terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cambulhada: Alice, 27 e a Justiça

Querido Blog:
Não sei se atinjo o cravo ou a ferradura, como diziam os medievais. Vejo, respondendo à busca por "cambulhada" uma certa Alice com os esquilos e suas maravihas. Parece haver até um gambá. Cambulhada, pelo Sr. Aurelião, é o mesmo que cambada, objetos pendurados numa fieira. E eu pensava que cambada era o coletivo de caranguejos. Seja como for, temos dois artigos na parte dos "assinados" de ZH de hoje.
.a. A Justiça e a sociedade, do desembargador Flavio Portinho Sirangelo
.b. Se Alice voltasse..., da desembargadora Naele Ochoa Piazzeta.
(para olhar, basta clicar).

O primeiro, o desembargador, não o artigo, é também diretor da Escola Judicial do TRT-RS. Bem, nunca ouvi falar nela. Temo que seja um cursinho prepartatório para concursos do TRT-RS. Aí começaria um assunto. O desembargador faz um apelo à "[...] adoção de posturas mais éticas em face desse valor fundamental que se chama Justiça." Na minha opinião, crime de opinião não é crime, logo posso dizer com franqueza: sou de opinião que o poder judiciário deveria ser fechado (bem como o senado federal e os estados), pois o de que precisamos é de um sistema judiciário eficiente. E este é atribuição do executivo, como a polícia e a coleta de lixo urbano. Gente que ganha R$ 27.000 por mês não deveria julgar ninguém, mas ser julgado por rompimento com posturas éticas.

A desembargadora teve o artigo associado também a outro, de um carimbadíssimo deputado (não vou dar o link, sô), dizendo que se faz necessária uma reforma política, um troço assim. De cambulhada, ela também tem propostas de mudança. Diz que Alice Caroll oslt ficaria estupefata, ao ver que o País dos Espelhos é mesmo o Brazil, um troço assim. De minha parte, eu também estou do lado de Jesus. Eu também acho que chegou a "[...] hora de realizarmos um combate efetivo à corrupção [...]". Só que acho que eles se esqueceram de dizer que quem ganha R$ 27.000 também é o inimigo. Esses caras são os ricos. Neste tipo de assunto, os ricos padecem do que se chama de insight pobre!
DdAB

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Jair Soares e os Impostos

Querido Blog:
Jair Soares é o carinha da esquerda, digo, na posição fotográfica mais para o lado, pois na política a foto já diz tudo: os dois extremistas são ministros dos tempos da ditadura militar eletiva. Jair também formou-se em odontologia e também foi governador do Rio Grande do Sul. Jair, enquanto ministro da previdência social, encanadíssimo com o déficit, propôs e conseguiu elevar a alíquota de desconto dos trabalhadores de 8 para 8 1/2 por cento. A malta reclamou, mas ele invocou apenas que nada havia de errado com aquilo, pois -com a inflação- tudo subia e ele não via razão para que só o ministério lá dele ficasse sempre com o mesmo preço.

Hoje a pérola jornalística do Rio Grande do Sul tem, na página dos artigos assinados, uma pérola assinada pelo político que, saindo-se como pôde do cargo de governador, passou uma temporada fora das burras e a elas voltou no cargo de vereador. Rimar, rima. Contracheque também há, mas era já a tradição de cargo a qualquer custo. Depois, o combativo vereador elegeu-se deputado estadual. Hoje não sei bem quem lhe paga os estipêndios, o fato é que ele preocupa-se com "o contribuinte". Título esclarecedor: "Em defesa dos contribuintes". Então aquele negócio dos otto e mezzo era bafo? Ele não queria que, com a inflação ascendente, sua participação no produto interno bruto a preços do consumidor, ascendesse a 100%? Ou mais? Marx falara "nem que os preços caiam 1.000%", Jair queria que a alíquita da previdência subisse a 1.000%? Só pode ser jogada da turma da galhofa.

Por toda essa realidade, advogo a ideia de iniciarmos aqui, através de legislação local, o que servirá [...] de normas restritivas ao aumento da carga tributária, bem como de freio aos gastos correntes, evitando déficits/dívidas que ao fim serão suportados pela comunidade.

