23 julho, 2026

Graciliano e a Busca de Renda (rent seeking)



 
Basicamente, desde que a ciência econômica se consolidou, a ótica da renda na mensuração do valor adicionado pode ser resumida (de forma simplificada) por:

Y = S + L

onde Y é a renda total gerada, S são os salários pagos aos trabalhadores e L é o excedente operacional (lucros) que resta aos capitalistas depois de pagos todos os custos de produção.

Esse lucro (L) já é o montante que remunera o capital empregado. Dele saem o pagamento de juros (quando se toma dinheiro emprestado) e o pagamento de aluguéis (pelo uso de terras ou outros ativos físicos). Ou seja, juros e aluguéis não se somam ao lucro como se fossem novas fontes de renda; eles são, na verdade, fatias do próprio lucro que são transferidas para quem detém o capital financeiro ou a propriedade fundiária.

A encrenca começa justamente aí, no aluguel. Na visão de David Ricardo (1772-1823), a renda da terra (o aluguel) não é um prêmio pela produtividade do proprietário, mas sim a apropriação de uma parcela do excedente gerado pela maior fertilidade de algumas terras em relação às piores. Como o preço dos grãos é definido pela terra menos produtiva, as terras melhores produzem com um custo menor e geram um excedente – que é inteiramente capturado pelo proprietário na forma de aluguel. É a chamada renda diferencial, um prêmio pago ao rentista (aquele que não trabalha, mas vive do rendimento da propriedade) sem que ele tenha contribuído com esforço ou capital para a colheita.

Essa forma de apropriação da riqueza alheia – viver do simples fato de possuir algo – aproxima-se, em espírito, do que hoje chamamos de rent seeking, embora, em sentido técnico, o termo moderno designe a busca de privilégios artificiais por meio do Estado. O que importa, aqui, é o cerne moral: a renda que flui sem contrapartida produtiva, como um tributo cobrado sobre o trabalho e o risco dos outros.


No trecho que reproduzo do segundo volume das "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos, na página 505:

   Afinal a virtude me escapava. Quem me provava que os indivíduos supressos pelo sírio faziam falta num mundo cheio de excrescências? Talvez não fizessem. E era-me indifferente estar a propriedade aqui ou ali. Não aprovei as aventuras dde Gaúcho, meu amigo na Colônia Correcional; não as aprovei por serem perigosas. Gaúcho não prodduzia riqueza. Muitos não a produzem, e contuddo acham maneira de apropriar-se dela sem arriscar-se. Gaúcho e Paulo Turco haviam pelo menos revelado coragem. E em situação difícil achavam maneira e praticar ações generosas, incompreensíveis.

Despeço-me.
DdAB
Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Graciliano_Ramos

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