, a e b.
A partir da primeira equação, podemos também calcular
Q/K - produtividade do capital
Q/L - produtividade do trabalho
Q/(K + L) produtividade total dos fatores, ou produtividade multi-fatores.
Nesse K + L, há que contornar o problema das unidades de medida, o que se resolve com o cálculo de taxas de crescimento de K e de L e combinando-as de alguma forma (Laspeyres, Paasche, etc).

D. AS LEIS DE KALDOR E A DESINDUSTRIALIZAÇÃO
Qual o objetivo da empresa? É maximizar a taxa de lucro, que chamarei de P/K, com P de 'profit'.
E por que os capitalistas têm interesse em manter a participação dos lucros no PIB? É que podemos decompor a taxa de lucros, originalmente dada por
tx P = P/PIB,
que pode ser multiplicada por um daqueles números 1 sabidos
tx P = P/K = P/K * PIB/PIB,
e, reordenando, vem:
tx P = P/PIB * PIB/K
onde vemos que tx P varia diretamente com P/Y, ou seja, a participação dos lucros no PIB (e também que ela varia diretamente com a relação produto/capital, e inversamente, como tal, à relação capital/produto).
. Há algumas leis que tratam destes desdobramentos.
Primeira: lei da concorrência, que já referi, mas agora quero falar que os salários, de acordo com esta "lei", tendem a equalizar-se intersetorialmente. Logo a produtividade deve crescer intersetorialmente para que a relação salário/médio (W/L), sendo o complemento da unidade da participação dos lucros no PIB, permaneça constante:
W/L : (1 - PIB/L)
. Mas há outras leis mais específicas sobre a questão da produtividade, que obedecem à seguinte análise lógica: a produtividade pode crescer, estacionar ou decrescer
No primeiro caso, haverá leis que expliquem esse crescimento?
No segundo, há estagnação - e talvez a convergência - das/nas rendas per capita
No terceiro, decrescendo, a produtividade pode levar o sistema econômico à decadência.
. interessa-nos agora em particular saber quem explica o que a faz crescer.
. autores envolvidos no tema: Adam Smith, Alyn Young, Verdoorn, Fabricant 1942), Kaldor, Denison, Rowthorn & Singh, Paul Romer.

LEI DE FABRICANT (1942)
. ver no Maurice Scott, p. 340
. a taxa de crescimento da produtividade do trabalho nos diferentes ramos da indústria de um mesmo país em dado período depende da taxa de crescimento do produto.

LEI DE VERDOORN (Maurice Scott, p. 337):
A taxa de crescimento da produtividade do trabalho na indústria entre diferentes países e períodos depende da taxa de crescimento do produto:
g - gL = a + b * g
gL = -a + (1-b) * g
Scott na p. 341
g - gL = f(g), com 12 países,
achando
g - gL = 0,0052 + 0,77 * g,
com r^2 = 0,91 e os erros padrão de estimativa dos parâmetros sendo Ea = 1,2) e E(1-b) = 9,8.
[Se bem lembro, â não difere significativamente de zero, ao passo que (1- ^b) é super significativo.

LEIS DE KALDOR
. Maurice Scott, p.340, seguindo Thirwall
1. a indústria de transformação é a locomotiva do crescimento, pois induz o crescimento dos demais setores da economia nacional
2. o crescimento da produtividade do trabalho na indústria de transformação gera crescimento da produtividade (é a Lei de Verdoorn)
3. crescimento rápido na indústria de transformação também gera crescimento rápido na produtividade de toda a economia, e isto também é função do grau de maturidade da economia: quanto mais madura, menos cresce, daí o catching-up e daí o Paul Romer (em 1986) e sua teoria do progresso técnico ilimitado
4. o crescimento rápido na indústria de transformação depende do crescimento global, inclusive no mercado externo
5. acrescentada depois do primeiro artigo: sucesso gera sucesso e fracasso gera fracasso.

E. CONVERGÊNCIA INTERNACIONAL
A grande questão sobre a convergência das rendas per capita dos diferentes países é se os Estados Unidos receberam o troco do Japão sobre o que fizeram para a Inglaterra e esta fez para a Holanda. [Não sei por quê omiti a Coreia e nem falei na China, pois ela ainda não tinha despontado em minha cartilha]. E a discussão centra no papel do crescimento do estoque de conhecimento disponível para a sociedade..

Paul Romer, em 1986, desenvolveu um modelo em que diz que o crescimento da produtividade do trabalho não tem limite, dado que o aumento do conhecimento humano tampouco é limitado. [Ver para crer; até agora parece que isto é verdade e o dia que a produtividade estancar, o capitalismo quebra, de acordo com a lei do valor, essas coisas]

De qualquer modo, coloca-se a pergunta: Os Estados Unidos perderam a liderança na geração de novas tecnologias? E a resposta é de Nelson e Wright (1992]: a internacionalização da economia reduziu a importância dos sistemas nacionais de inovação, pois a tecnologia de ponta é hoje disponível a todos os países do mundo.