Faltou-lhe, nestes anos todos, o curso de teoria da escolha pública que desejo ver como norma restritiva à prática eleitoral, inclusive para que a comunidade possa parar de suportar o amadorismo não apenas dele mas -principalmente- de milhares de outros. Será que ele sabe a diferença entre impostos diretos e indiretos? Será que ele sabe que apenas os últimos é que são distorcivos? Será que ele sabe que a Malásia exporta mais de 100% de seu PIB? E que o imposto de renda poderia ser de 250%, 251%, sei lá? E que o PIB seguiria representando 100% do PIB e, como tal, a despesa também representaria 100% da despesa e o consumo das famílias, que seriam seus "contribuintes", eleitores, sei lá, seguiria representando os mesmos 100% do consumo das famílias? Não, acho que ele não sabe e também acho que ele não quer saber.
DdAB

domingo, 6 de dezembro de 2009

Drogas Recreativas para os Presidentes

Querido Blog:
Todos sabem o apreço que tenho pelos presidentes da república do Brasil, de FHC a LILdS. As críticas acres que às vezes lhes endereço devem ser entendidas apenas como incentivos para sua ainda mais espetacular prática do bem. Nem todos sabem que vemos na foto acima o que capturei do Google Images com a busca "droga recreativa". Vemos, além de -para mim-, ininteligíveis ideogramas, folhas do cânhamo e badges as mais variadas.

Por outro lado, Zero Hora de hoje publicou na p.13 um artigo de FHC, intitulado "O Desafio das Drogas". Sensato o príncipe dos sociólogos, exceto quando trata da política contemporânea do Brasil, assunto em que sua empáfia não o deixa entender que o LILdS é mais político do que ele, ambos tendo enriquecido por exercerem com exação seus notáveis dotes de empresários schumpeterianos (terceiro tipo classificado por Baumol), se me faço entender.Vou fazer um resumo, em forma de diálogo do FHC com DdAB:

FHC: Um dos temas mais difíceis do mundo contemporâneo é o que fazer com o uso de drogas.

DdAB: tá certíssimo.

FHC: [...] o uso de drogas se disseminou em vários níveis da sociedade, com motivações hedonísticas [...]

DdAB: tá certíssimo, só que, além das motivações hedonísticas de uma meia dúzia de indivíduos hedonistas, há bilhões de viciados por loucura ou incúria. No primeiro caso, a origem é familiar etc., ao passo que no segundo, ela é eminentemente social. Sem emprego, tem gente que vai para o mercado informal. E daí para o mal (não confundir com o MALA*). É fundamental reconhecer no grupo dos hedonistas o direito ao consumo recreativo, como aprendi com Richard Layard, pois já o reconhecemos para jogos, cafeína, sapatos, automóveis e tantos outros objetos de colecionismo.

FHC: Até agora, a estratégia dominante tem sido a chamada “guerra às drogas”. Foi sob a sua égide, sustentada fundamentalmente pelos Estados Unidos, que as Nações Unidas firmaram convênios para generalizar a criminalização do uso e a repressão da produção e do tráfico de drogas.

DdAB: os Estados Unidos e sua ampliação a ONU são sabidamente estranhos. No primeiro, o fracasso da lei seca foi um incentivo para o crime organizado. Na segunda, não podemos falar em sucesso esse negócio de nações unidas, pois o problema é que o estado nacional acabou e a ação coletiva ainda não conseguiu mobilizar-se. Tem que criar estratégias “ganha-ganha”.

FHC: Decorridos 10 anos, [...]de “guerra às drogas” [...n]ossa conclusão foi simples e direta: estamos perdendo a guerra [...].

DdAB: Há semanas li uma brilhante reportagem sobre o tema em Carta Capital! E é isto mesmo, FHC!

FHC: [...] em lugar de teimar irrefletidamente na mesma estratégia, que não tem conseguido reduzir a lucratividade e consequentemente o poderio da indústria da droga, por que não mudar a abordagem? Por que não concentrar nossos esforços na redução do consumo e na diminuição dos danos causados pelo flagelo pessoal e social das drogas? Isso sem descuidar da repressão, mas dando-lhe foco: combater o crime organizado e a corrupção, ao invés de botar nas cadeias muitos milhares de usuários de drogas.

DdAB: não mudam a abordagem por moralismo, burrice e interesses escusos, um trio de respeito.

FHC: Em todo o mundo, se observa um afastamento do modelo puramente coercitivo, inclusive em alguns Estados americanos. Em Portugal, onde, desde 2001, vigora um modelo calcado na prevenção, na assistência e na reabilitação, diziam os críticos que o consumo de drogas explodiria. Não foi o que se verificou. Ao contrário, houve redução, em especial entre jovens de 15 a 19 anos. Seria simplista, porém, propor que imitássemos aqui as experiências de outros países, sem maiores considerações.

DdAB: Portugal, hein? diziam que os portugas são burros, mas estamos levando um vareio. Acho que os portugueses têm muito maior produção intelectual do que o Brasil com um vinteavos da população local.