Mas que dizer da hipótese da convergência? Desenhei no quadro-negro [era assim naqueles tempos] a estilização de um gráfico cartesiano, associando, no eixo dos xx, a produtividade do trabalho medida em homens por hora e, no eixo vertical, o dos yy, a taxa de crescimento da economia. Meu desenho no quadro-negro estiliza uma correlação linear com valores decrescentes para, respectivamente, Japão, Suécia, França, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália. Que diz isto? Quanto maior a produtividade em 1870 (ergo século XIX), menos foi o crescimento econômico. Pura convergência! Os autores mostram a equação

g = 5,25 - 0,75 ln Y1870, com r² de 0,88. [Olhando agora, acho que eu disse uma bobagem na aula, se é que não foram esses autores. Disse eu que, deslogaritmando, teríamos g = 190,6 * Y^-0,75. Parece-me agora que eu deveria ter dito g^e, não é isto?]

F. CONVERGÊNCIA SETORIAL
Na visão de Dollar e Wolf, outra grande questão é saber se os movimentos da produtividade agregada têm origem em divergências ou convergências setoriais.
. Claramente a produtividade agregada é uma média das produtividades (PIBi/Li) setoriais do país ponderadas pela participação de cada setor i no emprego total Lt, o que chama a atenção para dois fatores influenciando a produtividade total da economia:
... as produtividades setoriais
... a estrutura setorial do emprego
Agora desejo fazer um breve referência ao Modelo de Hecksher-Ohlin do comércio internacional, caracterizado pelos seguintes contornos:
...... se os preços dos fatores de produção são equalizados entre diferentes países, então suas produtividades em cada indústria específica também serão idênticas
......isto implica que os países terão a mesma produtividade do trabalho nas diferentes indústrias
...... países com diferentes níveis do estoque de capital terão diferentes frações do PIB setorial mundial do setor
...... voltamos a ver que as diferenças na produtividade agregada se devem a diferentes composições industriais.
Os resultados de Dollar e Wolf são que os USA têm mantido a liderança na produtividade do trabalho, embora esta liderança venha sendo reduzida (novamente a convergência)
... Mas já em 1982, os USA, não tinham liderança mundial na produtividade de alguns setores
...... Estados Unidos lideravam em: química industrial, outra química, papel e papelão, borracha, vidro, mecânica, material de transporte, material elétrico, alimentos, indústrias de precisão.
...... Outro líder: aço-Japão, Metais não-ferrosos-Austrália, Editorial-UK, plástico-UK, Cerâmica-Itália, Produtos de minerais não metálicos-UK, Bebidas-UK, Refino de petróleo-Alemanha, Produtos do carvão-França. E a Itália liderando nos seguintes setores:
Produtos metálicos, Têxteis, Vestuário, Couro, Calçados, Mobiliário e Madeira e Diversas.
...... Mais recentemente, tem-se sugerido que os USA têm-se destacado na informática, nos armamentos e no material de transportes (automóveis).

G. TRAÇOS DA LITERATURA SOBE DESINDUSTRIALIZAÇÃO
. Appelbaun e Schettkat (página 621)
. a desindustrialização tem causas endógenas: "... as elasticidades da demanda pelos produtos industriais com alto crescimento da produtividade declinam com as rendas crescentes e a acumulação de duráveis de consumo nas economias industrializadas. [...] De acordo com este modelo de desenvolvimento pós-industrial, o crescimento do emprego depende da expansão de indústrias com baixo crescimento da produtividade." E nas de alto crescimento da produtividade, gera-se pouco emprego.
. [o texto que estou traduzindo agora pode ou não ser de minha autoria, pois perdi o controle. Tem uma citação entre aspas que, em qualquer caso, não é minha.]

A experiência internacional foi demarcada, de uma parte, pela chamada hipótese de Clark-Fisher relativamente às previsões feitas em 1939-40 no sentido de que os serviços viria a ser o setor dominante no que diz respeito à formação do valor adicionado, tendo em vista o funcionamento da Lei de Engel concernente às indústrias produtoras de bens de consumo tradicionais. Park e Chan (1989: 200-211), lidando com uma matriz de insumo produto para 26 países no início dos anos 1970, permitiu-lhes concluir:
"[...] o papel catalítico da indústria poderia desempenhar um papel na expansão das oportunidades de emprego por meio da demanda inter-industrial por insumos dos serviços e a demanda induzida por vários tipos de serviços."
No entanto, o artigo clássico de William Baumol (1967) mostrou que a dificuldade do setor serviços em gerar ganhos de produtividade tão importantes quanto os setores produtores de bens tem uma tendência ao estagnacionismo.

DdAB
.a a saída para a nivelação dos níveis de produtividade do trabalho é mesmo a social-democracia. E a luta intransigente pela implantação do governo mundial, financiando a renda básica universal com o imposto de Tobin, 5% do volume diário de transações financeiras inter-fronteiras nacionais.
. aquela turma que acha que o nacional-desenvolvimentismo tem algo a ver é porque não assistiu a minha aula nem seguiu a minha lista de leituras. Se em 1992, poderíamos pensar em repensar o conceito de sistema nacional de inovação, que dizer em 2019, quando ainda tem gente chorando a desindustrialização do Brasil.
. mesmo sem a China, eu entendi isto há 30 anos. James Clifton é um dos milagrosos, além de meu orientador do doutorado, o finado Mr. Andrew Glyn.
. a imagem lá de cima é minha homenagem aos esgotos, que ainda fazem falta a mais da metade da população brasileira. No mínimo a indústria dos minerais não-metálicos teria um impacto positivo, pois os canos são produzidos por ela. E a indústria 4.0 não é um delírio, pois tem a consequência prática de desviar a atenção de muitos economistas do problema da desigualdade e de uma dinâmica da sociedade igualitária com a produção pública de bens públicos (segurança, o próprio saneamento) e bens meritórios (educação, saúde). Vê-se cada uma!

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

2019, ou melhor, 1984bis

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Querido diário:

Tenho desejado à turma, exceções de praxe, que o ano que hoje inicia seja leve como os diáfanos mantos angelicais. Mas não posso deixar de revelar minha apreensão com o futuro político do país, incluindo aí o balanço da desigualdade e suas consequências na falta de educação, de saúde, de segurança, de esgotos... Neste clima, li há dias na revista Cult de dezembro, na página 25, dentro do primeiro parágrafo do artigo de Antonio Quinet, uma frase que me ajudou a entender o verdadeiro grau de dificuldade dos dias que correram e os que começam a correr hoje mesmo.

Diz ele:

[...] Esse tempo ["um tempo de incitação ao ódio e à violência"] não começou ontem [por isso falei em 1984, livro escrito em 1949, na euforia do pós-guerra e antes da guerra-fria]. Ele é velho como o mundo. A diferença dos tempos atuais para os velhos tempos de sempre é que há hoje um discurso legitimador do ódio e da violência que apresenta uma sinistra evolução do mal dirigido ao outro: o mal é autorizado, banalizado e em seguida legalizado.

Pode ser brincadeira do novo presidente da república, mas ele andou falando em fazer o mal para os opositores políticos, inclusive usando termos como metralhar e exterminar. E pode ser brincadeira que, como diz o autor citado, desde sempre, surjam figuras tragicômicas. Ainda assim, há e sempre houve um excessivo número de tiranos, déspotas, sátrapas e assemelhados tolhendo o progresso da humanidade.

E o otimismo compatível com o início do ano? Parece que ele me nutre todos os dias, ao pensar no futuro da humanidade como sendo luzidio, intermediado por um longo período de social-democracia, isto é, a organização das políticas econômicas e sociais em torno dos princípios que regem a sociedade igualitária. Pensar com simpatia num futuro que transcenda nossos horizontes de vida é indício de altruísmo (egoísmo racional, se quisermos, pois haverá alguém a valorizar nosso legado...) e pode ajudar-nos a viver melhor nosso presente, nossos dias, nossos tempos. Tomara que não estejamos descritos nas páginas do livro de George Orwell!

DdAB
P.S. Minha ilustração para esta postagem caiu num livro que estampa George Orwell na própria capa, como se fosse um Big Brother.
P.S.S. Quando falo em educação como panaceia, ocorrem-me duas dimensões que estão num hiper-espaço da felicidade: a primeira é a frase que entreouvi assim que cheguei na Grã-Bretanha, em minha segunda tentativa de tornar-me doutor: a educação te ajuda a descobrir teus objetivos na vida e te dá energia para lutar por eles. E a segunda é mais recente: apenas com povo educado é que haverá um esforço deliberado para reformar as instituições retrógradas e aperfeiçoar as boas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Mino Carta, da Carta Capital

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Querido diário:

Comecei a escrever o que segue, podemos ver, ainda em outubro passado. Por razões que eu próprio desconheço, não o fiz... Então lá vai:

Na Carta Capital -que, por razões óbvias- designo como Capital dos Carta- de quarta-feira dia 24 de outubro, ou seja, data de circulação de capa, mas a mim chegou no dia 20 de outubro, sábado, oito dias antes da eleição que nos derrotou, Mino Carta disse impropérios que eu poderia jurar que ajudou a derrotar nosso candidato. SQN. A tiragem de sua revista é relativamente reduzida, de sorte que seu ódio ficou apenas entre os leitores.