FHC: [...] Enquanto houver demanda e lucratividade em alta, será difícil deter a atração que o tráfico exerce para uma massa de jovens, muitos quase crianças, das camadas pobres da população.

DdAB: claro, né, meu? e a saída é criarmos logo a Brigada Ambiental Municipal, complementando substantivamente os valores da renda básica universal. Bota a negadinha a estudar, fazer exercício físico e trabalho social. Ganharás empresários, atletas e humanistas. E por que que tu não fez isto no teu governo?

FHC: [...] por não “abrir o jogo”, como fizemos com a aids e o tabaco, não só por intermédio de campanhas públicas pela TV, mas na conversa cotidiana nas famílias, no trabalho e nas escolas? Por que não utilizar as experiências dos que, na cadeia ou fora dela, podem testemunhar as ilusões da euforia das drogas?

DdAB: o aborto também, a gravidez indesejada, tudo, tudo, tudo resolve-se com mais liberdade, mais informação e não menos. Só o Duilho Médici pensava que pau nos pobres resolve!

FHC: As experiências mais bem-sucedidas têm sido as que vêm em nome da paz e não da guerra: é a polícia pacificadora do Rio de Janeiro, não a matadora, que leva esperança às vítimas das redes de droga.

DdAB: é mesmo o príncipe dos sociólogos, não é? o problema dele é que, na maior parte do tempo, ele só pensa no passado ou no Lula e não no futuro.


FHC?
DdAB!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Patamares da estupidez

Querido Blog:
dá uma olhada no artigo abaixo. veio da Folha de São Paulo de hoje. é burrice não comer este tipo de torta e, at the same time, é burrice que uno se vicie en azucar.

Mudou de patamar (Ruy Castro)
Em Maceió, na semana passada, mais uma mãe acorrentou a filha à cama para evitar que saísse à rua e fosse assassinada por traficantes, com quem tinha uma dívida pesada por drogas. A garota, 15 anos, é dependente de crack desde os 12; também já é mãe e costuma se prostituir em função do produto. Em contrapartida, relatos sobre pais que saem para buscar crack e abandonam seus bebês em casa durante horas são diários e em todo o país. Em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, também na semana passada, um casal usuário de crack, num surto de abstinência, arremessou o filho de 1 ano e 3 meses contra a parede. Ainda em BH, um pai chamou a PM para conter a agressividade do filho, 29 anos, que fumava crack em casa e o ameaçava. À chegada da polícia, o rapaz reagiu com uma faca e foi morto com 12 tiros, na frente da família. No Rio, perto da Mangueira, um homem de 65 anos matou a filha, de 42, com uma facada no coração. A moça e o marido, dependentes de crack, tentavam agredir a mãe dela, usando uma barra de ferro e uma garrafa quebrada. O pai pegou uma faca de cozinha e, para defender a mulher, acertou a filha. Há pouco mais de um mês, idem no Rio, outro dependente, 26 anos, foi entregue à polícia pelo pai após matar a namorada, de 18. Com o crack, nenhuma família fica de pé. O problema da droga no Brasil mudou de patamar. Não se trata mais de jovens que, depois de anos de uso esporádico e recreativo de drogas "leves", tornam-se dependentes e problemáticos. Agora, usou, bateu -ninguém usa crack recreativamente-, em todas as faixas sociais, culturais e de idade. Sim, o ser humano sempre usará drogas. Se houver oferta. Há menos de dez anos, o crack estava restrito a uma esquina de São Paulo. Não se cuidou dele e, agora, o drama é nacional. E ninguém está a salvo.


Minha primeira reação àquela lista infindáveis de vítimas do moralismo dos políticos e de outros ladrões e traficantes foi de puxar pelo ridículo. Lembrei-me de antigas folhinhas ensebadas que circulavam nos meios que eu frequentava e contavam histórias que, depois passaram a chamar-se de lendas urbanas. E também havia os messiânicos e milenaristas, como é o caso de um daqueles generais japoneses que -por não ter dado pelota a sei-lá-o-quê- passou por vicissitudes nunca dantes navegadas. Ridículos esses generais, esses jornalistas e esse mundo que pensa que o problema da droga é um problema.

O artigo está reproduzido acima, para fins de facilitar-me futuras referências, pois não sou useiro na Folha de São Paulo, uma droga de jornal, ou seja, substituta perfeita de minha milenar Zero Hora. Eu acrescentaria que, na progressista cidade da bergamota montenegrina, mais de 97% (ou era menos e não lembro?) dos crimes envolvem o uso ou tráfico de crack. Ao ler em Zero Hora esta cifra, pensei: se o prefeito de Montenegro não fosse um ladrão, já teria implantado uma sala de consumo naquela bergamotista coluna.