Que disse o senhor Carta? Seu tradicional editorial às vezes ultrapassa uma página inteira e desta vez tem mais caráter de artigo assinado. As páginas 16 e 17 contêm suas diatribes, já anunciadas numa chamadinha de canto da capa da revista. Seleciono duas ou três passagens.

MC: [...] Estivemos com o velho e caríssimo amigo [Lula] sem a intenção de entrevistá-lo para evitar um novo processo, este por desobediência, conforme a ameaçadora determinação do supremo presidente dos golpistas de toga, aquele Toffoli que o próprio Lula indicou para o STF. Nem por isso deixamos de falar da situação na perspectiva do segundo turno e ele queixou-se do tom menor da campanha de Fernando Haddad.

Eu: queixou-se? E autorizou a publicação de seu descontentamento com o candidato que foi seu ministro da educação e, por sua -de Lula- indicação, eleito para prefeito de São Paulo, como sabemos? Queixou-se e mandou Mino publicar? OK, sigamos com Mino Carta:

MC:    Nada é pior que Bolsonaro e nada é mais desolador do que encontrar o grande líder popular brasileiro encarcerado. Pessoalmente, concordo não ser hora de autocríticas, mas também me parece não ser hora das vaias petistas que levaram Cid Gomes, no dia 15 [de outubro] ao destempero no decorrer de uma reunião entre presumíveis aliados. Assim se demolem as pontes lançadas pelo projeto de uma frente democrática. Muitos erros foram cometidos pelo caminho, sem perceber as pedras ou as ignorando.
   No pior momento de nossa deplorável história, o PT mostra toda a sua visceral incapacidade de ser o partido de esquerda de que o país necessita, no sentido, digamos assim, contemporâneo de pensamento de Norberto Bobbio, a agremiação determinada a defender a igualdade neste Brasil brutalmente desigual. Os últimos movimentos do petismo fracassado estão na censura praticada apressadamente em relação ao programa eleitoral, ao retirar as demandas que mais incomodavam a casa-grande, como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad, disposto a elogiar um dos principais responsáveis pelo desgaste atual, o reles inquisidor Sergio Moro, torquemadazinho tão representativo da nossa Idade Média. E a traição cometida contra o próprio líder e fundador do partido, mesmo que Lula não se dê conta disso e da patética inutilidade de seu sacrifício.

Eu: Data da capa da revista: 24 de outubro. A eleição ainda não ocorrera, pois veríamos a derrota do lulismo e algumas parcas adjacências no dia 28. A eleição estava por ser definida. Mas Mino deu de presente a Bolsonaro as palavras "[...] como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad [...]".  O pior é que há afirmações do sr. Mino com as quais sempre concordei. Mas nunca lhe/s neguei o caráter retrógrado dos defensores do nacionalismo, do nacional-desenvolvimentismo, essas coisas. Agora que somos grotescamente desiguais e a isto nos acostumamos desde a primeira infância, lá isto somos. E mais: aquela queixa contra os petistas que vaiaram Cid Gomes naquela oportunidade, o que levou seu irmão, irado, a viajar para a Europa, espairecendo pela conquista de apenas cerca de 10% dos votos do primeiro turno, aquela queixa, repito, está coberta de razão. E mais, o PT é um fracasso como partido articulador da esquerda brasileira, não foi, mas agora é. E mais ainda, se Lula tivesse sido candidato a presidente, estou certo de que teria vencido a eleição. Quase dois meses depois de ter lido esta tenebrosa afirmação de Mino Carta, ela ainda me dói nos olhos e, na época, fiquei imaginando se o autor não teria ficado louco, inclusive delirando sobre ler os pensamentos de Lula. Chega!

DdAB
Imagem: será fake news, dado o que disse sobre o signatário da foto o Mino?
E fiz a seguinte propaganda no Facebook:


Sou vingativo: li afirmações intoleráveis feitas por Mino Carta na sua revista (que apelidei de Capital dos Carta) em 20 de outubro, antevésperas do segundo turno das eleições. Vingança: divulgar na postagem daqui. E lá [aqui, no blog] se encontra a figura de que reclamo no quadradinho que segue.
A imagem pode conter: texto

domingo, 16 de dezembro de 2018

Desenvolvimento e Subdesenvolvimento: Arruda Jr. e eu

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Querido diário:

Tão perto, tão longe... Fazia dias que não te via... Decidi escrever para relatar que acabo de ler:

SAMPAIO JR., Plínio de Arruda. Desenvolvimentismo e neodesenvolvimentismo:
tragédia e farsa. Serviço social e sociedade. São Paulo, n. 112, p. 672-688, out./dez. 2012