Façamos um ligeiro corpo-a-corpo com o jornalista. Ninguém se torna dependente de drogas, o que ocorre é o contrário: o indivíduo problemático é que se dedica ao consumo desenfreado de drogas, álcool, escrever nos bancos de praça, colecionar flâmulas de grêmios estudantis, bolinhas de gude, o que seja. Consumo compulsivo é uma doença que se expressa de várias formas. Se alguns doentes caem nas mãos dos traficantes, a responsabilidade é dos políticos (ergo, ladrões) que não conseguem colocar algum altruísmo em sua função utilidade.

Naturalmente, o ser humano sempre usará drogas, pelo menos durante o período em que nos seja legítimo pensar e chamar de "seres humanos". Um menino de rua disse-me que gosta da expressão "humáquia", que pega gente portadora desde próteses dentárias a corações de porco. E também pegará gente com platina não apenas no sistema ósseo, mas com -sei lá, plutônio- coisas estranhas nas entranhas, sei lá.

Enquanto houver humanos, haverá oferta de bens e serviços destinados a atender às necessidades humanas. Parece que a tirada de Ruy Castro é que é de pobreza imaginativa característica de nossos melhores (id est, piores) moralistas. O verdadeiro drama nacional, eu diria, endereçando-me ao final de seu artigo é o Gini = 0,5. Com Gini = 0,3, por exemplo, teríamos a mãe do menino de rua sendo -digamos- artista plástica e o menino de rua estudando inglês com a mãe do traficante de crack. Teríamos duas importantes consequencias:
.a. o menino de rua não estaria na rua
.b. o traficante não seria traficante.
Na sociedade igualitária, meu chapa, não há espaço para o crime de ladrões comuns. Nem -by the way- de colarinho branco.
DdAB

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Direitização e Funcionalismo


Querido Blog:
Dizque há alguns anos, ainda vivo, meu amado Andrew Glyn ficou espantosamente surpreso ao saber que eu preferia BigMac a spaghetti e Coca-cola a champanhe. Sabendo que ele poderia seguir-se surpreendendo, mudei de hábito: passei a mentir preferir low fat cheese e água. Seja como for, desde aquele tempo, eu tinha a sensação de que -depois de ter comido um BigMac com fritas, como observamos na bandeja acima, eu tinha a sensação de que bygones are bygones. Ou, como disseram Sá, Rodrix e Guarabira, no disco "Passado, Presente, Futuro", "o que passou, passou".

Ainda assim, o tom milenarista do artigo de Waldir José Rampinelli, na p.2 (clicar/ver) do Boletim APUFSC Sindical, de minha associação de professores sindicatilizados de Floripa, deixa-me contrafeito. O título do artigo é "A direitização na UFSC e a função do CFH". São mais de 10 anos que de lá saí, aposentado. Não lembro o que é CFH, talvez Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Lembro ligeiramente do movimento docente, lembro que assumi publicamente minha posição contrária ao movimento grevista. Lembro de que Pedro Antonio Vieira disse-me não poder afford a mesma posição, pois eu -ao sair de Porto Alegre em 1995- não carreguei meu chapéu. Ou seja, ao reter o chapéu original, sua história o impedia de fazer certos movimentos radicais.

No outro dia, fiz comentários ao artigo de Hélio Pellegrino. Ele próprio fazia suas considerações sobre as instituições que emperram o desenrolar da História (nota bene o h e o H). Também vivo pensando no significado desta, com H. Nasce como tragédia e se repete como comédia, quando o faz. Era Marx, "18 de Brumário"? Eu tenho lá minhas antipatias por este tipo de história que serve para nos escravizar, negligenciando possibilidades libertadoras. Seja como for, greve é grave e vim a entender que ainda se faz greve, no Brasil, como uma espécie de gincana da tomada de consciência. E também pela falta de uma diretriz realmente interessante sobre o que fazer para mobilizar a -diz Billy Blanco- plebe rude.

Falar em plebe rude é casca grossa e requer importantes definições. Quem, afinal, é alienado e quem é que detém o verdadeiro sentimento do mundo? Por um lado, acho que Chávez, Fidel Castro, Somoza, Stroessner, Joseph Stálin, Mao-Zedong, o carinha da Coréia do Norte, essa macacada, são ilegítimos. Mesmo que eleitos, como pilhas de milicos brasileiros. Por outro lado, acho que há dois resultados eleitorais sagrados: o do reitor da UFSC e o da direção do CFH. A palavra chave é "falsa consciência". Quem expressou falsa consciência ao votar, o povo da Venezuela, ou o da Colômbia, países já jurados de guerra em breve? Haverá, em ambos os países, eleições que eternizem no poder os rapazes hoje por lá jungidos? Sou incapaz de pensar no assunto com a suficiente profundidade que ele requer. Intuo que haverá um problema eleitoral, um problema com a plebe rude, outro com a definição de democracia e outro ainda com a definição de fascismo, de que falarei mais abaixo.