Ele tem um parágrafo que me permite desdobrá-lo em forma de lista que é um verdadeiro be-a-bá da crítica ao modelo desenvolvimento-subdesenvolvimento:

[...] 
Reduzida à relação entre acumulação de capital e modernização dos padrões de consumo, a problemática do desenvolvimento transforma‐se em problemática do desenvolvimento capitalista. Antes de superar as insuficiências do desenvolvimentismo, o movimento revisionista negava a própria realidade do subdesenvolvimento. A relação necessária de condicionamento mútuo entre industrialização e formação da economia nacional estava definitivamente rompida. Enfim,
impugnava‐se a própria noção de subdesenvolvimento como uma realidade composta pela totalidade de nexos orgânicos entre: 

.1 controle da economia pelo capital internacional, 
.2 latifúndio, 
.3 desemprego estrutural, 
.4 marginalidade social, 
.5 inadequação tecnológica, 
.6 heterogeneidade estrutural, 
.7 estreiteza e precariedade do mercado interno, 
.8 controle do Estado por burguesias aculturadas,
.9 modernização dos padrões de consumo, 
10 posição subalterna na divisão internacional do trabalho, 
11 transferência de recursos ao exterior, 
12 tendência estrutural a concentração do progresso técnico, 
13 colonialismo interno, 
14 instabilidade monetária, 
15 tendência estrutural à estagnação, 
16 fragilidade fiscal, 
17 deterioração dos termos de troca, 
18 tendência estrutural a desequilíbrios externos, 
19 irracionalidade econômica, 
20 dependência tecnológica, financeira e cultural, 
21 precariedade dos centros internos de decisão, 
22 ameaça permanente de crises de reversão estrutural.

Insisto: a listagem em forma de lista fui eu que fiz apenas copiando as características de uma economia subdesenvolvida negadas pelo "movimento revisionista". Não vou me aprofundar. Mas declaro controverso o item 17, pois conheço evidências de longo prazo que sugerem que esta deterioração é cíclica. E o 6 - heterogeneidade estrutural - a meu ver abarca praticamente todas as demais. Como não queria dizer, mas disse Chico de Oliveira lá na minha amada "Crítica da razão dualista", o moderno se nutre do atrasado e o alimenta (mutatis mutandis).

DdAB
Gostei daquele mapa mundi fazendo o corte norte-sul. Mas não devemos esquecer que meu ideário de promoção do desenvolvimento tem:
.a governo mundial
.b implantação da renda básica universal
.c social-democracia capitalista com o imposto de Tobin de 5% do volume total de transações financeiras financiando a renda básica
.d gasto universal regressivo, isto é, primeiro água para todos, depois alimentos, depois esgotos, depois, etc., depois escolas, depois financiamento da pequena empresa, e por aí vai.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Losurdo

O Marxismo Ocidental
Querido diário:

Não precisava haver dois marxismos - o ocidental e o oriental - mas há. E Losurdo mostra com riqueza empírica (citações a obras e jornais) que assim é.

LOSURDO, Domenico (20018) O Marxismo Ocidental; como nasceu, como morreu, como pode renascer. Rio de Janeiro: Boitempo.

Para o autor italiano, a falha mais frequentemente apontada sobre o marxismo ocidental é que este enfrenta enormes dificuldades para identificar o colonialismo e o neo-colonialismo promovido precisamente pelos próprios países ocidentais, como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália, Portugal e Espanha.

Na p.39, vemos a premissa aparentemente correta mas que gera comentários devastadores da parte de Losurdo. Ele começa citando Ernst Bloch que, de sua parte, faz uma citação de Anatole France:

"Anatole France diz que a igualdade diante da lei significa proibir, na mesma medida, que ricos e pobres roubem lenha e durmam embaixo das pontes. Longe de impedir a desigualdade real, a lei chega a protegê-la [..., sic]. Por serem os juristas, de fato, especialistas apenas no aspecto formal, é justamente em tal formalismo que a classe dos exploradores, com toda sua capacidade de desconfiança, de avareza e de perfídia calculista, encontra seu terreno mais propício [..., sic]. Todo o direito, incluída a maior parte do direito penal, não é mais do que um simples instrumento das classes dominantes para manter a segurança jurídica em prol de seus próprios interesses.

Esta afirmação irônica permite-nos identificar muita gente que considera que "todos são iguais perante a lei", sendo, nesta onda, levados a dizer que os pobres são pobres, pois não são capazes de aproveitar as oportunidades que este mundo de igualdade lhes confere.

Claro que o livro tem muito mais que esta desmistificação das sociedades democráticas. De minha parte, entendo que o marxismo enquanto filosofia política normativa está superado. O 'pobrema' é que ainda não vejo o que o terá superado. Sou um saudosista da social-democracia europeia, especialmente a escandinava, mas ainda assim, se fosse para reconstruí-la, eu o faria sob bases um tanto diferenciadas que resultam de minha adesão crítica à teoria da escolha pública. Destaco:

. valorizo a diferença entre produção e provisão de bens públicos e também de mérito
. valorizo despesas governamentais regressivas e tributação progressiva
. valorizo segurar as "privatizações", pois privatizar, especialmente no Brasil, significa passar a propriedade daqueles capitais (Petrobrás, Embraer, bancos estatais, e por ai vai) para os ricos. E ainda creio que boa parte do capital a ser colocado pelos ricos nesse tipo de negócio será repassado pelo governo por aquelas vias do BNDES, os próprios bancos do Brasil e Caixa.

Meu breve contra a sociedade desigual é a criação de empregos para todos, a democracia e a liberdade, o distanciamento e subserviência de relações formais e a ação livre de trabalhadores independentes livremente associados. O mercado não dará empregos para todos, o estado poderá fazê-lo mas em críticas condições de produção. Mas ele também pode transferir suas responsabilidade para o setor comunitário e até para as famílias fazendo maravilhas: quem não quer emprego no setor privado que vá para o setor estatal ou comunitário,

DdAB

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Marcelo d'Salete e a Desigualdade

Querido diário:

Não tenho acompanhado a literatura de quadrinhos que, nesses anos todos, se tornou uma atividade literária séria. Neste filão foi que o jornal Zero Hora, na página 5 de seu "Segundo Caderno", vemos uma entrevista com Marcelo d'Salete, "ilustrador, professor, denhista e roteirista". O título da matéria já é estranho para o padrão do jornal: "O Brasil precisa lutar contra a desigualdade".

Transcrevo a última pergunta da entrevista feita por um jornalista (oslt) não identificado:

Pergunta:
O que pensa do atual momento político?

Resposta:
Estamos em um momento político bem delicado de crise realmente. É no mínimo um retrocesso. Ouvimos discursos machistas, sexistas, racistas sendo propagandeados durante a campanha à presidência. É inadmissível que esse tipo de fala aceito seja pela população. Fala que defende tortura, morte de presos, de que não deve haver oposição. Agora, penso que é um momento importante também para que a população organizada faça oposição. O Brasil precisa lutar contra a desigualdade, que é um mal, uma chaga, uma cicatriz que a gente ainda tem do período colonial e não foi resolvida. Continuamos governando para uma parcela pequena da sociedade. Tem que romper com esse ciclo. A população negra, indígena e pobre sobreviveu a processos de genocídio, de matança desenfreada, de uma violência desmedida e claro que mais uma vez mais mostrar sua força diante de pessoas que demonstram não estara minimamente interessadas ou preparadas para governar de fato ppara todos os brasileiros. É preciso resistir.

Comento:
Eu me senti recompensado por ter me interessado e lido toda a entrevista. Ele não mencionou o nome do candidato eleito para a presidência da república, mas revela sua preocupação e  revolta com o apoio às idéias autoritárias do eleito. Repito, para eu mesmo decorar estas apreciações:

.1 É inadmissível que esse tipo de fala aceito seja pela população.
.2 [Ele] fala que defende tortura, morte de presos, de que não deve haver oposição. 
.3 Agora, penso que é um momento importante também para que a população organizada faça oposição. 
.4 O Brasil precisa lutar contra a desigualdade, que é um mal, uma chaga, uma cicatriz que a gente ainda tem do período colonial e não foi resolvida.

Olha só que ele entende que realmente Bolsonaro foi eleito por uma parte da população que incorporou eleitoralmente essas atrocidades, nomeadamente, tortura, morte de presos, banimento da oposição. Quando lemos este tipo de retrato da realidade, ficamos realmente petrificados. O povo gosta de tortura? O povo gosta de morte de presos? O povo deseja um governo sem oposição? Ele, falando em negros e índios e seu genocídio ele está falando muito além da simples defesa da maioria da população do Brasil (negros e pardos já são mais da metade da população; não olhei os dados de descendentes de índios, mas bem sabemos que os pobres representam no mínimo 80%, talvez 90%).

Recentemente mais pesquisadores, no caso, a turma da Oxfam, diagnosticou e apavorou-se com o grau de desigualdade vigente no Brasil, ascendente nos últimos dois anos. Tem gente que não conhece estas peculiaridades deste gigante territorial e populacional, povoado por pigmeus de capital humano, conforme retratam aquelas "paradas de gigantes e anões". Tem gente que não entende que o verdadeiro problema da população é a desigualdade. Tem gente que votou num programa econômico de aprofundamento da concepção de estado mínimo.