Pois bem, em minha opinião, o artigo de Rampinelli é ranzinza (ver "Aurelião"), pois acusa de direitosos os eleitos para a reitoria e para o CFH, além -claro- dos atuais dirigentes da associação dos professores. Transcrevo e comento dois trechos.

Na UFSC, parte da esquerda e da centroesquerda – que não apenas lutou contra a
ditadura militar, mas que também defendeu a universidade pública, gratuita e de qualidade, criando, inclusive, um sindicato combativo – se deslocou, mais recentemente, para posições conservadoras, tendo alguns migrados para a “nova direita” e um pequeno grupo avançado para posições fascistas. As razões internas
para esta direitização generalizada em nossa universidade se devem a várias causas, tais como a) a busca pelo poder por meio de um cargo na estrutura da instituição; b) a vitória da administração central, nas últimas eleições para a reitoria, nos três segmentos de categorias; c)o encerramento provisório do tema dos escândalos
financeiros das fundações de apoio; d) o crescimento da interferência da reitoria sobre os sindicatos dos docentes, dos servidores e de alguns centros acadêmicos de estudantes; e) o incremento de assessorias e bolsas para professores, aumentando sua renda salarial; f) a criação de cerca de duzentas funções gratificadas,
permitindo que o reitor acomodasse um número significativo de pessoas na estrutura
da universidade; g) a onda de crescimento e de expansionismo da universidade em Santa
Catarina, que dá à administração central força para impor-se internamente; h) e a capacidade extraordinária que a esquerda tem de se fragmentar a cada processo eleitoral.

Diante deste quadro, e com uma crise sistêmico-estrutural assustando muita gente,
há uma corrida pela busca de um abrigo supostamente seguro na estrutura de poder. O
ideólogo de ontem se tornou um pragmático de hoje, sem passar pela vergonha de ter de
explicar seu passado rejeitado. O pensamento conservador avança para a direitização e passamos a presenciar, pela primeira vez na história da Universidade Federal de Santa Catarina, acontecimentos tais como: a) um pró-reitor – com o consentimento do reitor – processar dois professores por suas manifestações de opinião, fato este nunca ocorrido, nem mesmo durante a ditadura militar; b) um professor do Conselho
Editorial da EdUFSC, pertencente ao Departamento de Engenharia Elétrica, se contrapor a dois pareceristas favoráveis à publicação de um livro – sendo um deles de renome nacional –, com o claro objetivo de censurar um trabalho histórico-político sobre a Colômbia, já tornado público em três países por conta de sua relevância; c) uma administração central que se nega a retirar um processo
contra estudantes, criminalizando um movimento de jovens que luta por melhores condições de sobrevivência na instituição; d) decisões de conselhos e de
colegiados que simplesmente são ignoradas por quem deveria implementá-las, o que caberia inclusive, dentro de uma ordem democrática, a figura do impeachment
contra tais pessoas. Enfim, presenciamos o desrespeito às normas básicas de uma
democracia burguesa. Para agravar esta direitização, aparecem os fascistas, assumindo claramente uma posição antinegros, antiíndios, antihomossexuais, antibrancos pobres, antissindicatos de classe, antimovimentos sociais, anti-partidos de esquerda e, por incrível que pareça, anticiências humanas
e antifilosofia (sic).

A “nova direita” entende – como afirmava Welch – que as únicas vitórias políticas
seguras só podem ser alcançadas por meio de organizações não políticas que disponham
de um fim mais seguro, positivo e permanente que os fins políticos imediatos.
Enfim, através de organizações que tenham base, coesão, força clara e uma direção estável, características impossíveis de serem encontradas nas instâncias tradicionais do partido político.

Portanto, cabe à direção do CFH atuar, também, no exercício da política nesta dura
conjuntura de direitização em nossa universidade. Cooperar com o avanço do pensamento
conservador na UFSC na perspectiva de angariar mais poder é servir a um projeto
elitista, traindo o programa pelo qual foi eleita esta direção.