Eu e Keynes temos claro que o emprego no setor privado acabou, desde 1930, em virtude do avanço da tecnologia poupadora de mão-de-obra. Ele previa uma era de prosperidade, em que o problema deixava de ser a escassez, mas a adaptação da população para a cultura do lazer. Se não haverá mais empregos para todos, cabe à dupla estado-comunidade criá-los, nem que sejam os fake jobs.

Mesmo que trabalhemos apenas uma ou duas horas por dia, o vínculo empregatício com o mercado-governo-comunidade é fundamental para a auto-estima, para a manutenção da forma física e psicológica do trabalhador, para sua disciplina (acordar cedo, vestir-se, etc.) e muitas outras vantagens que nem posso imaginar. Por outro lado, o que fazem os ricos já nos dias que correm? Não trabalham, mas dedicam seu tempo e disciplina para produzir ou consumir arte e praticar ou olhar esportes.

Quem não queria um mundo desses para todos?

DdAB
P.S. A imagem lá de cima é da capa de um livro de Joel Rufino dos Santos que li em meus tempos de estudante do hoje chamado ensino médio. Inebriado pelos eflúvios da peça de teatro Arena Conta Zumbi, vim a saber do livro e até hoje penso que a peça é baseada no livro. A capa que aqui exponho, se a memória não se desvaneceu, é diferente daquela que li.

domingo, 25 de novembro de 2018

Edward Wilson, 52-53 e 74

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Querido diário:

Digamos que, em 1987 ou 1988, comecei minha trajetória na leitura da biologia evolucionária e, em menor grau, a economia evolucionária. E como é que foi meu começo? Meu amigo e colega duplo (UFRGS e UFSC), prof. João Rogério Sanson, emprestou-me um livro de Edward Wilson. Simplesmente dei uma olhada na internet, Amazon, Estante Virtual, e nada de lembrar o título. O fato é que anotei algo em meus manuscritos relativo ao que ele sugere seria uma civilização de formigas e suas "panelas". Ele fala, entre outras atividades, cabeleireiro, necrotério, restaurante, e nem lembro se é isto mesmo, e muito mais.

Depois li a biografia dele. Tem em português, mas li em inglês, naquele tempo em que eu viajava muito pra cima e pra baixo e comparei preços em cruzados, cruzadinhos, cruzeiros, sei lá, e em libras esterlinas. E era o tempo do câmbio louco do imediato pós-Plano Real.

Em compensação, semanas atrás, por influência de meu sobrinho, o herpetologista Arthur Abegg, li, assim:

WILSON, O. Edward (2015) Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras. Tradução de Rogério Galindo.

Galindo? Parece aparentado (irmão?) de Caetano Galindo, terceiro tradutor do Ulysses, de James Joyce para o português brasileiro. Eis que tem outra tradução para o português europeu.

Sigo. Vou citar, para felicidade geral da nação, duas passagens que reputo de extraordinárias. Elas se localizam nas páginas 52-53 e 74. E lá em cima, temos uma formiga argentina, a que -talvez- ainda venha a ser a única espécie terráquea.

Página 53 - ciência e sobrenatural

   Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que a raça humana surgiu, como em um evento sobrenatural, totalmente madura em sua forma presente. Hoje compreendemos, de maneira bem diferente, que a nossa espécia descendeu, num processo de 6 milhões de anos, de macacos africanos que também foram ancestrais dos modernos chimpanzés.
   Como Freud observou certa vez, Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo, Darwin, que nós não estamos no centro da vida, e ele, Freud, que nós não estamos nem mesmo no controles de nossas próprias mentes. É claro, o grande psicanalista deve dividir o crédito com Darwin, entre outros, mas ele está certo ao dizer que o consciente é apenas parte do processo do pensamento.
   Em resumo, por meio da ciência nós começamos a responder de modo mais coerente e convincente duas das grandes e simples questões da religião e da filosofia: de onde viemos? E o que somos? É claro, as religiões institucionalizadas afirmam ter respondido essas duas perguntas há muito tempo, usando histórias sobrenaturais de criação. Você pode muito bem perguntar, portanto, se um crente religioso que aceita uma dessas histórias pode fazer boa ciência mesmo assim. É claro que pode. Mas ele será forçado a dividir sua visão do mundo em dois domínios, um secular e outro sobrenatural, e a permanecer no domínio secular enquanto trabalha. Não será difícil para ele encontrar empreendimentos dentro da pesquisa científica que não têm qualquer relação imediata com a teologia. Essa sugestão não pretende ser cínica, nem significa um fechamento da mente científica.
   Se fossem encontradas provas de uma entidade ou força sobrenatural que afeta o mundo real, o que todas essas religiões afirmam, isso mudaria tudo. A ciência não é inerentemente contrária a essa possibilidade. Pesquisadores, na verdade, têm todos os motivos para fazer essa descoberta, se ela for viável. O cientista que conseguisse fazer isso seria visto como o Newton, Darwin, Einstein, todos juntos, de uma nova era na história da ciência alegando ter provas do sobrenatural. Todos, no entanto, foram baseados em tentativas de provar uma proposição negativa. Normalmente, o formato é o seguinte: "Nós não fomos capazes de encontrar uma explicação para esse e aquele fenômeno; portanto, ele deve ter sido criado por Deus". Versões atuais ainda em circulação incluem o argumento de que como a ciência ainda não pode oferecer um relato convincente sobre a origem do universo e sobre o estabelecimento das constantes físicas universais, então isso deve ser criação divina. Um segundo argumento que se ouve é que como algumas estruturas moleculares e reações na na célula parecem complexas demais (para o autor do argumento, pelo menos) para terem sido formatadas pela seleção natural, elas devem ter sido projetadas por uma inteligência maior. E mais uma: como a mente humana e especialmente o livre-arbítrio como parte essencial da mente parecem estar além da capacidade da causa e efeito materiais, eles devem ter sido inventados por Deus.
   A dificuldade em crer em hipóteses negativas para dar sustentação a uma ciência baseada na fé é que, se elas estiverem erradas, elas também estão muito vulneráveis a contraprovas decisivas. Basta uma prova verificável de uma causa real e física para destruir o argumento de uma causa sobrenatural. E precisamente isso, na verdade, tem sido uma grande parte da história da ciência, à medida que ela evoluiu de fenômeno em fenômeno. O mundo gira em torno do Sol, o Sol é uma estrela entre 2 milhões de outras ou mais em uma galáxia entre centenas de bilhões de galáxias, a humanidade descende de macacos africanos, os genes mudam por meio de mutações aleatórias, a mente é um processo físico em um órgão físico. De acordo com a compreensão naturalista do mundo real, a mão divina foi retirada pouco a pouco de quase todo o espaço e o tempo. As oportunidades restantes de encontrar evidências do sobrenatural estão se fechando rapidamente.
   Como cientista, mantenha sua mente aberta para qualquer fenômeno possível restante no grande desconhecido. Mas nunca se esqueça de que sua profissão é a exploração do mundo real, sem preconceitos ou ídolos mentais aceitos, e que a verdade verificável é a única moeda nesse reino.

Página 74 em que vemos uma ironia do autor relativamente à linha de montagem na produção de artigos científicos. Ele acha que a descoberta é algo individual. E eu, em geral, discordo e bem que gostaria de estar comendo croissants acompanhando meu café de caneca... (E ganhando em dólares americanos...).

   [...] há os adorados think tanks de ciência e tecnologia, onde alguns dos melhores e mais brilhantes de suas áreas são reunidos explicitamente para criar novas ideias e produtos. Visitei o Santa Fe Institute no Novo México, assim como as divisões de desenvolvimento da Apple e do Google, dois dos gigantes corporativos dos Estados Unidos, e admito que fiquei muito impressionado com o ambiente futurista deles. Na Google até comentei: 'Essa é a universidade do futuro'.
   Nesses lugares, a ideia é alimentar e abrigar pessoas muito inteligentes e deixar que elas perambulem por ali, se encontrem em pequenos grupos tomando café e comendo croissants [sic, sem itálico no livro], e troquem ideias umas com as outras. E depois, talvez enquanto cruzam um gramado muito bem cuidado a caminho de seu almoço gourmet [idem], eles terão uma epifania. Isso certamente funciona, em especial se já existe um problema bem formulado na ciência teórica ou se é preciso criar um produto.
   Mas o pensamento coletivo é o melhor modo de criar ciência realmente nova? Arriscando-me a uma heresia, eu discordo [...].

Uma vez que "alguns dos melhores e mais brilhantes de suas áreas" encontram-se num mundo que já estava bastante avançado cultural e educacionalmente quando nasceram e foram educados, penso que temos aí uma afirmação cabal do primeiro princípio da sociedade justa tal como apresentado por David Harvey (lá no primeiro P.S. daqui): Desigualdade intrínseca: todos têm direito ao resultado do esforço produtivo, independentemente da contribuição.

DdAB

P.S. Estas páginas 52-53 implicam necessariamente que não existe Deus? Embora eu seja da campanha "Ateus, saiam do armário", não posso deixar de colocar restrições ao materialismo absoluto, pois quem sabe lá o que houve antes do Big Bang? E quem sabe lá o que quer dizer que 85% da massa do universo é constituída por matéria escura (aqui).
P.S.S. A imagem é da formiga argentina.