Stop. Pois o que é que fica do "pequeno grupo avançado para posições fascistas"? Os antinegros, antiíndios etc. serão os referidos como parte da esquerda e da centro-esquerda que "se deslocou"? Ou é apenas uma mistureba de assuntos, voltados a preparar a transição para falar do CFH? Antes, reflitamos sobre "as razões internas da direitização". Na razão .b., vemos que -ao lado de Chávez e do Colombiano- houve uma vitória dos atuais detentores do poder na administração central "nos três segmentos de categorias". Que são eles? Estudantes, funcionários e professores? Operários, soldados e camponeses? Será que os segmentos esposam falsa consciência? O item .d. é absoluto consenso entre os interlocutores ou uma tese que precisa de testes de verificabilidade (definir interferência, definir período de tempo relevante, comparar com igual fenômeno das administrações anteriores etc.)? Os itens .e. e .f. não estariam a explicar a "hegemonia", tudo no mundo fazendo "escolhas racionais"? No jargão economês, não teriam sido subornados pelas bolsas e funções gratificadas? E o expansionismo do item .g., acompanha-se de direitização de todo o sistema federal de ensino superior e do próprio Presidente Luiz Ignácio Lula da Silva, o rapaz que -aparentemente- odeia reeleições?

O item da extraordinária capacidade de fragmentação da esquerda -o .h.- parece-me o mais maravilhoso do artigo. Obviamente, isto acontece, obviamente isto não pode ser declarado como manobra da direita, pelo menos não pode, se usarmos o manual SWOT (o que nos enfraquece?, o que fortalece nossos adversários?). Ou seja, a direita tem o dever legal de tentar enfraquecer-nos e nós temos o compromisso institucional de tentar enfraquecê-la. Mas também precisamos indagar-nos se foi a direita mesmo que nos enfraqueceu, se nos estamos tornando mesmo direitosos, ou se isto é que é a tese do artigo, logo não é argumento em favor da tese. Explicação funcionalista, no caso extremo e desagradável (preservando das críticas a explicação funcional agradável), diz algo como "A e B implicam B. Ora, observamos B, logo também devemos estar observando A". No caso, é isto: rolaram funções gratificadas? Então houve direitização. Não sei se Rampinelli pensa estar fazendo ciência social ao escrever com frequencia para o Boletim. Seu tom milenarista é inegável. Meu milenarismo -in sharp contrast- nada mais é do que a aplicação impiedosa da teoria da escolha racional e, infelizmente, algumas improvisações originárias de meu próprio cérebro. Ou seja, se a negadinha elegeu o reitor e o diretor pensando em vantagens materiais e eles criaram tais vantagens, nada há que possa ser criticado, durante o atual mandato. Ou seja, as regras do jogo não podem ser mudadas em benefício de eternas Chávez ou Somoza ou Haya de La Torre(era isto?). Mas uma plataforma eleitoral que acena com bolsas e efegês e -demagogicamente?- as paga deve ser declarada muito do sabidinha, pois cria lealdades inquebrantáveis. "O povo gosta de mordomia, quem gosta de miséria é o intelectual", teria dito um frasista cujo treinamento nas ciências sociais não deve ser levado excessivamente a sério.

Sem nos desesperarmos por aqui, podemos ler a itemização do arrazoado do parágrafo "Diante deste quadro...". Se não vejo enormes problemas com o quadro, não chego a tremer diante dele. Mas vejo com quem vê, por exemplo, o já alardeadíssimo -no Boletim- insurgimento de gente que achou que o pró-reitor que processou desafetos está agindo de atrabiliário. Desagradam-me pró-reitores que resolvem suas querelas pela via do pugilato, mas a busca de soluções judiciais não me desagradam. A todos nós deve ser assegurado o direito de emitir opiniões. E -claro- todos têm que responder por elas, no sentido de as manterem ou retificarem. Caso não haja acordo sobre o conteúdo de ofensa à honra pessoal embutida em opiniões (por exemplo, minha consideração de que todo político é ladrão), é preciso a busca de soluções pelo duelo (discordo), pela busca de intermediações por third parties, a busca de ajuda judicial (todo juiz é ladrão, I'm afraid). Segundo exemplo: o tal livro recomendado por Rampinelli e que alguém da atual administração superior, encarregada pelos operários, camponeses e soldados, digo, professores, funcionários e estudantes, de gerir a UFSC discorde de suas preferências literárias. Ou seja, ele queria o livro, uns neguinhos da reitoria não o queriam. Rampinelli queria que eles quisessem. Não o querendo, eles passaram a ser declarados como censores. E já temos os fascistas. E a questão de se estamos na UFSC, no Brasil e no resto do mundo vivendo uma ordem democrática. Aí começa a diatribe de Rampinelli contra a direção do CFH, que não lembro o que quer dizer, nem se foi eleita pela maioria dos operários, camponeses e soldados. Presumo que tenha sido, pois presumo que -em maior do que em menor grau- a ordem democrática brasileira esteja burlada apenas nas questões relevantes. Este tipo de querela que resulta da fragmentação da esquerda, em geral, tem soluções judiciais expeditas. A indústria da liminar, claro. Vou parar por aqui, aditando um comentário a seus dois últimos parágrafos:

A “nova direita” entende – como afirmava Welch – que as únicas vitórias políticas
seguras só podem ser alcançadas por meio de organizações não políticas que disponham
de um fim mais seguro, positivo e permanente que os fins políticos imediatos.
Enfim, através de organizações que tenham base, coesão, força clara e uma direção estável, características impossíveis de serem encontradas nas instâncias tradicionais do partido político3.

Portanto, cabe à direção do CFH atuar, também, no exercício da política nesta dura
conjuntura de direitização em nossa universidade. Cooperar com o avanço do pensamento
conservador na UFSC na perspectiva de angariar mais poder é servir a um projeto
elitista, traindo o programa pelo qual foi eleita esta direção.

Este troço de "nova direita" e as instituições não governamentais dá muito assunto. Quis apenas deixar registrado que estamos confrontando estado x comunidade. Ou o papel do Partido (olha o P) como condutor do proletariado bondoso, trabalhador e organizado? Stálin? O PCURSS? Que os deuses nos protejam! E o olímpico: "Portanto". Non sequitur. Simplesmente este troço de caber à direção do CFH uma tarefa do programa político de Rampinelli não se segue dos argumentos anteriormente citados. Argumentos que nem sempre seguem-se a si próprios. Argumentos que falham na definição de termos e no apelo a jargões como direitista e fascista. Não podemos deixar de ser milenaristas, cá de nosso lado do Rio Pelotas. Ainda assim, depois do sucesso doutrinário da medicina baseada em evidência, passei a querer uma filosofia política (ou o que seja) baseada em evidência. Precisamos definir direitização, fascismo e até funcionalismo.

Minha conclusão é que Rampinelli não é fascista (no sentido do Aurelião: "Sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático, liderado por Benito Mussolini (1883-1945) na Itália, e que tinha por emblema o feixe (em it., fascio) de varas dos antigos lictores romanos." Apenas excessivamente convencido da importância de seu milenarismo, quando confrontado com o milenarismo de outros. Claro que ele é politicamente incorreto, usando o duplo sentido do termo. Não se deve chamar ninguém de viado -como ofensa, por oposição a descrição positiva-, nem de fascista, nem de direitoso, nem de ladrão. No reino da retórica, evidentemente, tudo pode, e a tudo devemos desculpar, mesmo quem diz que todo ladrão é político e que devemos criar o MAL*. Meu milenasismo contrasta com o de Rampinelli no sentido de que sigo buscando um modelo que me dê as mesmas certezas que perdi há 20 ou 30 anos, mas que permitem-me suspeitar que não foi Waldir José Rampinelli que as encontrou.
DdAB

domingo, 29 de novembro de 2009

Leonardo e as Borboletas

querido Blog:
no maravilhoso fim-de-semana que ainda está longe de acabar, já ouvi "boa-noite" no telefonema de um teletáxi. pensei que pudesse ser alguém da Estrada de Caxangá, pois por lá deve ser noite. pensei em colocar a foto dos dois dedos tangenciando-se. pensei em Leonardo, na água e o tempo como um eterno fluir, dele e de antes dele. pensei que vou para o Parque Marinha do Brasil caminhar. prá frente é que se anda.
DdAB

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dimensões Superiores

Querido Blog:
Sob o título desta postagem, achei, sem muito esforço, esta foto maravilhosa no Google Images. Também havia opções de roupas de "tamanho especial". Fiquei com as quatro dimensões, os quatro universos que vemos colados, por assim dizer, umbilicalmente. Pensando bem, eu poderia tentar adivinhar quem é quem, pois parecem-me preliminarmente figuras públicas.

Se entendi o que um menino de rua falou-me no outro dia, não poderemos cingir nossa compreensão do universo às estritas dimensões espaço-tempo e matéria-energia. Haverá, segundo ele, baseado no livro Flatland, com o Sr. A. Square, dimensões inferiores (no caso, o mundo plano do qual o Sr. Square foi resgatado e novamente restituído). E também dimensões superiores. Caso considerássemos cada ser humano uma dimensão, já teríamos 6 bilhões delas. Caso considerássemos que cada neurônio desses 6 bilhões, já nem saberíamos calcular, pois -seguiu o esmoler- as estimativas presentes do número dessas células na população é absolutamente incalculável, pois uns dizem que haverá -diria ZH- entre 10 e 100 bilhões de neurônios por cada.

As quatro dimensões -prosseguria o exemplar jornal- seriam encapsuladas pela famosa equação
E = m x c^2, onde E é o conteúdo de energia de um ente tridimensional, se me expresso bem, m é sua massa e c é a velocidade da luz. Usando um quadro negro que pendia de um cinamomo à beira do Arroio Dilúvio, o menino desdobrou E:
E = m x (d/t)^2, onde, adicionalmente, d é a distância e t é o tempo. Triunfante, ele disse: esta festejada equaçãozinha, que tanto agradaria neguinhos do porte de Leibnitz e Einstein ("Deus não joga dados", teria dito o segundo) tem lá seus severos limites. Por exemplo, os buracos negros não lhe dão qualquer sobrevida. Ela -equaçãozinha- passa a assumir na física moderna o mesmo papel que a equação da gravitação universal assumiu na física clássica.

Não pude conter minha estupefação: meninos de rua sabidíssimos. Mas ele não se conteve e citou dois autores que muito me agradam: Isaac Azimov e Richard Dawkins. O primeiro -teria dito o menino de rua objeto de meu relato- especulou que aquilo que chamamos de "universo conhecido" seria uma vesícula dentro de um buraco negro que -como tal- abarca tudo o que conhecemos, inclusive os milhões de buracos negros já catalogados ou especulados.

Dawkins, que ainda não passei das primeiras páginas, falou em "baby universes". Mas como estou lendo o livro em português, falha-me a memória, pois seria traduzido como "universos nascentes". E o termo que aprendi lendo o velho livro de Stonier & Hague (que eu ia jogar no lixo, mas o Prof. Sanson impediu-me e voltei a lê-lo com proveito) aplica-se: miríades de universos. Ou, como me veio das leituras de science fiction, "universos como grãos de areia".

Não quero especular excessivamente, mas nada nos impediria de dizer -seguindo o Prof. Harvey Leibenstein, e sua X-efficiency- que teremos uma dimensão X. E, claro, X será um vetor com bilhões de elementos, cada um com bilhões de elementos ad infinitum. Nunca o latim terá sido tão bem usado como neste caso. Não acaba nunca. Nunca de núncaras. O que é difícil de incorporarmos com proveito neste tipo de modelagem -a não ser sob o ponto de vista de uma chamada axiológica desnecessária- é o conceito de deuses, um ou mais deles. Claro que o vetor X poderia ser chamado de Deus, mas -claro- Deus, conforme conceptualizado pela tradição religiosa terráquea, também envolve E = m x c^2, ou seja, tudo o que conhecemos, inclusive contendo-se a si mesmo. O Aleph, de Jorge Luis Borges. A apoiese, algo que não foi criado, mas existe e não cessará de existir.

Mas a anti-matéria não fará tudo deixar de existir. Ou pelo menos foi isto que me disse o menino de rua. Mas quem confiará nele?

Pelo sim, pelo não, entendi que ele estava concluindo o assunto falando em economia política, na teoria do valor e no que ele -da mesma forma que eu- considera uma burrada dos economistas clássicos, nomeadamente, o entendimento completo do chamado problema da transformação dos valores em preços. Dias atrás, eu dissera aos Profs. Joal e Adalmir que o conceito de valor adicionado apenas faz sentido numa "economia de granja", definida como uma economia que produz apenas um bem. Ergo, pensávamos o menino e myself, se eu planto 50t de trigo e colho, digamos 1.000t do cereal, então o valor adicionado foi de 950t, não é isto?

Aí ele me disse (creio que soprou-lhe esta passagem o Prof. Horn): "meu chapa, trigo no ano passado não pode ser somado com trigo neste ano." Pensei diretamente na taxa de juros, mas não é apenas isto. As 1.000t de trigo colhidas -eu direi sem medo de errar- não têm absolutamente nada a ver com as 50t plantadas. Expandindo a metáfora para o mundo dos bebestíveis -e não mais dos comestíveis-, trata-se de vinhos de duas pipas. Ele -menino de rua- não precisou dizer, pois eu já intuía: o valor adicionado é um conceito que apenas pode ser pensado como quantidade monetária, no sentido de Leontief, mesmo para uma economia de granja. Segue-se que quem determina o nível de preços absoluto é a oferta de moeda. E que o salvador da humanidade é o presidente do banco central mundial. Tu entendeu?
DdAB